Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sábado, 31 de dezembro de 2022

431.

Muros róseos

Tu, minha querida,
és cria das circunstâncias
e dos revezes de meus dias.
Afora isso, é a ponte
que me liga a vida e muito
do ar que alimenta o corpo,
já sem mesma serventia.
Despido o amor de toda a fantasia,
não se encontraria ele nu
na aridez destas poucas linhas?
O mal bem pode nascer
dessa obsessão em se pensar a vida,
querer descarnar o impossível,
além, é claro, de lhe dar
algum errático sentido,
depois de nos quebrar os ossos
contra os muros róseos do romantismo.
Talvez falte dessacralizar o amor
e simplesmente amar,
e mais que olhar, falte enxergar.
Talvez falte tudo com que
as fomes do mundo se saciaram,
com mãos nuas,
sem talheres ou guardanapos.
Mas, que fazer da imaginação
e das imagens que desde a semente
nos acompanham?,
fico a perguntar da fila ao tempo
que, no entanto, indiferente,
é tão surdo quanto o vento.

Eliseo Martinez
31.12.2022

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

430.

Boas histórias

Se Deus está morto,
a vida é coisa
do mundo dos homens.
Se Deus está morto,
o mais certo é que
por aqui mesmo
se dê conta das coisas.
Se Deus está morto,
nem mesmo ao Diabo
está garantido lugar ao trono.
Mas... Deus não está morto!
Assim como as belas mentiras
que a muitos encantam,
boas histórias não morrem
enquanto houver
alguém que as conte.
E quando já não houver
quem que o faça,
covardia, medo e ignorância
arranjarão outras,
que nos sussurrarão
ao ouvido, de graça,
em meio a escuridão
que preenche o vazio
dos espaços.

Eliseo Martinez
19.12.2022

sábado, 17 de dezembro de 2022

429.

Mensagem a um futuro
não muito distante

Olá, minha querida!
Do muito que te reserva a vida,
começo pela parte mais difícil.
Vais sofrer, pequena!
Não, não leio o futuro,
nem sequer bruxo sou.
Tampouco prever-te as mágoas
me faz bem ao coração.
É que vivi e, se vivi, foi por amar
a vida, do contrário teria apenas
existido e nada em mim restaria
a ser dividido.
Sim, eu sei!
Vão pôr-se em fila para contar
das vezes em que me perdi
e dos erros que cometi.
Mas, te adianto eu que, também,
outras tantas me encontrei
e estou aqui, pensando em ti.
Não há jeito diferente
de passar por esta estrada,
nem bom seria se fosse ela
completamente asfaltada.
Ainda há pouco,
ao entregar teu estimado bico
ao velho de barbas brancas
vestido de vermelho, agarrada
a um ursinho de pelúcia,
li em teu rosto
o esboço de uma angústia.
Nunca permita que o medo
fique no comando, é coisa dele
estar sempre nos rondando,
e é bom que saibas, por vezes,
ele será nosso único aliado.
Se algo nos torna fortes,
não são as facilidades
que nos vêm de graça,
mas os obstáculos levantados
ante nossos passos.
Soa estranho, bem sei!
Mas vou tentar te explicar,
minha querida.
Pobre do que vive imune
ao sobressalto ou apenas
para contornar as pedras
que magoam seus pés descalços,
sem olhos na paisagem
e nos que passam,
sem tino de se deter
ante o céu estrelado,
a fúria do mar encapelado
e as noites enluaradas, sem jeito
de por o encanto no olhar
antes mesmo do que há
para ser olhado.
Além do mais, o tédio
é a erva daninha que cada um
decide ou não regar.
Tão menina, ainda!
Mal chegaste e já me encontro
de partida.
Assim mesmo é a vida.
Não vou te mentir que estarei
contigo onde fores,
não creio que haja outro lugar
para se estar senão este
em que nos vemos a caminhar.
Ai daquele que não aprendeu
a andar só, nem sempre
haverá alguém junto de nós.
Mas te digo, minha menina,
pensa em mim quando eu partir
como alguém que sempre
te aguardou e, antes mesmo
da tua semente ter brotado,
te amou.
Como tu, que não estavas,
também eu não estarei.
Isso pode te ajudar.
Se quiser apenas um motivo
para o que te digo, eu dou:
confia, tu és muito mais que tu,
semente semeada com amor.
És a soma de mulheres de valor,
algumas delas, preciosas
gotas agridoces com que
o destino me presenteou.
Sem elas, ainda mais difícil
seria saber quem sou.
Então?! Se te preveni,
não foi para te amuar.
Com estas poucas linhas
deixo-te a tarefa de escrever
a peça toda.
Anda, começa a rabiscar!
Te desejo uma escrita colorida,
tingida de genuínas alegrias;
que as nuances da beleza
te acompanhe pela vida inteira
e o amor seja coisa corriqueira.
E o mais importante é isto:
não te vislumbres com o que
flutua à superfície, sempre
experimenta tocar o fundo
do que for imprescindível.
Foge da preguiça,
ela entorpece a mente
e entumece as vísceras.
Escreve! A obra é toda tua.
Tem folha e tinta na gaveta
à esquerda da escrivaninha.
Na dúvida, é a gaveta 
que sempre tens de abrir,
minha garotinha.
Vai! Vai, mas não te esquece,
cuida com o tempo,
ele é um amigo traiçoeiro.
Quando menos se espera,
ele nos faz ver o que há
no fundo do espelho.
É o que tenho a te dizer
neste 17 de dezembro,
ao soprar os quatro lumes
de teu bolo sem açúcar,
a primeira pedra do caminho
que, cheio de orgulho,
observo como pulas.
E, uma a uma, tu pulas,
brava menina de muitas luas.
Um tanto de Ana Terra,
outro tanto de Anita e outro,
ainda, de Blimunda...
Feliz aniversário, Izabel!

