488.
Grãos de Luz
Sobre as Sombras de Fundo
Corria o final dos anos sessentae o guri tímido,
nascido de ninho conturbado,
se viu às portas da vida
e, com ela, incertezas afloradas.
Foi quando respostas simples
se mostraram insuficientes.
Tomado de ímpeto e coragem,
se pôs atrás do sentido do que
apenas parecia bem arrumado.
Num dia como qualquer outro,
na hora do intervalo,
bem antes do almoço,
começou a reunir os colegas
no pátio da escola,
disposto a bulir caraminholas.
No início vieram dois ou três,
os sem jeito para o jogo de bola.
No decorrer dos dias
aquilo ainda se tornaria
a arena de duvidosas certezas
e até a bola acabou deixada de lado,
debaixo das redes.
Por introvertido que fosse,
obstinou-se em desvendar
o que lhe parecia coisa mal contada,
inaugurando umas boas semanas
de rinhas acaloradas,
no inesperado contraste dos grãos de luz
sobre o fundo de sombras disseminadas
a que se acostumam garotos
de qualquer idade.
O formato seguia o roteiro
dos seriados das matinés do cinema,
prosseguindo no dia seguinte,
com local e hora marcada,
em pleno recreio da gurizada.
Alguns, agastados com o que ouviam,
voltavam com munição renovada de casa.
Iniciava jogando a bomba na roda
e, pacientemente, espreitava.
"E Deus, será mesmo que existe?"
Atento, observava as caras,
o que era expresso em gestos e falas
e como os demais arrostavam.
Quando preciso, intervinha,
organizando as paixões despertadas,
no inevitável tumulto formado.
Media cada palavra, pesava argumentos,
aguçava os ouvidos no silêncio
que, também, entre as falas, gritava.
Era o provocador e o espia
do cenário por ele engendrado.
Por inverossímil que pareça,
em hora das mais improváveis,
pairava no pátio do Julinho
uma genuína atenção dos meninos,
no que cada um tinha a dizer
e, não raro, contradizer-se.
Ao término dessas jornadas
o tema esgotara e o guri pode ver claro
que as verdades mais arraigadas,
repetidas como lhes haviam sido
caseiramente ensinadas,
firmavam-se em nada.
Somou, diminuiu e, por fim, concluiu
que o que era dúvida, ao início,
assumira contornos mais definidos.
Sentiu que o mesmo ocorria com outros
ao perceber que o assunto migrava
do pátio para as salas de aula,
sob o olhar admirado dos mestres-escola.
O guri cresceu, foi à luta
e, antes que desse conta, se fez adulto.
Desde aquele tempo de adolescente
foi confirmando seus primeiros achados
e passou a não resistir
em contrariar as formalidades,
trocando uma etérea religiosidade
pelo menos vago senso de humanidade.
Desalambrado de credos,
já recusava-se a prosseguir
se não fosse com as próprias pernas.
Desalinhado de deuses, cada qual
tido por único e uni presente
pelos partidários de cada corrente,
entendeu que a coisa toda
trata de alimentar o medo
e o delírio coletivo dos que afirmam,
contra toda a evidência,
a existência do que inexiste
por não suportar que a vida,
em sua exuberância incontida,
seja apenas a força manifesta da natureza.
Entendeu que estamos sós e é tudo,
nos cabendo o melhor neste assunto!
Dizia aos demais: "sequem as lágrimas,
limpem ranho e baba, e se ponham
a pensar por si, que só assim, nos tornamos
menos estranhos a nós mesmos."
Não tardou em ver que reduzir o homem
a um desarrazoado ser de fé, simplesmente,
é amputar o que há nele de mais humano,
privando-lhe de seu dom natural,
sem o qual apenas lhe restam desenganos.
Trocar o mistério e a beleza dos mitos,
lendas e contos de fada
pela obstinada busca da compreensão
nos alivia os temores e ilumina a escuridão.
Aprendendo a lição de nada esperar
além do imponderável do acaso
e do que possa ser compreendido de fato,
aquele mesmo guri segue mais livre,
sem culpas, infernos ou paraísos,
sempre na companhia dos livros
que, tão bem, servem de amigos
e nos fazem um pouco menos frágeis
para encarar o olho escuro do abismo
do que faltará tempo para ser
inteiramente percebido.
Assim como a razão, é o erro.
Ambas pertencem ao mundo dos homens
e não a fantasias divinas.
Eliseo Martinez
08.11.2024