137.
Os Tempos
I - O Antes
A natureza manifesta-se lentamente
no dia que espreguiça lânguido a nossa frente.
Flores estranhas, alheias as horas,
abrem suas pétalas, sem demora.
Teus olhos desabam névoas sobre mim,
para no pulso de um segundo,
inundar tudo em tons carmins.
Imagens rebentam por trás das retinas
tal ondas que se lançam cristalinas
sobre as areias da aldeia que nos abriga.
Favos perolados de romã
espalham rubis pelos ares da manhã.
II - O Durante
Nada existe além da geografia dos corpos
e seus limites sinuosos,
a pesar leves um no outro,
despertados que foram a pouco.
Decifram-se senhas no transe dos olhares,
inflando velas que partem em viagem.
Vagas ondulam num mar de panos.
Naus adernam sem comando
em meio ao frenesi do alegre pandemônio.
Espasmos, vertigem e o desatino
do sem-fim do abismo...
III - O Depois
Lado a lado, na trégua dos abraços,
jazem desatados pernas, torços, braços.
Nada mais cabe às palavras que dar lugar
ao eco das que não foram pronunciadas,
como um sussurro surdo
dentro do peito, ora mudo.
Corpos que há pouco,
tremiam vorazes um do outro,
agora, são vontades recompensadas
que escorrem pelos poros do espaço,
libertos de tudo,
aconchegados ao nada.
Fósseis esvaídos de fúria e desejo
estirados num sítio de paz, curado dos medos.
O paraíso é um instante de harmonia
nascido da desatinada folia.
Das entranhas do caos gesta-se a ordem
que nos torna mais que somos,
apaziguados da carne, que fomos,
restam as almas cheias
de uma mulher e um homem.
O espaço faz-se alvo,
cada canto tinge-se de branco.
Só o coro das Albas cantam.
Eliseo Martinez
08.07.2017
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