Eliseo Martinez
17.12.2022

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

428.

Em resumo, o que sou

Minha cabeça aprisiona
toda a poesia livre de rima
que meu coração, intestino,
testículos e fígado
já produziram.
Tal caleidoscópio de imagens
não está degrau acima,
degrau abaixo
que qualquer outro.
São as minhas imagens,
as que pude dar contornos,
inclusive as incongruentes
que perturbam meu sono.
Enfim, com uma dose
de estoicismo e duas de afinco,
somos tudo aquilo que
nos empenhamos em ser,
mais a fuligem produzida
por esse insano querer.
Ainda que não sejamos
mais fortes que a realidade,
por vezes, descuidada,
ela sai pra tomar uma cerveja.
É quando as brechas se abrem
ao acaso e, naturalmente,
articulam incertezas.

Eliseo Martinez
16.12.2022

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

427.

Cachoeiras

Com voz grave 
e convicta do que dizia,
uma velha e sábia mulher,
certa vez, me aconselhou:
"nunca confesse, meu filho,
nunca confesse!"
No entanto, te confesso eu:
dos conselhos sinceros
que aquela mulher me deu
foi o que quase nunca segui.
Não pelo imperativo moral,
pelo qual jamais me seduzi.
Mas, talvez, porque meu amor
seja como as águas turbulentas
que correm como podem,
pelo regaço dos vales,
entre as rochas,
recusando-se a empossar
por onde passam,
sempre prestes a lançarem-se
do alto do penhasco
no abismo que as abraça,
para surgirem outras,
em alguma outra parte.

Eliseo Martinez
13.12.2022

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

426.

