Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 28 de junho de 2016

66.

ÂNIMA


O Esteves, conhecido do Pessoa, que a sua revelia continuou a existir na prosa de outra literatura, aquele mesmo Esteves da tabacaria, privado de metafísica por excessos da poesia, fora do círculo fechado que lhe foi riscado, diria que a alma é o conjunto das subjetividades de uma pessoa.  E, ai, enfiaria como numa guia, miçangas de inconsciência e espiritualidade, psiquê, ilusões, memórias esquecidas, fantasias, afetividade ... , intercaladas todas com indefinições de formas a serem, ainda, precisamente definidas que dariam ao fim e ao cabo um colar sem contas de poesia.
De fato, o próprio Pessoa poderia fazer uso do lúcido pessimismo para dizer que a alma é coisa nenhuma, uma necessidade inventada pelo vazio dos homens.  Apenas uma vontade de lugar, que a um só tempo, ronda em volta e transita por dentro, um etéreo almoxarifado onde pudéssemos jogar o mais substancial do sublime que existe ou pensa-se existir em nós encerrado.  O incorruptível de cada um, o intocado de cada qual, a promessa inebriada de reserva última e bem guardada de uma beleza qualquer.  Uma metáfora feita de dúbias certezas.  A alma seria apenas outro dos aparatos que inflam com grandeza a pequenez dos homens, partilhando da mesma natureza que gerou a felicidade, o amor, a justiça, a verdade e, é claro, a utilidade de deus e de seu duplo invertido, o demônio, por vezes mais útil e divertido.  Só um jeito de sermos mais do que nos pomos, uma desculpa pelo pouco que somos, a despeito do muito que imaginamos. Um truque da imaginação para nos tornar suportáveis perante nós mesmos.
Mas, vejamos...  Limpo o campo, desta e de todas as ilusões e mitos dos homens - como estivesse a ser varrida a entrada da tabacaria -, ao término do árduo trabalho, parece faltar algo neste areal de desencanto.  Mesmo que já livre do inço divino, saciados de realidade, é de se imaginar que, de tão árido, não nos restasse o que fazer a não ser voltar a espalhar sementes de felicidade, de amor, de justiça, de verdade e, ao fim, como faltando, ainda, algo mais a compor os vãos do espaço todo, nos vemos a semear com grãos de coisa bem diferente, intrínseca a toda a gente, que vai dar numa bruma primordial que, fora do alcance da vista, parte de cada um e a tudo invade como raiz essencial, uma imanência a nos remeter ao solo das transcendências.
E vai que apareça alguém desavisado e passe a chamar isso de alma?

Eliseo Martinez
28.06.2016

segunda-feira, 20 de junho de 2016

65.

IR e VIR


Por ora, era do que necessitava, ter a fina linha que me prende ao mundo cortada.  Abastecer-me de sons, cores, ruas, literatura e - da primeira de suas filhas - poesia.  Abandonar-me a escrever, ou ler, ou mesmo, nada fazer e, no entanto, fazer-me pessimista, sem o ser.  Submeter o formal da ética ao paradoxal da estética.  No retorno da planície fria, e da náusea que tão bem a define, para perder-me no amplo mundo, com passo mais que largo, fundo.
Nada tão farto de morte quanto o ato de negar à vista o entorno, sob o horizonte próximo do cotidiano, esquecido do vital exercício de ir e vir ao que chamam real - o lado escuro da existência, a um só tempo, seu elixir e veneno letal.
Contaminar-me com odes de Mensagem, fazendo do extenuado caminhante, incansável navegante, à singrar mares de palavras na vazante da alma, levado por ventos em versos para além dos tempos que me cercam.
Sem terra à vista ou porto seguro que exista, jogar os remos n'água, deixando a nau à deriva.  E, assim, largado ao acaso, apenas movido pelo fluxo e refluxo das marés que me invadem,
dispensando bússola e sextante à guiar-me, ser o que sou, resumido a meu respirar.
Só ai, girar a vista para dentro e, lá, nada procurar por nada ter a encontrar, apenas espraiar o olhar, e me re-conhecer no vasto vazio, que também sou eu.  Como o silêncio das pausas que fazem do que são o som das notas deitadas às pautas.  Mais que niilista, solipsista.
Já livre de laços, agora, desatado das delgadas perspectivas e, de suas primas, as roliças expectativas, liberto de mim.
Desgarrado como um gato que, para sentir-se livre no espaço, cai telhado abaixo.

