Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

508.

Tempo de Guri


Ah! No meu tempo é que era bom...
As crianças cresciam em uma
Porto Alegre provinciana,
ao jeito de serem mais felizes,
mais confiantes,
brincando livres pela vizinhança.
Cedinho, me ia
da Cidade Baixa ao Julinho,
no balanço de um bonde da Carris,
que rangia sobre os trilhos,
baldeando minha alegria de guri.
Dias de piquenique com pastelina,
mil-folhas, pipoca doce e coca-cola,
escondidos no terraço da escola
ou de ficar na pracinha,
lagarteando ao sol de inverno,
a gazetear aula com os colegas.
Tinha bronca do Capitão,
mas também tinha a Lúcia,
o Júlio, o Ricardo e o Gordo,
metido no surrado macacão.
Tinha a cantina, onde nem sempre
sobrava trocado pro pastel de vento;
tinha o pátio das peladas
onde, uma noite ao fugir de casa,
pulei o muro para dormir enregelado.
Ah! Os shows de rock no ginásio,
primeiro baseado, primeira namorada...
Na verdade, nem tudo eram flores.
Em casa, a coisa era tosca
e o laço corria solto!
Mas a resposta vinha de pronto.
Férias de julho, mochila às costas
e polegar pra cima,
rumo aos festivais de Minas.
Nos verões, entre temor e êxtase,
a vertigem da saída,
antes de varar solito pelas estradas,
cabelos longos e pantalonas largas,
cruzando com gente de todo jeito,
andarilhos de todo lado,
a procura de algo que não era
para ser encontrado.
A cada retorno, voltava mais dono
da minha cabeça
e senhor do meu corpo,
carregado de histórias a eriçar
fantasias de liberdade
nos garotos do ginásio.
Adolescente desencaixado,
confesso, não fui aluno aplicado.
Socorro, doutor pirado!
Meu boletim padecia de sarampo,
de tanta nota salpicada de encarnado.
Fiquei no Colégio uma par de anos
mais que o combinado,
até tomar jeito e dar um até breve
aos leões de bronze que vigiavam
e ainda vigiam os que passam
e os que ficam pelos corredores
de vidro do velho Júlio de Castilhos.
E assim foi que me fui ao mundo,
meio estudante, meio vagabundo,
para bem mais tarde e virar mundo,
retornar como mestre-escola
da escola que me deu um norte
e razões que me movem vida afora.

Eliseo Martinez
10.10.2025

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