Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 21 de agosto de 2016

80.

Era de Fobos


Já nos primeiros momentos, é com ele que entramos no mundo, para em seus braços sermos acolhidos em nossos últimos segundos.
Dele, tem para todos, não se esgota, é espaçoso. Por justiça, pode-se até chamá-lo de fiel e generoso. Companheiro tão indispensável, quanto incômodo pela vida toda. Pode nos segurar, quando só o que nos resta é pular. Escudo que ninguém, de livre escolha, desejou empunhar, com que a natureza nos dotou, e ao longo da evolução se aprimorou. Fornece-nos as lentes com as quais passamos a ver este mundo de dementes.
Para o bem ou para o mal, dentre tantos, é o que se mostra mais presente, sempre foi e será sempre.
Hábil em disfarces, esgueira-se clandestino por entre o que pensamos e sentimos, comandando bom lote de nossos atos, revelando-se sob as mais diversas faces.
Se precisássemos de provas para medir seu extenso território, bastaria olhar, de cada um, o fundo dos olhos. Também lá, o encontraríamos.
Quando criança, ele é o lobo, o medonho gigante ou a bruxa malvada; quando grande, é o fantasma do desemprego, das violências todas, dos males do amor, do fim que nos espera, das privações e da dor, quando não vem como castigo de um deus frio, impiedoso e assustador.
Já foi dito que cada homem recapitula a espécie toda.
O mesmo medo que se recolhia conosco nas cavernas, em torno do fogo, sai da tela do último modelo do I-fone.
Reinou absoluto em sua forma mais apavorante como terror e pânico paralisante, até que a 60 mil anos, a invenção da fala articulada o abrandou como o temor mítico dos humanos. Nascem os seres imaginários, que muitos ainda temem, por eles matam, juram que amam e tremem sob a ameaça de seus atos. Mais tarde, contou com poderoso patrocínio, "bom cristão é o temente a Deus, meu filho".
A passos lentos, os homens se humanizaram e com sonhos, ciência, razão e arte, cortaram-lhes alguns de seus tentáculos.
As renascidas ideias humanistas destronaram deuses para entronar homens, há muito colocados pelos gregos, no lugar deles. Passamos a duvidar, com mais certeza.
Hoje, no entanto, para qualquer lado que se olhe, com espanto, vemos ruir muito do que foi construído com logos e muito pranto.
Por descaminhos imprevistos, a mão invisível dos sinistros interesses dos mercados, amparados pelas empresas religiosas a eles associados, corromperam o projeto humano, reservando a nosso velho companheiro uma nova era de ouro. A despeito de ter estado sempre por perto, agregaram-lhe valor em tempos de grandes avanços e imensos desencantos.
Se presenciamos o pregão do direito à diferença, de fato, torna-se cada vez mais difícil defender a divergência própria fora do restrito grupo que nos conforta. Tribos de vários matizes que coabitam, mas não se comunicam, surgem como estratégia de sobrevivência oferecendo serviços de proteção a indivíduos cada vez mais isolados do todo e, em si mesmos, fragmentados.
Quando trabalhadores cruzam braços respondendo aquartelados por seu cansaço, bancos cerram portas, escolas trancam salas, o transporte para, pessoas afastam-se das ruas, grades de ferro nos confinam em nossas casas, câmeras por toda a parte, porções da cidade são sítios proibidos à luz do dia, já não andamos livres à noite pelas ruas, vivemos sob o toque de recolher sem que ele tenha sido oficialmente decretado. O comércio limita seus horários e covardes arrastões são frequentes no centro da cidade, somos ameaçados diariamente por hackers que espreitam contas e senhas por celulares, rastreando nossos lares, enquanto as mídias enchem as burras injetando esteroides no temor das ruas, fazendo dele a mercadoria que, majorada, lhes garante a odiosa supremacia.
Mas, o avanço do medo em nossos dias, está longe de se restringir ao âmbito da segurança pública ou privada, que é só uma parte de nosso fado abrasileirado.
O universo existencial do homem contemporâneo é permeado pela insegurança. Os medos sólidos dos modernos, eram gerados por fatores de mais nítidos contornos. O mal tinha um nome. Tratava-se de temer isto ou aquilo. Pairava a crença numa solução implícita. Em nossos tempos o medo é líquido, se esgueira por cada trincha e inunda nossas vidas. O medo, do qual conhecíamos as causas, hoje é difuso e escorre por toda a parte, desbotando as cores vivas da cidade, fazendo de cada homem o ralo em que se some.
Ares e Afrodite, orgulhosos de seu filho pródigo, veem prosperar a era do temido Fobos.

Eliseo Martinez
21.08.2016

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