Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

114.

A Paz de um Dia

Manhã de sol ameno,
no canto da praia do Zelo,
o que se deu, deu-se como devia,
sem medo, sem serventia,
coisa crescida a nada de pressa e tempo cuidado,
como bem se sabia entre o povo da aldeia.
Bem acima da cena,
em imprevista trajetória,
astros errantes se alinharam em foice
e desejos contidos se incendiaram ao longe.
No leito de pedra alisada a água, sal e vento,
um fio escarlate, ainda quente,
escorria na laje, lentamente.
Jovens enamorados, deitados lado a lado
com olhos no azul dos ares,
jurados um do outro
e já aquietados de tudo,
no afloramento das rochas,
defloravam-se a pouco,
suspensos na harmonia redonda de um dia
que só se percebia a mover
no tombo manso das ondas,
no sobrevoo das gaivotas em bando
e em dois corações despassarados, revoando.
Ainda que fossemos filhos do copeiro dos deuses,
dos tantos que inventamos pra por a correr
um único demônio a serviço deles,
de dias escoados à sombra curva das esferas,
se fariam os dias que nos cabiam,
como os consumados pelos amantes em festa.

Eliseo Martinez
24.02.2017

113.

Palavras


Palavras só dizem - se é que dizem -,
para além dos sons derramados
pelas bocas escancaradas.
O sentido mais preciso do que é dito
é sempre a potência de um ato,
uma promessa, não um fato.
Como um horizonte que se vislumbra ao longe,
mas jamais se toca a fonte.
O conceito é a aposta hardmetálica,
o altar mais alto dessa obstinada vontade
de abraçar a verdade do que profere a fala
mas, mesmo ele, míngua e escorre na pouca idade,
vitimado pelo diverso do espaço,
o corrimento do tempo vazado
ou a má fé dos que envenenam diálogos.

Eliseo Martinez
22.02.2017
112.




Somos a soma multiplicada
de nossos personagens.
Sem o diretor, que desertou,
só contamos com o sentido
dado pelo cronista
que em nós habita,
o empenho da trupe,
o imaginário da plateia
carente de arte,
a resistência da lona
e mais nada que valha,
além do que mate a fome.
E, tantas são
as fomes do mundo todo!

Eliseo Martinez
20.02.2017
111.

No mínimo, dois


Acima da noite escura,
feita de nuvens negras
bordadas de chumbo e prata,
o olho redondo observa tudo,
sabe nada.
A brisa suave de baixo
é mais forte ao alto e, incansável,
de tanto soprar e soprar e soprar,
acaba por furar o breu dos ares.
O olho que tudo vê,
vê um vulto de camisa rosa
chapinhando pés descalços
pela água morna.
A mente, levada pelo tal corpo,
segue em passo outro.
Ela, sem norte que a oriente,
perde-se em abandono, indiferente.
As pernas, ocidente,
perseguem metas, levam e trazem,
calculam até onde e possíveis retornos.
O um que todos veem ao longe,
da calçada iluminada,
é multidão, no mínimo dois,
que passam pra lá da margem,
que é bem mais que margem,
é um tigre de prata, selvagem.
Só o olho sabe.

Eliseo Martinez
18.02.2017

110.




Que mais são expectativas
senão falsas ninfas
que mamulengam vidas.
Transitam à pele dos desejos,
fazendo de um beijo 
ainda a ser dado,
um reino conquistado.
Enfim, são crias criadas
que tendem a nada.

Eliseo Martinez
16.02.2017
109.



As pegadas, tuas e minhas,
trançadas nas areias da praia brava,
já são nada ao serem pisadas.
São as provas fugazes
de solidões que se acompanham.

Eliseo Martinez
14.02.2017
108.




Mais do que a beleza,
é a caca do mundo
que me faz atar palavras,
arrogado a tirar mais delas
do que se pretendia ao concebê-las.
Para o naufragado
a salvação está nas tábuas
de uma quem sabe jangada.

Eliseo Martinez
12.02.2017
107.

A luz de prata da lua cheia
faz das canoas da enseada de Garopaba,
fantasmas que marulham sobre as águas.
Quando não mais existirem homens,
esta curva líquida
estendida entre rochas
ainda servirá de abrigo
ao revoar indiferente das gaivotas.

Eliseo Martinez
10.02.2017
106.


Produções humanas: o afeto

Não, os homens não inventaram essa forma 
de se fazerem melhores.
O afeto precede a espécie, não sendo estranho
nem mesmo ao mundo de carnificina das feras.
Sempre há o que ver, e enternecer,
nos jogos das fêmeas com os filhotes;
o voo em par dos pássaros;
o aninhar dos gatos do mato...
Agrados de seres, por vezes, selvagens,
produto popularizado pelos canais pagos.
Mas, é claro, se não inventamos o afeto,
o reinventamos, por certo,
deitando nele nosso toque,
enfeitado a demasia,
ornado de renda e brocado,
inchado de fantasias.
Me ocorre se com os bichos
nãos se passe melhor que isso.
Pensamento tolo, esse, sem eira ou serventia!
Será, mesmo? Vejamos.
Que mais é o icônico amor romântico
do que o encaixotamento dos apaixonados amantes?
Como pode se dar que o melhor em nós,
encerre, em si, o que mais nos dói?
Se não nos fartássemos no banquete dos afetos,
não padeceríamos de amores desfeitos,
sobrevivendo na contingência de restos.
Não morreríamos vezes sem conta em um único dia
sob o peso medonho da perda
ou, quando a sua procura,
nós mesmos nos perdemos.
Sem contar o anverso do verso
contido nos sorrisos fingidos,
agrados falsificados,
flores eternas, de plástico pintadas,
tresloucados gozos não gozados,
nas declarações de amor adulteradas,
que são facas cravadas às costas
daquele que te põe alma e dentes à mostra.