A invenção da esperança

O que sobrevive, em nós,
da criança que já fomos,
renasce nos festejos de dezembro,
este tempo meio fora de lugar,
animado pela crença popular
de deixar os males para trás.
Logo irromperá um ano novo,
prenuncia a matemática dos calendários,
colados à porta dos armários.
Que venha logo, diz o povo,
dando a todos fôlego novo.
Sim! Todo o mal será redimido
e o bem que há de vir,
enfim, jamais vencido.
Antes mesmo de pronunciada
a palavra esperança,
quem não guarda de algum dezembro
gratas lembranças,
senão do que se deu,
ao menos, do que ele prometeu,
tal qual encanto de bolhas de sabão
enquanto não se desfazem
ao tocar o chão?
Pelas frestas abertas nestes dias,
que se renovem as utopias
e não faltem ouvidos
para ouvir o canto da cotovia,
ensejando cada conviva a coar
da turva vida gotas cristalinas
da mais inocente alegria.
Assim, votos de bons auspícios,
se multiplicam por todo o lado,
saltam boca afora, pelos lábios,
replicam em sorrisos
e a âncora do justo é lançada ao infinito.
Sim, tudo se inventa, tudo se cria!
Que grande mal seria
se quem inventou o tijolo e o muro,
que aprisionam, esquecesse
de inventar, também, os sonhos,
por insensatos que forem?
A esperança, essa ilusionista,
logo ela, irônica e dúbia,
com seu sorriso cândido de medusa,
segue sendo o que sempre foi
desde que uma tão curiosa Pandora
a encontrou no fundo da caixa
que abrigou prendas
por demais assustadoras.

Eliseo Martinez
01.12.2022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

425.

A invenção da escrita

Vigora, por ai, a crença
de que se escreve sempre
o que se pensa
e, isso, desvende o escriba
e seus íntimos pensamentos.
Um belo exemplo
de que juízos planos não passam
de resumos mal feitos,
eivados de enganos e preconceitos.
Por vezes, aquele que faz uso
da palavra articulada
ambiciona apenas sair
a busca de si mesmo,
por outras, lhe contenta o passeio,
sem ultrapassar os limites
de suas fantasias e medos.
Escrever pode ser como o rastro
deixado n'água pela canoa do pescador
que sai atrás do pescado, há muito,
já não avistado àqueles lados.
A mensagem da palavra pode ser nada,
um desabafo, um grito ao acaso
e não o sólido tijolo de barro
com que se ergue a casa
ou reveste-se a cela do condenado.
Seja pela pena de um escritor
ou pelo teclado do computador,
muito do que se escreve,
escreve-se alheio a qualquer rigor,
como o calo com que acostumamos
por já não nos causar dor.
Escrever é, antes de mais nada,
um ato acovardado de liberdade.
Muito do que é escrito ecoa
de um sítio incerto,
nas entranhas de quem escreve,
nem ele mesmo sabendo ao certo
que causa estranha o impele.
Rios caudalosos também se formam
pelos igarapés que os engrossam,
depois de murmurarem na escuridão
da selva, por onde correm.
Quanto do que nos vai a dentro
encontra-se aprisionado como
as águas turvas de um lago...
Não me sigam, não me citem,
não vale a pena,
pois os tantos e tão contrários
que em mim habitam,
a todo o momento se contradizem.
Provocar o que pulsa impreciso
no íntimo dos que cogitam pode
ser a mais instigante premissa
de uma escrita.
Nada mais conveniente,
nestes tempos de pós-verdade,
do que se arvorar a denunciar
o farsante e a suposta falsidade
das palavras que dele partem.
Se quisermos falar de verdade,
é bom que se comece a procurá-la
sob as camadas soterradas,
onde talvez exista um eu,
sufocando num mar de nada.

Eliseo Martinez
22.11.2022

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

424.

