Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

515.

Ateus Também Oram

Pouco se fala no assunto, mas
é fato que ateus também oram.
Suas preces não se dirigem
a etéreas divindades,
tampouco pedem por favores,
graça ou milagres.
Ímpios oram por uma mente
desperta e ágil, na ilusão
de alcançarem a verdade.
Assim é que, numa noite clara,
em que a luz da lua projetava
sombras sob as árvores,
imerso na quietude da paisagem,
um desses gajos divagava...
Ao pé da imponente araucária,
a seu modo, se punha a rezar
o descrente desgarrado,
ciente de que o pecado
tem menos a ver com o que
é certo ou o que é errado
do que com os humores
oscilantes do mercado.
Pensava, ele, nas tantas trilhas
entrecortadas por atalhos
neste emaranhado de rumos
que o mundo e nós mesmos
nos impomos que, ora a borda
dos abismos, ora o cume dos
sonhos inatingíveis,
são os guias com que contamos
para percorrer os insólitos
descaminhos em que,
não raro, nos achamos.
E dizia a si mesmo
e a quem mais fosse,
se mais alguém lá estivesse:
- se não somos tão bons com
as respostas, que não se desista
das perguntas,
por incômodas que sejam,
desde que sejam nossas
e não colhidas com a baba
vertida das bocas insidiosas.
Fora de lugar, andava a busca
de um Norte que nos oriente,
a ele mesmo e a toda gente,
ao aliar o gesto feito
ao que se sente, decidido
a seguir os grãos de afeto
deitados ao chão pelos que
passaram antes,
assinalando os perigos do trajeto
ou, mesmo, os desenganos,
tão conhecidos dos amantes.
Entre tudo o que gestava,
se fortalecia para que,
quando fraco e abatido,
não se visse na vala dos que
se servem da miséria alheia
para atenuar o peso da vida
por não ser perfeita.
Almejava ser como o epicurista
que, a cada dia, tem de aprender
a domar o espírito
para desejar menos,
vivendo livre do medo
e indiferente à esperança,
sem separar em si mesmo
o velho da criança.
Em suas juras, se dispunha
ser inteiro em qualquer tempo,
obstinado em perseguir
as cores vivas da coerência,
tantas vezes encobertas
pelo cinza da indiferença.
E, a meia voz, de si para si,
dizia ele:
- já que de alguma forma,
todo o saber mina a inocência,
quero que ela persista
como névoa fina
sobre tudo o que eu conheça,
sem que me veja seduzido
mais que o necessário
pelo imprescindível
mal do romantismo
ou venha a confinar
esse suado saber em um canto
dourado da existência,
como ensaiam os diletantes,
avessos à experiência.
Seguir sem esquecer
de ser um pouco como Che
para buscar jeito de manter
algo da ternura e, assim,
manter-me a salvo
das doidas rondas da loucura.
E, sob o trilo de mil grilos
e o luzir dos vagalumes,
concluiu que, de tanto tentar
ser o todo e não a parte,
com sorte, ainda há de alcançar
a essência do que vale,
também feita das ilusões
que nos fazem crer
em algo maior que nós,
ainda que sabedores da trágica
condição de se estar
irremediavelmente sós.

Eliseo Martinez
02.12.2025

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

514.

Por que escrevo?

