Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."Antônio Machado
83.
PERDAS III / MORTE IV
Sob efeito do esquecimento que granula
a imagem proto-sólida da memória,
faz-se idêntico movimento a pulverizar,
do improvável acaso que sou, a trajetória,
levando-me a deslizar lentamente
para os limites da existência.
Onde, cruzada a ponte,
já não pertenço ao tempo.
O que restar se perderá nas lembranças
dos que, desidratados de esperanças,
a sua hora, partirão depois de mim.
Evidências espalhadas pelo espaço,
ainda, denunciarão meus rastros.
Resumido ao rosto, em fotos que desbotam;
ao nome, em papéis que, a seu turno, mofam.
Por fim, já deixado de ser eu,
passo a deixar de ser ele, de outros,
para não-ser simplesmente,
que já fui antes de mim.
Sequer parte do primordial vazio,
diluído no nada essencial
do grego Kaos, Jano de romanos,
uno e infindo e ... oportuno.
Eliseo Martinez
29.08.2016
82.
PERDAS II
Pensando em ti,
perdi a noção do tempo.
Por nada,
perdem-se as horas que se ganha,
como folhas de árvores
levadas pelo vento.
Mas, perda tive,
mesmo, quando esqueci
que boca beijou meu primeiro beijo.
Eliseo Martinez
28.08.2016
81.
Saudade
Consta que saudade é palavra
que só consta das nossas falas.
Coisa que duvido
e me soa a uma espécie de bairrismo.
Por certo, deste sentir tem para todos,
asiáticos, europeus, africanos,
marcianos, se houvessem, e outros,
até para americanos.
Mas, parece que por lá,
saudade vem trocada por "sentir falta".
Tenho saudades de muitas coisas,
pessoas e lugares, estados de alma.
Não lhes sinto a falta,
tampouco quero que voltem.
Deixo-as quietas a minha volta.
Só habitam uma região de mim que,
as vezes, gosto de passar por lá,
revisitar, dar um olá!,
sem serventia para ninguém mais
que soubesse de tal lugar.
São como as tintas claras
na aquarela das lembranças,
um pouco aguadas de esquecimento
na palheta da memória.
Recanto de leveza a descontar
os escuros tons da estranheza.
É o que o presente resgatou com doçura do passado
e, com todos os naufrágios, foi preservado.
Tenho saudades de alguns sorrisos e olhares;
do Capitão Blood, dos filmes de pirata
da Sessão da Tarde;
do jogo de botão e do pega ladrão
dos garotos do bairro, depois da escola;
do taco que bate na bola, num alegre espaço
que, por casmurrice dos adultos,
é chamado de *Tristeza;
das borboletas negras-amarelas e
dos bosques brancos de véus-de-noivas;
de mãos dadas, unindo corações em disparada;
das viagens sem bagagem
e das caminhadas intermináveis
por vielas de tantas cidades;
dos livros que me escreveram,
fazendo-me torto como sou
ao riscar mais para lá as fronteiras;
de pôr-de-sóis que nos olhos me morreram
para renascerem girassóis que comigo se moveram;
dos mistérios de criança,
já aos sete anos a brincar de homem...
A saudade do sentir intenso, vou sentir amanhã
lembrando do que sinto agora.
Revoada de vaga-lumes na memória.
Acho, mesmo, que depois-de-amanhã
vou me repetir e sentir o mesmo desta hora.
E sigo nesta teimosia,
em que os males da vida pouco podem,
pois na soma das saudades,
reside o remédio que os dissolvem.
Eliseo Martinez
27.08.2016
80.
Era de Fobos
Já nos primeiros momentos, é com ele que entramos no mundo, para em seus braços sermos acolhidos em nossos últimos segundos.
Dele, tem para todos, não se esgota, é espaçoso. Por justiça, pode-se até chamá-lo de fiel e generoso. Companheiro tão indispensável, quanto incômodo pela vida toda. Pode nos segurar, quando só o que nos resta é pular. Escudo que ninguém, de livre escolha, desejou empunhar, com que a natureza nos dotou, e ao longo da evolução se aprimorou. Fornece-nos as lentes com as quais passamos a ver este mundo de dementes.
Para o bem ou para o mal, dentre tantos, é o que se mostra mais presente, sempre foi e será sempre.
Hábil em disfarces, esgueira-se clandestino por entre o que pensamos e sentimos, comandando bom lote de nossos atos, revelando-se sob as mais diversas faces.
Se precisássemos de provas para medir seu extenso território, bastaria olhar, de cada um, o fundo dos olhos. Também lá, o encontraríamos.
Quando criança, ele é o lobo, o medonho gigante ou a bruxa malvada; quando grande, é o fantasma do desemprego, das violências todas, dos males do amor, do fim que nos espera, das privações e da dor, quando não vem como castigo de um deus frio, impiedoso e assustador.
Já foi dito que cada homem recapitula a espécie toda.
O mesmo medo que se recolhia conosco nas cavernas, em torno do fogo, sai da tela do último modelo do I-fone.
