Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020


321.


Memórias Roubadas
                           

Não vi.                                            
Infelizmente, não me foi permitido.
Tampouco fui visto,
apartado que fui do horizonte
que se abre a inocência de teu olhar.
Tal foi o dano imposto
pelo ressentimento dos que nos são caros,
os mesmos que se acham credores de tudo
e devedores de nada.
É claro que os que magoaram sem pensar,
de alguma forma, erraram.
Mas, que dizer dos que,
com mesquinhez e vileza,
pesaram friamente os atos que praticaram,
cumulados de omissões a que se acostumaram?
Os que não vislumbrando vantagens,
cortaram os fios que cardam
o futuro ao passado,
com a pressa dos comerciantes
que varejam lucro imediato
pelos mercados.
Ao assorearem tuas nascentes,
te dão curso reticente
desde a fonte de onde vertestes
às margens, sempre móveis do presente.
Se o bem maior desta vida
ressoa nas reminiscências que ficam,
do tanto a ser trocado,
palavras, festinhas, risadas,
restam as memórias roubadas...
Que pensar dos primeiros passos
trôpegos de tua caminhada,
senão que mais te serviria dá-los
sob a luz de múltiplos matizes
e texturas variadas,
temperando teu caráter
no cadinho da diversidade?
Irrecuperável, por certo,
é o que escorre pelo ralo dos desafetos,
a abrir lacunas em teu
recém iniciado trajeto.
Todo o mal cientemente gestado
encontra no tempo, ágil de asas,
seu mais implacável aliado.
Mas, cuida bem,
pequena flor de mel!
Inútil te negarem a origem
sem que filtrem o sangue
que te corre nas veias
ou apagem o nome
que te acompanhará desde sempre.
A roda, que neste dezembro
de peste e perdas,
já não gira seu giro primeiro,
cumpre o segundo
alheia ao que se passa no mundo,
e gira sobre um pequeno dente trincado
para, quem sabe, mais tarde,
vir a te fazer perguntar
por que iniciaste com tão pouco cuidado?

Eliseo Martinez
17.12.2020

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

 320.

O comboio dos aflitos


Rangendo sobre trilhos
saídos do umbigo do princípio
rumo aos confins do destino,
segue por atalhos e desvios
o trem dos que ficam.
piuiii... piuiii...
Próxima estação,
Palafitas-Recife.

Jogando de um lado ao outro,
se vai ele, meio leso, todo torto,
morro acima, vale abaixo,
cruzando planícies e charcos,
contornando precipícios.
piuiii... piuiii...
Estação do Alemão

Em cada estação de passagem,
sobe gente apressada
vinda de todo lado,
uns em fuga do passado,
outros à espera pelo que rezaram,
tomando acento prá seguir viagem.
piuiii... piuiii...
Estação da Luz-Amapá

A engenhoca de paus e ferro
chacoalha carregada de desenganos
e delírios de graças redentoras
de todo mal humano.
piuiii... piuiii...
Estação Paraisópolis

Viveiro das almas,
onde as mazelas não faltam:
das mentiras sempre contadas,
dividas não pagas,
culpas e inquietações
embarcadas no vão do peito,
às saudades do que se desfez
sem nunca ter sido feito.
piuiii... piuiii...
Estação Brumadinho

Segue o comboio dos aflitos
na turbulência dos espíritos,
apinhado de passageiros
úmidos do sal dos corpos
e do que rolou dos olhos,
ali mesmo, a barganhar
sorrisos e olhares desesperados,
na ilusão de se fazerem
menos solitários,
trazendo na bagagem
o excessivo peso da liberdade.
piuiii... piuiii...
Estação Mariana

Acidente de percurso,
sem par entre animais,
a condição humana
foi tocada por dedo de divindade,
por ela mesma criada,
onde não há medo ou cansaço
que faça o magote de humilhados
arrear dos carros abarrotados,
presos um ao outro como rosário
atado por fios de esperança
e fé no trabalho.
piuiii... piuiii...
Estação Carandiru

Do alto das torres
de um paraíso imaginado,
o comboio dos aflitos
rasteja feito imensa serpente
com o bucho cheio de gente,
rumo ao muro dos desencantos
em que esbarra o incrédulo
e esbarra, também, o crente.
piuiii... piuiii...
Estação final,
Satélites-Brasília.

