Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

domingo, 22 de dezembro de 2024

494.

Resposta a Tua Carta


"Bem envelhecer",
para mim, minha cara,
é, sendo o mesmo e sendo outro,
a um só tempo,
dar rumo ao que se passa,
pois nada vale mais que ser
o timoneiro do próprio barco
e, em modo "desadolescer",
estar atento ao que gruda em nós,
recusando-se em desaparecer.
É já não duvidar que a melhor colheita
é feita pelas mãos que deitaram ao chão
suas sementes.
É dar-me por merecer
as mais insones cavalgadas,
como um cavalo que se vai
sem monta pelos prados;
indomado, embora preso
ao tempo e ao espaço,
mas, também, disposto
a apaziguar-se ao cair da tarde.
Bem envelhecer é,
na tranquilidade que me invade,
beber da fonte de águas frescas
e adormecer sob um céu
coalhado de estrelas,
em paz comigo mesmo.
É ter ao lado a cúmplice
dos meus pecados,
um par na quadra,
a quem confesse meus fracassos
e medos inconfessáveis.
Acima de tudo, para mim,
bem envelhecer é fazer as pazes
com o tempo, sabendo que nele vivem
as memórias dos melhores momentos,
sem as quais apenas nos restam
amarguras e ressentimentos.
Quanto aos dissabores,
há que deixar que o mesmo tempo,
pacientemente, os vá resolvendo,
até desaparecerem sob o espesso
manto do esquecimento.
Bem envelhecer é ter
forjado na consciência
o fio que guiou minha existência
e poder dizer que, desde sempre,
infiel, que sou, me enamorei
da beleza e da liberdade,
amei mulheres e por algumas delas
fui amado e, por toda a parte,
persegui as fugidias
enguias da verdade,
cumulando inimigos
que me riscaram na carne cicatrizes
que, hoje, são minhas
medalhas de batalhas.

Eliseo Martinez
22.12.2024

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

493.

A Lebre e a Tartaruga


Do que há a exaltar
destes tempos controversos,
uma coisa parece certa.
As cores do arco-íris
são muitas e diversas.
Nossas pequenas vitórias
podem valer pouco a outros olhos,
mas o que conta é que são nossas.
Em algum momento,
para conquistá-las,
fomos mais que somos
e, assim mesmo, é que nos vamos.
De nada vale comparar
o incomparável.
A intenção de medir
com a mesma régua os diferentes,
apenas servem para encobrir
injustiças e preconceitos.
Talvez o grande desafio seja
controlar o ego e uma certa
noção de identidade,
ampliando espaços
ao leque das qualidades.
Para alguns, como a tartaruga,
mais vale o aconchego
de levar a casa às costas;
para outros, feito a lebre,
o que importa são patas ágeis
para não ser presa fácil.
Tudo é muito mais
do que o certo ou o errado,
que o acima ou o abaixo,
que o virtuoso ou o desregrado.
E por falar em regras,
muitas delas se criaram
apenas para dar a poucos
o que a muitos é negado.

Eliseo Martinez
18.12.2024

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

492.

Lume


Já não se enviavam mensagens
em garrafas que flutuassem mares
para adernar em alguma distante margem
e, pombos correios, não eram mais o caso.
Inconformado, pensou num jeito
de deixar palavras
que não careceriam ser amodernadas,
ainda que vindas do passado.
E foi assim que se viu a registrar a fala
numa pequena tela iluminada.
Escolheu escrever à neta
no dia exato de seu sexto aniversário.
Quem sabe, as tais palavras,
lhe servissem para algo.
O que dizia era mais ou menos assim:
Não se engane, minha criança,
sempre há o que fazer,
nem que seja deixar acontecer.
Uma coisa parece certa,
o movimento faz parte do remédio,
nada melhor que ele
para manter distante o tédio.
Cuida dos inevitáveis nós
em que as contradições nos prendem,
fazendo-os mais frouxos,
menos resistentes
e nunca deixe de desconfiar
do que passa por perfeito.
Já o perigo das calmarias
é levar a vontade do enfermo à letargia,
fazendo o sangue secar nas veias,
até que, havendo corpo,
já não haja seiva.
Mas lembra de uma coisa ainda,
nada disso valerá de algo
se não houver lume, pequeno que seja,
a arder na alma pela força do desejo,
te fazendo contornar o medo.
É o que faz bater um coração,
minha querida.
Na falta de outro nome,
chama isso de paixão.
Para mim, o que dá sentido à vida.

