Ócio e Repetição
Nas manhãs amenas de domingo,
feitas de ar fresco e céu límpido,
corpos estirados pelos parques à sombra das árvores,
desarmam espíritos, aquietam olhares.
Famílias reunidas, pais, filhos, pipas, latidos.
Passeiam os pares, exercitam-se os ímpares.
Risos de crianças, ainda sem aviso do que lhes reserva a vida,
fricotes de mimados cães de apartamento,
revoadas do passaredo, bola, pega-pega, cata-vento,
pregão do algodão doce, pipoca, maçã caramelada
compõem o ruidoso alvoroço sugado
pela amplidão sem paredes dos espaços largos.
O som surdo, a luz clara, o verde dos gramados
bebidos por uma sede louca de esquecer-se,
cicatrizam o que resta dos desejos derramados
pelas frestas abertas em sonhos rasgados.
A esperança aguada é um fino fio que se esvai
com a tarde que abre as asas, alça voo e, pesada, cai.
Almas mastigadas pela roda dentada da semana de trabalho. Desempregados a procura de salário,
funcionários de parcos rendimentos parcelados,
profissionais liberais desencantados
a soldo de vorazes empresários,
pequenos comerciantes reféns de impostos sem retorno,
operários mal pagos, resignados ao mal crônico,
lembram a massa sovada do pão, a fermentar uniforme,
até que esteja pronta para a próxima fornada.
As horas encolhem e puxam com gancho de metal
a próxima prestação do juízo final.
Sinto o hálito rançoso da segunda atrás da nuca.
Já não sou o que passeia, tampouco o que ama ou o que odeia,
nem mesmo, amigo, pai ou mãe de um filho esquisito.
Já não me chamo Zico, Maria, Mana ou João.
Agora, sou Sísifo, um dente careado da roda dentada
da produção, a que fui condenado sem sursis.
Em algum canto esquecido da memória,
entre velharias e outras tralhas da história,
com a persistência do rabo de uma lagartixa, cortado,
tremula o velho letreiro empoeirado,
onde, na cor fria de seu neon azulado,
cintila a maldita inscrição "revolução e anarquia".
Eliseo Martinez
02.08.2016
Nenhum comentário:
Postar um comentário