Reinou absoluto em sua forma mais apavorante como terror e pânico paralisante, até que a 60 mil anos, a invenção da fala articulada o abrandou como o temor mítico dos humanos. Nascem os seres imaginários, que muitos ainda temem, por eles matam, juram que amam e tremem sob a ameaça de seus atos. Mais tarde, contou com poderoso patrocínio, "bom cristão é o temente a Deus, meu filho".
A passos lentos, os homens se humanizaram e com sonhos, ciência, razão e arte, cortaram-lhes alguns de seus tentáculos.
As renascidas ideias humanistas destronaram deuses para entronar homens, há muito colocados pelos gregos, no lugar deles. Passamos a duvidar, com mais certeza.
Hoje, no entanto, para qualquer lado que se olhe, com espanto, vemos ruir muito do que foi construído com logos e muito pranto.
Por descaminhos imprevistos, a mão invisível dos sinistros interesses dos mercados, amparados pelas empresas religiosas a eles associados, corromperam o projeto humano, reservando a nosso velho companheiro uma nova era de ouro. A despeito de ter estado sempre por perto, agregaram-lhe valor em tempos de grandes avanços e imensos desencantos.
Se presenciamos o pregão do direito à diferença, de fato, torna-se cada vez mais difícil defender a divergência própria fora do restrito grupo que nos conforta. Tribos de vários matizes que coabitam, mas não se comunicam, surgem como estratégia de sobrevivência oferecendo serviços de proteção a indivíduos cada vez mais isolados do todo e, em si mesmos, fragmentados.
Quando trabalhadores cruzam braços respondendo aquartelados por seu cansaço, bancos cerram portas, escolas trancam salas, o transporte para, pessoas afastam-se das ruas, grades de ferro nos confinam em nossas casas, câmeras por toda a parte, porções da cidade são sítios proibidos à luz do dia, já não andamos livres à noite pelas ruas, vivemos sob o toque de recolher sem que ele tenha sido oficialmente decretado. O comércio limita seus horários e covardes arrastões são frequentes no centro da cidade, somos ameaçados diariamente por hackers que espreitam contas e senhas por celulares, rastreando nossos lares, enquanto as mídias enchem as burras injetando esteroides no temor das ruas, fazendo dele a mercadoria que, majorada, lhes garante a odiosa supremacia.
Mas, o avanço do medo em nossos dias, está longe de se restringir ao âmbito da segurança pública ou privada, que é só uma parte de nosso fado abrasileirado.
O universo existencial do homem contemporâneo é permeado pela insegurança. Os medos sólidos dos modernos, eram gerados por fatores de mais nítidos contornos. O mal tinha um nome. Tratava-se de temer isto ou aquilo. Pairava a crença numa solução implícita. Em nossos tempos o medo é líquido, se esgueira por cada trincha e inunda nossas vidas. O medo, do qual conhecíamos as causas, hoje é difuso e escorre por toda a parte, desbotando as cores vivas da cidade, fazendo de cada homem o ralo em que se some.
Ares e Afrodite, orgulhosos de seu filho pródigo, veem prosperar a era do temido Fobos.
Eliseo Martinez
21.08.2016
79.
Ócio e Devaneio
Hoje é um destes dias em que dou de ombros,
parto a casca do ovo e, livre, alço voo de novo.
Aqui fora, me confino sem angústias ou desatinos,
provo do mel e da ambrosia necessários
para o inevitável retorno às paisagens ordinárias.
Neste desterro voluntário, cada vez mais esperado,
longe do alvoroço da estranheza diária,
que não me venham os outros
que a eles não me vou tampouco.
Quem sabe, hoje, o acaso me abrace
e situe-me no ponto de vista do enxadrista,
em que o tabuleiro todo é visto e, nele,
rei, rainha, cada peão, cavalo, torre ou bispo.
Não sou dado a melancolia, que me fica
mais longínqua, ainda, quando tomo rumo,
e, recluso, num impulso, atravesso o muro,
adentro páginas pintadas de tinta,
corpos aflitos cingidos, copos de vinho tinto,
sons que me levitam por tantas vidas,
uma pitada de reminiscências acinzentadas
e um pote cheio das verdes e alaranjadas
que me fazem sorrir ao serem lembradas.
Em revoada, o pensar despassarado,
se esgueira por este ócio sem cuidado.
Alheio a fatos, jogo os dados e azaro atos,
longe do tablado iluminado dos teatros,
arbitro o que sou ou julgo estar a ser, o que,
no desatino de meu exílio, se equivalem.
Então, talha e formão na mão, sou Rodam;
na trama da palavra, me ensaio Saramago;
em gozo das de outros, leitor grato;
da garfada perfeita, devoto epicurista;
nas madrugadas insones, jardineiro nudista;
mestre cuca de um pastel ou amante infiel;
quixote e anarquista despido dos papeis
que, por vezes, me enfadam viver.
O pensamento são pombas de toda a cor,
soltas aos quatro cantos pela mente do pensador.
