Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."Antônio Machado
146.
Movimento
Algum dia, talvez,
por golpe de sorte ou descuido da morte,
quando for filmado pela inquietude dos olhares
que se fizerem sagazes,
possamos reconhecer,
ainda que por breve momento,
que a verdade é fugidia
por ser propriedade intrínseca ao movimento.
Coisa que sempre nos segredou o rumor do rio,
nos gritou o silvo do vento mais frio,
está desenhado na paisagem das estações,
traçado nas órbitas dos planetas
e nas mutações das espécies em evolução.
No tráfego das chegadas e partidas
dos amores todos que nos visitam pela vida.
Eternos retornos, são o que são...
A eternidade é a morada do tempo,
nascido do movimento,
que, desde sempre, já existia.
É a dialética entre o caos e a harmonia,
da mais ínfima partícula às fronteiras do universo
com o infinito resto do multiverso.
O que é o tempo, senão a fusão perfeita
da sólida alma com o insólito corpo do vento?
A materialidade da substância imaterial
no câmbio do que se fez imortal.
Depois de tanta busca metafísica,
assassina ou suicida,
enfim, Deus nos será apresentado,
ou denunciado, na linguagem da física.
Eliseo Martinez
30.07.2017
145.
No paraíso não haveria literatura
ou algo desenhado nas nuvens
que estivesse a sua altura.
O NÃO é o gatilho da escrita
que dispara a bala da palavra certa
na carne exposta da ferida aberta.
Eliseo Martinez
29.07.2017
144.
As Musas
Velhas musas inspiram antigas e novas artes,
igualando os homens que as fazem
a deuses que as contemplam invejosos,
debruçados sobre os ares.
Entre tanto mal gestado no seio da raça sanguinária,
fomos compensados pelo estranho juízo das divindades
com o unguento da estética,
como dádiva de uns poucos a todos os outros,
elevando humanos a fazedores de cultura,
a garantir-nos prosseguir
muito depois de cumprida a sina dura.
Seus lampejos se esgueiram pelas frinchas do real,
trama de penúria em meio ao reino da necessidade,
para exacerbar sentidos, vazar estados de alma,
aliviando o peso da existência com miragens de liberdade.
O mundo, capturado por olhos alheios,
passa a ser refeito pelo que cada qual
traz em rebuliço dentro.
Se a cultura é a forma ou a moldura,
a arte, enfim, põe nas mãos do mais miserável dentre nós,
o formão do escultor ou o pincel do pintor,
fazendo dele, também, da obra, autor.
Confrontando casca e miolo, pele e tutano,
empoderados de si, ao longo dos milênios,
mais humanizados nos tornamos.
Pelo ao menos, esse era o plano.
Dentre os dons misturados ao barro do primeiro,
os perversos deuses meteram a felicidade nos humanos,
condenados a persegui-la mundo a fora,
nas intempéries do espaço mundano.
Se ser feliz é aceitar ser o que se pode,
as musas nos ofertam fazer-nos mais que somos,
algo situado entre os deuses e os demônios.
Eliseo Martinez
20.07.2017
143.
Forasteiros
Por vezes, nossos passos nos conduzem
à encruzilhada das escolhas,
movidos por credos que dão sentido
ao tempo que nos cabe.
Umas confirmam papeis que encenamos,
irreconhecíveis a cada manhã,
por trás do espelho, quando acordamos.
Outras nos levam a ser outro,
mais do que habituamos a ver
colado ao estranho rosto,
nos fazendo partir de nós para
nos reencontrar mais além do esboço.
E, assim, movendo quem estamos,
vamos nos tornando quem somos.
Sempre incompletos,
entre o que há e o todo.
Sempre forasteiros,
a espiar do fundo do espelho.
Eliseo Martinez
16.07.2017
142.
Moinhos
Quisera ser eunuco,
ao menos serafim.
Quando tu me vem,
vem sem convite ou aviso.
Vem como um reboliço de vento
de dentro de mim.
Ainda travo com a haste da lança
as pás dos moinhos
movidos por ti,
dando fim ao que anima
as azenhas daqui.
Eliseo Martinez
14.07.2017
141.
Agridoce
Para que não ficassem sem despedida,
cruzaram-se uma última vez
as sombras que se apossaram dos olhares.
Um par de passos e o abismo ali,
atrás da esquina.
Com todo o acaso a conspirar reencontros,
mesmo quando passam ao largo,
nunca mais permitiram se ver de novo.
Assim, separam-se
pequenos e grandes amores,
embora só estes levem consigo
o gosto agridoce
que os unirá para sempre,
ao lembrar um do outro.
Eliseo Martinez
13.07.2017
140.
Como contornar oásis
se nós percebemos a viajar
por tão vastos secos mares?
Gira, gira vida pequenina.
Honestamente, sabe-se tanto
do tão pouco que nos coube.
Na bagagem, a apontar rumo seguro,
umas tantas certezas obscuras,
que só são o que parecem ser
pelas perguntas que ficaram por fazer.
Eliseo Martinez
12.07.2017
139.
Cultura
Ponho nariz de palhaço
ao me ver em meio
a esta festa sem graça.
Dissolve-se por toda a parte
o que, em cada canto,
já foi chamado cultura,
aclamado como arte.
