Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

38.



TRIBUTO


Ao acharmos a solução tropeçando
em ideias que estão no chão,
a gente já não quer só comer,
quer comer e fazer amor,
quer prazer pra aliviar a dor,
mesmo entre as flores de plástico
que não morrem a nosso redor.
Quando, na raça,
desarranjo o consenso arrumado,
pacto mudo entre segurados,
subverto o que é de mim esperado,
junto a um punhado de poetas,
calo com justa fala os que zombam da arte,
feito turbas insanas, sou TITÃS.


Quando ponho a nu a semente que engravidou,
do pais, o ventre, de Brasília, podre matriz,
ainda que eu só falasse a língua dos anjos
e não a língua dos homens, minhas letras
desatam amarras de uma geração,
tornando-me o que sou, LEGIÃO.


Quando num porto quase-alegre,
me apresento, Muito prazer,
meu nome é otário!,
na ponta dos cascos e fora do páreo,
entre a loucura e a lucidez,
entre o uniforme e a nudez,
tenciono as cordas da guitarra
na cidade fria e ensolarada,
despertando mentes de jovens herdeiros,
sou ENGENHEIROS.



Quando a poesia ceifa da alma as ervas da ira,
como a lâmina de uma foice afiada,
nasço bluseiro negro de branco pintado,
feito um frei já insano,
prego heresias com acordes fortes,
ao querer que você tenha a quem amar
e quando estiver bem cansada,
ainda exista amor pra recomeçar,
enquanto procuro o que ainda não encontrei,
diferente de todas que amei,
sabendo o que todo o mundo sabe,
que homem que é homem não chora,
e meu rosto vermelho, molhado,
é só dos olhos pra fora, de joelhos no chão,
como o coração na mão, sou BARÃO.


Quando em meus braços, Joan,
a mais doce das amazonas, abraço,
amado e odiado mago dos versos que soam
como o assobio de misseis que voam,
armado com a lança dos clamores civis,
invisto contra o moinho dos imbecis,
sob ventos que silvam, sou DYLAN.




Quando retorno exténué à torre do som,
my friends are gone and my hair is grey,
I ache in the places where I used to play
and I`crazy for love but I`m not coming on
I`m just paying my rente everyday in the tower of song,
monge de incontáveis amantes,
canto poemas na língua de franceses e ingleses errantes,
passageiro do mais quente dos gélidos trens canadenses,
sou COHEN.


Mas, por vezes, velas infladas a versos
cruzam oceanos incertos e piso terras lusitanas,
onde, a um só tempo, parto-me em dois,
que se partem noutros tantos, ambos dispersos,
antes, tão longe, nesta hora, tão perto,
quer eu queira, quer não queira,
nesta cidade que há de ser uma fronteira
riscada pelos que lutam do outro lado da luta,
alheios a cor, deuses ou fados, na soma selvagem de nossas existências, sou RESISTÊNCIA;
mas, também, partidos, em uma só noite de anarquia,
em milhares de vozes que se levantam, reunidos,
a cantar triunfantes, calam-se as vozes de teus algozes,
ah! Timor, se outros calam, cantamos nós,
sob o apelo de um presidente que via adiante,
sou, por fim, TROVANTE.


Todos, entre tantos outros, semeadores de espíritos e olhares,
neste estranho pequeno mundo em que se vive de costas para
o que o vizinho próximo tem de mais belo a nos dar de graça.

Eliseo Martinez
29.01.2016

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