Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

221.



Pobre Sócrates!
Passados dois e meio milênios
da genial provocação
com que inaugurou o mundo,
feita a cada um e a todos juntos,
instigando o trabalho das mentes,
não teve como prever,
o sábio grego,
que conhecer a si mesmo,
não nos levaria além das suspeitas
que recaem sobre personagens
inventados sobre quem somos,
como fungos que encobrem
caule, folhas e ramos
de velhas árvores
antes que tombem.
Sabe-se pouco mais que nada
além do que se necessita
para manter tantos de nós à parte
ou levar sondas à Marte.

Eliseo Martinez
28.12.2018

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

220.

Geração WhatsApp


Se a realidade sempre se empenhou
em nos dar um chão que se ponha o pé
e um teto estrelado para nos por a sonhar,
de tanto ser acelerada, a normalidade,
sua cria atualizada, foi quebrada.
Quebrou não pela mudança,
que está na essência de tudo que é humano,
mas pela rapidez com que alastrou o vasto dano.
Os que são jovens, agora,
sem parâmetros que os informem de fora
ou força que os consolem de dentro,
nem de longe suspeitam do que os atingiu
em cheio no lado esquerdo do peito.
( E, também, no que encerram dentro
do osso do crânio, com todo o respeito! )
Confusos, temem a dor, acima de tudo.
O que conta é o placebo da vez,
que contorne o tédio, talvez...
Atordoados, correm para não chegar a nada.
A verdade se confunde com o que satisfaz
os desejos da hora, desde que já, sem demora.
Mas, que sorte!
Os simulacros os acolhem
como se fossem pintinhos crescidos no ninho.
No súbito colapso do futuro,
o presente se estende e dobra seu turno.
Estes tempos velozes,
que baniram a esperança no projeto
e a ancestral fé no progresso,
são pródigos em fornecer antídotos,
a preços mínimos.
O paraíso é um mix de fantasia,
paliativos e a cacofonia das mídias.
Tanta aventura sem sair do quarto.
Com sorte, a vida segue sob auspícios,
suspensa num vácuo.
Arsenais de sofismas armam as falas.
É o que vale para chegar ao fim da tarde,
apesar da tirania das lógicas.
Diria Sócrates:
- É a volta triunfal dos sicários
que, à força de falácias, me condenaram.
A técnica amplia a venda de serviços,
prometendo a cura dos medos e dos vícios,
servil a arrivismos e rancores.
Basta, para isso, acessar os servidores.
A janela aberta ao mundo,
agora, é o túnel por onde me sumo
para dentro de meus muros.
A ilusão das possibilidades
cobre a indiferença de que somos capazes.
Morre-se ao mágico toque de uma tecla.
Deleta!
Conquistas são medidas pela cota de curtidas
e as novas metas a serem atingidas.
Julgando-se protegidos, só não contavam com que,
à falta de olhos nos olhos, cheiro, toque, vozes,
ficariam sem circular os afetos dos consortes.
Olhos que se olham exigem respostas
ou, ao se desviarem, que se pague a aposta.
Vencidos pela velocidade,
seduzidos por atalhos e facilidades,
multidões de adolescentes, de todas as idades,
se debatem em meio a espuma das aparências,
alheios às razões, que repousam no leito,
sob as correntezas.
Pobre geração WhatsApp!

Eliseo Martinez
27.12.2018

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

219.

Egoísta


Instigado a eleger a semente de um desejo
que floresça no próximo ano da besta,
revelei-me, como não o faria
no frio aconchego de um dia de inverno,
à beira da lareira.
Sob infernal calor de dezembro,
bastou um par de segundos 
para que as palavras concebidas na mente
se pusessem a nascer boca fora, prontamente.
Para o ano, quero que minha cara,
marcada pelas navalhas do tempo,
de olhar inquieto e barba a ser feita,
se confunda com o mármore,
como se dele tivesse sido talhado.
No entanto, desobrigado dos protocolos
ditados pelos mercados
e da hipocrisia habitual que os embalam
- dos privados afetos ao público trabalho,
por todo lado -,
quero que cada fibra entrelaçada
a sustentar minha face,
seja a corda de um arco desarmado,
cada músculo em repouso absoluto,
olhos baços, dentes guardados pelos lábios
e a voz, de uma vez, se cale,
para que, lívido, a expressão se apague
e nada me leve a responder ao que,
por acaso, vier a ser perguntado,
condenando o diálogo frustrado
a jamais ser travado.
Quero ser estátua de carne,
insensível às formalidades,
imune e impassível à banalidade.
O que vai mais adentro,
que continue a correr como sempre,
mas ande a passo mais lento.
Imerso em paz e lacrado,
me acharia desobrigado
de explicar tal estado.
Sem concessão dada a ser humano,
partiria em desterro
para fundar o país de mim mesmo,
numa caverna nos confins do estrangeiro.
Entregue ao egoísmo mais transparente,
de bom grado, abdicaria de ti,
exausto de toda gente.
E, neste aquário imaginário,
seria um peixe, ainda vivo,
ante facas que se amolam a sua frente,
deslizando impassível pelo eminente declínio.
Mas, é claro!
Só as vezes, me assalta o pensamento,
sem jeito, de ser o único a habitar
a imensidão deste ventre.

