Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 31 de janeiro de 2016

39.

TEMPESTADE

Uma formidável tempestade abala a cidade.
A fúria dos deuses desaba sobre humanos,
punindo o mundo de justos, patifes e insanos.
O rio regurgita sobre suas fétidas margens;
a terra, saciada, já não bebe da enxurrada.
A noite escura é iluminada a chicotes de raios.
Olhos assustados espreitam
pelas frestas das janelas entreabertas.
À medonha sinfonia dos trovões,
os homens contribuem com o que podem, afinando
sirenes de bombeiros, ambulâncias, camburões.
Beleza e pavor copulam num êxtase sem pudor.
Nestas horas, Neruda levantar-se da tumba e, profético,
sussurra-nos um de seus mais belos versos:
"sou um pássaro furioso na tranquila tempestade".
Na manhã seguinte, se saberá das ruas,
das avenidas e das pracinhas arrasadas,
tornadas praças de guerra,
e de duas mil árvores tombadas,
algumas, majestosas, centenárias e, por que não, amadas ?
Secas as torneiras, desvalida a força elétrica na região,
a polis passa a lembrar-se do que esqueceu:
que o que temos como certo nada mais é que ilusão.
Cada apartamento, cada casa, não é mais que uma caverna.
E toda a Ciência que se conhece subsiste
na tecnologia de uma vela.
Merda! Bem na hora da novela!

Eliseo Martinez
30.01.2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

38.



TRIBUTO


Ao acharmos a solução tropeçando
em ideias que estão no chão,
a gente já não quer só comer,
quer comer e fazer amor,
quer prazer pra aliviar a dor,
mesmo entre as flores de plástico
que não morrem a nosso redor.
Quando, na raça,
desarranjo o consenso arrumado,
pacto mudo entre segurados,
subverto o que é de mim esperado,
junto a um punhado de poetas,
calo com justa fala os que zombam da arte,
feito turbas insanas, sou TITÃS.


Quando ponho a nu a semente que engravidou,
do pais, o ventre, de Brasília, podre matriz,
ainda que eu só falasse a língua dos anjos
e não a língua dos homens, minhas letras
desatam amarras de uma geração,
tornando-me o que sou, LEGIÃO.


Quando num porto quase-alegre,
me apresento, Muito prazer,
meu nome é otário!,
na ponta dos cascos e fora do páreo,
entre a loucura e a lucidez,
entre o uniforme e a nudez,
tenciono as cordas da guitarra
na cidade fria e ensolarada,
despertando mentes de jovens herdeiros,
sou ENGENHEIROS.



Quando a poesia ceifa da alma as ervas da ira,
como a lâmina de uma foice afiada,
nasço bluseiro negro de branco pintado,
feito um frei já insano,
prego heresias com acordes fortes,
ao querer que você tenha a quem amar
e quando estiver bem cansada,
ainda exista amor pra recomeçar,
enquanto procuro o que ainda não encontrei,
diferente de todas que amei,
sabendo o que todo o mundo sabe,
que homem que é homem não chora,
e meu rosto vermelho, molhado,
é só dos olhos pra fora, de joelhos no chão,
como o coração na mão, sou BARÃO.


Quando em meus braços, Joan,
a mais doce das amazonas, abraço,
amado e odiado mago dos versos que soam
como o assobio de misseis que voam,
armado com a lança dos clamores civis,
invisto contra o moinho dos imbecis,
sob ventos que silvam, sou DYLAN.




Quando retorno exténué à torre do som,
my friends are gone and my hair is grey,
I ache in the places where I used to play
and I`crazy for love but I`m not coming on
I`m just paying my rente everyday in the tower of song,
monge de incontáveis amantes,
canto poemas na língua de franceses e ingleses errantes,
passageiro do mais quente dos gélidos trens canadenses,
sou COHEN.


Mas, por vezes, velas infladas a versos
cruzam oceanos incertos e piso terras lusitanas,
onde, a um só tempo, parto-me em dois,
que se partem noutros tantos, ambos dispersos,
antes, tão longe, nesta hora, tão perto,
quer eu queira, quer não queira,
nesta cidade que há de ser uma fronteira
riscada pelos que lutam do outro lado da luta,
alheios a cor, deuses ou fados, na soma selvagem de nossas existências, sou RESISTÊNCIA;
mas, também, partidos, em uma só noite de anarquia,
em milhares de vozes que se levantam, reunidos,
a cantar triunfantes, calam-se as vozes de teus algozes,
ah! Timor, se outros calam, cantamos nós,
sob o apelo de um presidente que via adiante,
sou, por fim, TROVANTE.


Todos, entre tantos outros, semeadores de espíritos e olhares,
neste estranho pequeno mundo em que se vive de costas para
o que o vizinho próximo tem de mais belo a nos dar de graça.

Eliseo Martinez
29.01.2016

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

37.


Às vezes sou vento,
outras, as pás lentas
do mesmo cata-vento de cimento
a fatiar o tempo.
Às vezes sou verso,
outras, a prosa de um decreto.
Às vezes sonho por de sóis,
outras, acordo pesadelo, temporais.
Se para muitos males não há remédio,
essa arritmia é garantia da vida sem tédio
que, entre o encanto e um estranho canto
oscila e se expressa por tortas retas.
Desencanto? Outro dia, sem pressa.

Eliseo Martinez
26.01.2016

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

35.