Volta e meia, pergunto-me
por que mesmo é que escrevo?
Do cadinho onde as causas se misturam,
bem que eu podia sacar uma,
tal como a de ganhar dinheiro
no comércio das garatujas;
quem sabe um dia,
ostentar sobre a escrivaninha
um Nobel fake de literatura,
comprado às escondidas
em um muquifo no Beco do Mijo,
onde se imprimia panfletos
de esquerda nos idos da ditadura.
Mas, antecipo: não é nada disso!
Talvez meus rabiscos apenas sirvam
para cerzir os retalhos do que sinto,
montando um todo dos muitos
em que eu mesmo me divido.
Mas, infelizmente, sou mais
realista do que isso.
Colagens tendem a dar em nada,
uma vez que a base onde esses cacos
são juntados já nasce configurada
no mesmo exíguo cercado, onde
muito menos que tudo é considerado.
Passo a acreditar que escrever
é uma dessas coisas que faço
para ludibriar-me sobre quem sou,
ao tentar dar traços novos
aos contornos do meu próprio rosto.
Mas, confesso...
Também isso me parece pouco.
Talvez o ato de escrever
sirva para enganar o medo,
colorindo minha vida
que desbota com o tempo,
ou algo mais corriqueiro,
a exemplo da matreira faxineira
que, ao limpar as prateleiras,
joga para baixo do tapete
o grosso da sujeira.
Ou, como é próprio do avarento,
percebendo que de tudo o que se pensa,
sempre ficam presos
às paredes do entendimento
restos mal ruminados de pensamentos,
dedico-me a reciclá-los para, deles,
tirar algum proveito.
Por que não acreditar, ainda,
que, ao escrever posso dar 
alguma ordem aos devaneios,
parecendo mais composto
quando me posto à frente do espelho?
Ou, talvez escreva como prova de vida,
atestando que ainda estou aqui,
temeroso de já ter partido,
sem que disso tenha recebido
o devido aviso.
Do emaranhado dessas razões
mal engendradas,
ocorre-me que talvez escreva
para retornar aos recreios da infância
mas, agora, sem balanço, pega-pega
ou a saudosa lembrança
do velho pipoqueiro da vizinhança.
Pensando com mais cuidado,
me dou conta do muito que me agrada
o livre jogo das palavras.
Para ser mais exato,
gosto do som que elas fazem,
sem que, por vezes,
se obriguem a dizer nada.
Avesso às rimas perfeitas,
que são como carcereiras,
a confinar o pensamento em cativeiro,
prefiro as rimas quebradas,
às que simplesmente
mamulengam com as palavras,
descompromissadas com as métricas
nessa nossa solitária empreitada,
brincando, alegremente, com as ideias
como as crianças brincam
sem muita regra, alheias às plateias.
Por fim, acho que escrevo
porque posso e porque quero,
sem com isso ter de te dar resposta
às dúvidas que só a mim importam.
Ou, quem sabe...
entre a solidão destas paredes,
tomado por um surto de humildade,
despido do último véu da vaidade,
deva reconhecer
que escrevo por escrever,
sem eu mesmo saber porquê!

Eliseo Martinez
30.10.2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

513.

Insensato, talvez...

Quase sempre movido
pelo gosto da caminhada;
quase nunca seduzido
pelas prendas da chegada.
Por princípio,
confio que cada passo
é um convite a que
o caminho todo se refaça.
Insensato, talvez;
mas não inteiramente insano
nesta minha insensatez.
Apenas submeto meus planos
ao básico da existência,
o resto todo é vida fluída
na vertigem do momento.
O que não é antídoto
às dores e desenganos
mas, também, não permitiu
passar em branco meus anos.
Se cada um tem seu lote de acertos,
e um outro lote de desconsertos,
havendo vida que valha à pena,
prefiro crer que a felicidade
só se permita ser encontrada
no exato momento
em que é vivenciada.

Eliseo Martinez
28.10.2025

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

512.


Febres

As febres que estão em mim,
são febres que não têm fim.
Ardem nas manhãs de inverno
entre lençóis amarfanhados,
queimam nas noites estreladas
à beira do espelho d'água.
Nascem como riachos,
se fazem rios, se vão aos mares
só para desaguar
na vertigem dos teus lábios...
Nas marés que nos arrastam,
a pequena morte se apossa
de nossos corpos,
levados pelo globo mundo
em seu giro lento pelo cosmos.
E a paz necessária preenche
os poros do espaço,
dando trégua ao tempo
em meio ao justo cansaço.
Não há momento que seja
mais que esse, quando Hypnos
nos acolhe em seu abraço.

Eliseo Martinez
25.10.2025

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

511.

Escolhas

Há escolhas que se fazem
e aquela que já vêm feitas
por algo ou alguém, mesmo
que só a nós digam respeito.
Como reza um velho adágio,
os caminhos se refazem
sob o andar das carruagens.
À margem dos trilhos deitados
em sítios antes povoados,
estações se quedam abandonadas,
sem partidas ou chegadas
por, alí, já não restar mais nada
no vazio da terra arrasada.
Outras, à pressa dos passos, apinhadas,
acolhem os comboios que passam.
E, nesse passar passam os anos,
passam sonhos, passam planos
de gente tão diferente,
mesmo que famintos
de uma mesma fome,
sedentos de uma mesma sede.
Uns atados ao passado,
outros à espera do que vem à frente.
Apenas os que se instalam no presente,
entregues a seu tempo intensamente,
não se prendem ao que se foi,
nem deixam para depois.
Vivem, simplesmente!