Eliseo Martinez
20.12.2018

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

218.

Izabel


Hoje, me negaram o mais básico dos legados,
conhecer quem veio de mim ao mundo,
ver nos olhos que se abrem,
meus próprios olhos, só não cansados.
À falta de elos de ferro,
gerações que se sucedem,
por vezes, vêm ligadas
por finos fios de maldade.

Eliseo Martinez
17.12.2018

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

217.

Feito gato


Todo lanhado, como um gato
que, à noite, se esgueira pelos telhados,
vasculha espaços à cata do que lhe baste,
até que, em plena escuridão,
já não se busque e, assim,
talvez por fim, se ache.
Pelos becos, mais abaixo,
em meio ao concerto dos miados,
festejada por pulgas e carrapatos,
a gataria segue alegre virando latas,
caçando ratos.

Raios que o partam!
Não falta quem queira dizer diferente
o que é dito desde sempre do mesmo jeito.
Bichano é bichano, humano é humano,
o resto, nada mais que engano.
Metáforas ainda acabam misturando
a natural ordem das coisas
com coisas de gente desnaturada.
Cabo! Tira o gato do telhado 
da esquadra!

Eliseo Martinez
14.12.2018

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

216.

Armadilha


O pensamento,
quando se liberta do entorno,
voa longe, como voa o tordo.
Mas, que sei eu de tordos?
Voa como passarinho, mesmo!
Daqueles que sempre estiveram
por perto da casa da gente
e nas pedras do calçamento em frente
e nos fios de eletricidade
e nas árvores que ladeiam
as ruas da cidade.
Como pardais,
que bem conheço,
ao bater as asas
não deixam paradeiro
nem endereço.

Eliseo Martinez
11.12.2018

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

215.


Sin City

Neste exato momento,
um crime perfeito é praticado
por inocentes em algum lugar
da cidade do pecado.
Por baixo de um sol negro,
soldado em céu rajado,
no áspero aconchego das casas,
famílias de assassinos
celebram rituais macabros,
entre ternos sorrisos,
sinceros abraços.
Por todo canto, o desencanto
pega a todos de emboscada,
denunciando na ausência das cores,
a falência dos amores;
nas texturas sombrias,
os tons escuros da melancolia.
Grãos de momento,
a serem enfiados pelo fio da vida,
são subtraídos sem arrependimento
ou prévio aviso.
O silêncio arma as bocas homicidas,
treinadas em calar vínculos entre indivíduos,
apagando vestígios das memórias,
sufocando a trama singular
em que se tecem as histórias.
Nestes tempos góticos, fóbicos de luzes,
gestados do metal e ares tóxicos, insalubres,
entre paredes ensanguentadas,
uma nova geração é iniciada
nos sagrados códigos de medo e ódio,
antes mesmo da primeira palavra
ser balbuciada pelos que vêm ao mundo,
para que já venham com as senhas do mal
tatuadas na mente,
em seu núcleo mais profundo.
Mas em Sin City todos têm álibis.
Especialmente os bandos familiares,
que abrigam em seu seio
o consórcio dos culpados.
Escondem os cadáveres
que amontoam nos armários,
confessam-se vítimas,
negam a autoria dos crimes que praticam.
Assim, todos são inocentes
dos dolos planejados
que, mais tarde, serão levados a cabo
sem deixar pista ou rastro
do delito encomendado.
Em Sin City, os lares estão a salvo
de serem julgados
por cometerem no presente
o crime futuro, encharcado
no veneno das vendetas do passado.

Eliseo Martinez
05.12.2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

214.

E lá se vai...