Eliseo Martinez
17.12.2024

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

491.

Eriça-me


Eu, ali passando,
despreocupado e sem eira,
olhos postos no horizonte
curvando-se sobre a Terra,
a divagar no que parece ser
a última fronteira,
na borda do giro lerdo da esfera.
Não mais que de repente,
sob o sol de dezembro,
no pulso de um segundo,
se dissolve meu sossego
ante o que transcende,
imprevisível, neste mundo.
Vinha toda trigueira,
embalando um passo lento,
sorriso desencabulado,
cabelo solto ao vento.
Majestosa e estonteante,
pés descalços na areia,
cruzou por mim à beira-mar.
E, comigo mesmo, em silêncio,
falei contigo coisas que
só se falam com as sereias.
Pobre garota de Ipanema,
levada a te ceder lugar
na torre da beleza.
Foi então, louvando a criação,
quase em oração, ateu, que sou,
que entoei meu ato de contrição.
Supondo que mereça,
faz o que te peço,
fazendo que aconteça.
Tu, que em sonhos,
há muito me visitas,
eriça-me o desejo
como fosse a primeira vez
em que te vejo.
Tu, que os olhares captura
na graça de tuas curvas,
que a natureza fez modelo
a humilhar às esculturas,
mata-me com teus lábios
úmidos de veneno.
Cola no meu torço
teu peito de ninfa sarracena.
Faz-me tu de intruso
de teu corpo nu, de bruços.
Conta-me mentiras
que alegrem os meus dias.
Com teus olhos de serpente,
escondas-me o que sei que mentes.
Em jogos que eu não esqueça,
extenua-me uma vez mais,
antes que desapareça.
Sai manhã afora sem revelar o nome,
livre do jugo de qualquer dono.
E, na vontade tua,
volta noite adentro sob a luz da lua,
com a urgência das fomes todas
a arder-te na pele crua.
Quando me dei conta, já ia longe;
ela, indiferente, pela Cal e eu,
em desassossego, na Praia Grande.
Juro que foi!
... ou será que foi só sonho
que se sonha acordado?

Eliseo Martinez
10.12.2024

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

490.

Rios de Calmarias


O mesmo rio que, dias antes,
era todo som e fúria,
neste fim de tarde,
não conta com brisa
que encapele suas águas.
Chega-se a escutar
as vozes da pouca gente
em dois sotaques diferentes,
ao cruzar a ponte pênsil.
No jogo silencioso das tarrafas,
tudo é paz e calmaria
sob um céu de cinzas, claro.
Da boca deste caminho d'água
mal se percebe o vai e vem
das ondas de outras águas,
as salgadas, mais profundas,
mais agitadas.
Os biguás, desajeitados,
cedo se recolheram e as capivaras
esses excêntricos visitantes,
ainda não deram o ar da graça,
acostumadas a vir em bandos
costeando a orla,
para passear pelas calçadas
e roer grama nas praças.
Nestas tardes calmas,
descortinadas de chuvas,
quando o sol declina lento
por trás do curso do Mambituba,
des-pensamos feito andorinhas
e não há nada que perturbe.
Estes raros dias de calmarias
desarmam armadilhas...

Eliseo Martinez
08.12.2024

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

489.