Eliseo Martinez
03.12.2020

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 319.

Mais uma vez, o tempo

A obsessão com o tempo
leva com ela todos as outras,
presas ao fio que as sustentam,
estendido entre o antes e o depois,
de onde emprestam sentidos,
nem sempre bem definidos.
Do passo rápido ao passo lento,
há de chegar o momento
em que se recuse a pressa,
mas havendo sangue e pulso,
que siga a seduzir o movimento,
pois esse não cessa nunca.
Livre das rinhas
a que a vida nos leva,
mais sábio é seguir tranquilo,
quando pouco basta.
Manter a tropa na estrada,
é o que importa àqueles
que não se contentam
com pontos ou reticências.
Correr quando for preciso,
amar quando bem quisto,
odiar pouco, mesmo que
não faltem motivos,
sempre com olhar curioso
e olhos postos no mundo,
tão belo quanto belicoso.
Livres das crenças
em algum ser maior dos que
por aqui mesmo vivem,
ora alegres, ora tristes,
entre sonhos e delírios,
na utopia de qualquer dia
ainda serem felizes.
Quando possível,
que se fique sem motivo
pelos campos de Dioniso,
presos apenas ao que gira
solto no vácuo do espaço,
guardando com afeto
os beijos dados e abraços,
sem saber bem ao que,
mas sempre grato.
Certos de que a imaginação
é a varinha de condão
com que o acaso nos presenteou,
varrendo alguma fuligem
que se leve ao coração.
E, ao final,
que reste a sensação
de que o tempo
não nos passou em vão.

Eliseo Martinez
19.11.2020

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 318.

Saudades de mim


Ah! Os portugueses!
Como esquecê-los,
mesmo que estejam
na raiz do drama brasileiro.
Pois, te digo!
Foi de um velho fado
que tomei emprestado
o verso das saudades
que, às vezes,
dá de mim mesmo.
Claro está que o fadista,
por seu lado,
também tomou
de um outro seu fraseado.
E, que diabos de sentimento é esse
que Nietzsche foi dos primeiros
a deixar registrado?
É o que emerge ao vermos
a nós mesmos diferentes
daquele esquisito
que nos olha do lado
de dentro do espelho.
Quando menos espero,
ele chega espanando
pó da memória,
transportando-me às festas
da casa da vó Rosa,
família reunida
e comidinhas gostosas;
a tão aguardada
briga com os primos
e o tio Hélio animando a torcida,
garantindo não haver lugar
para o tédio
entre tão efusivos convivas.
Retalhos de lembranças
das "coisas feias", tão singelas,
entre meninos e meninas
escondidos por trás dos prédios;
das borboletas e véus de noiva
do alegre bairro Tristeza;
das disputas de taco e bolita,
bater figurinha e sair na corrida,
sempre que rapava
o valentão da esquina.
Imagens das reuniões de garagem,
da boleia de bonde
à saída de escola,
Redenção, bamba, mariola.
Um pouco mais tarde,
veio a vez das viagens,
o sol feito despertador
à beira da estrada,
prenunciando dia de aventura
e descobertas inesperadas.
Ainda hoje,
não me entra na cabeça
porquê uma única perna
valia o dobro do galo inteiro!
A cada retorno,
a volta ao Julinho,
para logo mais,
sair pelas ruas sem rumo,
ruas que eram nossas àquela altura;
as bandas de rock
pelos bairros da cidade
e jovens de olhares desarmados,
numa Porto Alegre inquieta
e bem menos selvagem...
É! Por vezes,
tenho dessas saudades,
saudades de mim.

Eliseo Martinez
16.11.2020

sábado, 31 de outubro de 2020

 317.