Eliseo Martinez
20.06.2016

domingo, 19 de junho de 2016

64.

ESFINGE


Olhos negros, serenos, como os de bravos katamitas gregos.
Lábios que lembram, a nós, as curvas quebradas
das asas em voo de um albatroz.
Cabelos rubros desabados sobre ombros desnudos,
labaredas de desejo bruto.
Tez moura, misturada por gerações no tempero das raças.
Seios que se inflamam ao tato, como bujarronas velas
de caravelas, infladas ao vento farto.
A voz levemente rouca e mansa a recompensar meus ouvidos,
transportando-me ao lugar-nenhum dos sentidos.
A bunda, ah! a bunda, é uma pera carnuda dando volume
e equilíbrio ao estonteante conjunto.
Asseguro que foi vista a andar ontem, à noite,
pelas calçadas que invadem insensatos sonhos de homens ... gratos.

Eliseo Martinez
19.06.2016


quinta-feira, 16 de junho de 2016

63.

ANIVERSÁRIO


Foi bonita a festa, bah!  Cá estou contente...
A noite fria veio como presente,
aquecida pelo crepitar de nós de pinho
a arder e o seco do vinho.
Testemunhas de um jardim a florir
dentro dos muros altos do aconchego do claustro.
Seis flores improváveis foram, ali, reunidas.
Flores lindas, divertidas, no caleidoscópio
de suas histórias próprias, a tagarelar animadas
feito brejeiras meninas em troça.
E um arquipélago de afetos
ocupou o espaço todo sob o ímpio teto.
Para que não se deixe ir,
sem mais, nem porquê,
inventam-se dobras ao tempo,
fazendo com que, algum dia,
o que foi vivido na pressa da vida,
seja desdobrado de um jeito lento
na memória do que levamos ao peito.
Para que mais serviriam datas da História,
dias disto e daquilo, aniversários ...?
Dobraduras, é o que são.
Dobraduras.

Eliseo Martinez 
16.06.2016

segunda-feira, 13 de junho de 2016

62.

HOMENAGEM À DATA DE NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA (13.06.1888)





