Ponte de Lima
Hoje, andando entre coisas velhas dos bricks de rua,
espanei pensamentos sobre histórias minhas e tuas.
Lembranças que jamais me ocupei em falsificar
pelos descaminhos que viemos a trilhar.
Como eventos presentes,
pertence a cada qual o pretérito do próprio tempo,
seja ele cuidado e saudável
ou envenenado e doente.
Afinal, nunca me vi obrigado
a seguir ritos de morte, obediente.
Ainda lembro do fruto tinto pisado do Cartaxo.
Da ponte ligando a velha aldeia a seu passado.
O Lima, indo por baixo,
como seiva escorrida de Espanha
a fecundar antigas quintas lusitanas.
A saga de celtas e romanos, forjando o rude povo,
para, mais tarde, completar-se em leitos mouros.
Eu e tu, sentados à mesa de pedra frente à tasca,
o antigo mercado, os cafés e a praça.
À noite, alaridos no bosque, cortado pela trilha.
Na clareira, aldeões girando danças sob a lua cheia.
Arroz de lampreia, sarrabulho, o vinho verde
e o brilho de teus olhos negros.
A vida validada sem o selo dos medos.
Os plátanos, o areal e a fúria do rio
nas cicatrizes deixadas à parede do casario.
O real e o que foi retratado virado
pelo pincel do pintor descuidado,
na pequena galeria improvável, do lado de cá.
Nossos rastros deixados pelos gramados
onde, hoje, o frio, os livros e os vinhos
aquecem almas desgarradas
que se foram por diferentes caminhos.
Eliseo Martinez
09.07.2016
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