Ócio e Devaneio
Hoje é um destes dias em que dou de ombros,
parto a casca do ovo e, livre, alço voo de novo.
Aqui fora, me confino sem angústias ou desatinos,
provo do mel e da ambrosia necessários
para o inevitável retorno às paisagens ordinárias.
Neste desterro voluntário, cada vez mais esperado,
longe do alvoroço da estranheza diária,
que não me venham os outros
que a eles não me vou tampouco.
Quem sabe, hoje, o acaso me abrace
e situe-me no ponto de vista do enxadrista,
em que o tabuleiro todo é visto e, nele,
rei, rainha, cada peão, cavalo, torre ou bispo.
Não sou dado a melancolia, que me fica
mais longínqua, ainda, quando tomo rumo,
e, recluso, num impulso, atravesso o muro,
adentro páginas pintadas de tinta,
corpos aflitos cingidos, copos de vinho tinto,
sons que me levitam por tantas vidas,
uma pitada de reminiscências acinzentadas
e um pote cheio das verdes e alaranjadas
que me fazem sorrir ao serem lembradas.
Em revoada, o pensar despassarado,
se esgueira por este ócio sem cuidado.
Alheio a fatos, jogo os dados e azaro atos,
longe do tablado iluminado dos teatros,
arbitro o que sou ou julgo estar a ser, o que,
no desatino de meu exílio, se equivalem.
Então, talha e formão na mão, sou Rodam;
na trama da palavra, me ensaio Saramago;
em gozo das de outros, leitor grato;
da garfada perfeita, devoto epicurista;
nas madrugadas insones, jardineiro nudista;
mestre cuca de um pastel ou amante infiel;
quixote e anarquista despido dos papeis
que, por vezes, me enfadam viver.
O pensamento são pombas de toda a cor,
soltas aos quatro cantos pela mente do pensador.
Assim, defino o brincar de um homem
confrontado pelos dias que o consomem.
Quando jovem, fascinado pela verdade
- como hoje, raridade -, já me via a cismar
desconcertado, com a frase pirateada
do templo heleno, tornada a mais bela
das centelhas, ainda na infância do tempo grego:
"conhece-te a ti mesmo".
Será que algum dia seremos capazes de método
que jogue poesia abundante e luz suficiente
no que funda a demência no chão da mente?
O pouco que penso saber leva-me a crer,
que é mais fácil tropeças em cacos de nós mesmos,
achados no calvário da caminhada do que topar
com a gema inteira que somos no éden da chegada.
Certezas, serão sempre cravos cravados
nas paredes cor de rosas dos manicômios,
onde pendulam retratos desbotados de anônimos,
ou encontradas entre rodas de beatas assossegadas
pelo promíscuo divino matrimônio.
Eliseo Martinez
17.08.2016
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