PERDAS  I


A paliçada de chumbo da impossibilidade
é refundida em minha mente
como uma vertigem congelada.
É o punho fechado da realidade,
que nos deixa à garganta entalado
o grito surdo como se suspenso no vácuo estrelado.
É o fato da perda sem o ato do achado.
É, na ilha deserta, rastro de outra pegada,
pelo único náufrago, encontrada.
É a contingência da sentença
e, também, a imanência da experiência.
É buscar a ponta do fio emaranhado
na mente tracejada do demente.
É a perplexidade frente ao desfiladeiro
em que, sem placa, acaba a estrada.
Mas, também, é o que verdeja para além
da finitude da mais sentida das perdas,
todo o infindo mundo, grávido de tudo,
até mesmo do que podemos chamar de lindo.

Eliseo Martinez
20.01.2016

domingo, 17 de janeiro de 2016

34.

O QUE É ISSO COMPANHEIRO ?


Quem sabe, nesta difícil arte de viver,
não se tenha algo a aproveitar
da aristocrática forma de estar,
de algo menos básico,
mais elaborado de sonhar e ser?
Uma via que, entre coletivos,
o indivíduo pudesse
mais livremente caminhar?
Coisa estranha de se dizer,
quando à margem esquerda
aprenderam nossos passos pisar,
quando das elites pouco esperamos
de uma justa forma de ver.
Mas, será mesmo que temos de achatar
a nós e a toda gente diferente
sob o imperativo de a qualquer custo,
o diverso igualar,
no átimo de uma vida fugaz?
Mutilar o que árduo trabalho teceu o sentir,
o que o belo e o dever ser nos diz,
com mãos do artesão, que
nesta trama de fios,
aprendeu a amar?

Eliseo Martinez
17.01.2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

33.




Noite esperada, som ensurda, balada, luzes sujas.
Excitação do ca-ra-lhooo, grávidos males, tur de bares,
risos de jovens, alegres ares. Ainda, assim, bons
garotos, filhos anônimos de anônimas donas
Marias, Rosinhas, Erundinas, Quininhas...
Alquimia, mente vazia, sombras atrás do que luzia,
tédio, pedaços de sonhos despencados, vazias fantasias.
Na fuligem deste incenso, acorda insana turba,
levantam bêbados ferozes, roleta dos, antes,
inocentes, agora, jurados algozes adolescentes.
Cruzar de olhares, faísca, estopim que arde,
pobres vítimas juvenis. Faca, gritos, falta de sorte,
derramada nos rubros cortes. Beco escuro, sangra só,
alheio alguém qualquer, na pouca vida vivida,
interrompida, fim de festa, novo ano,
verte a fresta, feito inútil traste humano.
Correria, adrenalina, sob imundo viaduto, assustados
olhos negros, olhares vermelhos, estanca o medo,
cúmplices, galvanizam parceria, agora, fortes na
selvageria, provam do poder com que se habituaram
a viver, garotos da periferia.
No aconchego de outro consenso feito, gira o globo
indiferente, aliás, como toda gente.

Eliseo Martinez
13.01.2016

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

32.




Não há escolha. Para malditos, tocados por ela, a INQUIETUDE define o estar sem tréguas, impõe algum próximo necessário passo imediato. Não aquieta. É pulsão que torna o passageiro comum, perigoso clandestino, de Alcorão na mão e turbante vestido. No lugar de veias, pavios que saem do coração.
É um germinar jeito-semente, que cresce mágoa-raiz e floresce frondosa copa-sentir, que se quer viva, justa, feliz. Com o
muito que nos dá - e, com certeza, dá -, em meio ao curral conformista dos cômodos consensos, cobra-nos pesado aluguel, derrete o chão que pisamos, subtrair-nos a paz, que almejamos. Faz vazar os flancos do campo de batalha, envenenando todo o espaço na metástase da contenda diária.
Nos instantes iniciais deste 1º de janeiro de 2016, talvez quisesse capitular e dizer "estou exausto, deveria tocar bangô, arrumar o armário, ser mais alegre, de que vale continuar?, sumir de Harley numa noite de luar..."
Mas, apenas sou capaz de um "sinto-me um tanto cansado e só". Não saberia fazer diferente, ser outro, sem resposta, indiferente, ante pequenos e grandes interesses menores que se articulam em rede, em cada canto em que se anda, pichados em cada parede, servindo-se da boa fé e do que há de melhor em cada um de nós, agrupando-nos em manadas que andam de ré.
Assim, a natureza da vida humana confunde-se com seu curso dramático. É tragédia expressa ao sabor dos ventos próprios de cada tempo. Provavelmente, nenhuma outra fase desta trajetória foi, de uma só feita, tão farta de "coisas", vazia de sentido e ilusória, como a atual pós-modernidade, imagética e virtual. Época em que nos encontramos mais longe do - cada vez mais estranho - outro, e mais distante de nós. Quando tem lugar vertiginosa produção de signos, vazios de significados. Que nos move, sempre mais rápido, à caça insana do caos das fugidias satisfações, que se esboroam como bolhas de sabão. Tempos que propiciam todas as traições, servindo-nos o menu completo das tentações. Tempos que promovem, como nunca, a solidão do oco escuro de um grão. Tempos vorazes em que a civilização se faz monstruosa serpente de gente e, em seu rastejar pelo chão da História, devora o próprio rabo no mais trágico de seus selvagens atos e funda a era maligna da suprema banalidade e suas buscas fugazes.
Pois bem, nobres senhores. Esse é o mundo que não se faz invisível para INQUIETOS, banidos e meretrizes.

Eliseo Martinez
01.01.2016