Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 20 de junho de 2016

65.

IR e VIR


Por ora, era do que necessitava, ter a fina linha que me prende ao mundo cortada.  Abastecer-me de sons, cores, ruas, literatura e - da primeira de suas filhas - poesia.  Abandonar-me a escrever, ou ler, ou mesmo, nada fazer e, no entanto, fazer-me pessimista, sem o ser.  Submeter o formal da ética ao paradoxal da estética.  No retorno da planície fria, e da náusea que tão bem a define, para perder-me no amplo mundo, com passo mais que largo, fundo.
Nada tão farto de morte quanto o ato de negar à vista o entorno, sob o horizonte próximo do cotidiano, esquecido do vital exercício de ir e vir ao que chamam real - o lado escuro da existência, a um só tempo, seu elixir e veneno letal.
Contaminar-me com odes de Mensagem, fazendo do extenuado caminhante, incansável navegante, à singrar mares de palavras na vazante da alma, levado por ventos em versos para além dos tempos que me cercam.
Sem terra à vista ou porto seguro que exista, jogar os remos n'água, deixando a nau à deriva.  E, assim, largado ao acaso, apenas movido pelo fluxo e refluxo das marés que me invadem,
dispensando bússola e sextante à guiar-me, ser o que sou, resumido a meu respirar.
Só ai, girar a vista para dentro e, lá, nada procurar por nada ter a encontrar, apenas espraiar o olhar, e me re-conhecer no vasto vazio, que também sou eu.  Como o silêncio das pausas que fazem do que são o som das notas deitadas às pautas.  Mais que niilista, solipsista.
Já livre de laços, agora, desatado das delgadas perspectivas e, de suas primas, as roliças expectativas, liberto de mim.
Desgarrado como um gato que, para sentir-se livre no espaço, cai telhado abaixo.

Eliseo Martinez
20.06.2016

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