Eliseo Martinez
20.10.2025

terça-feira, 21 de outubro de 2025

510.

Felicidade

Há temas que vencem o tempo
em algum recôndito lugar incerto
da mente de néscios, sábios e despertos.
Mais do que é amealhado por dinheiro;
mais que as portas que o poder abre
pelas arenas do mundo inteiro;
mais que os encantos de uma mulher,
nos lançamos à procura dessa coisa
chamada por todos felicidade,
sem saber bem o que ela é.
Às vezes, ela parece surgir
de um instante congelado no passado
quando, nem mesmo àquela altura,
era assim considerada,
dando-lhe ares de coisa imaginada.
Outras vezes, a dita cuja
é remetida às calendas do futuro
mas, é de supor-se que nunca
haverá tempo suficiente para usufruir
do seu lucro ou dos seus juros,
tendo existência, apenas,
no desejo oculto dos que a procuram.
Mas, sejamos pacientes
e a procuremos, uma vez mais,
na fluidez do tempo presente.
Restando a ela o átimo do agora,
como o estalido dos fogos de artifícios
que no ano novo pipocam sobre a orla,
pode-se dizer da quimérica felicidade
que é coisa tão passageira que, se é,
deixa de ser, sem rastro e sem demora.
Não fazendo ninho no que já foi,
no que virá ou no que vai ao meio,
talvez a felicidade só encontre lugar
no sorriso largo das crianças
ou no devaneio dos insanos, com sorte
de provarem da vida sem receio.

Eliseo Martinez
18.10.2025

sábado, 18 de outubro de 2025

509.

Azul ou Rosa ?


No tempo em que me cabia,
acho que não pensava
nem em menino, nem em menina,
de tão vacinado que estava de família.
Mas, quis o destino trazer
em seu bico acegonhado
uma filha e um filho,
por meu amor de então, tão esperados.
Veio o Pedro e veio a Júlia.
Ele, com mais pressa,
para tristeza nossa, se foi cedo embora;
ela é o que, mesmo na distância,
nos faz família até agora.
Trata-se de moça de estudos, viajada,
que vive de seu trabalho,
sondando mentes atormentadas.
É dela que brota o botão
de uma flor de mel de nome Izabel.
Se azul ou rosa?
No meu caso, o acaso deu a resposta,
em um tempo em que o jogo
entre mulheres e homens
assume novos contornos.
Neste curto espaço de tempo,
aos poucos, venho aprendendo
que meninas espertas
veem mais longe que
meninos sempre alertas!
Elas deram passos a mais,
deixando nossos rapazolas para trás.
Sagazes, elas já nascem
com nuances nos olhares,
lendo nas entrelinhas,
antes mesmo de desenharem
suas primeiras letrinhas.
Insaciáveis de perguntas,
querem saber de tudo
o que vai no mundo.
Deixaram as bonecas de lado
para jogar bola, subir em árvores
e brincar com pelúcias de capivara.
São afáveis, amorosas,
mas não se enganem,
não se metam com elas,
sabem bem resolver suas querelas.
Os tampinhas que me desculpem,
sem muito jeito, fazem o que fazem,
mas foi a elas que a natureza
reservou graça e beleza,
prenunciando as meninas aguerridas
que vieram para virar a mesa.

Eliseo Martinez
15.10.2025

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

508.