E lá se vai ele pisando chão, todo garrido,
chutando tampinha, caco de vidro.
Sem saber bem por quê,
sem saber bem prá quê,
vai se apossando do que lhe resta de vida.
Sabe apenas que chegou sua hora
e que, com a ponte cruzada,
só deixou para trás as pegadas.
Chafurdar no real, escasso de mel e ambrosia,
lhe ensinou o valor do delírio e da fantasia,
tão humanos quanto sede de verdade
ou fome de poesia.
De volta à luz das manhãs,
que morre ao final das tardes
para dar lugar ao jogo das sombras,
redescobre a vertigem do inesperado,
que a soma dos dias vazios,
preenchidos por horas marcadas,
fatiados pelas lâminas dos relógios,
lhe haviam roubado.
Com sentença cumprida,
se vai alheio a tic de entrada ou tac de saída.
O acaso não faz planos enquanto rasga
os véus encardidos do cotidiano,
impregnados das nódoas dos pequenos enganos.
Desatado de laços, vai à toa
para ficar-se à nada, para fazer-se a tudo,
como o mais recente inquilino
que passa a ser dono do tempo.
Ateu a um passo do divino
que se vai redimido das penas do mundo
ao romper empoeirados contratos com o diabo,
disfarçado de inocente mercado,
e não volta a firmá-los mesmo que a besta rosne,
mesmo que implore ou se rasgue.
Se vai na ilusão de ser livre
(só não lhe conte esta parte)
e, algum dia, quem sabe, seja feliz,
jamais anestesiado por tédio, manco de vontades,
muito menos disposto a ser triste.
Se vai pra dias melhores,
apesar do caos que se pôs a girar
sobre a cabeça dos homens.
Mais do que vir a ser o que nasceu para ser,
cogita se ainda pode ser ele mesmo,
feito de cada murro na cara, abraço apertado
ou espanto ante rios de maldade
e mares de beleza rara.
Se vai até que razão e consciência
se dissolvam nos ácidos da demência.
Não fez muito, fez o que pode.
É como se explica, é como se esconde.
Das culpas, paciência!
Ninguém se livra de todo
da maldição desta herança.
É o fardo dos velhos nesta fase da vida,
a calcificar esperanças.
Assim como outros, a quem contaram
a boa nova de bilhetes premiados, se vai,
como se vê, antes que se vá de uma vez.
Pobre coitado!
Lá se vai o mais novo aposentado...
Deixa quieto!
No fundo ele sabe.
Não há trinca no muro por onde se escape,
nem porta trancafiada que fácil se abre.
O que é a vida senão um show cancelado na véspera,
sem ingresso devolvido, que se peça?
O que vale são as circunstâncias que antecipam a festa.

Eliseo Martinez
01.12.2018

terça-feira, 13 de novembro de 2018

213.

Comboio de vontades


Sabe o que é a beleza?
É certo que com muitas faces
se apresenta.
Ela é, nesta tarde,
um comboio de vontades
avançando sobre trilhos
que, de tanto que levam, ardem,
embarcando em cada
estação de passagem
os que aguardam
para cruzar pântanos,
pontes sobre abismos
e campos tomados de inço,
na esperança de pisarem,
algum dia,
pés no chão de seu destino.
E, neste ir pelo mundo,
se indo juntos,
cada um, um e,
a um só tempo, muitos,
homens e mulheres
dispostos a tudo
que seja fruto
do amor e do justo,
sem mas ou mais tarde,
nestes tempos desumanos,
confirmando a humanidade,
que teima em permanecer
apesar de toda a insanidade.

Eliseo Martinez
13.11.2018

domingo, 4 de novembro de 2018

212.

Anomalia


E o frágil equilíbrio se vê, assim, em risco,
ante a anomalia que seduz pelo
engodo, o medo e a mentira
um povo de lesionados equilibristas,
mantidos dependurados sobre abismos.
Como uma pancada que, de tão forte,
nos fratura o pensamento,
sem sabermos o que se sente e o que se pensa
ou o que mais nos vai por dentro,
já andamos a girar os olhos nas órbitas
na ânsia de vigiar as próprias costas.
Mais uma vez, saltam sicários por toda a parte,
arautos da mais recente versão da velha ordem,
fazendo do que era o fundo,
a nova boca do poço que abocanha o mundo.
Ainda que os ódios todos fossem,
a ferrolhos, bem guardados,
pois eles se calam, jamais se gastam,
quantos de nossa gente sofrida
se veem confortavelmente abrigados
num futuro nascido das insolúveis desigualdades
do presente e nosso igual  perverso passado?

Eliseo Martinez
01.11.2018

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

211.


Estava aqui, pensando:
prá tirar carteira de direção
tem de fazer psicotécnico,
para dirigir uma nação
bastam meias verdades,
um saco de preconceitos
e um ódio cego no coração.
Ingredientes de desgraça anunciada.
Ou não?
Que ki tu acha?

Eliseo Martinez
29.10.2018

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

210.

Trabalhos do pensamento

I  Contemplação


Contemplar é o curioso ato
em que um homem se vê, ali, sentado,   
olhos capturados pelas labaredas
que ardem à lareira, até que,
suspenso neste estado
a alma se encha do mais absoluto nada
além do objeto inchado
envolto em algodão rosado,
fazendo emergir uma estranha satisfação
deste movimento congelado.

