Não há escolha. Para malditos, tocados por ela, a INQUIETUDE define o estar sem tréguas, impõe algum próximo necessário passo imediato. Não aquieta. É pulsão que torna o passageiro comum, perigoso clandestino, de Alcorão na mão e turbante vestido. No lugar de veias, pavios que saem do coração.
É um germinar jeito-semente, que cresce mágoa-raiz e floresce frondosa copa-sentir, que se quer viva, justa, feliz. Com o
muito que nos dá - e, com certeza, dá -, em meio ao curral conformista dos cômodos consensos, cobra-nos pesado aluguel, derrete o chão que pisamos, subtrair-nos a paz, que almejamos. Faz vazar os flancos do campo de batalha, envenenando todo o espaço na metástase da contenda diária.
Nos instantes iniciais deste 1º de janeiro de 2016, talvez quisesse capitular e dizer "estou exausto, deveria tocar bangô, arrumar o armário, ser mais alegre, de que vale continuar?, sumir de Harley numa noite de luar..."
Mas, apenas sou capaz de um "sinto-me um tanto cansado e só". Não saberia fazer diferente, ser outro, sem resposta, indiferente, ante pequenos e grandes interesses menores que se articulam em rede, em cada canto em que se anda, pichados em cada parede, servindo-se da boa fé e do que há de melhor em cada um de nós, agrupando-nos em manadas que andam de ré.
Assim, a natureza da vida humana confunde-se com seu curso dramático. É tragédia expressa ao sabor dos ventos próprios de cada tempo. Provavelmente, nenhuma outra fase desta trajetória foi, de uma só feita, tão farta de "coisas", vazia de sentido e ilusória, como a atual pós-modernidade, imagética e virtual. Época em que nos encontramos mais longe do - cada vez mais estranho - outro, e mais distante de nós. Quando tem lugar vertiginosa produção de signos, vazios de significados. Que nos move, sempre mais rápido, à caça insana do caos das fugidias satisfações, que se esboroam como bolhas de sabão. Tempos que propiciam todas as traições, servindo-nos o menu completo das tentações. Tempos que promovem, como nunca, a solidão do oco escuro de um grão. Tempos vorazes em que a civilização se faz monstruosa serpente de gente e, em seu rastejar pelo chão da História, devora o próprio rabo no mais trágico de seus selvagens atos e funda a era maligna da suprema banalidade e suas buscas fugazes.
Pois bem, nobres senhores. Esse é o mundo que não se faz invisível para INQUIETOS, banidos e meretrizes.
Eliseo Martinez
01.01.2016
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