Grão do Tempo


Sabia-se nada!
Depois que sumisse dos cenários,
não seria por muito lembrado.
As memórias desbotam e se apagam,
viram páginas arrancadas.
As obsessões, essas não!
Ficam costuradas à pele dos corações,
à espera do que não tem solução.
Perduram como o suor dos que trabalham,
o amor dos sinceramente apaixonados
e a dor engasgada dos injuriados.
Dão um pouco mais de fôlego
as imagens que se apartam das paisagens
por viverem de um estranho arranjo
entre as ilusões e cacos dos fracassos.
Mas, trocando em miúdos,
de um modo ou outro,
há que parecer bastante
para a vida ser tocada adiante.
O mais sensato é nos ver
como grãos do tempo,
o breve sopro de um brevíssimo momento.
E, justo neste hiato da eternidade,
ser o habitante de si mesmo,
para ter onde voltar sempre que a vida
nos tire o chão em que pisar.
De tanto arrumar a casa
e a casa sempre desarrumada,
acaba-se por compreender
o que muito se fala
e muito pouco é escutado.
Vale mais pôr o sujeito
e seu querer em movimento
que nos atar a sonhos desfeitos,
obcecados pelo objeto da chegada.
Para nos fazer despencar das superfícies,
sempre pode-se contar
com as quimeras da poesia,
ainda que nos façam rimar o bem da alegria
com o mal da melancolia.
Antes de nos perder no raso desses abismos,
melhor tentar iludir o ilusionista
e, ao entreter o tempo,
ser grão do infinito.

Eliseo Martinez
02.12.2024

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

488.

Grãos de Luz
Sobre as Sombras de Fundo


Corria o final dos anos sessenta
e o guri tímido,
nascido de ninho conturbado,
se viu às portas da vida
e, com ela, incertezas afloradas.
Foi quando respostas simples
se mostraram insuficientes.
Tomado de ímpeto e coragem,
se pôs atrás do sentido do que
apenas parecia bem arrumado.
Num dia como qualquer outro,
na hora do intervalo,
bem antes do almoço,
começou a reunir os colegas
no pátio da escola,
disposto a bulir caraminholas.
No início vieram dois ou três,
os sem jeito para o jogo de bola.
No decorrer dos dias
aquilo ainda se tornaria
a arena de duvidosas certezas
e até a bola acabou deixada de lado,
debaixo das redes.
Por introvertido que fosse,
obstinou-se em desvendar
o que lhe parecia coisa mal contada,
inaugurando umas boas semanas
de rinhas acaloradas,
no inesperado contraste dos grãos de luz
sobre o fundo de sombras disseminadas
a que se acostumam garotos
de qualquer idade.
O formato seguia o roteiro
dos seriados das matinés do cinema,
prosseguindo no dia seguinte,
com local e hora marcada,
em pleno recreio da gurizada.
Alguns, agastados com o que ouviam,
voltavam com munição renovada de casa.
Iniciava jogando a bomba na roda
e, pacientemente, espreitava.
"E Deus, será mesmo que existe?"
Atento, observava as caras,
o que era expresso em gestos e falas
e como os demais arrostavam.
Quando preciso, intervinha,
organizando as paixões despertadas,
no inevitável tumulto formado.
Media cada palavra, pesava argumentos,
aguçava os ouvidos no silêncio
que, também, entre as falas, gritava.
Era o provocador e o espia
do cenário por ele engendrado.
Por inverossímil que pareça,
em hora das mais improváveis,
pairava no pátio do Julinho
uma genuína atenção dos meninos,
no que cada um tinha a dizer
e, não raro, contradizer-se.
Ao término dessas jornadas
o tema esgotara e o guri pode ver claro
que as verdades mais arraigadas,
repetidas como lhes haviam sido
caseiramente ensinadas,
firmavam-se em nada.
Somou, diminuiu e, por fim, concluiu
que o que era dúvida, ao início,
assumira contornos mais definidos.
Sentiu que o mesmo ocorria com outros
ao perceber que o assunto migrava
do pátio para as salas de aula,
sob o olhar admirado dos mestres-escola.
O guri cresceu, foi à luta
e, antes que desse conta, se fez adulto.
Desde aquele tempo de adolescente
foi confirmando seus primeiros achados
e passou a não resistir
em contrariar as formalidades,
trocando uma etérea religiosidade
pelo menos vago senso de humanidade.
Desalambrado de credos,
já recusava-se a prosseguir
se não fosse com as próprias pernas.
Desalinhado de deuses, cada qual
tido por único e uni presente
pelos partidários de cada corrente,
entendeu que a coisa toda
trata de alimentar o medo
e o delírio coletivo dos que afirmam,
contra toda a evidência,
a existência do que inexiste
por não suportar que a vida,
em sua exuberância incontida,
seja apenas a força manifesta da natureza.
Entendeu que estamos sós e é tudo,
nos cabendo o melhor neste assunto!
Dizia aos demais: "sequem as lágrimas,
limpem ranho e baba, e se ponham
a pensar por si, que só assim, nos tornamos
menos estranhos a nós mesmos."
Não tardou em ver que reduzir o homem
a um desarrazoado ser de fé, simplesmente,
é amputar o que há nele de mais humano,
privando-lhe de seu dom natural,
sem o qual apenas lhe restam desenganos.
Trocar o mistério e a beleza dos mitos,
lendas e contos de fada
pela obstinada busca da compreensão
nos alivia os temores e ilumina a escuridão.
Aprendendo a lição de nada esperar
além do imponderável do acaso
e do que possa ser compreendido de fato,
aquele mesmo guri segue mais livre,
sem culpas, infernos ou paraísos,
sempre na companhia dos livros
que, tão bem, servem de amigos
e nos fazem um pouco menos frágeis
para encarar o olho escuro do abismo
do que faltará tempo para ser
inteiramente percebido.
Assim como a razão, é o erro.
Ambas pertencem ao mundo dos homens
e não a fantasias divinas.