II  Concentração


É quando o caos do pensamento
toma jeito
e reúne energias
que lhe alinham o entendimento,
fazendo-se de arco armado
frente ao alvo-pássaro,
ali, parado.

III  Reflexão


É quando o pensamento,
desfocado e sem rigor do dia-a-dia,
oscilando entre o tédio, a dor e a alegria,
se detém, já sem satisfazer-se
com o raso da folia
e, com passo cuidado,
dá voltas pelo tablado
querendo tocar as ancas da verdade,
sempre sedutora e misteriosa,
inacessível aos olhares desavisados.

IV  Meditação


Meditar é por freio ao tempo
para confina-lo na bolha
de um breve momento
onde, esvaziados das vaidades,
das culpas e dos medos,
nos abandonamos
à busca de nós mesmos.
É uma trégua dada ao pensamento,
o que de mais humano
nos concedeu a natureza,
antes de voltar a nos perder
entre o peso da dúvida
e o insólito da certeza.

Eliseo Martinez
12.10.2018

domingo, 23 de setembro de 2018

209.

Sobre as distâncias


Consideradas as perdas e os ganhos,
com precisão de quem compara,
de longe, pesos e tamanhos,
o braço se estende enquanto o homem,
ali sentado, frente a si mesmos,
desfaz costuras malfeitas do pensamento.
Olhos ensonados, olhar vago,
acompanha a mão que avança
em lento movimento.
No cálice, o sangue da terra é levado aos lábios,
trazido, que foi, de forasteiras paisagens.
Divaga...
E o mundo se faz presente,
espremido pela prensa dos engenhos,
pisado nos lagares pelos pés rachados
dos sem meios.
Se pretendendo objetivo...
Em torno descrito, ainda há algo a ser dito
sobre o que paira entre o ponto
em que se encontra o tal homem e o infinito.
Toda a distância de si com o que lhe vai dentro
poderia ser mensurada neste simples ato
ou sua falta.
E o grão do tempo salta.
Cogita...
Mais um passo e, quem sabe, se perca,
sem volta que se faça necessária
ou, mesmo deseje que aconteça.
Se não existem crimes perfeitos,
nada ainda foi atestado das fugas sem pistas,
o sumiço dos que se dissipam como a brisa.

Eliseo Martinez
23.09.2018

domingo, 9 de setembro de 2018

208a.


