274.
Das culpas
Poderiam estar gravadas
na laje fria de uma lápide
as últimas palavras
jamais confiadas às páginas
do diário de um suicida,
na solitária recusa
de se ficar nos que ficam:
"Para todo aquele, como eu,
que não ligou na madrugada
para dizer do peso
demasiado da jornada;
que não chorou por não saber
que ser humano é, a cada dia,
se pôr a despertar sonhos,
ninar fantasias
e fazer dormir
insones desenganos".
Que mundo seria este,
se nos dispuséssemos
a rastrear essas dores,
mais longe de nós,
mais perto de todos,
tecendo redes de apoio.
Para cada suicida,
acumpliciam-se às escondidas
um sem-número de assassinos.
No momento em que
apenas um solta das mãos,
mais uma selfie de nossa
descendência homicida
é feita pelas lentes
sempre atentas do destino.
Eliseo Martinez
06.12.2019
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