                                             I

                                ESCRITO  Nº 62

No décimo terceiro dia, do sexto mês do ano, num sítio que a curva do Tejo fez, surgia Fernando, como surgem à toa geminianos ou qualquer outro Pessoa, nos confins daqueles idos de 1888.  O segundo nome, do tal Fernando, Antônio, foi dado pelo santo do dia em que, então, anônimo, nascia.  No talo verde da infância, o amigo invisível a lhe fazer companhia, foi a primeira de muitas crias que viriam, dando-lhe o dom da suposta vida sob a alcunha de "Cavaleiro do Nada".  E, nada, também era o que se sabia da valia desse futuro obscuro funcionário que a homens de toda a parte engravidou o imaginário.  O poeta, que sendo um, seria muitos na prosa de seus versos, ampliou fronteiras que, de dentro, nos confinam em suas barreiras.  Oriente e Ocidente, por ele puxados para trás de olhos embaçados, passaram a visitar as mentes de uma maneira diferente, por tão diverso e exótico ser o mundo destas gentes.  Exaltou um quinto império que, no mar, riscou estradas de água, para lá do outro lado, seus estandartes serem levados pelas naus da real armada.  Na medonha figura de um monstrengo, lembrou seu povo do esquecido engenho, gravado a fogo e muitas dores com a espada nos sonhos de Don Sebastião Primeiro, rei louco e visionário das terras onde fez do vasto mar, o mar vasto da ilusão a  amar.  Compreensível ter se esquecido da barbárie das conquistas.  Nunca se propôs a possuir as virtudes de Deus, tampouco nele cria, algum pedaço seu.  Falava da poesia que existe e da falta de metafísica que insiste.  Fez sonetos com ácido ardor, outros com velada dor, versos brancos e negros e bordos, epopeias de lusitanas odisseias, lembrou de sua aldeia e das teias em que se enredam homens que a rodeiam, viu fundo o humano mundo...  Sem espanto, encantou com seu profundo desencanto, vestido ora
de fina, ora de pontuda ironia.  Sabedor de poetas e pensadores, não reservava a nenhum deles lugar certo em qualquer podium. Dos três em que se partia, fazia ocupar o cômodo um por vez, negando-lhes a mútua companhia.  A Ricardo Reis, tornou clássico inventor de odes.  A Alberto Caieiro, lhe pôs a guardar rebanhos. A Álvaro de Campos, depois de meter-lhe no opiário, lhe fez observar a tabacaria da mansarda em que vivia.  Além desses todos, fez-se ele mesmo Pessoa, gênio, místico, modernista irreverente, futurista à frente de seu tempo lento, habituado a ser só, na dependência de ninguém, liberto das amarras de alheios nós e, acima de tudo, também, múltiplo e lúcido...  Merda! Como foi lúcido. Traído, como é sabido, pelo próprio fígado à apenas quarenta e sete giros terrestres após ter, em nosso porto, aportado, nos fazendo menos sós com o desassossego de seu legado.  De tanto o mais a dizer, lhe digo do fundo de mim, obrigado!  Ou melhor, e menos dramático - já que o pesar da perda é máximo - te digo até breve, Fernando! quando volto a ter-te ao lado, pelos lados do Bairro Alto, tomando um fino à frente da Brasileira, e tu, ali sentado, no bronze eternizado.

Eliseo Antonio Martinez
13.06.2016



                                            II

                                    EPIFANIA

Nos idos de 1914, o diabo esmerou-se em sua ronda e com voz de obuses iniciou a sangrenta colheita, recompensando abutres e os que lucram com as contendas.  Por pura inveja, os anjos - se existissem anjos e serafins e querubins..., enfim, digamos que sim - arregaçaram mangas e, no que não seria mais que um fatídico ano, também foram ao trabalho, naquele preciso oito de março, quando estupefatos testemunharam uma mente que, por vezes, via-se doente, transbordar de poesia e inundar o quarto com tudo nele que continha.  O que ali viram jorrar, ao cabo de um naco de tempo, espalhou-se como o vento pelos cantos todos, mundo a dentro.  Naquele dia de epifania, de um só Pessoa, fez-se três, além dele mesmo, dando nome ao vendaval de "Dia Triunfal".  E, ao fim daquela tarde fria, a que certamente a confluência dos astros contribuiria, trinta e tantos poemas, como que estrelas, ascenderam à constelação, já cintilando de poesia, daquele Pessoa, nascido Fernando Antônio.  Se existiu felicidade no desassossego da alma desse homem, foi ali, exatamente ali, que ela se fez redonda e... salva.