O Discurso Irreverente


"Uma palavra pronunciada no ímpeto da paixão pode parecer leve a quem diz, mas talvez se revele pesada aquele que a recebe e avalia." (Baltasar Gracián) ...
Só o silêncio não comete erros.
Mas quais, mesmo, seriam esses erros ?
As impressões que seguem, não visam desbancar as formas culturais consagradas, consideradas mais elaboradas no campo da linguagem, fazer a apologia da palavra crua ou, mesmo, do uso indiscriminado do palavrão.
Antes, procuram contextualizar seu emprego, seu devir histórico, fazendo frente ao policiamento puritano da expressão oral, muitas vezes, tolhida no genuíno entusiasmo da atividade profissional, a exemplo de um professor que ama, ou dito de outra maneira - e, também, com outra força - tem tesão pelo que faz.
A despeito desta energia vital, em minha opinião, imprescindível à atividade desses profissionais que não raro se veem castrados em sua espontaneidade pelo patrulhamento de seu trabalho. Trata-se, aqui, da defesa do uso livre da palavra, resgatada em toda a sua potência e espontaneidade, desmistificada e liberta da demonização a que, sob os mais variados interesses, é submetida. O apego exacerbado às normas constituídas, considera que os modelos de onde elas são extraídas, a exemplo do juízo de belo, ou do que é ou não "apropriado", nada mais são do que valores socialmente construídos e, portanto, não definitivos e inquestionáveis, no mais, a reboque da história.
O uso do conjunto amplo das linguagens disponíveis é desejável, e mesmo necessário, quando se tem algo vital a se dizer, no intuito de se fazer entender pelo leitor, ouvinte ou interlocutor imediato. Vital, aqui, corresponde ao quinhão de afeto subjacente a iniciativa proposta.
A importância não apenas dada ao que se fala, mas o respeito a quem escuta, ou lê o que temos a dizer. Note-se bem, nada poderia ser tachado de mais execrável ou antiprofissional sob a restritiva ótica burocrática da função do universo linguístico. Uma metodologia que contemple a multiplicidade de táticas traz, antes, benefícios do que malefícios à estratégia de chegar à ideia. 
A dimensão artística contida na literatura, dessacralizou, em muito, os entraves colocados entre a intenção de quem escreve e as possibilidades do que é entendido por quem lê, ampliando significativamente as dimensões do texto, enriquecendo-o, e contribuindo para um maior deleite desse leitor, o que, por si só, representa um forte incentivo à leitura. Inclua-se ai os recursos que visam fixar a atenção de quem está a ler.
O duplo sentido e a palavra deslocada do contexto são alguns artifícios dos quais, reconhecidamente, se valeram escritores surrealistas, para propiciar o click, o turn over, na receptividade do leitor, acrescentando-lhe inquietude necessária para fazer com que desconfie da existência de algo mais, subliminar ao texto, uma outra leitura subterrânea à linguagem literalmente apropriada. Em outras palavras, faz pensar.
A língua "culta" perde terreno dia a dia para uma linguagem mais aberta, plural, sintética e coloquial que circula no cotidiano das trocas linguística, tanto no mundo virtual da internet, como na interpessoalidade do mundo real, o que, ao contrário de afastar os interlocutores, contribui para sua aproximação, contribuindo para os objetivos da ação comunicativa.
A situação de sala de aula expressa um típico exemplo disso, onde não é difícil constatar a coexistência de múltiplas linguagens que se comunicam, quando não se ofendem mutuamente pelo simples fato de compartilharem o mesmo espaço.
É necessário tornar menos dura essa linha de fronteira, neutralizando-se as hostilidades.
A fixação da ideia como objeto que mereça a atenção e reflexão do ouvinte/leitor, pode exigir mais da forma - a exemplo do recurso à ênfase - do que a engessada expressão formal, oficial ou oficiosa, está disposta a aceitar, submetendo a compreensão ao filtro do modelo sensor, muitas vezes, de pesado cunho moralista, redutor de sentido na fala ou no texto. 
Em tempos de aceleração das mudanças que impactam todo o espectro da vida social, não podemos menosprezar as novas demandas colocadas no campo da linguagem.
Garantir o processo ético de expressão da vontade de verdade concebida na dialética de ida e volta da linguagem com o devido rigor - rigor como fidelidade à ideia e não como preceito moral -, deve ser uma preocupação constante daqueles que fazem da palavra seu ofício, no esforço de romper com a mera formalidade do dizer, efetivando a comunicação.
Uma aparente contradição que, de fato, é um paradoxo, está no legítimo vínculo que se estabelece aqui entre irreverência do discurso e rigor. A vontade ética de se fazer entender, muitas vezes esbarra no formalismo moralista, momento em que o ato da recusa moral do ouvinte/leitor choca-se com o da concepção ética e própria da singularidade do orador/escritor. Aqui, o recurso surrealista de desfazer os nexos óbvios entre forma e conteúdo, significante e significado, superfície e âmago, visam quebrar o monólito da forma de pensar própria do senso comum - marcada pela enorme gama de preconceitos - frente a determinada questão, podendo elevá-la a objeto de reflexão, além de se contrapor aos fatores que criam e recriam essas fórmulas de entendimento unidimensionais que, ao contrário do credo corrente, pouco ou nada tem de natural. "Ali onde a rotina da língua criou uma craca cristalizada, o filósofo/poeta vai catar uma trinca, uma rachadura, por onde passar a dúvida, para esgotar, mais uma vez e sempre, o que ali se recolhia."
O contexto mediatizado em que estamos todos inseridos, muitas vezes, exige do professor recursos típicos do ator na tarefa mais e mais árdua de capturar a atenção do aluno. Muitos são os obstáculos que nos alijam do ato de escutar e, portanto, pensar e exercer a crítica a partir do que é dito.
Exalte-se o que der as vertiginosas conquistas de nossos tempos, teremos de admitir que vivemos tempos avessos ao paciencioso trabalho necessário à reflexão. Um tempo que sucateou a ideia de projeto por ter pressa demasiada para aguardar as incertezas do futuro, acabando por viver e eternizar-se no tempo presente.
Para Aristóteles, somente mediante o espanto é que nos colocamos na possibilidade de sair da inércia mental e fazer o trabalho intelectual de filosofar, que não se manifesta automaticamente. A linguagem surge, aqui, como o mais poderoso dos aliados no processo de aprendizagem.
O como dizer, deve subordinar-se ao sentido do que se quer dizer. Ao longo da história, a linguagem teve de superar obstáculos, primeiramente na seara do teatro popular, da literatura e das artes plásticas. As transformações que sofre tem aberto novas frentes de batalha. O deslocamento da crítica da forma à crítica do conteúdo vem em seu auxílio, apostando no desenvolvimento da inteligência humana, na medida em que joga suas fichas de maior valor nas capacidades interpretativas de um sujeito de conhecimento ativo e não na passiva primazia da embalagem já definida pela regulação exterior a ele de um mercado da(o) ideia(sentido).
O abismo entre linguagem formal e linguagem coloquial já não pode estar submetido a preceitos meramente acadêmicos ou moralistas, mas sim à necessidade de aproximar esses campos, diminuir as diferenças entre os que "sabem" e os que "não sabem", os que fazem o uso "apropriado" da palavra e os que não o fazem. O que contribuirá decisivamente para golpear a prática de uso da palavra como perverso instrumento de poder e segregação. Empoderar a palavra como meio plural de expressão é desarma-la de sua violência.
Se no âmbito familiar, o distencionamento da palavra já é uma realidade, hoje, os campos imediatos desta contenda são as mídias e a escola.
No caso do palavrão, que é entendido antropologicamente como enriquecimento da língua, além de, por vezes, ser uma resposta sintética e eficaz a situações de tensão vivenciadas no seio dos grupos, pode, se necessário, sublinhar a fala, retendo a atenção do ouvinte/leitor. Acredita-se que a palavra shit seja a mais usada pelos norte-americanos nesta segunda década do século XXI. No Brasil, entre os adolescentes da escola pública, provavelmente a palavra "caralho" seja uma das mais empregadas.
Uma vez verificada a disseminação do uso, onde está o "feio" ou o imoral? O nu, em um campo de nudismo, despe-se do que o privou da naturalidade para, a seguir, influenciar a moda que dita as sumárias vestes que nos cobrem pelas praias e cidades. Acima de qualquer imanência, o imoral assenta na falta do hábito, um mero estranhamento. Se, por um lado, o foco no sentido/conteúdo equivale à ênfase na inteligência da interpretação e na essência, por outro, o foco na forma equivale à ênfase no superficial e no que é secundário e acidental. Apontando para a minimização dessa dicotomia, o cultivo e a tolerância da irreverência da fala, nutrida pela experiência, mais que profissional, vivencial própria e única de cada sujeito que se expressa, se constitui em fator de forte impacto inovador não só na comunicação, mas para uma convivência mais pacífica e plural em sociedade.