Eliseo Martinez
08.11.2024

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

487.

Ética, Moral e Movimento


A Ética, no âmbito da norma
e a Moral, no campo prático,
se movem a passos lentos,
como cágados que passeiam ao relento.
Ambas, ao dar alguma solução
aos espinhos finos do preconceito,
a custo, legitimam comportamentos,
amenizando dores intensas
para fundar velhos novos tempos.
Sim, tudo fica e tudo muda,
feito ondas que sobre as areias
da praia se debruçam!
A desconfiança ante a grande moral,
nascida do olhar atento
e da dor íntima da experiência,
prospera no ímpeto da intuição
de por a verdade sob suspeita,
já que mais do que a razão,
necessita de forças enclausuradas
no inconsciente que a sustente.
Ser capaz de ousar decompor
a polifonia das vozes em acordo
dos que se alternam no comando
e compor a própria voz,
solitária e sem roteiro pronto,
tendo como certo um espaço
de caos interior que não negue
o imponderável que habita em nós,
criadouro de medos, angústias
e, também, da imaginação que insufla,
gera um novo movimento
no interior do espaço temporal.
E o tempo, que só existia
enquanto fenômeno natural,
agora, também é cria do devir humano,
no giro incerto da roda da história,
rica em danos e desenganos,
grávida de conquistas e vitórias,
traduzidas nas mentiras dos vencedores.

Eliseo Martinez
30.10.2024

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

486.

A "Jornada de um Imbecil ao Entendimento"