A invenção do amor

Nos primórdios da raça,
não se conhece do amor,
uma única pegada.
Com toda a inquietude
que faz do tempo movimento,
aconteceu que, dos seres
da natureza, coube aos homens
semear grãos de fantasia
no areal da solidão
que desde sempre os envolvia.
Imersos na própria nostalgia,
criaram, os humanos,
estados d'alma, desatinos,
ensandecidas simpatias
que apenas as suas divinas
crias pertenciam.
À busca de poder e algum alívio
à aridez da vida, erigiram altares
e em cada um deles
colocaram seus ídolos
vestidos com finos trajes.
Giraram astros, girou o mundo
e, assim, do nada, tomados
de uma súbita e incontida alegria,
começaram a falar de amor
no fim de alguma tarde fria.
Haverá sentimento
mais controverso que esse,
inventado nos idos daquele dia?
Desde então,
aos que não basta saber dele,
muito se fez para descoser o amor
do nó em que o meteram para
correr o risco de compreendê-lo.
A meio do caminho,
no Cântico dos Cânticos,
veio Salomão e equiparou a força
do amor ao poder da morte;
já dos ciúmes, que o corrói e torce,
o fez duro feito a laje de um túmulo.
Camões ousou mais, mas só cobriu
o amor de mais mistérios com
seu fogo que arde e não se sente,
seu contentamento descontente.
Muitos o ornaram
com as guirlandas mais românticas;
outros o renegaram, por destinar-se
ao fel do desencanto, verdadeiro sol
de um reino de desesperança.
Talvez seja difícil compreendê-lo
por não ser o amor uma só coisa,
mas um misto agridoce
dos sentimentos todos ou
coisa alguma além do desvario
da imaginação travessa a pregar
peças por trás das cercas.
Em algum lugar,
no silêncio de um apartamento,
dando asas aos pensamentos seus,
alguém escuta Madredeus...
E, ele, pensa assim:
com tudo o que do amor já foi dito,
falta saber do que falavam
teus lábios rubros,
quando com olhos negros
nos meus olhos duros,
me diziam "amor de minha vida",
fazendo arder em mim
esta febre que não cura.

Eliseo Martinez
16.11.2022

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

423.

Grupo de WhatsApp
(Mensagem aos de casa)


