144.
As Musas
Velhas musas inspiram antigas e novas artes,
igualando os homens que as fazem
a deuses que as contemplam invejosos,
debruçados sobre os ares.
Entre tanto mal gestado no seio da raça sanguinária,
fomos compensados pelo estranho juízo das divindades
com o unguento da estética,
como dádiva de uns poucos a todos os outros,
elevando humanos a fazedores de cultura,
a garantir-nos prosseguir
muito depois de cumprida a sina dura.
Seus lampejos se esgueiram pelas frinchas do real,
trama de penúria em meio ao reino da necessidade,
para exacerbar sentidos, vazar estados de alma,
aliviando o peso da existência com miragens de liberdade.
O mundo, capturado por olhos alheios,
passa a ser refeito pelo que cada qual
traz em rebuliço dentro.
Se a cultura é a forma ou a moldura,
a arte, enfim, põe nas mãos do mais miserável dentre nós,
o formão do escultor ou o pincel do pintor,
fazendo dele, também, da obra, autor.
Confrontando casca e miolo, pele e tutano,
empoderados de si, ao longo dos milênios,
mais humanizados nos tornamos.
Pelo ao menos, esse era o plano.
Dentre os dons misturados ao barro do primeiro,
os perversos deuses meteram a felicidade nos humanos,
condenados a persegui-la mundo a fora,
nas intempéries do espaço mundano.
Se ser feliz é aceitar ser o que se pode,
as musas nos ofertam fazer-nos mais que somos,
algo situado entre os deuses e os demônios.
Eliseo Martinez
20.07.2017
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