Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 26 de abril de 2021

342.

Sete Sóis e Sete Luas, efemérides   
 
Ontem, numa borda do mundo
foram lembrados os capitães
e seus bravos soldados
armados com cravos vermelhos,
fartos das guerras no estrangeiro.
Anos antes, nesse mesmo fatídico dia,
uma chuva homicida
desabou dos céus de Guernica,
levando os que se insurgiam,
numa Espanha onde
anarquistas e jovens comunistas
faziam frente aos ventos da tirania.
Hoje, não há o que ser festejado
ou lamentado, o calendário marca
a data exata em que nos perdemos.
É bem provável que não estejamos
mais aqui por igual naco de tempo.
Que se permita a nós mesmos
a licença da distância dos anos
para desembrulhar memórias 
interditas, neste raro momento.
Lembro daquela triste tarde de abril
em que num breve rito de passagem
nos vimos uma última vez,
em nossa viajem.
Sem alarde, transitávamos, tu e eu,
nossa cerimônia de adeus.
Éramos, até então, Sete Sóis e Sete Luas,
alcunhas tomadas emprestado
das páginas do Memorial de Saramago.
A gravidade da hora,
fazia espesso o ar no pequeno café
encravado no coração da cidade
que nos viu tantas vezes passar
de mãos dadas
e sorriso pousado nos lábios.
Era a arena, por nós escolhida,
para a sentença de morte
a ser proferida.
Poucas palavras, cenhos crispados
e uma vontade de não estarmos ali,
sentados, despachando o comum
de nossa história ao passado,
como num velho fado.
Era o ocaso de dias felizes,
nem por isso imunes
aos inevitáveis enclaves tristes
que também fazem parte
da vida dos pares.
É estranho como o que já fora feito
de amor e desejo
teve de acabar na frieza do gesto,
ressecado de afeto,
simulado de desprezo.
Montado o cenário,
o desenlace segue o roteiro
e o ato passa a ser encenado.
Fomos, nisto, os talentosos atores
e o respeitável público a um só tempo.
As máscaras fundiam-se duras
à face lívida dos personagens,
enquanto o cansaço dominava
o exíguo espaço.
Algo que nos vai dentro
e nem sabemos,
toma a frente nesses momentos.
Talvez seja o verdadeiro
de nós mesmos a assumir o comando,
algo como o gancho do instinto
arranjando jeito de seguirmos andando.
Fizemos o que havia a ser feito,
que não se insuflem
mágoas ou ressentimentos.
Não nego que as flechas que nos atingiram
repousavam tanto na tua aljava
quando na minha.
Uma bruma de nostalgia
não retira o acerto do passo dado
e o que ali, sem prazer, foi consumado.
No entanto, ainda há pouco,
assistindo ao jornal pela TV,
passados precisos vinte ciclos
de Gaya em torno de Hélios
desde aquele café,
não pude deixar de experimentar
algo do mesmo no fogo criminoso
que, hoje, consome a Amazônia
e o Pantanal brasileiro.
Seguido ao rescaldo
do que devastou solo acima,
persiste algum lume sob a superfície,
calcinando raízes, fora das vistas.

Eliseo Martinez
26.04.2021

quinta-feira, 22 de abril de 2021

341.

Determina-ações


As circunstâncias
definem quem somos.
É a batida do bumbo do entorno
a nos dar forma e tamanho,
de um jeito ou de outro.
Cada qual têm posto na balança
o peso e a leveza,
um tanto do chumbo da feiura
e outro tanto das plumas da beleza.
Por vezes,
esquecemos que todos
desejam ser felizes,
mesmo que mais fácil seja
enredar-se pelos caminhos,
à busca de saídas.
Há os contaminados
por uma felicidade triste,
afeitos aos dissabores,
que bebem das vinhas da ira
e alimentam-se de rancores.
São os cidadãos pacíficos,
até mesmo, afáveis
que, na próxima parada,
não hesitam subir no bonde do ódio,
lotado de outros habituados
a desamarem a si próprios.
Encorajados pela maré
dos consensos, não raro,
revelam o escuro da alma dos homens
e, logo, já não são mais
que lobos com fome.
Nesses, reside o espinho do perigo
quando, mantidos ao lado,
são tidos como amigos.
Há outros, a quem basta
o lume de uma vela
para iluminar o breu das vielas
que os esperam.
Predispostos ao bem e ao belo,
não sucumbem
ante o muro dos feiumes,
apinhado de mazelas.
Esses são os cordeiros,
sempre dispostos a serem
mais do que somos,
incensados pelas divindades
que nós mesmo criamos.
E, como diria um grego jônico,
muitos deles a arar
a pequena gleba fértil
que ainda resta às religiões,
no mais, funestas.
Entre uma ponta e outra,
junto-me aos que optam pelo oposto,
gravado no galope desgarrado
de um cavalo louco,
que não sabe, mas saberia
caso bem pensasse,
que não há pena que o condene
pela eternidade,
livre para se ir nos cascos duros,
à força das circunstâncias
e gáudios pela viagem.

Eliseo Martinez
22.04.2021

quinta-feira, 15 de abril de 2021

340.

Cerimônia de adeus

Primeiro, olhou em volta.
Viu o mesmo de sempre,
mesmas cores, texturas e gente.
Tinha o que queria
e, como um dos reis do Pessoa,
sentiu-se forte por não querer
tanto o quanto podia.
Mais tarde, alongou o olhar
na direção do horizonte,
vendo bem mais à frente,
rastreando o que ia mais longe.
Vasculhou os quatro cantos
e consultou a rosa dos ventos.
Pesou na balança do tempo,
passado, futuro e presente.
Mas, o cravo do cansaço,
amolado pelo sentido escasso,
já havia transpassado
inquietudes e vontade.
Sem dor, apaziguado,
desistiu de partir novamente,
enfadado com o que seria
mais das velhas novidades.
Parou e refletiu longamente,
passando a vida em revista.
Por fim, decidiu onde ir.
Meteu-se dentro de si e, ali,
no aconchego dele mesmo,
quase feliz,
se perdeu de vez,
para sempre.