Eliseo Martinez
02.07.2016

208.

A luz das luas

De retorno das fronteiras do obsceno,
próximo ao estrangeiro de si mesmo,
para não perder o hábito,
abancou-se ante a mesa.
Tinha em mente se revisitar nas palavras
que se fariam à folha em branco
a sua frente.
Mas, indiferentes,
as palavras não se fizeram presentes,
aquietadas por paz tamanha
e longas noites brancas,
banhadas pelo luar das luas
alinhadas no horizonte
de um mar de panos
e risos incontidos às madrugadas.
Sem indícios de paradeiro,
silenciaram-se as mensagens
em meio ao rumoroso cotidiano
em torno.
Se foram para sempre...
até que, sem aviso,
retornem de repente.
As musas encabulam
sob a luz das duas luas
quando, despidas de inquietudes,
giram-lhe acima, livres, nuas,
na redondeza das virtudes suas.

Eliseo Martinez
09.09.2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

207.


Leonard, sem pressa


Bem vindos são os momentos
em que o frenesi dos tempos
se permite escorrer mais lento.
Ao vendaval do rock,
encastelado nas paradas,
respondeu o folk como brisa
a soprar livre pelas estradas.
Como um pássaro pousado
sobre um fio energizado...
Assim foram as músicas
de quem nos deixou de corpo,
mas permanece no som arrastado,
quase falado, de sua voz rouca.
O menestrel de Montreal que
desarmou irmãos em armas
com versos mais certeiros
do que balas de morteiros.
O irreverente canadense que
embalou multidões de dissidentes
de todas as vertentes, dentro e fora
das fronteiras estadunidenses.
O lendário amante que
deitou com Janes Joplin
depois de esbarrarem ambos
no Chelsea Hotel, em Nova York.
O monge budista,
nascido sob o signo de um plátano,
que se fez artista e sábio,
herdando acordes de um violinista
seduzido pela morte.
Do alto da Torre do Som,
Leonard Cohen vive para sempre
nas letras de suas canções,
nas histórias que deixou,
na doçura com que falou aos corações.
Sua poesia será sempre um alento
para aqueles que se querem apaziguados
ao sessar a fúria dos ventos
que partem do globo mundo
para soprar peito adentro.

Eliseo Martinez
13/18.08.2018

domingo, 12 de agosto de 2018

206.

Hoje, me fui

Hoje, me embretei por sabores,
tingi de rubi um cristal barato,
me perdi nos licores,
comi chocolate.
Dei uma banana pro colesterol,
pra pressão alta e o escambau.
Deixei doer a dor guardada
e saímos os dois lado a lado,
a passear de braços dados,
sob o sol de inverno
de um dia gelado.
Hoje, fui feliz como ímpar.
Fui, sim.
Livre da culpa de andar só,
sem um outro a pensar
e sentir feito um nós.
Vivi a melancólica alegria de estar
com meus eus reunidos,
mediando seus sussurros,
impropérios e gritos.
Hoje, sem temor, dispensei a corte
e vomitei verdades pra todo o lado,
na avant premier do que aguardo sentado,
numa sala vazia cheia de objetos caros.
Decidi, só por hoje, andar peito aberto.
Parece que o Minuano
vai se pôr a soprar todo o ano...
Amanhã, lá pelas seis e um quarto,
volto a ser artista performista,
quando acordar em meu quarto,
já sem as luzes do neon esverdeado
do Motel Botafogo, na rua ao lado.

