279.
Amazônia
Pelas veias abertas
no solo raso da floresta
escoam sobre as caçambas
colossais corpos insepultos da Amazônia.
Nas águas de seus rios corre o mercúrio
do saque das riquezas sob o solo
do santuário ecológico.
Do verde de suas matas
surgem vastos descampados
que a ganância abriu
a fogo, trator e machado,
destinados a plantações de soja
e pasto aos rebanhos de gado,
riscando aldeias indígenas do mapa.
A invasão dos domínios
dos primeiros brasileiros
é a moeda de sangue
lavada pelas mãos sujas
de grileiros e fazendeiros,
garimpeiros e madeireiros,
acobertados por governantes
associados aos banqueiros
e a polícia mancomunada a pistoleiros,
ameaçando a existência
da exuberante flora e fauna
com que os povos da floresta
compartilham, em seus mitos, suas almas.
O mundo nos olha atônitos
enquanto nosso anômalo governo
incita a devastação pela queima
da maior floresta do planeta.
Vozes em todos os idiomas se levantam
contra a política de terra arrasada
que os vendilhões da pátria
descaradamente levam a cabo.
As lentes, que do espaço
orbitam nossa grande oca,
registram a acelerada e trágica troca
do verde vivo pela morte ocre,
numa catástrofe tal
que, ironicamente, é medida
em milhões de campos de futebol.
Eliseo Martinez
25.12.2019
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