Nestes tempos encarniçados, que recado se poderia deixar aos
de casa, quando as escolhas seriam óbvias se nos concentrássemos nos fatos?
Mas os fatos nunca precisaram ser mais interpretados do que
hoje, nestes tempos de pós-verdade.
Eu, filho, irmão, pai, avô, tio e cunhado, dos que fazem parte
deste pequeno grupo de pessoas, fugindo do habitual "recorta e
cola", resolvi compartilhar algumas ideias com vocês, meus
queridos parentes.
Espero que não me queiram mal com o que tenho a dizer,
tampouco que, pela leitura não estar exatamente na ordem do
dia, o que vai aqui escrito seja de antemão posto de lado por ter
me alongado.
De fato, acho bem necessário que algumas palavras sejam ditas
neste momento em que os acontecimentos no país apontam para
graves mudanças, que visivelmente já estão afetando nossas vidas, inclusive a nível das relações interpessoais.
Em primeiro lugar, queria falar do TERRITÓRIO, que nada mais é do que o espaço de trocas de um grupo, de um coletivo.
Nós, familiares, formamos um desses coletivos.
Um coletivo de natureza diferente do que o grupo da empresa em que trabalhamos, do condomínio do edifício em que moramos
ou, mesmo, dos membros das comunidades de interesses diversos que, por ventura, nos afiliamos.
Somos um coletivo de sangue, um COLETIVO DE AFETO.
Pois bem!
Transformações históricas estão continuamente se processando no interior da sociedade e a formação social a que chamamos
"família", não escapou delas.
Se partirmos do tempo de minha neta, quem nos fornecia o território do encontro era minha avó, há cinco gerações atrás.
Aquele era um TERRITÓRIO FÍSICO, a casa da vó, onde o conjunto amplo da grande família reunia-se não uma, mas várias
vezes ao ano, por ocasião de aniversários, Páscoa, muitos fins de
semana e, obrigatoriamente, do Natal.
Era lá que fazíamos nossas trocas, sabia-se uns dos outros, resolviam-se problemas, nos divertíamos, confraternizávamos e, por vezes, também era o palco em que se desenrolavam nossos pequenos conflitos, que nunca deixaram de ser rapidamente
superados, como bons descendentes de italianos que somos.
Ou seja, um ambiente saudável, interativo, fraterno e, especialmente, vivo.
O território físico das trocas familiares praticamente deixou de existir para a grande família, restando os espaços pulverizados
das nossas famílias nucleares, às vezes, nem isso.
Hoje, esse espaço ainda resiste, com menor constância quando nos reunimos no dia das mães ou para homenagear nossa 
matriarca em mais um ano de vida.
Se o território físico praticamente deixou de existir como espaço das trocas afetivas, ele passou a existir como TERRITÓRIO
VIRTUAL, em grupos como este, no ambiente midiático, o insólito metaverso.
É o que temos para o momento!
De fato, este é o espaço possível das trocas cotidianas nestes tempos acelerados.
Se é bom ou ruim? Não vem ao caso!
Assumi a tarefa e a responsabilidade de tomar o tempo de todos aqui para ressaltar exatamente isto: que este espaço é o que
temos para exercer nossas trocas de afeto.
Não é o lugar para se fazer a cabeça de ninguém, impor ideias, seja de que tipo forem.
Mas é, sim, o espaço em que pessoas que se gostam e respeitam, podem e DEVEM se manifestar.
Manifestar-se sobre arte, culinária, causos, abobrinhas, ... e, por quê não, política, já que é algo que afeta a todos?
Afinal, somos suficientemente inteligentes para isso e igualmente bem formados para tanto.
Assim como manifestar-se sobre qualquer ideia que seja importante para cada um.
Ideias que permitam melhor nos conhecer, para saber quem somos, não apenas individualmente, mas enquanto grupo
familiar, construindo e reconhecendo nossa identidade.
Há risco nisso? Claro, meus queridos!
Sempre que alguém se expõe tem risco. A ilusão da harmonia perfeita encontra-se apodrecendo nos "campos santos" dos
cemitérios.
Além do mais, não é fácil superar o sentimento que melhor caracteriza nosso tempo: o medo.
Mas quem entre nós pode defender que este espaço tenha de ser necessariamente raso e burocrático; um espaço insípido, inodoro
e incolor, um espaço de estranhamento formal?
Mantendo regras básicas de convivência, respeito e, principalmente, de afeto poderemos criar entre nós um ambiente
que melhor nos represente e mutuamente nos enriqueça.
E, a chave para isso, nestes tempos obscuros, é apenas uma: que cada manifestação considerada "polêmica" tenha a primazia do ARGUMENTO, obedecendo a cadeia de razões que legitimam,
não uma verdade, mas uma ideia, uma opinião sincera e despojada, mesmo que apaixonada.
É justamente o caráter de unidade familiar a nos ligar que faz com que a porta de nossas casas esteja sempre aberta a cada
um dos demais ou que sempre que necessário nos ajudemos
mutuamente, por mais distantes fisicamente que nos encontremos uns dos outros.
Somos muitas cabeças, muitas vivências, muito potencial circulando pelas quatro gerações que transitam por este território.
Todos já nos alegramos com as conquistas acadêmicas, profissionais ou afetivas de alguns; lugares distantes conhecidos por outros; dons e habilidades demonstrados em suas trajetórias de vida; oportunidades que se abriram a cada um...
Por outro lado, alguns se expressam artisticamente e sua arte nunca aparece aqui; tem quem se afeiçoe a escrita e seus
escritos não estão aqui; tem os que realizam atividades religiosas e elas não ecoam aqui; tem os que têm projetos e eles não
passam por aqui; têm os quase todos que se deparam com pequenos ou grandes obstáculos e eles nem sempre são
compartilhados com os demais no espaço que temos...
Ou seja, preservadas as diferenças de cada um, o que está em questão aqui é uma concepção de família, que nada tem a ver
com o estereótipo da "família feliz", em meio a um mundo que se contorce.
Este não tem de ser um espaço onde todos concordem, mas o espaço onde as pessoas se respeitem e, acima de tudo, se
reconheçam sem medo.
Não deveria ser o espaço em que estranhos, vagamente conhecidos, compartilham um nome, que não se sabe bem de onde veio.
Não podemos temer nossas diferenças, diferenças que estão aí. Elas existem!
Uns de nós são gremistas, outros colorados e já existiram os cruzeiristas, como meu pai; uns de nós são religiosos, outros ateus; uns são de direita, outros de esquerda e quem sabe que outras diferenças nos unam?
O que não podemos nos transformar é em um coletivo pobre, minado por rancores silenciosos, justamente porque não se
expressam, coparticipes de um espaço formal e estéril como os que surgem numa empresa ou condomínio, onde cada um tem
de andar pisando em ovos, com o cu voltado para a parede!
Portanto, tomo a liberdade de propor que se um de nós, QUALQUER UM, que tiver algo que ache realmente importante a ser exposto de modo a contribuir na educação ou na formação da opinião dos demais, sinta-se livre para o fazer.
Dê sua sincera contribuição, livre e afetuosamente.
Beijos e abraços a todos!