Eliseo Martinez
12.08.2018

quinta-feira, 26 de julho de 2018

205.



Pródiga, mesmo,
é a prole das crises...
Já me disseram
que merecia filhos melhores,
mas eles são o que podem,
exatamente como as palavras
que me vejo a escrever,
nem sempre transparentes
aos que se prestam a ler.
O certo é que
já não se encontra fácil
entre o povo da tribo
decifradores de vísceras,
entranhas e tripas,
hábeis em extrair significados
dos signos contidos nas carniças.

Eliseo Martinez
26.07.2018

quinta-feira, 19 de julho de 2018

204.

Receitinha prás travessias


Quando verdades claras
capazes de cortar a carne
como fios de navalhas
não são mais que gumes cegos
de arruinadas adagas;
quando as certezas se foram daqui,
perdidas num vazio qualquer
dentro de ti,
o que te afasta do vale da morte,
te mantém preso à vida,
te aponta o norte,
te mostra a saída?
Que candeeiro te guia
por desfiladeiros de sombras
onde só o desencanto opaco
te faz companhia?
Nestes tempos difíceis,
que o humano em nós, hiberna,
antes de tudo, resiste.
Apura os sentidos;
sai à busca de ti;
segue os vestígios.
Que te baste o eco
do toque das cordas de afeto;
que não te falte lume
para seguir no trajeto;
que as flores que cheirou,
o gosto do que te alimentou
e as auroras que encheram teus olhos
se insurjam do fundo da memória
te fazendo revisitar tua história,
sempre rara, real ou ilusória.
Só não esquece de perguntar
pelo quê teu coração bate,
o que dá sentido aos teus dias.
Qual teu sonho, tua utopia?
Fora disso, não há receita
de autoajuda travestida de poesia
que te auxilie nesta vida.

Em tempo: lembra de rir,
à princípio de ti mesmo,
ao menos uma vez ao dia,
e, no mercado, põe mel, granola
e semente de chia no cesto,
além de farta dose de fantasia
para espantar o medo que vai por dentro.

Eliseo Martinez
19.07.2018

quarta-feira, 11 de julho de 2018

203.

Bilhetinho de geladeira


Da porta da geladeira
pende um arco-íris de bilhetes,
o que não devo esquecer
em policromos lembretes.
Um deles trás teu nome,
que reescrevo quando
o tempo o consome
ou troco a brastemp
por um modelo mais novo.
Tinta que se apaga lentamente
ou arca frigorífica nova,
ele vai estar lá sempre,
preso à porta.
Por ora,
é no bilhetinho verde-água,
da cor de teus olhos claros,
que teu nome mora.

Eliseo Martinez
11.07.2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

202.

O fim do tempo


E se o tempo, depois de tanto se repetir,
envenenado de mais do mesmo, deixasse de existir,
concedendo eternidade a cada passo dado
ou imaginado na infinitude do espaço congelado?
O que até então foi, passaria a ser simplesmente
e, nesta exaustão, seria sempre, sem depois,
desnecessitado de culpa ou perdão,
alforriado de verdade ou precisão.
O futuro, em seu árduo trabalho
de colecionar imagens do passado,
repousaria para sempre num presente escaneado.
De súbito, todo movimento cessaria,
mesmo o jogo entre a noite escura e a luz do dia.
Os que temem encontrariam, por fim,
a permanente agonia;
os que desejam, a mais completa carestia;
os que perderam, suspensos na melancolia.
E, é claro, amantes surpreendidos 
no instante da pequena morte,
seriam os mais afortunados,
de longe, os de melhor sorte.
A velha morte, banida, seria reinaugurada
numa última e definitiva versão da vida.
As revoluções dos homens,
labaredas de fogo, metamorfose das nuvens
e rios, que antes corriam, no sólido agora,
aquietados, estariam gravados
na desmesurada gravura,
já não contida por nenhuma moldura.
A lágrima capturada ao rolar face abaixo,
o sorriso esboçado nos lábios,
o olhar vago seriam os novos nomes
dos que os traziam no rosto, estampados.
Criaturas de um paraíso restaurado,
no qual, falido bem e mal,
se veem desembestados, afinal.

Eliseo Martinez
09.07.2018

domingo, 24 de junho de 2018

201.