Assim, defino o brincar de um homem
confrontado pelos dias que o consomem.
Quando jovem, fascinado pela verdade
- como hoje, raridade -, já me via a cismar
desconcertado, com a frase pirateada
do templo heleno, tornada a mais bela
das centelhas, ainda na infância do tempo grego:
"conhece-te a ti mesmo".
Será que algum dia seremos capazes de método
que jogue poesia abundante e luz suficiente
no que funda a demência no chão da mente?
O pouco que penso saber leva-me a crer,
que é mais fácil tropeças em cacos de nós mesmos,
achados no calvário da caminhada do que topar
com a gema inteira que somos no éden da chegada.
Certezas, serão sempre cravos cravados
nas paredes cor de rosas dos manicômios,
onde pendulam retratos desbotados de anônimos,
ou encontradas entre rodas de beatas assossegadas
pelo promíscuo divino matrimônio.
Eliseo Martinez
17.08.2016
78.
Prole III
Neste mentido dia dos pais,
que não me faz pensar-te a mais,
data astuta dos comerciantes,
como coube a mães, amigos, cães,
esquecidos das amantes,
legítimas sacerdotisas do instante,
te flecho com estas palavras que partem retas
como setas de amor do curvo arco de meu afeto.
Tu, nascida da mais genuína ficção de amor concebida,
fruto segundo dos verdes ramos da dor sofrida,
partiu rastreando-te mundo afora, peregrina solitária,
deitando âncoras em terras de Castela, prenhes de história.
Palaus, Gaudí, Miró, Barça, Serrat, árabes e cruzados,
golondrinas, amplas ramblas, Mercat Boqueria, gato ...
A vigorosa Catalunha, de povos vindos de todo lado,
policromo, polifonia, em luta por autonomia.
Sabes bem que, enovelada entre os ventos de coragem
a conduzir-te na viagem, rodopiam brisas temerosas,
que ondulam véus de miragens insólitas.
Na relutância de ser, tua escolha foi adiar-te,
adiando o que, por certo, virá mais tarde.
Desconstrói, é o que te digo neste dia, filha minha.
Se há vida, é porque foi construída,
do contrário seria apenas arte.
Também cruzamos chegadas
por atalhos que encompridam as jornadas.
Enche teus olhos e estufa tua alma.
Só não te prolonga na demora,
pois o trem da ilusão que parte a toda a hora
depende de estações abertas que o acolhem,
trilhos que o guiam, passageiros que se desviam...
Na Raval, também eu, afinal,
segurei o bronze das bolas do negro gato,
assegurando retorno à cidade que sou grato,
encravada na Espanha, a permanecer Barcelona,
bem depois de sermos, tu e eu, o pó que nutriu a oliveira
e curou o gosto amargo da azeitona.

Eliseo Martinez
14.08.201
77.
Ócio e Repetição
Nas manhãs amenas de domingo,
feitas de ar fresco e céu límpido,
corpos estirados pelos parques à sombra das árvores,
desarmam espíritos, aquietam olhares.
Famílias reunidas, pais, filhos, pipas, latidos.
Passeiam os pares, exercitam-se os ímpares.
Risos de crianças, ainda sem aviso do que lhes reserva a vida,
fricotes de mimados cães de apartamento,
revoadas do passaredo, bola, pega-pega, cata-vento,
pregão do algodão doce, pipoca, maçã caramelada
compõem o ruidoso alvoroço sugado
pela amplidão sem paredes dos espaços largos.
O som surdo, a luz clara, o verde dos gramados
bebidos por uma sede louca de esquecer-se,
cicatrizam o que resta dos desejos derramados
pelas frestas abertas em sonhos rasgados.
A esperança aguada é um fino fio que se esvai
com a tarde que abre as asas, alça voo e, pesada, cai.
Almas mastigadas pela roda dentada da semana de trabalho. Desempregados a procura de salário,
funcionários de parcos rendimentos parcelados,
profissionais liberais desencantados
a soldo de vorazes empresários,
pequenos comerciantes reféns de impostos sem retorno,
operários mal pagos, resignados ao mal crônico,
lembram a massa sovada do pão, a fermentar uniforme,
até que esteja pronta para a próxima fornada.
As horas encolhem e puxam com gancho de metal
a próxima prestação do juízo final.
Sinto o hálito rançoso da segunda atrás da nuca.
Já não sou o que passeia, tampouco o que ama ou o que odeia,
nem mesmo, amigo, pai ou mãe de um filho esquisito.
Já não me chamo Zico, Maria, Mana ou João.
Agora, sou Sísifo, um dente careado da roda dentada
da produção, a que fui condenado sem sursis.
Em algum canto esquecido da memória,
entre velharias e outras tralhas da história,
com a persistência do rabo de uma lagartixa, cortado,
tremula o velho letreiro empoeirado,
onde, na cor fria de seu neon azulado,
cintila a maldita inscrição "revolução e anarquia".
Eliseo Martinez
02.08.2016