Tempo de Guri


Ah! No meu tempo é que era bom...
As crianças cresciam em uma
Porto Alegre provinciana,
ao jeito de serem mais felizes,
mais confiantes,
brincando livres pela vizinhança.
Cedinho, me ia
da Cidade Baixa ao Julinho,
no balanço de um bonde da Carris,
que rangia sobre os trilhos,
baldeando minha alegria de guri.
Dias de piquenique com pastelina,
mil-folhas, pipoca doce e coca-cola,
escondidos no terraço da escola
ou de ficar na pracinha,
lagarteando ao sol de inverno,
a gazetear aula com os colegas.
Tinha bronca do Capitão,
mas também tinha a Lúcia,
o Júlio, o Ricardo e o Gordo,
metido no surrado macacão.
Tinha a cantina, onde nem sempre
sobrava trocado pro pastel de vento;
tinha o pátio das peladas
onde, uma noite ao fugir de casa,
pulei o muro para dormir enregelado.
Ah! Os shows de rock no ginásio,
primeiro baseado, primeira namorada...
Na verdade, nem tudo eram flores.
Em casa, a coisa era tosca
e o laço corria solto!
Mas a resposta vinha de pronto.
Férias de julho, mochila às costas
e polegar pra cima,
rumo aos festivais de Minas.
Nos verões, entre temor e êxtase,
a vertigem da saída,
antes de varar solito pelas estradas,
cabelos longos e pantalonas largas,
cruzando com gente de todo jeito,
andarilhos de todo lado,
a procura de algo que não era
para ser encontrado.
A cada retorno, voltava mais dono
da minha cabeça
e senhor do meu corpo,
carregado de histórias a eriçar
fantasias de liberdade
nos garotos do ginásio.
Adolescente desencaixado,
confesso, não fui aluno aplicado.
Socorro, doutor pirado!
Meu boletim padecia de sarampo,
de tanta nota salpicada de encarnado.
Fiquei no Colégio uma par de anos
mais que o combinado,
até tomar jeito e dar um até breve
aos leões de bronze que vigiavam
e ainda vigiam os que passam
e os que ficam pelos corredores
de vidro do velho Júlio de Castilhos.
E assim foi que me fui ao mundo,
meio estudante, meio vagabundo,
para bem mais tarde e virar mundo,
retornar como mestre-escola
da escola que me deu um norte
e razões que me movem vida afora.

Eliseo Martinez
10.10.2025

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

507.

Reflita !

Mais que pensar, reflita !
Sim, pessoas são difíceis.
Será que ainda há quem duvide
dessa notícia triste ?
E, se em algum dia,
ainda que distante,
de um a outro
dos homens todos,
fluísse a ideia pura,
refinada e sem mistura ?
Despida mesmo
de palavra que confunda,
sem gesto que oculte
ou desejo que iluda.
Como um arauto alvissareiro
do sentido cristalino
onde, pela falta de alvo certo
ou súbito deslize,
por boca já foi mal dito.
Nesse caso raro, o conflito
puxaria a fila dos extintos,
seguido pelos exemplos
com que os outros
nos explicam e, até mitos
que, falsamente,
por nós mesmos nos definem,
teriam o destino da lata do lixo.
Nada valeria mais que saltar
do alto do suposto abrigo
para mergulhar
no exótico do abismo
de que é feito cada vida,
livres do bolor das mesquinhas
línguas da intriga.

Eliseo Martinez
18.09.2025

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

506.


Onde nasce a Arte


A  Arte bem podia
nascer dos dias de sol
ou das noites enluaradas,
mas é mais bem nascida
ao nascer das mal
dormidas madrugadas,
onde o real imaginado
espreita mil assombros
e viceja desassossegos
no medonho silêncio
que antecede as alvoradas.
Assim como a alma do poeta
é feita de sombras coloridas,
sonhos tenebrosos
rondam o sono dos artistas.
Mais que as migalhas de alegria,
reveses aram sulcos sobre a pele,
onde as sementes
que mais bem germinam
são dos grãos da despedida.
Dessas dores todas,
que murmuram como as águas,
quase sempre represadas,
é que a Arte foi inventada,
dando sentido ao nada
do sem-sentido da existência
e algum raro prazer
à aridez da caminhada.

Eliseo Martinez
15.09.2025 

terça-feira, 17 de junho de 2025

505.