Eliseo Martinez
30.10.2022 (dia das eleições presidenciais no país) 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

422.

Lembrança e esquecimento

Passado algum pode ser
simplesmente apagado,
desde a escuridão
das noites sem fogo
e dos perigos da caça
gravados no subterrâneo
coletivo das mentes,
ainda hoje, latentes
nos medos de toda gente
espalhada pelos amplos
cercados globalizados;
ou da turva lucidez
de um único homem,
ante as dobras do que foi,
por ele, vivenciado,
vendo, aos poucos,
a inocência do desejo
lhe sendo roubada.
Chega o tempo em que
a bacia do esquecimento
vai pelo meio,
enquanto o pote cheio
das reminiscências
transborda, abarrotado
de sonhos desbotados,
adensando o lado
perverso da existência
dos que foram condenados
pela consciência,
convictos na crença
no que de mais humano
leva o homem em sua
aventura mundana.

Eliseo Martinez
04.11.2022

terça-feira, 25 de outubro de 2022

421.

O absurdo de Camus


O irremediável cisma
entre o espírito que enseja
e o mundo que dissimula;
entre a essência racional
e o irracional da existência,
define os caminhos distintos 
que nos levam as verdades,
que são umas para um
e outras para o outro;
cambiando incessantemente
no doido fluxo do tempo,
tanto para o primeiro,
quanto para cada um
de todos os outros.
E, assim, o caroço adulterado
da VERDADE, sempre almejada,
é plantado no sulco de cada alma,
regado pela impossível vontade,
fazendo germinar a flor nostálgica
da unidade, ela mesma,
jamais desabrochada.
Constatar a existência de verdades
sem jamais ser capaz
de tocar o graal da VERDADE,
denuncia no homem
sua condição absurda,
deitando por terra
as esperanças de reconhecer-se
no íntimo de si mesmo.
Condenado ao absurdo,
perplexo, sempre que se aventure
a ir mais fundo, ele logo se vê
fadado a perguntar-se:
quem é esse estranho que me fita
do outro lado do espelho?
Sem o ter inventado,
Camus o capturou pelo nome,
desvendando o medonho rosto
do que apenas era conhecido
por imprecisos pseudônimos.

Eliseo Martinez
25.10.2022

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

420.

Os sinais

Ler os sinais,
é preciso ler os sinais...
Sinais que não aparecem grifados
nas páginas dos jornais;
que não vêm precedidos
de fanfarra ou têm lugar
destacado no coreto da praça.
Sinais que, fácil, fácil,
passam desapercebidos,
rastros quase invisíveis
ocultos no sutil dos detalhes,
sob as dobras do cenário,
ausentes dos comentários.
Sinais que alertam dos riscos,
e resguardam dos perigos
do que bate esquisito
ao pé do ouvido,
ou o breve olhar sinistro
de um suposto amigo,
os olhos úmidos do dito inimigo,
o crente que arma o assassino,
o dedo rijo no gatilho...
Mas, também, sinais que
prenunciam o sumo da vida,
apontando melhores dias
nas pálpebras semicerradas
de um novo amor que se aproxima...
Sinais que repousam
onde menos se espera,
qualquer névoa os encobre,
qualquer brisa leve
os leva embora.
Não traduzir o que
revelam os indícios,
quer por falta de tino,
ou mal de vício
a nos turvar a vista,
faz do incauto observador
alvo de um incômodo humor.
Os sinais desprezados,
perdigueiros que são,
renovados em seu vigor,
se põem a nos perseguir,
acenando do fundo do retrovisor,
fósseis vivos de um futuro
que já passou, lembrando
o erro sem volta do mau jogador.

