TEMPESTADE
Uma formidável tempestade abala a cidade.
A fúria dos deuses desaba sobre humanos,
punindo o mundo de justos, patifes e insanos.
O rio regurgita sobre suas fétidas margens;
a terra, saciada, já não bebe da enxurrada.
A noite escura é iluminada a chicotes de raios.
Olhos assustados espreitam
pelas frestas das janelas entreabertas.
À medonha sinfonia dos trovões,
os homens contribuem com o que podem, afinando
sirenes de bombeiros, ambulâncias, camburões.
Beleza e pavor copulam num êxtase sem pudor.
Nestas horas, Neruda levantar-se da tumba e, profético,
sussurra-nos um de seus mais belos versos:
"sou um pássaro furioso na tranquila tempestade".
Na manhã seguinte, se saberá das ruas,
das avenidas e das pracinhas arrasadas,
tornadas praças de guerra,
e de duas mil árvores tombadas,
algumas, majestosas, centenárias e, por que não, amadas ?
Secas as torneiras, desvalida a força elétrica na região,
a polis passa a lembrar-se do que esqueceu:
que o que temos como certo nada mais é que ilusão.
Cada apartamento, cada casa, não é mais que uma caverna.
E toda a Ciência que se conhece subsiste
na tecnologia de uma vela.
Merda! Bem na hora da novela!Eliseo Martinez
30.01.2016
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