Crenças forjadas no fogo lento do tempo
são imoladas a fogo rápido
nos altares dos novos templos.
Marcas e imagens exaltam ídolos
sob camadas de maquiagem.
Mac-ofertas, diet, light, selfies, coca,
fakes, filme enlatado, I-tralha, pipoca.
A indústria sem chaminés
culturicida diversidades nativas,
submetidas a ordem global
de novidades hiperativas.
Uma a uma, as diferenças
já se igualam em qualquer lado.
À luz ofuscante dos holofotes,
identidades são abatidas
a golpes de mercado de sul a norte.
O que era único é atualizado
como híbrido produto massificado.
Escolhas embaralhadas reluzem inchadas
no estranho jogo de cartas marcadas.
As ideias que tocam a empresa
desconhecem fronteiras,
abrigando a todos com o unidimensional
manto cintilante do sistema.
Momentâneas hegemonias
avançam pelas metástases
sem bandeira das franquias.
No vasto solo verde-amarelo,
onde três raízes se entrelaçam
para compor o mosaico sul-americano,
vemos desbotar suas cores
sob a voracidade dos novos usurpadores.
Nas letras, telas, vestes, ideias, panelas,
as culturas regionais debatem-se
para manter abertos os distintos
caminhos que nos guiam.
O dano já não é pouco.
Desta fonte vertem éticas,
valores e estéticas,
assim como crenças que dão sentido exclusivo
a nossa existência,
fazendo-nos os povos que hoje somos.
O que chamamos "nós"
é cria espontânea da cultura,
esta constelação manifesta,
com que o devir dos povos,
em suas nuances próprias,
distingue com jeito único
o que é ser humano.
Eliseo Martinez
11.07.2016
138.
Ponte de Lima
Hoje, andando entre coisas velhas dos bricks de rua,
espanei pensamentos sobre histórias minhas e tuas.
Lembranças que jamais me ocupei em falsificar
pelos descaminhos que viemos a trilhar.
Como eventos presentes,
pertence a cada qual o pretérito do próprio tempo,
seja ele cuidado e saudável
ou envenenado e doente.
Afinal, nunca me vi obrigado
a seguir ritos de morte, obediente.
Ainda lembro do fruto tinto pisado do Cartaxo.
Da ponte ligando a velha aldeia a seu passado.
O Lima, indo por baixo,
como seiva escorrida de Espanha
a fecundar antigas quintas lusitanas.
A saga de celtas e romanos, forjando o rude povo,
para, mais tarde, completar-se em leitos mouros.
Eu e tu, sentados à mesa de pedra frente à tasca,
o antigo mercado, os cafés e a praça.
À noite, alaridos no bosque, cortado pela trilha.
Na clareira, aldeões girando danças sob a lua cheia.
Arroz de lampreia, sarrabulho, o vinho verde
e o brilho de teus olhos negros.
A vida validada sem o selo dos medos.
Os plátanos, o areal e a fúria do rio
nas cicatrizes deixadas à parede do casario.
O real e o que foi retratado virado
pelo pincel do pintor descuidado,
perdido de lá, para ser encontrado
na pequena galeria improvável, do lado de cá.
Nossos rastros deixados pelos gramados
onde, hoje, o frio, os livros e os vinhos
aquecem almas desgarradas
que se foram por diferentes caminhos.
Eliseo Martinez
09.07.2016
137.
Os Tempos
I - O Antes
A natureza manifesta-se lentamente
no dia que espreguiça lânguido a nossa frente.
Flores estranhas, alheias as horas,
abrem suas pétalas, sem demora.
Teus olhos desabam névoas sobre mim,
para no pulso de um segundo,
inundar tudo em tons carmins.
Imagens rebentam por trás das retinas
tal ondas que se lançam cristalinas
sobre as areias da aldeia que nos abriga.
Favos perolados de romã
espalham rubis pelos ares da manhã.
II - O Durante
Nada existe além da geografia dos corpos
e seus limites sinuosos,
a pesar leves um no outro,
despertados que foram a pouco.
Decifram-se senhas no transe dos olhares,
inflando velas que partem em viagem.
Vagas ondulam num mar de panos.
Naus adernam sem comando
em meio ao frenesi do alegre pandemônio.
Espasmos, vertigem e o desatino
do sem-fim do abismo...
III - O Depois
Lado a lado, na trégua dos abraços,
jazem desatados pernas, torços, braços.
Nada mais cabe às palavras que dar lugar
ao eco das que não foram pronunciadas,
como um sussurro surdo
dentro do peito, ora mudo.
Corpos que há pouco,
tremiam vorazes um do outro,
agora, são vontades recompensadas
que escorrem pelos poros do espaço,
libertos de tudo,
aconchegados ao nada.
Fósseis esvaídos de fúria e desejo
estirados num sítio de paz, curado dos medos.
O paraíso é um instante de harmonia
nascido da desatinada folia.
Das entranhas do caos gesta-se a ordem
que nos torna mais que somos,
apaziguados da carne, que fomos,
restam as almas cheias
de uma mulher e um homem.
O espaço faz-se alvo,
cada canto tinge-se de branco.
Só o coro das Albas cantam.
Eliseo Martinez
08.07.2017