Eliseo Martinez
17.10.2022

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

419.

Más notícias

Por essas coisas da vida,
as más notícias são o que de certo
temos todos.
Nesta rede tão precária,
levam célere o mal de um
a todos os outros.
Elas não se constrangem
com o adiantado da hora,
batem à porta
a qualquer momento,
a qualquer hora.
As más notícias estão 
sempre à espreita,
não carecem de estrada,
aeronave ou braço d'água;
faça sol, vento ou trovoada.
Chegam sem pedir licença,
na voz cálida ou embargada;
num bilhete de namorado,
ofício em carta selada
ou na testa dos casados.
As más notícias
se passam por atenciosas,
dando plantão a nosso lado.
Rondam, espreitam e, malgrado,
caem sobre nós como raios
de um céu claro, azulado.
Agora, ágeis como nunca,
deram pra se esparramar
pelas telas midiáticas.
Elas costumam vir acompanhadas,
feito corvos em revoada,
sempre prontos a chocar seus ovos
nos vãos de nossa casa.
As más notícias, de vez em quando,
bem que podiam tirar férias,
ser menos assíduas, mais espaçadas,
mantendo o pé no freio
do correio das desgraças,
deixando, vez por outra,
o futuro, logo aperreado,
na ilusória paz do ignorado.
Fiquem livres a virem 
em lombo de burro;
a facão, picada, pelo mato
ou sobre casco de tartaruga,
despreocupadas da chegada.

Eliseo Martinez
14.10.2022

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

418.

Trinca niilista

Hoje, só escrevi zerda!
Rebelados, pensamento e sentimento
não deram liga, cada um para o seu lado,
como num desses encontros marcados
em que se acerta a hora mas se engana
sobre o local combinado.
Ao serem tocadas, as cordas da ideia
não vibraram harmônicas
e o som surdo das palavras
riscou o espaço no vácuo da bolha,
extintas sem chegar à borda de algo,
muito menos ao cerne de nada.
Desidratadas, sem forma,
peso ou tamanho, as imagens
granularam secas, coaguladas,
sem verso ou reverso
que lhes dessem significado,
inúteis de qualquer serventia,
inertes já neste primeiro ato.
Mas, quando a dona da casa,
entediada, reclina e entrega-se ao sono,
a criada arranja a seu gosto o entorno.
Eis que o desarranjo desconcertante
acaba por suspender a ordem vigilante,
tingindo a cena toda
com as cores da anarquia,
dando fuga a descolorida apatia.
Por breve instante,
alarga-se a trinca do livre exercício
de divagar sem compromisso
nas hostes do niilismo,
agora, liberto do peso do sentido,
fazendo a intuição flutuar solta
de um sentimento ao outro.
E, assim, num giro de poucas vezes
soou a corda do realejo.
Lá fora, ouviu-se o amanhecer
no chilrear da coruja buraqueira.
Sonolenta, estirada ali mesmo,
nas tábuas do assoalho,
já refeita do cansaço,
a razão se espreguiça,
antes de mais um dia de trabalho
às ordens do espantalho.
Olhou em volta, desapontada,
chamou a trêmula empregada
e apontou a porta da rua à coitada
que, ainda assim, saiu
com o furtivo sorriso
de quem se achou recompensada.

Eliseo Martinez
06.10.2022

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

417.

Sem que os convide


O dia nublado é sempre
um convite às ruas.
Cruzo o bairro
com suas casas e árvores,
chego ao Marinha
e sigo à margem do Guaíba
com passo despreocupado,
acompanhado de meus fantasmas.
Uns não me apareciam
há algum tempo,
outros, assíduos visitantes,
rondam meus silêncios,
atentos aos meus movimentos.
Quem me via, não via o cortejo
que seguia comigo,
mas estavam lá,
tagarelando em meus ouvidos.
Entre eles pairam
os que me são caros,
mas costumam ser tantos
que a teimosia
com que me fazem companhia,
por vezes, me causa espanto.
Grudaram, sei lá!
Poderiam, ao menos,
conversar entre eles,
ou mesmo, darem uma trégua,
permitindo a quietude,
que tanto prezo.
O fato é que aparecem
sem que os tenha convidado,
levitando a minha volta,
me acossando de todo o lado.
Quando se vão, percorri sendas
de meus tantos passados,
muitas delas sem que eu mesmo
jamais as tenha visitado.