Tão mais simples seria dar crédito
às cartas, horóscopos e búzios;
dar ouvidos a presságios,
ziquiziras, benzeduras;
entregar-se às rezas, temer olho gordo
e bradar hosana às ditaduras.
Provavelmente, mais espaço
à musa da poesia se abriria
na seara dessas brumas obscuras.
O que sugere ser Calíope
a mais bela das prostitutas,
negociando, sem pudor,
além do amor, forma e conteúdo.
Ah!... Já que a vida é curta,
que tolos somos em não nos deixar
seduzir pelo útil da razão sintética,
que torna possível o pensamento
mesmo na mais completa
ausência de conhecimento.
Mas sempre há um pouco mais
a ser urdido no tear em que é tecida
a trama do drama humano.
Coisas que a todo o momento
saltam aos olhos dos que mantém
abertos os seus próprios, nos sendo difícil,
- por vezes, mesmo impossível -,
voltar atrás de cada pequeno
e árduo passo que se dá.
Pelos idos dos anos cinquenta
do século passado, o inglês Arnold Toynbee
já calculava que o excesso de informação
apontava para o colapso da civilização.
Isso que o uso dos incipientes computadores
não era disseminado e, muito menos, sobre
a Inteligência Artificial se havia cogitado.
Referia-se a avalanche de dados,
minimamente processados,
suportada na vigília,
ao longo de uma vida e, ainda antes,
com a descoberta do inconsciente,
os mundos que descortinamos no sono,
a reparar danos em nossas mentes.
O que nos dias se afigura aos sentidos,
às noites, passa em recortes sobrepostos
em nossos sonhos,
adensando o caleidoscópico movimento
da subjetividade que, no passado
e, ainda hoje, é chamado alma,
por mero apreço ao veio literário.
Descobrir quem se é e o que é o mundo
é tarefa das mais insolúveis
para qualquer um que se aventure
pelas intrincadas equações
que definem criação e criatura.
Mesmo a Ciência, a superar seus
velhos paradigmas, se reformula.
Mas, se a alguém sirva de consolo,
ao menos pode-se saber que a certeza
mais certa gravada no oco
do crânio de um crente,
fiel a ideia de um criador onipotente,
não é mais do que um engodo que colou,
ainda que repetida cegamente.
É nestas horas que me salta das dobras
da memória a imagem de Plínio Marcos
nos gramados da USP,
na memorável SBPC, de setenta e oito,
vendendo de mão em mão a "Jornada
de um Imbecil ao Entendimento",
enquanto matava a fome
comendo de um saquinho de biscoito.

Eliseo Martinez
25.10.2024

terça-feira, 8 de outubro de 2024

485.

Ateu


Com tantos de joelhos
e mãos estendidas para o alto,
na espera inútil de alguma graça diligente
ou sinal que os oriente,
depositando esperanças em entes imaginários,
criados pelos mestres ancestrais
dos que hoje não passariam de falsários,
ainda jovem, foi se alinhando contra o engodo
dos que lucram agenciando favores
do suposto pastor do rebanho,
com olhos postos no bezerro de ouro.
Uma horda de arautos e sacerdotes
das mais diversas hostes religiosas,
hábeis ilusionistas a valer-se do medo
de irascíveis, simplórios, abstrusos,
justificando com seus mitos
todo o mal que há no mundo.
Na contramão dos sectos de crédulos,
insistia que religiões mais mal fizeram que bem
e as igrejas não passam de empresas
ávidas em multiplicar, não mais o pão e o vinho,
mas o poder e a riqueza,
fiéis apenas a seculares interesses terrenos.
Dispostos a calar as vozes de insubmissos e ateus,
investidos dos poderes do Céu,
tornou-se alvo do ódio dos eleitos de Deus.
Não era um Ginsberg, um Kerouac ou Burroughs
mas ainda que anônimo,
mais por intuição do que premeditada adesão,
assemelhado aos cínicos de Antístenes,
ameaçava a ordem emanada da Palavra.
Não merecia menos que línguas de fogo
e o cheiro pútrido de enxofre
ao transpor o umbral dos que se foram.
Secretamente, na magia das preces,
os beatos untavam com veneno
suas pontas de flechas.
De fato, morreu no avançado da idade,
com uma desconcertante paz no semblante
e um impróprio sorriso nos lábios.
Lábios que beijaram bocas, seios, regaços,
afeiçoados aos humores dos corpos
e aos licores dos copos.
Contam que na cerimônia de adeus,
foi-se enredado entre coxas de moça,
na folia dos que pecaram nesta vida
para prestar contas em outra.
Para alívio dos puros de alma,
a ovelha desgarrada fora, enfim, sacrificada,
enquanto a velha e temerária harmonia
era, mais uma vez, restaurada.
Com a habitual hipocrisia
e o silêncio complacente de sempre,
regozijavam-se os fiéis penitentes,
certos de que o bem, mais uma vez,
vencera o mal da ousadia de negar
o que o mais tosco dos homens sabia.
Só não mais podiam tirar-lhe
o gosto da vida vivida,
deixando no sombrio da mente dos crentes
o lume desconfortável da dúvida
de que acima de criador e sagrado
existe o homem por os ter, ele mesmo, criado.