Black lives matter



Tem quem tenha se apropriado
do nome "americano",
próprio a todo o negro,
latino, índio ou branco
nascido de três continentes,
ligados por um fio de terra
e elos feitos de gente.
De fato, não é pouco o que veio
da metade sul das terras ao norte.
Mas, entre Klan, racismo,
trapaça, crentes e dinheiro,
fico com os sons surgidos
no interior de suas fronteiras,
gestados com gens estrangeiros.
Uma polifonia feita de
jazz, blues e folk,
happy, rock e gospel...,
no intervalo reduzido
de um par de séculos,
de lá, foi-se mundo a fora.
De que raízes vem tantos ramos
se não da cultura Mac Donald's-
Microsoft-Hollywood-Coca-cola?
Quem sabe da poesia dos hinos
nazi-fascistas da supremacia branca?
ou dos fundamentalistas de Atlanta?
Não, acho que não!
Vêm dos vindos contra a vontade,
os filhos descalços da África,
arrancados de seus lares.
Aqueles mesmos que,
tanto acima como abaixo
de uma linha imaginária,
foram reduzidos a escravos
e, ainda, lutam por igualdade,
gravando de vergonhas
os que seguem trapaceando.

Eliseo Martinez
31.10.2020

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

316.


Paradoxo

Assim como há o que nasça
do lodo do pântano,
tem o que prospere
à custa de desenganos.
Pelas trilhas
da aparente incongruência,
seguem as crias da mente,
que se criam melhor
de barriga vazia
que de barriga cheia
e nada parece produzir
de instigante um coração
sem que o desassossego
lhe faça bater em aflição.
Habita, aí, nesta toca,
um pequeno paradoxo
à procura do nexo lógico
de alguma resposta.
Não é do fruto do trabalho
das mãos de que falo.
Falo do gesto
que põe cor e curvas no que
andava branco e preto e reto,
do que recria-se em harmonia,
ensaia voo e rodopia
pelos espaços abertos,
das ideias derramadas
em folhas em branco,
do ato encenado nas ruas
e palcos mais amplos...
Parece impossível haver arte,
ou mesmo vida,
sem a ausência de algo,
um vazio a ser preenchido,
um vão que nos vai dentro,
oculto e mal percebido,
capaz de por em movimento,
quer consciência, quer instinto
do comum dos indivíduos.
Quem não quer a brisa suave
de dias ensolarados
para descansar à sombra das árvores,
beirando o remanso de um lago?
Mas é o vento que gira o moinho,
espalha as sementes
e faz com que as aves
teçam fortes seus ninhos.
É o "não" afetuoso do pai
que dá segurança
aos descaminhos do filho.
Que mais é a paixão
que uma carência enfurecida
à busca do objeto intangível?
A falta é a pausa entre as notas.
Sem tempos de silêncio
não haveria melodia
a nos encher a alma
e os olhos d'água de alegria.
Insuficientes, que somos,
andamos por nossas lacunas,
calculando distâncias seguras
dos muros úmidos
e escuros da loucura.

Eliseo Martinez
28.10.2020

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 315.

Dias de chuva


Em dias chuvosos, como este,
no aconchego da casa,
esquecidos de nós mesmos,
aninhados entre livros e jornais
espalhados sobre os tapetes,
ocupamos um parêntese
do tempo presente
e a trégua, por fim conquistada,
nos abraça em sua paz inventada.
Se grandes temas são largos
e necessitam de espaço,
é na trinca do instante
que os detalhes nos revelam,
despertando sentidos adormecidos
pelo atropelo da vida.

Eliseo Martinez
21.10.2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

314.

A captura do agora


Os tempos de que é feito o tempo
são percebidos cada qual a seu jeito.
No pretérito, assentaram-se os alicerces,
onde revoa entre o pó da memória
o que, talvez, seja melhor que se esqueça.
Ao futuro, destinam-se sonhos e projetos,
tantas vezes, mais quiméricos que certos.
No entanto, mais do que nos damos conta,
a intrincada trama da vida
parte das costuras do agora
para, ponto a ponto, ir sendo tecida
pela existência a fora.
Reféns do passado
ou no aguardo do inusitado,
o efêmero espaço do meio,
que é onde sempre estamos,
é feito canoa sem remo ou vela de pano,
ao jogo encapelado do oceano.
Quer as amarras nos atem com nós da memória
ou nos aprisionem na esperança da boa hora,
uma coisa parece ser certa:
pouco do presente nos resta.
O pulso do instante imediato
é da natureza do relâmpago, do trovão e do raio,
que inutilmente se tentou capturar,
personificados em divindades arcaicas.
Que mais é o momento que esta fenda do tempo
onde a eternidade se estende, lépida e lenta,
como chama de vela à fúria de vento?
O sol de inverno na pele;
um gesto inesperado de afeto;
o momentâneo encontro dos corpos;
pequenos vícios, só nossos;
o espanto que move criança e filósofo;
o tranco do punhal entre os ossos...
Há, também, o que não se reviva ao ser recordado
ou requente no fogo brando das reminiscências,
tampouco se antecipe ao ser imaginado.
É no presente que habitam
as sensações que se sente.
Os sentidos são tentáculos invisíveis
que nos ligam ao universo sensível,
coletando aromas e cores,
sons, texturas e sabores,
a nos dar a ilusão que, ao menos aqui
e apenas agora, ainda somos senhores.