Os Outros

Assim mesmo é que nos vamos,
meio bichos, meio humanos,
salvos pelo instinto,
contornando desenganos.
Na aposta de todo o dia,
condenados a uma triste alegria,
batemos ponto na fila da esperança,
entre um turno e outro,
comendo da mesma marmita fria
nos seis dias da semana.
O nosso é o bloco dos esquecidos,
mas mesmo que tu não vejas,
somos os que levantam tuas paredes,
os que cozem as roupas que te vestem,
os que calçam as ruas
em que transitas teu carro novo,
os que te livram das sobras
do festim do teu consumo
sem, muitas vezes,
ter o que por na mesa,
dando alento ao estômago
das bocas que se põe no mundo.
A balança foi aferida com cuidado,
sempre pendendo para um só lado
e muitos de nós ainda creem
que foi o destino que nos fez errados.
Mas sonhar, nós também sonhamos
e em nossos sonhos loucos
já não seremos nós, seremos outros,
confiantes no credo imposto
em que fomos batizados,
conformados com o arranjo feito,
sem que nos tenham consultado.
Antes mesmo de qualquer herói
que te inspire,
somos o homem invisível,
malabares das esquinas,
sob as luzes de faróis e sinaleiras,
a espera da vergonha
contida em teu sorriso rijo
ou da moeda que, a contra gosto,
sacas da algibeira.

Eliseo Martinez
13.06.2025

segunda-feira, 9 de junho de 2025

504.


O Povo diz que fica!


Duas casas, casamatas,
com traço de arquiteto,
lindamente projetadas,
uma côncava, outra convexa,
feito duas bacias,
boca abajo, boca arriba,
de tão pouca serventia
aos que colocaram lá
os novos mestres da hipocrisia,
sempre de costas aos que
esquentam cu nas galerias.
Uns poucos bravos
em defesa do povo;
no mais, sabujos,
pau-mandados, ávidos
por um tal secreto orçamento
que lhes enche os bolsos,
em meio as regalias do mandato.
E o anel de ferro forjado
sob auspícios da burguesia,
de banqueiros, larápios, bispos
ao agro, movido a subsídios,
fecha-se lentamente em torno
do inconveniente divergente,
que põe a nu os crimes
do infame bando de parasitas,
sempre pronto a regar
a flor descolorida da injustiça
no canteiro das crises
por ele mesmo produzidas.
O país? Que se dane!
O que conta é o que se ganha,
jogar o jogo e ficar rico.
Mas o povo, que não é burro,
diz, com nojo, na cara
dos corruptos e golpistas:
Glauber fica!

Eliseo Martinez
09.06.2025

sábado, 24 de maio de 2025

503.

A Estratégia do Extermínio

Já não existem pracinhas
em que as crianças possam brincar
ou os recantos dos passeios de sábado.
Já não existem lares para que os pais
voltem para suas famílias
depois do trabalho,
já não existe trabalho...
Existem apenas escombros
e restos de corpos mutilados
dos que foram
covardemente assassinados.
Escolas, universidades e hospitais
indiscriminadamente bombardeados
enquanto voluntários desarmados,
vindos dos quatro cantos do mundo,
caem sob a chuva de estilhaços.
Tanta fome produzida
e, nas fronteiras, a ajuda humanitária
sendo cruelmente retida.
Tantas vidas ceifadas,
jogadas na bacia das almas.
Ao milenar conflito
ente árabes e judeus
já não cabe o nome de guerra.
Agora, a estratégia sionista
opera o extermínio palestino,
dando forma ao horror de velhos planos
urdidos no recôndito das sinagogas.
Ante os olhos complacentes do mundo,
toma curso a extinção
de um povo inteiro, rico em história,
expropriado de suas terras,
obrigado a vagar de um lado ao outro
do próprio território sob a sanha
assassina dos fundamentalistas
e seu odioso governo genocida.
Os Estados Unidos, mais uma vez,
financiam a barbárie.
De olho nos negócios,
seu insano presidente
fala abertamente em transformar Gaza
em uma reconstruída colônia de férias,
um sombrio empreendimento turístico,
sem os donos da terra, sem palestinos...
A Europa se cala.
É como se o fantasma do nazismo
ressurgisse sem embaraços,
sob as lentes das teleobjetivas.
Que explicação fantasiosa
de atos tão vergonhosos
será dada às gerações futuras?
Com que mentiras se escreverão
os livros de história?
Como explicar o silêncio de todos?
Quem há de chamar tão hediondo
crime, vitória!?

Eliseo Martinez
25.05.2025

quinta-feira, 6 de março de 2025

502.