Eliseo Martinez
08.10.2024

domingo, 22 de setembro de 2024

484.

(In) Definições


Cedo ou tarde,
em um dia chuvoso de inverno,
somos levados a nos perguntar
sobre quem, de fato, amamos no passado
ou por quem fomos amados de verdade.
Mas, basta ousar ir um pouco mais fundo
do que parece letra morta a todo mundo
para nos darmos conta de que nada
é tão simples, assim, neste assunto.
Afinal, o que é esse tal de amor
de que todos falam senão a quimera
alimentada por insólitos motivos
com que queremos dar forma e sentido
aos afetos que nos calham pela vida?
Talvez seja mais uma vontade de sentir
do que coisa que se sinta; um selo
de qualidade conferido a nós mesmos
e aos parceiros que tivemos.
Talvez seja uma ideia
como as que dão razão a caminhada;
uma meta indefinida a ser alcançada;
uma marca prime de mercado.
Muito já foi dito sobre o amor
e, dele, jamais se dirá tudo.
E é justo neste ponto cego que parece
estar contido seu segredo oculto.
Das coisas mais sensatas já ditas
sobre o amor, diz-se que não se trata
de um único sentimento,
mas de uma cesta repleta deles.
Se esse for o caso, quem decide o que
deva conter esta preciosa cesta?
Seria tarefa do amante escolher
ou já têm lista pronta que os forneça?
No caso da cesta ter quem lhe defina
o conteúdo, o quê deverá pôr nela
o feliz sortudo?
Ele encontrará no que vêm enraizado
em seu passado ou deve aguardar
para que ainda ramifique em seu futuro?
Terá de respeitar algum critério obscuro,
notórios preceitos estéticos, éticos e culturais
ou pode conter itens indesejados pelos locais?
Uma vez vindo à luz o amor,
seria igual em toda parte
ou seria único feito obra de arte?
E essas são apenas algumas
das infindáveis questões
sobre este estranho sentimento
que, por alguma desarrazoada razão,
encontra-se presente,
senão nos corações, plantado
no fundo de nossas mentes,
incensando ilusões em toda gente.
Provavelmente, numa pesquisa,
dessas para tentar avaliar as escolhas
que se fazem pela vida,
a percepção sobre o amor,
antes de qualquer outra,
confirme o que todos sabem
ou pensam que sabem,
sabendo quase nada:
"melhor não fazer pergunta alguma,
amor é coisa que não se explica
e, sim, coisa para ser sentida".
Melhor ainda!
Talvez devamos ser realistas e admitir
que quanto a isso morreremos na ilusão
e continuar a pensar no amor
como uma bola de sabão
que, desencantado, se faria em nada,
ao se querer pegar com a mão.

Eliseo Martinez
20.09.2024

domingo, 8 de setembro de 2024

483.

"Derevaum seraum!"