Eliseo Antônio Martinez
13.06.2016



                                             III

Algumas poucas coisas tem a força de calar-me a boca.  Assim, sucede com o sopro da beleza que, suavemente, joga-me à cara o tosco homem que sou, dissolvendo fumos de ilusão a incensar insensatas pretensões.  Grávida é a vida quando trilha livre, para além das vias, seus desvios, fazendo valer à pena vivê-la por inteiro. Impondo-se no que é, ela torna-se o que às costas não se dá, nesse campo desfinito de pensares e sentidos para aqueles que se sabem caminhantes sem porto seguro à espera no destino.  Alguns entre nós, ampliam as formas do que a maior parte só vê tijolos no caos da ordem.  Esses, fazem de sua obra o gesto com que provocam o real, insinuando um outro por trás do nosso mundo banal, onde o que existe está léguas adiante do que alcança a vista.  Dentre os que semearam o grão do pão, que agora alimenta alma e coração, um em especial, torna inútil minha voz, fazendo-me calar para, assim, sentir melhor. É ele, um de um duo de ilustres lusos, eternamente vivo no desconcerto de seus versos, que nem no mais desvairados de seus lúcidos sonhos, previu os poucos passos que, hoje, o separam do seminal caolho - o outro do apartado par, aqui, anônimo -, compartilhando os espaços do Mosteiro dos Jerônimos.  Fico a imaginar a hora em que os curiosos vão embora e cerram-se as grandes portas. Sem demora, dois homens, que são mais que deuses, insones, juntos à passear pelo vazio das galerias, trocando versos aurora à fora.

Eliseo Antônio Martinez
13.06.2016



                                             IV

Pobre homem.  Ganhamos nós com a inquietude de suas buscas. Tão longe foi e tão pouco se encontrou.  Tanto nos deixou e com tão pouco ficou.  A metafísica foi-lhe parida a fórceps, fazendo do ócio o espaço em que, desde cedo, desassossego e melancolia assinaram o ácido de sua poesia. Cindido pela cisma de gênio, pele a dentro / inútil, pele a fora, só mesmo o descompasso do largo passo de seu imaginário para fazer de tal confusão, o poético alimento diário.  Pobre Pessoa...

Eliseo Antônio Martinez
13.06.2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

61.






Um homem sentado à frente do café,
no único movimento que se vê,
move os pequenos olhos.
No mais, o pensamento, sem freios,
corre invisível em frenético devaneio.
Uma mulher anda descalça pela calçada.
O que é, doida?
Traz à cara um olhar esgazeado,
e por trás, o pensar não é mais
que um pensar em nada.
Ele, ali. Ela, já lá.
E, assim, encontram-se
no baú dos desencontros,
tantos outros.

Eliseo Martinez
07.06.2016

domingo, 5 de junho de 2016

60.

Tempos (Pós)Modernos


Um tempo prenhe de gêmeas crises rodopia na entropia em frenética folia. Nele, festeja-se o estupro do que resta da incômoda pureza, desprezada como o leite aguado da beleza. Tudo é manipulado, se compra e se vende no êxtase do mercado, onde, mais que consumidores, finalmente, compomos o seleto clube dos empreendedores, negociando estoques abundantes de denúncias e horrores.
O que penso, por certo, está à venda. Faça sua oferta. Meu silêncio, a bom preço, é o que tu compras. O valor agregado ao produto é o que, afinal das contas, conta. E o mais valioso deles todos leva-me EU no nome, em um velho, mais que nunca, narcísico e, é claro, lucrativo mundo novo.
Enfim, livre da âncora dos impostos do que já foi chamado de nosso, o barco deste lote de humanos navega à solta, sem norte.
Somos o anjo caído da traída classe média, testemunhas da metástase dos erros, que passamos a clonar, ao sul da esfera. Mas, é claro, a luta continua.

Uma a uma, desmoronam cidadelas da resistência, tombam em suas torres seus vigias antes delas. Soam trombetas sobre os escombros das vencidas utopias.
Já não estamos sós nesta luta como desmamada cria, a empresa, agora, é patrocinada e dela espera-se quase nada.
Há tanto Lênin de ocasião que haja revolução neste pouco espaço do salão. Quem sabe, bastasse alguns, de pé, para fazer com que os homens deixassem de andar de ré?
Crescem rumores de que já não se sabe de nada, isto é o que é.
Mas, é claro, a luta continua.

