Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 13 de junho de 2016

62.

HOMENAGEM À DATA DE NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA (13.06.1888)





                                             I

                                ESCRITO  Nº 62

No décimo terceiro dia, do sexto mês do ano, num sítio que a curva do Tejo fez, surgia Fernando, como surgem à toa geminianos ou qualquer outro Pessoa, nos confins daqueles idos de 1888.  O segundo nome, do tal Fernando, Antônio, foi dado pelo santo do dia em que, então, anônimo, nascia.  No talo verde da infância, o amigo invisível a lhe fazer companhia, foi a primeira de muitas crias que viriam, dando-lhe o dom da suposta vida sob a alcunha de "Cavaleiro do Nada".  E, nada, também era o que se sabia da valia desse futuro obscuro funcionário que a homens de toda a parte engravidou o imaginário.  O poeta, que sendo um, seria muitos na prosa de seus versos, ampliou fronteiras que, de dentro, nos confinam em suas barreiras.  Oriente e Ocidente, por ele puxados para trás de olhos embaçados, passaram a visitar as mentes de uma maneira diferente, por tão diverso e exótico ser o mundo destas gentes.  Exaltou um quinto império que, no mar, riscou estradas de água, para lá do outro lado, seus estandartes serem levados pelas naus da real armada.  Na medonha figura de um monstrengo, lembrou seu povo do esquecido engenho, gravado a fogo e muitas dores com a espada nos sonhos de Don Sebastião Primeiro, rei louco e visionário das terras onde fez do vasto mar, o mar vasto da ilusão a  amar.  Compreensível ter se esquecido da barbárie das conquistas.  Nunca se propôs a possuir as virtudes de Deus, tampouco nele cria, algum pedaço seu.  Falava da poesia que existe e da falta de metafísica que insiste.  Fez sonetos com ácido ardor, outros com velada dor, versos brancos e negros e bordos, epopeias de lusitanas odisseias, lembrou de sua aldeia e das teias em que se enredam homens que a rodeiam, viu fundo o humano mundo...  Sem espanto, encantou com seu profundo desencanto, vestido ora
de fina, ora de pontuda ironia.  Sabedor de poetas e pensadores, não reservava a nenhum deles lugar certo em qualquer podium. Dos três em que se partia, fazia ocupar o cômodo um por vez, negando-lhes a mútua companhia.  A Ricardo Reis, tornou clássico inventor de odes.  A Alberto Caieiro, lhe pôs a guardar rebanhos. A Álvaro de Campos, depois de meter-lhe no opiário, lhe fez observar a tabacaria da mansarda em que vivia.  Além desses todos, fez-se ele mesmo Pessoa, gênio, místico, modernista irreverente, futurista à frente de seu tempo lento, habituado a ser só, na dependência de ninguém, liberto das amarras de alheios nós e, acima de tudo, também, múltiplo e lúcido...  Merda! Como foi lúcido. Traído, como é sabido, pelo próprio fígado à apenas quarenta e sete giros terrestres após ter, em nosso porto, aportado, nos fazendo menos sós com o desassossego de seu legado.  De tanto o mais a dizer, lhe digo do fundo de mim, obrigado!  Ou melhor, e menos dramático - já que o pesar da perda é máximo - te digo até breve, Fernando! quando volto a ter-te ao lado, pelos lados do Bairro Alto, tomando um fino à frente da Brasileira, e tu, ali sentado, no bronze eternizado.

Eliseo Antonio Martinez
13.06.2016



                                            II

                                    EPIFANIA

Nos idos de 1914, o diabo esmerou-se em sua ronda e com voz de obuses iniciou a sangrenta colheita, recompensando abutres e os que lucram com as contendas.  Por pura inveja, os anjos - se existissem anjos e serafins e querubins..., enfim, digamos que sim - arregaçaram mangas e, no que não seria mais que um fatídico ano, também foram ao trabalho, naquele preciso oito de março, quando estupefatos testemunharam uma mente que, por vezes, via-se doente, transbordar de poesia e inundar o quarto com tudo nele que continha.  O que ali viram jorrar, ao cabo de um naco de tempo, espalhou-se como o vento pelos cantos todos, mundo a dentro.  Naquele dia de epifania, de um só Pessoa, fez-se três, além dele mesmo, dando nome ao vendaval de "Dia Triunfal".  E, ao fim daquela tarde fria, a que certamente a confluência dos astros contribuiria, trinta e tantos poemas, como que estrelas, ascenderam à constelação, já cintilando de poesia, daquele Pessoa, nascido Fernando Antônio.  Se existiu felicidade no desassossego da alma desse homem, foi ali, exatamente ali, que ela se fez redonda e... salva.

Eliseo Antônio Martinez
13.06.2016



                                             III

Algumas poucas coisas tem a força de calar-me a boca.  Assim, sucede com o sopro da beleza que, suavemente, joga-me à cara o tosco homem que sou, dissolvendo fumos de ilusão a incensar insensatas pretensões.  Grávida é a vida quando trilha livre, para além das vias, seus desvios, fazendo valer à pena vivê-la por inteiro. Impondo-se no que é, ela torna-se o que às costas não se dá, nesse campo desfinito de pensares e sentidos para aqueles que se sabem caminhantes sem porto seguro à espera no destino.  Alguns entre nós, ampliam as formas do que a maior parte só vê tijolos no caos da ordem.  Esses, fazem de sua obra o gesto com que provocam o real, insinuando um outro por trás do nosso mundo banal, onde o que existe está léguas adiante do que alcança a vista.  Dentre os que semearam o grão do pão, que agora alimenta alma e coração, um em especial, torna inútil minha voz, fazendo-me calar para, assim, sentir melhor. É ele, um de um duo de ilustres lusos, eternamente vivo no desconcerto de seus versos, que nem no mais desvairados de seus lúcidos sonhos, previu os poucos passos que, hoje, o separam do seminal caolho - o outro do apartado par, aqui, anônimo -, compartilhando os espaços do Mosteiro dos Jerônimos.  Fico a imaginar a hora em que os curiosos vão embora e cerram-se as grandes portas. Sem demora, dois homens, que são mais que deuses, insones, juntos à passear pelo vazio das galerias, trocando versos aurora à fora.

Eliseo Antônio Martinez
13.06.2016



                                             IV

Pobre homem.  Ganhamos nós com a inquietude de suas buscas. Tão longe foi e tão pouco se encontrou.  Tanto nos deixou e com tão pouco ficou.  A metafísica foi-lhe parida a fórceps, fazendo do ócio o espaço em que, desde cedo, desassossego e melancolia assinaram o ácido de sua poesia. Cindido pela cisma de gênio, pele a dentro / inútil, pele a fora, só mesmo o descompasso do largo passo de seu imaginário para fazer de tal confusão, o poético alimento diário.  Pobre Pessoa...

Eliseo Antônio Martinez
13.06.2016

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