Na arquitetura dos coletivos,
no peculiar amálgama de ordem necessária,
caos inevitável e o incalculável do acaso,
clivada de boas intenções
e contraditórios interesses dissimulados,
que estorvo maior que o próximo,
corroendo o mito dos camaradas
compartilhando seus sonhos com os nossos.
No trânsito congestionado de humanos,
disputando esperanças mal plantadas
pelos conturbados canteiros urbanos,
o que pode ser ameaça maior
ao simulacro da liberdade
do que regras e leis previamente fixadas
na ferrenha rinha diária
de cada um contra todos
pelas arenas de toda parte?
Enredados na teia das circunstâncias,
onde realidades circundantes
são naturalmente veladas,
operam-se mais do que as leis já postas,
aguçando o gozo privado em negligenciá-las
por trás das portas,
à meia-luz dos castiçais de prata
ou nas sombras que dançam
sob lamparinas de lata.
Para além das conhecidas mazelas,
não faltam amarras das quais pouco se fala.
Véus interpostos entre nós e o mundo
encobrem leis imutáveis,
sem meios de serem contornadas.
Mas, vejam que massa!
Por vezes, é aí que a trinca se esgarça.
O mal maior dos que ousam adoçar
as dores de ser com o gáudio
de tangenciar a própria loucura,
sejamos honestos!,
não se restringe às hostes hedonistas
e aos resquícios de sua selvagem malícia.
Mas de todo aquele que se move
em sintonia com o fluxo da vida,
ser desejante, livre da culpa e cônscio
dos deleites que lhe são, por princípio, devidos.
Na contramão das possibilidades
pouco há que se faça frente ao imperativo
incontornável da natureza.
Como se não bastasse o inço que se cria
na pequena horta que cultivamos pela vida,
premidos a reduzir o já restrito
círculo dos chamados "amigos",
uma lei não escrita no livro dos homens
assegura que, ao fim do prazer,
nada mais resta que a dor, expressa
na inapelável sentença "derevaum seraum".
E, pouco a pouco, a brecha que resta se fecha,
para nos fazer tijolos no muro das memórias...

Eliseo Martinez
08.09.2024

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

482.

Alma Lavada


No tédio de um dia como tantos,
desconjurado com a tarde
a deslizar pelos porões do inferno,
indiferente ao calendário
onde o maldito dia consta ser de inverno,
matutava no que fazer depois do almoço,
segurando a taça de vinho rosso.
Na sala da casa vazia,
em meio ao austero conforto,
pensou em desafiar o que lhe fazia torto
perante os que transitam pelos entornos.
Eriçando os dissensos onde todos
antes dele combinaram seus consensos,
se pôs a jogar com as palavras
sacadas com a rolha da garrafa.
Coisa para matar o tempo,
elementos para imaginários
casos de perfídia, agitando a fila do ódio,
sempre de sobreaviso, ávida de intrigas.
Afinal, fardados ou não,
não faltam sicários de plantão,
afeiçoados a ressentimentos,
rasos de imaginação.
Invocava os que não foram,
não fizeram, nem sentiram, os que,
simplesmente, não isto e não aquilo..!
Sem mais, passou a inventariar
os cravos da discórdia, sem pretender que,
nesse ou em qualquer momento,
de tão antagônicos entendimentos,
vicejassem halos de misericórdia.
Iniciou reconhecendo que,
a frente do que devia, tendia a mover-se
pelo apelo dos desejos,
o que lhe levou a salgar campos inteiros
dos mais puros e doces sentimentos.
Traiu pela força do instinto
ao menor indício de insídia,
pronto a cobrar a dívida
antes de ser contraída.
O amor?
A princípio, pareceu indeciso, para logo
admitir de si para si que é palavra
cheia de significados indecifráveis,
uma vontade insana de algo sublime
na miserável condição que nos define.
A liberdade? Ah, a liberdade...
Seria a mais vital das utopias inalcançáveis,
apaziguando a impotência que nos é
agudamente desconfortável.
A Justiça?
Não passaria da cenoura agitada
a um palmo do focinho do asno,
prometida para um futuro sempre adiado
e, apenas, por breve descuido do destino
vindo a ser testemunhada.
Justo, mesmo, seria Zé Celso, entre sorrisos,
acenar para Sílvio dos Campos Elíseos,
condenado a arrastar o fardo do seu baú
pesado no fundo dos precipícios.
Quanto a Deus...
A despeito dos nomes que assuma,
concluiu ser a mais velha
e bem sucedida das astúcias,
contando com o medo e a ignorância
que carregamos desde a infância,
útil aos que comandam o bando todo
ou aos que carecem do mando de um dono,
fisgados por uma vaga ideia de esperança.
Confessou, ainda, que sentia haver algo
que anima as almas em pecado
sob a lona levantada neste circo planetário,
dando cor aos cenários acinzentados,
seduzindo insubmissos a pularem os cercados
e se bandearem alvoraçados por todo lado.
Pronto! Lançado às sortes,
ficou a imaginar-se no aguardo
da inconveniência dos trâmites burocráticos,
desejando arte aos críticos mais animados.
Levantou-se, abriu a porta
e saiu pelas calçadas ensolaradas
a passo desapressado,
fingindo levar nele a alma lavada.

