Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 5 de junho de 2016

60.

Tempos (Pós)Modernos


Um tempo prenhe de gêmeas crises rodopia na entropia em frenética folia. Nele, festeja-se o estupro do que resta da incômoda pureza, desprezada como o leite aguado da beleza. Tudo é manipulado, se compra e se vende no êxtase do mercado, onde, mais que consumidores, finalmente, compomos o seleto clube dos empreendedores, negociando estoques abundantes de denúncias e horrores.
O que penso, por certo, está à venda. Faça sua oferta. Meu silêncio, a bom preço, é o que tu compras. O valor agregado ao produto é o que, afinal das contas, conta. E o mais valioso deles todos leva-me EU no nome, em um velho, mais que nunca, narcísico e, é claro, lucrativo mundo novo.
Enfim, livre da âncora dos impostos do que já foi chamado de nosso, o barco deste lote de humanos navega à solta, sem norte.
Somos o anjo caído da traída classe média, testemunhas da metástase dos erros, que passamos a clonar, ao sul da esfera. Mas, é claro, a luta continua.

Uma a uma, desmoronam cidadelas da resistência, tombam em suas torres seus vigias antes delas. Soam trombetas sobre os escombros das vencidas utopias.
Já não estamos sós nesta luta como desmamada cria, a empresa, agora, é patrocinada e dela espera-se quase nada.
Há tanto Lênin de ocasião que haja revolução neste pouco espaço do salão. Quem sabe, bastasse alguns, de pé, para fazer com que os homens deixassem de andar de ré?
Crescem rumores de que já não se sabe de nada, isto é o que é.
Mas, é claro, a luta continua.

Esquerda e direita fazem um pacto vantajoso seguindo o velho acordo de um deus tolo com o experiente demônio.
Estratégias de sobrevivência 4x4 articulam permanências, de imediato que, em ofertas no balcão, tem desconto no cartão. Liquidam-se táticas na agremiação. Agenciam-se novos sócios. Sensação!
Pertencer é preciso, além de ampliar o capital de giro.
Fazer parte de um consórcio de consensos, imprescindível a um bom negócio, mais, ainda, na hora do democrático voto, investindo no futuro rateio do graal do espólio.
Se preciso somos lume, se preciso, estrume.
Nosso estandarte leva um camaleão com strass em seu disfarce.
Tudo vale pra levar debaixo do braço o prêmio cobiçado, neste insólito tempo acelerado. 
Mas, é claro, a luta continua.

Mão na mão da solidão, cada um abriga-se no xenofóbico grêmio da ocasião. Lealdades? Que bobagem!
Quando o inverno nos invade, reunidos num fake de amizade, partilhamos o calor dos lençóis mijados, previamente perfumados. 
As velhas lutas, ombro a ombro, sem seguro de vitória, não são mais que cadáveres nos amarelados livros de história.
Tudo é movimento e a apólice já traz a garantia do risco calculado, e quase-confiantes avançamos para trás, como em quase tudo, como dá, semi-deslumbrados.
Mas, é claro, a luta continua.

Nossas buscas já não buscam mais que tapar buracos abertos da alma ao reto em cada um de nós, com o quê lucram as lojinhas de agulhas e retrós.
Dentre todos os assédios, o que menos tem remédio é, por certo, o eco a sussurrar no oco do tédio.
O inevitável peso da vida é balanceado numa nova vida leve, cheia do vazio que a preenche.
Medo e solidão, em sua última versão, substituem as gastas moedas de troca do amor e da paixão.
Vencemos a morte derradeira bebendo-a em pequenas doses corriqueiras.
Já não preciso saber ou crer,  - tudo é movimento, lembram-se? - basta apostar no jogo marcado, antes do giro da roleta, acertado, e contar com algum guru cego e seu cajado de plástico reciclado a imitar o galho de cedro que já não é encontrado.
Mas, é claro, a vida continua...

Eliseo Martinez
05.06.2016

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