Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 4 de abril de 2021

335.

A cesta de cada um

Meu pai era um cara estranho.
Estranho quer dizer que levava
em sua cesta de traumas e dramas,
que todos temos, esquisitices
um pouco diferentes da média
dos demais normais.
Há muito não o julgo por isso.
De nada valeria cutucar
os que já se foram.
Mas, cada traço de sua personalidade
ou episódio ocorrido é, para mim,
um convite a rever-me.
Tentar saber algo mais, que seja,
sobre quem sou,
por que algo me toca
ou, simplesmente, passa batido.
Enfim, o que corre por baixo.
O que não se vê só olhando de fora.
Perguntas para uma vida inteira,
sem preocupações com o grau
de egocentrismo que carregam consigo.
O preconceito com os conceitos
não pode vir antes do que 
certa curiosidade de base,
a perplexidade pelas coisas do mundo
e por nós mesmos, assim entendo.
Mas, voltando às cestas...
Em tempos de coelhinho da Páscoa,
hoje, numa dessas conversas
da madrugada, que estou
me acostumando a manter
pelas redes com minha filha, Júlia,
ela me contava sobre os preparativos
do evento de amanhã,
escondendo ovinhos de chocolate
pela casa para que minha neta,
Izabel, os encontre.
Coisa mágica para uma criança de 2 anos.
Dá para imaginar a expectativa,
os olhinhos brilhando a cada novo achado
e aquela felicidade só dada às crianças,
fazendo com que o mundo simbólico
e onírico também possa fazer parte
da construção de seu próprio imaginário.
As lembranças que guardo de situações
como essa, ocorridas em minha infância,
são que, ao final das buscas intermináveis,
invariavelmente o que eu encontrava
era um ninho onde não haviam
coelhinhos ou ovos de chocolate,
mas pedras que meu pai escondia
cuidadosamente entre a palha amarelada,
com a incompreensível aquiescência
de minha mãe.
Mais que simples maldade, suponho
que houvesse uma espécie de humor
às avessas, nesse ato bizarro.
Claro que, depois dos olhos úmidos
e da indescritível decepção,
surgia a tal cesta com chocolate,
maçapão, ovinhos de açúcar e tudo o mais.
Mas, tinha mais: esquecendo
ou enterrando em cova íntima,
no ano seguinte,
tudo se repetiria novamente.
De certa forma, meu pai me ajudou!
Sempre que escondi entre os arbustos
do velho Veraneio Hampel,
as guloseimas que minha filha
se encantava em descobrir na infância.
Dessas situações, até hoje, a expressão
do rosto da menina me faz pensar
o quanto meu pai perdeu.

Eliseo Martinez
03.04.2021

Nenhum comentário:

Postar um comentário