Eliseo Martinez
08.02.2017
105.

Menininha

Tu, entre as escolhidas da Senhora da Vida,
que passa em alvas batas, saltos altos, mansas falas,
na delicada transcendência, ao deslizar por ela,
despertou curvos olhares da outra em negros panos metida.
Sem o saber, ofendeu brutos com a graça de teus gestos
e o som da voz que musicaste.
Se não deixaste as tuas, conduziste com maestria as crias
de tantos outros que com amor educas e ensinas.
Decidiste por tua conta, tingir de azul uma lagoa encarnada,
onde deitam tuas raízes, levando-a junto ao peito
por terras que se banham noutros mares.
Por teus dotes, não menos que o próprio Destino foi incumbido
de fazer girar a roca e lançar-te as sortes,
sendo severamente punida pelos cegos guardiões
das tábuas que a tudo equilibram.
Ao longo da jornada, vezes sem conta, tua culpa foi provada.
E tu, o que fazes para defender-te da malta rude
que das sombras de insulta?
Simula dar de ombros, como se imune às mágoas fosse.
Risca um sorriso amável nos lábios,
joga teus negros cabelos pro lado
e segue adiante, sabe-se lá a que custo,
mantendo a candura e o fino trato que, 
em rápidos traços, definem teu retrato.

Eliseo Martinez
06.02.17

domingo, 5 de fevereiro de 2017

104.

Assassino


Depois de tudo deixado à sorte
ou encomendado à morte,
o assassino se recolhe
para labirintos escuros da mente,
por instinto ou teimosia,
onde tateia cego a busca de algum canto
que oscile à luz pálida de vela pouca,
lume que baste a escassa poesia,
a comutar-lhe as penas,
redimindo-o até o banho de sangue
do próximo dia.

Eliseo Martinez
05.02.2017
103.

Beleza

A Beleza não é algo que se toque,
que se ouça ou, mesmo, que se veja.    
É parto raro, de humana natureza.
É nota ativada pela centelha do espírito
a soar sublime na alma em neblina,
sob a reverente curva do tempo
que desacelera e,
no instante em que para, a reverbera.
Por vezes, ainda mais raro,
a Beleza se faz solista regida pelo acaso,
que passa a orquestrar sons
vindos sabe-se lá de que lado,
numa improvável sinfonia,
que homens passaram
a chamar de Felicidade,
fechando o círculo perfeito
em sua mais completa harmonia,
sob olhos gratos que se desfazem
com o beijo ardente da vida 
nos refrescantes lábios da morte,
aninhada em seus braços.

Eliseo Martinez
05.02.2017

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

102.

Da Natureza do Real


É quase que automático. O exercício de parar e refletir nos transforma em insanos jardineiros do absurdo, remexendo campos arados por sólidos concertos inventados.
Dentre tudo que engendramos, por certo, o que menos se revela a nós, criadores, é a substância íntima do real, esse invento gravado quadro à quadro no filme rodado na mente ativa dos semelhantes, repassado ao contido e ao continente circundante.
O que é a realidade, afinal, que escapa à inconteste tangibilidade do tijolo, sabido de massa, peso e contorno?
Provavelmente, o resto de ser que lhe resta do projeto. Uma produção do olhar; de cada olhar de um feixe de olhares. Uma representação singular, entre as múltiplas que se movimentam com passo incerto pelo espaço, sob ventos do tempo, a esmo, soprados. Serpentes de ilusórias certezas a rastejar pelo chão acidentado da História, alimentadas a frágeis verdades extraídas dos mitos da hora.
O não-ser do real nos condena a reinventá-lo para sempre, denunciando o indomável caos que habita o coração da ordem imaginada.
Nos convém acreditar num piso sob os pés, ladeado pelo corrimão à mão.
Deste velho dilema, já nos idos de mil e seiscentos, Calderón de la Barca, insultando o bom senso da época com "La Vida és Sueño", fez o que fez: mais que ciência, arte.
Na ousadia de se deixar inquietar ao confrontar os sinais, partiu à busca e ver mais. Fez-se visionário como os gregos que o antecederam e os tantos outros que cogitaram sobre a natureza mutante da realidade, na obstinada crença numa verdade outra, mais sofista que socrática.
Época instigante, a nossa, que nos leva a tocar a complacente tensão superficial da pele líquida do real.
Alguém dirá que a pulsão da morte banalizará. Alguém dirá que, fenecidas as flores do mal, formidáveis conquistas do conhecimento abrirão portais ao entendimento.
Por que não? Que seja! Mais nos serve acreditar que, ainda que errantes caminhantes, caminhamos eventualmente para frente...
Das rupturas todas que o devir nos reserva, a ruína da crença nos consensos - onde verdade nada mais é do que a perene insuficiência do acordo possível entre o irreconciliável das partes, ao comando da desproporção das sortes - talvez fermente o suficiente para pôr em questão o sentido de tudo, escancarando, assim, os tais portais de um radical novo mundo.

Eliseo Martinez
02.02.2017