Eliseo Martinez
20.10.2020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

313.

Manifesto dos Tolos

Em tempos tão divergentes,
que incensam loas aos diferentes,
que não se negue aos tolos
seus justos direitos.
O tolo está entre nós desde sempre.
Não se sabe, ao certo,
se não foi, de fato, o primeiro,
sem pesar consequências,
a levar adiante o andor
do bando inteiro.
Basta deitar olho na história
para ver que não lhe faltou
pompas e glórias,
bem como guilhotina e degola.
Tem tolo prá todo o gosto,
do mais jovem ao mais idoso,
inocente, nem aí ou criminoso.
O tolo não é o burro,
ele está mais para o ingênuo,
se bem que alguns até passem
por excêntricos ou, mesmo, gênios.
Agora, tolo chato, com certeza,
é o tolo crente.
Ave Maria! Sai de ré, minha gente!
Haja paciência para o tolo penitente.
Se perguntarem por sua obra,
quanta tolice fez e fará o tolo,
mundo a fora.
Ser tolo é pop, nunca saiu de moda.
Sucesso garantido
entre as moças prendadas,
que amam tolos, em especial,
na hora da conta ser paga.
Hoje, tem até fake de tolo.
É aqui que entra o esperto
que, com o voto dele,
quer ser eleito de novo.
O tolo, quase sempre, é boa gente,
fazendo do engano,
seu toque mais humano.
Mas, o que se exige do tolo
chega a ser indecente.
Quando for só mais um
entre o resto das gentes,
sem ser alvo dos maledicentes
com suas línguas-de-serpente,
vai poder deixar de se fazer
de inteligente
para falar de um jeito simples
das merdas que sente.
Só então, seremos tolos contentes!

Eliseo Martinez
15.10.2020

terça-feira, 6 de outubro de 2020

 312.

Olho agudo


Olha-se em volta.
Por força do hábito,
o olho ajusta o foco
o mais longe que pode
e, levado pela corrente,
nem sempre as margens
se revelam atraentes.
É como que um pouco
dos males do mundo
se prendam feito fungos
ao fundo de tudo.

Eliseo Martinez
06.10.2020

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

311.

Machado - Loucura e ironia

Em fins de setembro de 1908, morria no
Rio de Janeiro um dos mais destacados
escritores da língua portuguesa.
Aquele que, apesar da face austera 
estampada em fotos, revelaria a
mente dotada de voltas à mais que o
normal dos mortais.
Aos 69 anos de idade, se ia Machado
de Assis, o iniciador do realismo no
Brasil e o primeiro a presidir a
Academia Brasileira de Letras,
que ajudou a fundar, em meio ao rico
legado literário deixado e a depressão,
ou melancolia, como à época era
chamada.
Com sua pena, Machado deu vida aos
que ficam para estada bem mais longa:
Brás Cubas, Quincas Borba (bicho e
homem), Rubião, Casmurro e tantos
mais; que, uma vez nos apresentados na
adolescência, deveriam ser revisitados
na maior idade para que cada um fosse
mais bem escutado, não apenas pelo
que fala ou grita, mas pelo que
ruidosamente sussurra sobre nós
mesmos.
O amplo inventário das imperfeições e
do contraditório que compõem a unidade
de seus personagens é a seta que
encontra o alvo móvel da diversidade  
que coabita desde sempre a alma de
toda a gente.
Autor de método e avesso às
linearidades do estereótipo, Machado
de Assis discorre com sagacidade sobre
a complexa psique humana, não raro,
usando da fragmentação que encadeia
o texto em múltiplos capítulos,
por vezes, feitos de uma única frase,
para melhor expor a nuance em seus
desdobramentos, sempre de forma clara,
contundente e de sóbrio humor, com o
toque da irreverência.
A ironia, que é um jeito outro de falar do
mesmo, mas com a vocação de eriçar
sentidos, aguçando a atenção do leitor
atento, encontra na descrição de
Machado o que reveste a pele da
aparência e subjaz oculto nos labirintos
do inconsciente, revelando o que se
move dentro e fora, o grão da dúvida
encravado no solo insólito das certezas,
assim como o olhar duro do coletivo
sobre o indivíduo, em solidão
permanente, e a loucura com que este,
por vezes, lhe responde, tudo posto na
limpidez da língua, fluidez da escrita
e astúcia das imagens que transcendem
tempo e espaço, condensando o que
um outro, a nos observar de longe,
chamaria homem.