Solipsista

Em que norte tu te escondes,
caminhante errante,
avesso à bússola e ao sextante?
Tu, o mais cético dos incrédulos,
que já se foi por lugares
que outros não foram antes,
por onde andas enquanto
olhas-me com teu olhar distante?
Sonhas acordado
algum sonho a ser sonhado
ou teu gozo vem de tudo
haver desencantado?
Talvez tenham te ensinado
a contemplar os astros,
alheio a queda que espreita
à beira do penhasco.
Te acautela, caminhante
e, honestamente me responde:
com quantas ilusões
colhidas pela vida
se fazem as verdades
sinceramente repetidas?
Que controversa fé é essa,
caminhante, se todo outro
não é mais que um sopro
vindo do oco do corpo
que lhe veste?
Em que tear desfias a trama
de toda a difícil coerência
quando vê teu rosto, Narciso,
denunciado no espelho?
Se as coisas já não são senão
sombras inanes do imaginário,
ecos que se esgueiram
pelos poros do espaço,
de que é feito o chão
em que te moves
pela força de teus passos?
- Devaneio! Como tudo,
mero devaneio é o que é!
- O real inexiste,
é apenas aparência assumida
por nossos delírios reunidos.
- Resigna-te a isso
e guarda tuas ilusões
a quem delas necessite!

Eliseo Martinez
05.03.2025

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

501.

Pobre Ucrânia!

Na terra de Clarice,
abertamente, se flertava
com neonazistas e suas milícias.
De Washington
lançaram lhe a fatídica isca
embebida no veneno da malícia
e, insuflada de coragem,
começou a confrontar
os russos expansionistas.
Em pleno jogo,
o peão quis trocar de lado
e passou a acalentar o sonho
de se aninhar a NATO.
Fragilizada, ao neutralizar
suas esquerdas, fizeram
das vozes discordantes
seu inimigo mais importante,
enquanto as raposas
de fora do galinheiro
esperavam que o caos reinasse
no centro do picadeiro.
Agora, depois dos três
longos anos de guerra
e um milhão de mortos,
no mais recente banho
de sangue do ocidente,
é traída pelo falso amigo
estadunidense.
Pobre Ucrânia!
O ogro de cabelo alaranjado,
de uma tacada, cobra a conta
e, para a surpresa de todos,
convida os que há muito
traíram Lenin e seu próprio povo
a se unir numa insólita aliança.
Retalhada por russos
e americanos, encravada
numa Europa amedrontada,
paga com o próprio território
as dívidas contraídas
na aventura dos tanques e mísseis,
garganteada pelo bobo da corte,
seu presidente humorista.
Em busca dos recursos naturais,
a direita internacional
canibaliza seus filhotes regionais.
E, no final, dividem entre eles
o butim das terras raras
e os metais que vão dar
fôlego novo as maravilhas
da Tesla, da NASA e do I-Phone,
deixando aos ucranianos o ônus
da humilhação e do sacrifício.
Pobre Ucrânia!

Eliseo Martinez
25.02.2025

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

500.

Pedro


Nunca te escrevi.
Acho mesmo que,
nestes anos todos,
tentei esquecer
a lembrança de teu frágil
corpo maculado
em um canto de mim,
sombrio e mal arrumado,
onde nada, além de ti,
permiti existir.
Nem tempo tive
de te conhecer, de fato,
ou mesmo jeito de ter te amado,
meu guri desafortunado.
Já nascias como na canção,
pedaço arrancado de mim,
quando tua passagem breve
foi demais para suportar.
Confesso que tive medo
antes de chegares e, à partida,
deixou-me a ferida viva
que, ainda hoje, trago comigo.
Talvez tenha te culpado
pela dor maior que já suportei,
ao fazer ruir tudo o que
sempre quis construir
ao lado de alguém.
Só sei que morri um pouco,
bem ali, naquele triste 4 de janeiro,
te vendo lutar para respirar,
em desespero, antes mesmo de ter
consciência de teu nefasto paradeiro.
Me vi quebrado e impotente
ante o muro intransponível
que se levantou a minha frente.
Ainda lembro, com pavor,
da pequena urna branca
em que deitei teu corpo,
carregada em meus braços
até o nicho escuro do campo santo,
onde te neguei as rezas,
as flores e os prantos
dos ritos que te pertenciam,
tentando proteger quem, por ti,
também renunciava à vida,
naquele maldito dia.
Lembro das tardes,
à orla deserta, onde só o rio
ouvia os gritos deste animal ferido;
lembro da chuva no rosto
e de meus passos trôpegos,
tentando não sucumbir
a dor de te ver partir,
sem poder ter te acolhido.
Lembro do vazio nos olhos
de quem, com amor,
te trouxe à exígua vida...
Lembro do temor da volta,
com ela e a casa tomada
pela espuma dos dias.
Foram tempos de desespero,
quando me afastei de tudo,
a começar pela mulher que amava
e que te pôs no mundo.
Por anos não consegui falar teu nome
sem marejar os olhos d'água.
Conheci a bacia das almas
e, nela, sorvi do fel de toda mágoa.
Foram tempos bem difíceis,
até que, para me salvar,
tive de me perder...
De volta dos abismos,
sobrevivi nos braços
de amores fáceis,
procurando cheiro
nas flores de plástico,
me fazendo forte
quando era só um homem
devastado e fraco.
Mas guardo no meu peito
uma certeza, ignoto filho.
Seria um homem melhor
que sou, se tu, Pedro,
estivesse, hoje, aqui comigo.
Sinto que seríamos
mais que amigos,
Seriamos pai e filho.

