16.
Juízo Final
Se invocasse
o tempo escorrido, ele atenderia pela alcunha de bodas de granito.
Como saído de
um corte, pelo ralo escorre o sumo agridoce do desejado sentir forte.
Visitei
mundos caleidoscópicos, de bizarras gentes e ligeiros prazeres hipnóticos.
Andei sem
rumo, à sorte. Flertei com o medo que gruda, insana ira, maldade pura,
traição,
mentira, horizonte perto e amenas distrações que me pouparam do tédio certo.
Inodoras
flores, desmaiadas na cor, que um teimoso querer quis dar vida e frescor.
Não menti ao
simular ardores, contrabandeados pela fronteira da boca, a mando da mente. O peito, a
muito mudo, a observar tudo. Peito não pensa, sente.
Por força da
condição de par, confesso, não sem esforço, que o sentir foi pouco.
No giro da
vida, entre um nada e o ralo troco, faço-me ímpar alheio a porto de chegada.
Pelo possuído
um dia, sorrio sob o véu da ironia e, covarde, ouso ser justo só neste dia.
Em segredo, trago
a ferros guardadas à pele do selvagem coração, duas tatuagens gravadas.
Uma, nos verdes
anos, tons pasteis vestia, o rosto de carijó pintado, cúmplice, me via.
De mãos
dadas, desenhamos o amor redondo. Gerou um ovo ausente, e um segundo despresente.
Outra, nascida longe, para além do mar profundo. Como inquietos companheiros,
fomos ao mundo, regando com
licores e vinho loucos gozos juntos. Diques a me represarem, confiante, fez ruir muitos. Era de um azul
cintilante e, se o cometa passou, deixou no vácuo o brilho anil do gelo de seu rastro.
Seres de
partilhas anchas, com quem dividi inteiro meus tantos erros e alguns luzeiros.
Se flutuam no
passado, visito-as nos espaços vastos da memória. Únicos grandes amores de minha trajetória.
Nas dores e
prazeres, por intensas luas cheias, lúcidas, amigas, amantes, companheiras.
Hoje, no
revés da fúria dos versos, da pele fez-se casco, enfunam velas aos desafetos.
A tranca torno e ao
peito passo. Acusado ou, pior, absolvido, neste caso de duplo desencontro vivido, volto a cobrir
com sangue, pele, ossos o que na vida mais importa e mal não fez à alma torta.
Com
inabalável ânimo manco, no ar pesado, desencanto, firmo o passo e, mais livre que
querendo, sigo andando.
Mas, por vezes, quando no além-dia-a-dia, virtú e fortú se roçam de passagem na mesma encruzilhada e grãos de luz alçam revoada, desavisado me pego com um outro sorriso esboçado pelo que trago em segredo bem guardado.
Eliseo Martinez 18.09.2015