Eliseo Martinez
28.09.2020

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

310.

O nome

Podemos nos ir deste mundo
sem rastro que leve ao que fomos,
basta que se perca o nome
que, ao nascer, sem que se peça,
herdamos.
O nome é a resposta que damos
às urgências do tempo,
algo do pouco que nos preserva
para além do corpo, em breve
a apodrecer numa orgia de vermes.
O nome dura mais do que a gente,
levando consigo nossos vestígios,
antes de sumirmos para sempre.
Havendo prole, quem sabe?,
seremos lembrados,
passando o nome que recebemos
aos recém chegados,
tornando menos perfeito
o irredutível trabalho da morte,
obrigada a se abancar na estação
até que passe, de cada comboio,
o último vagão.
Acaso nos falte a estima,
ovo mal chocado da família,
o nome pode não ser mais
que as posses ou dívidas
que ficam com as partidas.
Com sorte, o inventário aberto
e uma magra partilha,
sempre em hora certa.
Mas, se não faltar boa vontade,
o nome é bem mais, na verdade.
É o fio que nos liga às origens
e uma pista indefectível
do fruto que nos tornamos,
seja lá quem formos,
vingando dessas raízes,
para o salto do alto dos ramos.
Sem o nome, somos apenas "aquele".
Quem? "Aquele, que fez isto ou aquilo,
ou mesmo, o que nada fez de bem feito.
Ladrão, corrupto ou assassino,
para se ficar nas tendências de sempre.
Que não se omita o de "filho da puta",
para os amantes da língua menos culta.
Ah! Também, pode ter sido o professor,
ou o que não foi útil aos rebentos,
tão contaminados de vontades,
nestes tempos virulentos.
Pode ser o nada do vácuo
perdido no espaço,
com validade vencida de prazo.
Pode ser apenas
o que todos seremos ainda,
o átomo que está em tudo
e já não se sabe se finda,
no tédio infinito de tanto giro.
Pode, até, ser um desses,
que, pelo acaso, veio dar
neste prato de comida,
me entrando pela boca
na fome do meio-dia,
para se despedir pelo cu,
num vaso sem flores,
no outro dia.

Eliseo Martinez
23.09.2020


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 309.