Eliseo Martinez
04.02.2025

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

499.

Não!


O distrato inesperado
desfez o trato firmado
e o que parecia bem acertado,
num zap, foi cancelado.
Com o insólito desenlace,
as partes já não eram
partes de nada,
mas coisas apartadas,
seguindo desbaratadas
cada qual pro seu lado.
O que ficou foi a intenção
que não vingou
e o dano do que se perdia,
supondo que, dali,
algo de bom resultaria.
Talvez houvesse até
ganho no não.
Quem vai saber, quando
a oferta é de ocasião
e já não tem valor
de mercado o perdão?
Uma só coisa parece certa:
em tempos tão adversos
nada é mais incerto
do que carece do acordo
entre desejos diversos.
Claro como a água
que transborda dos brejos.
É! Acho que é o que,
também, acho.
Ou não?

Eliseo Martinez
30.01.2025

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

498.

A Insustentável Leveza
da Bem-aventurança


Tocado pela boa ventura,
em uma dessas noites sem lua,
imerso na mais perfeita paz de espírito,
varria com o olhar os confins do infinito,
ao som do cri-cri dos grilos.
Com toda a miséria de fundo,
ali, naquele bendito momento,
parecia que o mal havia partido,
tirando férias do mundo.
Nada a perturbar a existência,
posta entre parênteses,
nem mesmo o menor peso
a oscilar na balança da consciência.
Os problemas maiores, há muito sanados;
os menores, por hora, apaziguados...
... ou tão bem enterrados
que à superfície nem a laje
das lápides havia restado.
Na verdade, transitava pelo
quase-estado de vida sonhada
por feras e homens pacificados.
Mas...
De tão perfeito que estava,
começou a sentir falta de algo
naquele oásis de sossego,
estranho a alguém, assim, do seu jeito.
Devia ser coisa não oriunda dos conteúdos,
que facilmente se tornam assunto
nas rodas de poucas luzes,
mas coisa outra que emana
da forma e substância das essências
e encerra em si mesma
o sentido último da existência.
Assemelhava-se, mas não era de tédio
que se tratava.
Julgava, mesmo, que lhe era desconhecido
tal estado nefasto.
Começou a pensar no que havia
de constante na vida,
o que desde de sempre lhe faz companhia
e, por algum motivo,
naquele preciso instante,
tomara chá de sumiço.
Pensou, pensou e pensou mais um pouco...
Ao final percebeu que lhe faltava
o que sempre rondou pelo entorno,
feito corvos do mau agouro.
Simplesmente, faltavam as mazelas
e, assim, a fúria em si mesmo gerada
para dissolve-las.
Olhando em volta, com olhar mais atento,
não tardou muito para que se resolvesse
o dilema...
Sem causa aparente, viu-se no meio
do inesperado entrevero,
entre gritos, lâminas e cabeças partidas.
Sem apelo da pena,
deu adeus ao momentâneo conforto,
sentenciado a um par de meses
entre meganhas, afoitos e outros.
E... tudo normal, de novo!

Eliseo Martinez
28.01.2025