Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

514.

Por que escrevo?

Volta e meia, pergunto-me
por que mesmo é que escrevo?
Do cadinho onde as causas se misturam,
bem que eu podia sacar uma,
tal como a de ganhar dinheiro
no comércio das garatujas;
quem sabe um dia,
ostentar sobre a escrivaninha
um Nobel fake de literatura,
comprado às escondidas
em um muquifo no Beco do Mijo,
onde se imprimia panfletos
de esquerda nos idos da ditadura.
Mas, antecipo: não é nada disso!
Talvez meus rabiscos apenas sirvam
para cerzir os retalhos do que sinto,
montando um todo dos muitos
em que eu mesmo me divido.
Mas, infelizmente, sou mais
realista do que isso.
Colagens tendem a dar em nada,
uma vez que a base onde esses cacos
são juntados já nasce configurada
no mesmo exíguo cercado, onde
muito menos que tudo é considerado.
Passo a acreditar que escrever
é uma dessas coisas que faço
para ludibriar-me sobre quem sou,
ao tentar dar traços novos
aos contornos do meu próprio rosto.
Mas, confesso...
Também isso me parece pouco.
Talvez o ato de escrever
sirva para enganar o medo,
colorindo minha vida
que desbota com o tempo,
ou algo mais corriqueiro,
a exemplo da matreira faxineira
que, ao limpar as prateleiras,
joga para baixo do tapete
o grosso da sujeira.
Ou, como é próprio do avarento,
percebendo que de tudo o que se pensa,
sempre ficam presos
às paredes do entendimento
restos mal ruminados de pensamentos,
dedico-me a reciclá-los para, deles,
tirar algum proveito.
Por que não acreditar, ainda,
que, ao escrever posso dar 
alguma ordem aos devaneios,
parecendo mais composto
quando me posto à frente do espelho?
Ou, talvez escreva como prova de vida,
atestando que ainda estou aqui,
temeroso de já ter partido,
sem que disso tenha recebido
o devido aviso.
Do emaranhado dessas razões
mal engendradas,
ocorre-me que talvez escreva
para retornar aos recreios da infância
mas, agora, sem balanço, pega-pega
ou a saudosa lembrança
do velho pipoqueiro da vizinhança.
Pensando com mais cuidado,
me dou conta do muito que me agrada
o livre jogo das palavras.
Para ser mais exato,
gosto do som que elas fazem,
sem que, por vezes,
se obriguem a dizer nada.
Avesso às rimas perfeitas,
que são como carcereiras,
a confinar o pensamento em cativeiro,
prefiro as rimas quebradas,
às que simplesmente
mamulengam com as palavras,
descompromissadas com as métricas
nessa nossa solitária empreitada,
brincando, alegremente, com as ideias
como as crianças brincam
sem muita regra, alheias às plateias.
Por fim, acho que escrevo
porque posso e porque quero,
sem com isso ter de te dar resposta
às dúvidas que só a mim importam.
Ou, quem sabe...
entre a solidão destas paredes,
tomado por um surto de humildade,
despido do último véu da vaidade,
deva reconhecer
que escrevo por escrever,
sem eu mesmo saber porquê!

Eliseo Martinez
30.10.2025

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