Eliseo Martinez
21.08.2024

terça-feira, 23 de julho de 2024

481.

Nossas crias pelo mundo


Espaços planetários,
reduzidos pelo fluxo frenético
das redes midiáticas
a jorrarem dados por seus tentáculos,
ficam imensos, assustadores,
repletos de harpias, dragões, malfeitores,
quando nossas crias se vão ao mundo,
longe de nossos cuidados protetores.
Talvez sejam estes tempos vorazes
que nos fazem temer por seus passos
pisados sobre nossas pegadas.
Talvez seja a recusa de velho
em ser suplantado
pelo viço da mocidade.
Talvez seja apenas a vontade
de as manter sob as asas.

Eliseo Martinez
22.07.2024

segunda-feira, 8 de julho de 2024

480.

Reminiscências


Nestas noites frias, enluaradas,
que nos fazem divagar
por entre as neblinas do passado,
ainda guardo a imagem do risco
de teus olhos semicerrados
a morrer pequenas mortes
enlaçada em meus braços
para reviver num último beijo
antes de entregar-nos ao cansaço,
recompensados dos males,
apaziguados de desejos,
enfim saciados...
Das manhãs escorridas
dessas noites de afagos,
tu desfeita em sono,
eu desperto ao lado,
antevendo com temor
o tempo pouco,
no pequeno infinito
de panos amarfalhados
da alcova do nosso quarto,
pelo novo dia iluminado.
Não duvidem os que não amaram!
Os amores que nos ferem,
de fato, são eternos.
Vivem por trás do que resta
do aconchego,
apertando o que, em segredo,
se leva ao peito
com suas tenazes de ferro,
na recusa ao esquecimento
do que foram momentos perfeitos.

Eliseo Martinez
08.07.2014

segunda-feira, 1 de julho de 2024

479.

Tempo II


Bem vindo para poucos,
mal dito pelos outros todos,
o Tempo, às vezes, é saudade,
às vezes, tristeza ou, apenas,
o fluxo inegociável da natureza.
O Tempo é o tirano que tudo pode,
é um outro jeito de dizer da morte,
mas também é vida que se renova.
Ele é mais longevo que o Espaço,
que no princípio não estava
e ao fim já não é nada.
O Tempo pode negar ser
para sempre qualquer ente
que, por descuido ou breve remorso,
permitiu vir à luz da existência
antes da conhecida sorte.
O Tempo é o amante violento
seduzido pela infiel Perfeição,
que o trai a cada momento
com seu gélido coração.
Em sua ira incontida,
esse deus da tirania
corrói tudo o que um dia
foi tocado pela vida,
fazendo com que o resto todo
se inebrie antes que se dissolva
no silêncio dos esquecidos.
Há que ser gentil com o Tempo
para evitar a cota extra de sofrimento
dos que se entregam aos lamentos.
Há que se entender seu jeito
de dar ordem ao universo imperfeito,
ligando tudo com o fio invisível
de que é feito.
Há que ser grato ao Tempo
por permitir a existência
deste nosso maravilhoso contratempo,
iniciado com o fato do nascimento
e extinto com o fado do esquecimento,
ainda que em seu egoísmo
guarde apenas para si mesmo
o segredo de seu perene movimento.

Eliseo Martinez
01.07.2024