O sorriso de Maria


Um olhar e João se enamorou de Maria.
Não se tratava de uma maria qualquer.
Sob pelo e pele de mulher,
era promessa certa de alegria.
Para João, Maria
logo passou a ser a que mais valia.
Ele, curado de tristezas, pouco ria. 
Não que houvesse algo que, sem ter, queria.
Era só o jeito com que se abrigou
para seguir com a vida que tinha.
O sorriso de Maria... nossa!
Era como um dia de sol que se abria,
enchendo de luz onde só sombra havia.
Algo, quase esquecido,
voltava a fazer sentido.
João guardou esse primeiro sentimento
na caixinha que trazia escondida no peito
e, contente, esqueceu dele lá dentro.
Este João! Não tem mesmo jeito!
O tempo foi passando e o tal João
seguia seduzido por tamanho encanto.
E, assim, se ia nessa relação simbiôntica,
aprendendo a gostar
até de comédia romântica.
Mas, depois de tanto gostar em vão
e um montão de nãos,
João foi aos poucos percebendo
que por trás do sorriso
lindo de Maria, pouco existia.
De fato, nada tinha de alegre,
mas triste ela era.
Pobre Maria! Sempre a falar de amor
e, dessas coisas, nada entendia.
Era só uma boca cheia de dentes
com um sorriso lindo e vazio,
como o fim de uma tarde fria.

Eliseo Martinez
24.06.2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

200.

Devir


Queiramos ou não,
por miseráveis que sejamos
ou anchos que estamos,
a consciência da própria morte,
que nos vem junto,
quem sabe por falta de sorte,
mensurando tudo,
de milímetro a segundo,
pôs o homem em peculiar posição
frente aos demais entes que compartilham
da improvável existência,
sem compreensão da exígua permanência.
A par disso, seres invisíveis
- micróbios patógenos e não divinos -,
mais transcendentes que nós próprios,
aguardam, sem ansiedade ou tédio,
o festim que não tarda,
enquanto ante pastam os corpos
que nos servem de suporte
na empreitada.

Eliseo Martinez
22.06.18


terça-feira, 12 de junho de 2018

199.

Feliz cumpleanõs


Para os há muito já não-meninos,
datas de aniversário são falsos ritos de passagem.
Nada dizem sobre o que deixamos para trás.

Não se demoram pelos jardins em que deitamos,
vales nevoentos que atravessamos,
paisagens que encheram olhos gratos.

Servem para lembrar o que não fizemos,
invocar paz e a necessária falta de pressa,
nos colocar à par do limbo que se estende à frente.

São como postes dispostos em linha reta,
que mal iluminam estradas a serem abertas
no mar sem gota d'água do deserto.

Y asi me gusta que sea.

Eliseo Martinez
13.06.2018

segunda-feira, 11 de junho de 2018

198.

Pausa para respirar


Mal não falta ao mundo
como atestam sábios,
néscios e moribundos.
Nunca se dirá o bastante sobre ele,
que se espalhou como que
por maléfico encanto.
É o mais democrático dos legados,
já que mal há de sobra para todos,
em todo o lado.
Reféns do medo,
relutantes em pensar por si mesmos,
atribuem-lhe a origem
à punição dos deuses
ou ao deleite dos demônios,
seus parentes.
Livre arbítrio!
Outros, coléricos, insistem.
Mas, tudo não é mais que lavra nossa,
parte da herança já exposta.
Hábil ferramenta para controlar
tolos cordeiros que, em lobos raivosos,
se tornam sem demasiados esforços.
Produzimos imensa gama de malesas
com maquinações de poder que dividiram
homens em classes, castas e estamentos,
o que não nos poupa sofrimentos
e, por estranho que pareça,
em nada incomoda piedosos devotos.
Maldades que afetam gente sem conta,
levadas a cabo pelos poderosos
mas, também, maldades capilares,
cobras criadas entre os miseráveis.
Que sentido faz afirmar
que os males são inerentes à raça,
naturalizados como sina
de uma possível desgraça nossa?
Sob as lentes do que tememos,
com todo o mal perpetrado pelo tempo,
testemunhado no espaço,
somos levados a esquecer flores outras
que não as flores da maldade.
E, do que esquecemos?
Esquecemos do gênio da humanidade.
Para além do que é imperfeito,
há também o imenso bem,
feito por este animal peculiar,
que somos nós, em nosso trôpego caminhar.
Nos mesmos campos que prolifera o inço,
frutificam pomares que saciam
a fome de milhares.
Se, muitas vezes, se colhe o menor,
o propósito, quase sempre foi maior.
Arte, ciência, filosofia, contos da carochinha...
Se para nada servir o lembrete,
que sirva como pausa,
para o que nos resta de criança possa respirar,
antes que o medo dirija os passos
que ainda temos para dar.

Eliseo Martinez
11.06.2018