Ateus Também Oram
é fato que ateus também oram.
Suas preces não se dirigem
a etéreas divindades,
tampouco pedem por favores,
graça ou milagres.
Ímpios oram por uma mente
desperta e ágil, na ilusão
de alcançarem a verdade.
Assim é que, numa noite clara,
em que a luz da lua projetava
sombras sob as árvores,
imerso na quietude da paisagem,
um desses gajos divagava...
Ao pé da imponente araucária,
a seu modo, se punha a rezar
o descrente desgarrado,
ciente de que o pecado
tem menos a ver com o que
é certo ou o que é errado
do que com os humores
oscilantes do mercado.
Pensava, ele, nas tantas trilhas
entrecortadas por atalhos
neste emaranhado de rumos
que o mundo e nós mesmos
nos impomos que, ora a borda
dos abismos, ora o cume dos
sonhos inatingíveis,
são os guias com que contamos
para percorrer os insólitos
descaminhos em que,
não raro, nos achamos.
E dizia a si mesmo
e a quem mais fosse,
se mais alguém lá estivesse:
- se não somos tão bons com
as respostas, que não se desista
das perguntas,
por incômodas que sejam,
desde que sejam nossas
e não colhidas com a baba
vertida das bocas insidiosas.
Fora de lugar, andava a busca
de um Norte que nos oriente,
a ele mesmo e a toda gente,
ao aliar o gesto feito
ao que se sente, decidido
a seguir os grãos de afeto
deitados ao chão pelos que
passaram antes,
assinalando os perigos do trajeto
ou, mesmo, os desenganos,
tão conhecidos dos amantes.
Entre tudo o que gestava,
se fortalecia para que,
quando fraco e abatido,
não se visse na vala dos que
se servem da miséria alheia
para atenuar o peso da vida
por não ser perfeita.
Almejava ser como o epicurista
que, a cada dia, tem de aprender
a domar o espírito
para desejar menos,
vivendo livre do medo
e indiferente à esperança,
sem separar em si mesmo
o velho da criança.
Em suas juras, se dispunha
ser inteiro em qualquer tempo,
obstinado em perseguir
as cores vivas da coerência,
tantas vezes encobertas
pelo cinza da indiferença.
E, a meia voz, de si para si,
dizia ele:
- já que de alguma forma,
todo o saber mina a inocência,
quero que ela persista
como névoa fina
sobre tudo o que eu conheça,
sem que me veja seduzido
mais que o necessário
pelo imprescindível
mal do romantismo
ou venha a confinar
esse suado saber em um canto
dourado da existência,
como ensaiam os diletantes,
avessos à experiência.
Seguir sem esquecer
de ser um pouco como Che
para buscar jeito de manter
algo da ternura e, assim,
manter-me a salvo
das doidas rondas da loucura.
E, sob o trilo de mil grilos
e o luzir dos vagalumes,
concluiu que, de tanto tentar
ser o todo e não a parte,
com sorte, ainda há de alcançar
a essência do que vale,
também feita das ilusões
que nos fazem crer
em algo maior que nós,
ainda que sabedores da trágica
condição de se estar
irremediavelmente sós.
Eliseo Martinez
02.12.2025