ÂNIMA
O Esteves, conhecido do Pessoa, que a sua revelia continuou a existir na prosa de outra literatura, aquele mesmo Esteves da tabacaria, privado de metafísica por excessos da poesia, fora do círculo fechado que lhe foi riscado, diria que a alma é o conjunto das subjetividades de uma pessoa. E, ai, enfiaria como numa guia, miçangas de inconsciência e espiritualidade, psiquê, ilusões, memórias esquecidas, fantasias, afetividade ... , intercaladas todas com indefinições de formas a serem, ainda, precisamente definidas que dariam ao fim e ao cabo um colar sem contas de poesia.
De fato, o próprio Pessoa poderia fazer uso do lúcido pessimismo para dizer que a alma é coisa nenhuma, uma necessidade inventada pelo vazio dos homens. Apenas uma vontade de lugar, que a um só tempo, ronda em volta e transita por dentro, um etéreo almoxarifado onde pudéssemos jogar o mais substancial do sublime que existe ou pensa-se existir em nós encerrado. O incorruptível de cada um, o intocado de cada qual, a promessa inebriada de reserva última e bem guardada de uma beleza qualquer. Uma metáfora feita de dúbias certezas. A alma seria apenas outro dos aparatos que inflam com grandeza a pequenez dos homens, partilhando da mesma natureza que gerou a felicidade, o amor, a justiça, a verdade e, é claro, a utilidade de deus e de seu duplo invertido, o demônio, por vezes mais útil e divertido. Só um jeito de sermos mais do que nos pomos, uma desculpa pelo pouco que somos, a despeito do muito que imaginamos. Um truque da imaginação para nos tornar suportáveis perante nós mesmos.
Mas, vejamos... Limpo o campo, desta e de todas as ilusões e mitos dos homens - como estivesse a ser varrida a entrada da tabacaria -, ao término do árduo trabalho, parece faltar algo neste areal de desencanto. Mesmo que já livre do inço divino, saciados de realidade, é de se imaginar que, de tão árido, não nos restasse o que fazer a não ser voltar a espalhar sementes de felicidade, de amor, de justiça, de verdade e, ao fim, como faltando, ainda, algo mais a compor os vãos do espaço todo, nos vemos a semear com grãos de coisa bem diferente, intrínseca a toda a gente, que vai dar numa bruma primordial que, fora do alcance da vista, parte de cada um e a tudo invade como raiz essencial, uma imanência a nos remeter ao solo das transcendências.
E vai que apareça alguém desavisado e passe a chamar isso de alma?
Eliseo Martinez
28.06.2016
Todo homem é provido de intelecto e coração, não podemos negar. Mas também de algo que é comum entre todos que é a esperança. Então, não seria essa esperança, esse sentimento de que existisse algo maior, que o ajudasse ou protegesse em momentos difíceis da sua existência? Uma utopia substancial, um alento para suas aflições? Desejar acreditar na existência da uma alma ou de um deus? Isto lhe traria maior auto confiança, uma certa tranquilidade e por que não dizer uma certa felicidade. Certamente que existindo ou não almas ou deuses logo fará alguns seres humanos sentirem-se melhores e mais tranquilos.
ResponderExcluirRelendo mais uma vez este monólogo sinto a necessidade de afirmar também que um sentimento nobre de altruísmo ou amor entre duas pessoas não poderia ser algo meramente físico mas de um sentimento puro não material se não que de uma seção superior do homem, sutil e abstrata para nosso mundo físico. Assim como não percebemos o ar que respiramos não conseguimos perceber de onde parte a emoção de uma paixão tempestuosa se não que é ela, essa estranha, invisível chamada Alma.
ResponderExcluirBelos comentários! Repletos de uma inquietude geradora. Poderia ter se identificado. Nossas respostas, não metafísicas, são como setas que se dirigem melhor a alvos certos.
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