As cores do gris


Nos acostumamos a sonhar em cores,
sonhos que se sonha acordado.
O que é imprescindível,
não há que negar, fique claro.
Mas é justo que saibamos,
ainda, assim, se tratam de sonhos.
O preço da existência
do que provou do gozo intenso
de a ter povoado de pensamentos
é o de dar-se conta que, com o tempo,
se evaporam os estoques de alegrias,
por mais que elas iluminem os dias,
enquanto, mais ao fundo,
sedimentam-se as tristezas, por vezes,
cravadas de anzóis da melancolia.
É o peso dos anos que, agora,
se fazem presentes, pelo menos
aos que ousaram desvelar-se,
na consciência de serem humanos
e não deuses, que os tolos
mal desconfiaram que inventamos.
O idiota, do sublime russo,
veria nisso o obstáculo intransponível
à fantasiosa felicidade, por ele criada.
Jamais entenderia que aqueles
que se perderam à procura das causas,
se encontraram em reflexões,
no trabalho árduo entre as razões,
calejados na bigorna das buscas e erros,
frustrações, desenganos e recomeços
e, ali mesmo, forjados
com o que conseguiram de acertos.
Estes não poderiam, de fato,
vir a juntar-se aos contentes.
Talvez por isso,
reservem à ênfase dos felizes,
não mais que sua conhecida,
enigmática e desprezível, ironia,
já que é no estado de paz
dos que ousaram arriscar a errar,
em que acreditam.
Nada mais que essa pequena
"felicidade" lhes cabe.
Não é azul, rosa ou laranja,
nem de um vermelho exuberante.
São de cores gris,
em que já não se sonha feito antes.
É a face, sem maquiagem,
do que é real e palpável.
E nem foi mencionado, aqui,
as verdades que trazem.
Não nos abandone a arte
mas, à falta dela,
que a alguém baste a realidade.

Eliseo Martinez
21.09.2020




quarta-feira, 16 de setembro de 2020

308.

Comunidade

Ante o horror oculto
sob os ritos cotidianos,
quase desapercebido
ao comum dos humanos,
que sorte pode aguardar
o maldito olho agudo
senão ser apontado como infame
ao contrapor-se, inconveniente,
aos rumos do rebanho?
A diferença faz fermentar
intensos sentimentos,
que destilarão ódios irascíveis,
mais à frente.
Talvez toda a sabedoria em coexistir
resuma-se à ciência do cálculo exato
da distância entre os entes
para que não se dê da própria carne
a outros dentes, com fomes que
nem os donos deles compreendem.

Eliseo Martinez
16.09.2020

terça-feira, 15 de setembro de 2020

307.

Mais uma vez, o voto

Em meio ao tsunami da pandemia,
o país se prepara para novo embate,
agora, alinhando candidatos
da polis a seus postos de comando.
De todo o lado, surgem loquazes defensores
dos legítimos interesses do povo,
que logo depois das escolhas anunciadas,
cairão no esquecimento, de novo.
E o esforço coletivo dos homens,
mais uma vez, servirá ao apetite de poucos.
Antes de baixar aos nomes,
é o fenômeno do poder
que deveria ser melhor apurado,
virar objeto da atenção
dos mesmos de sempre enganados,
nos levando a inventar saídas
do amplo círculo dos erros praticados.
Basta olhar em volta
para ver dissolver-se ante os olhos
o peso das formulas teóricas, aí postas,
como chave que nos abrisse alguma porta.
Se a direita é sempre nefasta
às maiorias excluídas,
a esquerda parlamentar se fez fumaça,
esmerando-se em negar
suas lutas mais antigas.
Lideranças acovardadas
negam o que pregam
velhas falas decoradas.
O mercado de ilusões segue operado
por gangues de sanguessugas,
sempre prontas a desfrutar
os despojos da disputa,
zelosos da máquina infernal
que lhes garante os salários,
sem os resultados
para que foram criados.
Por baixo dos panos,
correm soltos os acordos
que melhor convêm a tais senhores,
escolados mestres enganadores.
Para o grego antigo, o nome "diceópolis",
repercutido pela comédia de Aristófanes,
passou a definir o bom político.
Não é preciso ser muito lido
para supor que o conceito, ali, nascente,
teve breve existência,
não sobrevivendo para além
do imaginário helênico.
Como pode restar dúvida
de que solução alguma virá
da dita "grande política"
e de que ela só faz patinar
as justas demandas de nossa gente
num parlamento corrompido,
um judiciário a soldo das elites
e as hostes obscuras da presidência?
Como escapar da lógica imposta
pelo velho conhecido "voto útil"?
Uma coisa é certa:
o voto serve cada vez menos
a maior parte de toda gente
e, cada vez mais, para legitimar
o estado de injustiça vigente.
As utopias imaginadas da modernidade,
que, ao menos, ampliavam possibilidades,
parecem não ter mais lugar
na distopia pós-moderna,
conformada com o que se passa.
Que se ache, então, outra passagem,
talvez menos segura,
mas, por certo, mais viável.

Eliseo Martinez
15.09.2020