Esquerda e direita fazem um pacto vantajoso seguindo o velho acordo de um deus tolo com o experiente demônio.
Estratégias de sobrevivência 4x4 articulam permanências, de imediato que, em ofertas no balcão, tem desconto no cartão. Liquidam-se táticas na agremiação. Agenciam-se novos sócios. Sensação!
Pertencer é preciso, além de ampliar o capital de giro.
Fazer parte de um consórcio de consensos, imprescindível a um bom negócio, mais, ainda, na hora do democrático voto, investindo no futuro rateio do graal do espólio.
Se preciso somos lume, se preciso, estrume.
Nosso estandarte leva um camaleão com strass em seu disfarce.
Tudo vale pra levar debaixo do braço o prêmio cobiçado, neste insólito tempo acelerado. 
Mas, é claro, a luta continua.

Mão na mão da solidão, cada um abriga-se no xenofóbico grêmio da ocasião. Lealdades? Que bobagem!
Quando o inverno nos invade, reunidos num fake de amizade, partilhamos o calor dos lençóis mijados, previamente perfumados. 
As velhas lutas, ombro a ombro, sem seguro de vitória, não são mais que cadáveres nos amarelados livros de história.
Tudo é movimento e a apólice já traz a garantia do risco calculado, e quase-confiantes avançamos para trás, como em quase tudo, como dá, semi-deslumbrados.
Mas, é claro, a luta continua.

Nossas buscas já não buscam mais que tapar buracos abertos da alma ao reto em cada um de nós, com o quê lucram as lojinhas de agulhas e retrós.
Dentre todos os assédios, o que menos tem remédio é, por certo, o eco a sussurrar no oco do tédio.
O inevitável peso da vida é balanceado numa nova vida leve, cheia do vazio que a preenche.
Medo e solidão, em sua última versão, substituem as gastas moedas de troca do amor e da paixão.
Vencemos a morte derradeira bebendo-a em pequenas doses corriqueiras.
Já não preciso saber ou crer,  - tudo é movimento, lembram-se? - basta apostar no jogo marcado, antes do giro da roleta, acertado, e contar com algum guru cego e seu cajado de plástico reciclado a imitar o galho de cedro que já não é encontrado.
Mas, é claro, a vida continua...

Eliseo Martinez
05.06.2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

59.

Por quê, assim ?


Foi só então, esvaziado de razão,
que pude ser ninguém.
E todo o nada que sou,
é tudo o que sou eu.
Ao mínimo, resumido,
liberto de membros e pensamentos,
só o que prova minha existência
são pegadas, por mim,
deixadas na areia.
Nada mais que prova circunstancial,
com tempo de validade,
a situar-me do lado oposto à eternidade.
Por fim, entendi que se escreve como se vive:
como minhoca protegida no labirinto da toca;
ou, de asas abertas,
mesmo que em linha torta,
como um tordo em voo,
sob o granizo da chuva de outono.
Na falta de caminho certo
ou reto atalho que me valha, 
ficou-me natural a escolha.

Eliseo Martinez
03.06.2016 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

58.

Sorriso Desimpedido


Dentre as muitas artes que mal, ou mesmo nada, sei
- merecendo delas diploma de ignorância -
acha-se a geometria, ciência de inequívoca relevância
ao cálculo da revolução da trajetória em arco de lábios 
acostumados a permanecerem cerrados
e concluir, sem esforço, o que não passa,
num sorriso, de esboço, um permanente ensaio,
não faltando apressados que o tomem,
em mim, pelo brilho opaco do escárnio.
O valor de algo reside na casa onde dele há falta,
assim, passei a crer na força alentadora
da graça de um sorriso desimpedido
a iluminar o rosto de uma pessoa.
Como porta e janela já foram tomadas,
reivindico ao sorriso o lugar de escotilha da alma,
uma vez que o maior dos poucos lotes de paixão
com que fui tocado, deve a ele o toque mágico.
Na verdade, revirando essas histórias,
é o que, acima de tudo e antes de mais nada,
ficou gravado em minha memória.

Eliseo Martinez
02.06.2016