Eliseo Martinez
15.04.2021

quarta-feira, 14 de abril de 2021

339.

Descaminhos

Com o tempo, desamou.
Arrancou com as próprias mãos
flores ressecadas
que cobriam canteiros
há muito cultivados
e saiu à espera de tudo,
à busca de nada.
Era aquele mesmo de ontem,
entre surtos de inquietude
e temores sem nome,
velhos companheiros,
desde que se foi
pelo mundo dos homens.
Movia-se ou, assim, pensava.
De certo, mesmo,
só as ilusões que dão curso à vida
enquanto não são tocadas,
riscando o céu sem lua
das frias madrugadas.

Eliseo Martinez
14.04.2021

terça-feira, 13 de abril de 2021

338.

Tempo, prá que tempo?

O progresso técnico
vindo na esteira do devir,
que viria mesmo
que não se quisesse,
por si só,
não nos torna mais felizes.
Pelo contrário,
à falta de cuidado
com os rumos dados,
conduz ao exitoso estranhamento
que define nossas vidas, hoje.
Sob à aposta civilizatória,
extingue-se, aos poucos,
o espírito selvagem
vindo já nos gens
do primeiro de toda a gente,
enquanto as turbulências da alma
ficam pelos porões das mentes.
Mas, se depois de toda a Ciência,
não somos mais contentes,
ao menos temos mais tempo
para nos procurarmos
um punhado de outras vezes.

Eliseo Martinez
13.04.2021

segunda-feira, 12 de abril de 2021

337.

Crenças


Quando o crente fala em Providência;
o místico, em destino, fado ou sina
e a aposta do ateu
recai sobre a sorte ou acaso,
fala-se, na verdade,
do fosso intransponível
entre suas crenças mais sagradas,
sem a ponte impossível,
jamais a ser erguida,
que levasse esse povo todo
a enveredar por uma mesma trilha.
E que Deus, os astros
ou as circunstâncias
livrem, uns e outros,
da tirania das maiorias,
deixando a cada qual
o credo que lhe cabe,
reféns, que todos são,
das escolhas que fazem,
ou que, em seus nomes,
fizeram outros antes deles.

Eliseo Martinez
12.04.2021

quinta-feira, 8 de abril de 2021

336.

Covidário


Cada voz silenciada,
cada vida desperdiçada,
faz com que o medo,
que marca nosso tempo,
se fortaleça
e exale seu hálito azedo
para ficar entre nós
muito depois que o mal
que, ora, lhe da forma,
se vá de vez embora.

Eliseo Martinez
08.04.2021

domingo, 4 de abril de 2021

335.

A cesta de cada um

Meu pai era um cara estranho.
Estranho quer dizer que levava
em sua cesta de traumas e dramas,
que todos temos, esquisitices
um pouco diferentes da média
dos demais normais.
Há muito não o julgo por isso.
De nada valeria cutucar
os que já se foram.
Mas, cada traço de sua personalidade
ou episódio ocorrido é, para mim,
um convite a rever-me.
Tentar saber algo mais, que seja,
sobre quem sou,
por que algo me toca
ou, simplesmente, passa batido.
Enfim, o que corre por baixo.
O que não se vê só olhando de fora.
Perguntas para uma vida inteira,
sem preocupações com o grau
de egocentrismo que carregam consigo.
O preconceito com os conceitos
não pode vir antes do que 
certa curiosidade de base,
a perplexidade pelas coisas do mundo
e por nós mesmos, assim entendo.
Mas, voltando às cestas...
Em tempos de coelhinho da Páscoa,
hoje, numa dessas conversas
da madrugada, que estou
me acostumando a manter
pelas redes com minha filha, Júlia,
ela me contava sobre os preparativos
do evento de amanhã,
escondendo ovinhos de chocolate
pela casa para que minha neta,
Izabel, os encontre.
Coisa mágica para uma criança de 2 anos.
Dá para imaginar a expectativa,
os olhinhos brilhando a cada novo achado
e aquela felicidade só dada às crianças,
fazendo com que o mundo simbólico
e onírico também possa fazer parte
da construção de seu próprio imaginário.
As lembranças que guardo de situações
como essa, ocorridas em minha infância,
são que, ao final das buscas intermináveis,
invariavelmente o que eu encontrava
era um ninho onde não haviam
coelhinhos ou ovos de chocolate,
mas pedras que meu pai escondia
cuidadosamente entre a palha amarelada,
com a incompreensível aquiescência
de minha mãe.
Mais que simples maldade, suponho
que houvesse uma espécie de humor
às avessas, nesse ato bizarro.
Claro que, depois dos olhos úmidos
e da indescritível decepção,
surgia a tal cesta com chocolate,
maçapão, ovinhos de açúcar e tudo o mais.
Mas, tinha mais: esquecendo
ou enterrando em cova íntima,
no ano seguinte,
tudo se repetiria novamente.
De certa forma, meu pai me ajudou!
Sempre que escondi entre os arbustos
do velho Veraneio Hampel,
as guloseimas que minha filha
se encantava em descobrir na infância.
Dessas situações, até hoje, a expressão
do rosto da menina me faz pensar
o quanto meu pai perdeu.

Eliseo Martinez
03.04.2021