A escolha
A profecia da vidente,
barganhada por prenda ou dinheiro
pago pela vizinha de uma parente,
já havia antecipado
os contornos da desgraça
e a sina do desgraçado.
A ele, seria concedida uma última escolha.
O caminho mais curto
o levaria à saída imediata, porém segura,
o mais longo, ao círculo de fogo
de medonhas criaturas.
Ali, nada o salvaria,
coroando de misérias uma vida sem valia.
Da trajetória de um voo noturno
ouviu-se o chirriar da coruja,
que no pulso de um segundo,
riscou arrepios na espinha do vagabundo
a cambalear na orla escura da mata
com a mão esquerda aferrada à garrafa
e a direita para o alto,
numa súplica de graça,
na pouca fé que, a estas horas, basta.
Sombras se agigantaram
na imaginação do pobre homem,
mil olhos espreitavam sobre seus ombros
e os sons da noite despertaram medos
já temidos pelo primeiros da raça
dando início a colheita das promessas
feitas às entidades divinizadas
para, à luz do dia, serem esquecidas,
assim como o rito das rezas prometidas.
Acordou numa vala
forrada de galhos partidos,
lama e folhas caídas,
em meio as imundices do corpo,
tristemente exposto pelas feridas.
Tentou erguer-se por três vezes,
por três vezes as forças lhe faltaram.
As névoas que lhe enchiam a cabeça,
turvavam-lhe os olhos
até que, dissipadas pelos raios
do sol das onze horas,
descortinaram mais do que podia
a claridade da clareira a sua volta.
Era, já, uma clarividência inteira
que, dele, se apossava.
Lembrou-se do que antecipou a vidente
à tal vizinha da parente.
Hesitou, pendendo para um lado e outro
da balança figurada em sua mente.
Seria apenas um pouco mais do mesmo
do que já lhe foi posto à frente,
agora, sob às lentes do medo,
seu mais fiel companheiro,
apontando o enganoso atalho
a lhe abreviar a estada?
Ou seria, esta, a escolha anunciada?
Num ato resoluto,
deixou-se, ali mesmo, caído de bruços,
junto a umidade esverdeada do musgo.
Com o onde e o como sentenciado,
restava o quando a ser executado.
Enfim, tudo se encaixava.
Do caos tão conhecido,
nascia uma ordem e um sentido.
A escolha pelo mais breve,
revelava-se a mais sensata.
Dias depois, foi encontrado
no bosque próximo à cidade,
o corpo de um homem já morto
que serviu aos bichos,
saciando-lhes a fome.
Dizem que, do rosto dilacerado
do pobre diabo,
os lábios foram preservados
e, neles, estampado
um sorriso engraçado,
dando ao cadáver
o ar de quem se acha grato,
talvez, até, recompensado.
Eliseo Marinez
17.12.2019
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