Eliseo Martinez
03.10.2022

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

416.

Uma lagoa chamada Violão

À beira das águas mansas da Lagoa,
biguás, garças e quelônios
de pescoços esticados
dividem o sossego do espaço
e as bagas das amoreiras
com a ruidosa alegria
de crianças alvissareiras.
Ao alto da colina,
paira a torre da velha igreja
onde, no passado,
ajoelharam fidalgos desgarrados
das cortes portuguesas
e, hoje, dominam torres de edifícios
com suas sacadas de vidro.
A ponte que liga o Centro à Cal
se estende de um lado ao outro
do olho d'água,
surgido das lágrimas derramadas
pela jovem índia apaixonada,
para casais de namorados
jogarem mulicas de pão aos bagres,
segredando coisas do coração
ao fim das tardes,
sobre a Lagoa do Violão.
Gente de toda idade
ocupa os bancos sombreados
pelas copas das árvores
ao longo do perímetro das águas.
Uns compartilhando o calor
da cuia passada de mão em mão,
outros de mãos dadas
e outros mais a olhar o nada,
revivendo na memória
os rumos da própria caminhada.
O tempo corre parado
no pequeno vale entre bairros,
ao abrigo do frenético vai e vem
dos turistas que, nos verões,
invadem a pacata cidade
para, nos meses de frio,
deixarem os arranha-céus
que lhes servem de morada,
abandonados aos fantasmas
apegados a estas plagas
de paisagens tão variadas.
Por estes lados do Rio Grande,
o passo lento não se faz encabulado
ao ditar o ritmo dos habitantes,
imunes a overdoses de adrenalina
que costumam envenenar a vida.

Eliseo Martinez
26.09.2022

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

415.

Pulsa

Senti que deveria escrever
algo especialmente para ti.
Entre as pequenas rotinas diárias
e os amplos movimentos
que animam as almas humanas,
existem as fendas que,
em suas nuances diversas,
dão sentido complexo
e único à cada existência.
Sou homem de poucos amigos.
Antes dos sinais de poder,
dos corpos sinuosos
ou das performances,
me atraem a sagacidade
que transparece no olhar,
o fogo que arde gelado
nas veias dos desesperados,
o mistério dos desencaixados,
o destino dos naufragados...
O fluxo furioso e contido
dos que vivem nestes tempos difíceis,
esterilizados, justo eles, dominados
pelas hordas domesticadas.
Me importa o fio
das meadas ocultas,
que animam vontades furtivas
e revelam histórias fecundas,
antes que ressequem de vez
sob as crostas da estudada conduta
dos que vivem a engolir a si mesmos,
na recusa em aceitar o abismo
que preenche o oco de peito ferido.
Atrai-me o que escapa
ao pastiche dos "bons" e da ilusão
dos rasos círculos de amigos.
Muito me atraem os infernos
que subjazem às paixões,
já nascidas sob o signo da danação.
Me seduzem os corações selvagens
e o pulso das vísceras dos condenados,
alambiques a verter gota à gota
a inexplicável coragem.
Cativa-me o fascínio
que o próprio fascinante
recusa em si mesmo,
preso pelos arames do medo.
Haverá algo mais urgente
do que o largo respiro
dos que encenam alegrias de dia
e, no silêncio das noites,
sufocam o próprio gemido?
Agora, se tiver de falar
do que me causa espanto,
falo da estranheza dos náufragos,
renegando o que os tornam
tão próximos;
falo do ralo dos desencontros,
e com o que, aos fins de tarde,
calmamente, nos assassinamos,
esmagados pelo cimento e aço
destas alegres tristes cidades.
E, ainda assim, acima de tudo,
me encantam os que pulsam...

Eliseo Martinez
07.09.2022