Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

31.

FALAS ELETIVAS


Escusa-te de vasculhar entre as palavras,
buscando as que dizem porque cogitaram em ti.
São tuas, estas que falam, agora, jogadas aqui,
como teus são os seios mais belos que já vi.
Da caixinha onde guardo sorrisos com estrelinha,
boa parte foi presente teu para o deleite meu.
Das comidas à noitinha aos lautos manjares,
feitos por nós, como pares, gêmeos cucas, tu e eu.
Em estéticos devaneios compomos espaços,
afinando o traço no intervalo dos abraços.
Também te pertence o respeito que conquistaste.
Justo preço pago por tua garra e caráter.
Se não bastasse, o sabor por distantes lugares
traçam mapas de nossas afinidades mais vulgares.
Quanto às demais ?
Faltou-nos o tempo e o desprendimento.
Para saber, para viver mais...

Eliseo Martinez
23/12/2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

30.



Línguas de fogo lambem e rasgam
a pele macia de seus ásperos dias.
Conscrito de malditas maltas de banidos.
Entre cicatrizes, fendas laranjas sorriem.
Jorra a rocha derretida dos sentidos,
no pulso do espírito, desperta rebeldia.
Metido nas velhas roupas de briga,
veste o amor sua mais dura armadura.
Mais que sopro de vida, faz-se ventania.
Das brumas da alma, entumece a fúria.
No prenúncio do embate, move a existência,
e, em seu rastro escarlate, é movido nela.
Desde o fundo dos tempos foi resistência.
Agora, herético, é a chama de aço da vela.
Ressaca. Vagas desmoronam turbulências.
À costa, um coração em paz na justa luta.

Nova trégua antes da próxima refrega,
em dias que giram dentro da mesma esfera,
que, indiferente, a todos e a cada um, carrega.

Eliseo Martinez
17/12/2015

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

29.

Gotas do Mal  I


É preciso roçar ao osso o "não",
raspar a pulsão de pertencer,
miragem, placebo da solidão.
Nestes tempos desencantados
em que silenciam as canções,
batem fracos, descarnados,
mancos de galope, os corações,
pouco mais somos que vorazes
acumuladores de sensações.


Eliseo Martinez
07/12/2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

28.




NÓS



Nós, que brotamos sós, colhendo o que com as mãos nuas plantamos e, abaixo da pele, códigos sagrados tatuamos,
marcados por sangrar pelo que visceralmente acreditamos.
Que temos sede de riso franco e fome de sentido ancho.
Que desconfiamos fortemente dos cômodos consensos
e dos que se habituaram a pastar nosso voto displicente.
Que nos despimos das causas por levá-las à alma,
e cuspimos na vida negociada do fim à chegada.
Que, desassossegados, corremos soltos, apartados das manadas, ignorando se o sentir intenso é dom, maldição
ou apenas fúria, na recusa de viver num vão.
Que "lutamos do outro lado da luta", negando pertencer,
ao preço da fuga dos infernos, no limbo, dissolver.
Que, creia, amamos crua e acidamente a ti e a toda a gente.
Estamos condenados a desafinar sempre que topamos
com o coro morno e manso dos contentes.
Estamos fadados a nos rebelar contra mordaças e correntes.
Semeadores de outras sementes.
Somos uma espécie de malditos lúcidos dementes...

Eliseo Martinez
03/12/2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

27.




Não que valham algo as palavras errantes,
nata nas calmarias, poeira na fúria de ventanias,
mas, algumas soam como deveriam soar palavras
que vazam cachoeiras da boca seca dos amantes,
no acaso do ocaso em que viajam sós por rotas remotas,
como as encontradas numa curva do espaço exterior,
no terceiro anel de Saturno, em estranha inscrição
esculpida a fogo num asteroide duro de gelo azul:
"Por onde andam Pillares, Matildes, Dulcineias?
Personagens de nossas mais interiores, únicas e
imprescindíveis odisseias."   
                                                     Caminhante das Estrelas 


Eliseo Martinez
30/11/2015

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

26.


OUROS DE TOLO


I

Dentre todo o vasto sentir humano, o que mais forte me toca
e, por vezes mesmo, em mim, o inebriar dos olhos provoca,
é o sentimento expresso num gesto de RECONHECIMENTO.
Contra a corrente, em tempos de esbanjamento e eus famintos,
de aqui e agora, mas deixa pra outra hora, de usa e joga fora,
é um tapa na cara do banal e ordinário presente sem história.
O ato de reconhecer, brota antes como uma semente exigente.
Apenas germina em solos enriquecidos por valores parecidos,
no acaso do encontro de virtudes entre o miolo nu das gentes.
Tem na generosidade a fonte que lhe fornece a vital umidade.
Denuncia uma forma despojada de amar, irrigada pelo olhar,
que se permite abandonar ao ver, lá fora, o outro a passar.
Sem mais dispor, celebra o rito, agradece, se declara devedor.





II

Dentre os gestos humanos, um possui força peculiar,
nos flecha e convida a parar. Detém o mistério que
altera a luz, dá graça ao movimento, desarma e seduz.
É como bate à alma o feitiço de um SORRISO recebido.
Vasculhando o cesto onde eu os tenho bem guardados, embrulhados em afeto já que com eles fui presenteado,
reencontro, entre tantos, hologramas de teu sorriso.
De todos, o que mais me encanto ter sido enfeitiçado.


Eliseo Martinez
23/11/2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

25.

BRANCA

Figurantes amadores passando por atores,
ao tentar roubar a cena, foram o que são,
e não representaram mais que dores.
Cruéis, negaram à atriz ligar-lhe o talo à raiz,
privando-a do direito germinal de saber e ser feliz.
Filha da avó Maroca, foi amparada e criada
distante da mãe torta.
Doce criança magoada, à altura, desbocada.
Mulher armada de escudo, bainha sem espada.
Porcelana branca e delicada, gueixa de secretos
ardores dotada. Aquietou-me legiões de demônios
por mil noites insones. Tenaz, teceu manto invisível
e foi à luta pela vida. Das conquistas alcançadas,
à ninguém deve nada. Bicho forte, sabedor da
própria sorte, sobrevive e diz que algum dia ainda vive.
Amiga generosa, fez dos livros bons amigos.
Se de suas entranhas, filho não saiu, é mãe afetuosa
das crias de outras que as pariu. Por vezes,
sem cuidado, despertei-lhe seus temores, noutras,
leves, festejamos o farto banquete dos sabores.
Ombro a ombro, pé na rua, caminhadas, nas
conversas animadas, desfila a rara existência reta,
ornada por natural classe discreta.
Conquistou-me a confiança, pelo dom da temperança,
em um mundo de desdém, que cospe em sua herança.
Ainda que uma pedra levasse ao peito,
a parte que lhe reservo há de bater sempre quente,
como quente foi no leito.

Eliseo Martinez
18.11.2015

sábado, 31 de outubro de 2015

24.




Giro sob a inquietude de forças vadias.
Que esperar, ao acordar,
se permitisse que, à noite,
o beijo ácido da melancolia
arrancasse-me a pele dos lábios
para limpar-lhes o gosto alcaçuz da orgíaca folia,
que, se bem não faz,
é eficaz elixir para o que o mal nos traz ?
Às vezes, sou cata-vento de cimento...

Eliseo Martinez
30/10/2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

23.

SOBRE O TAMANHO DAS COISAS


Fala-se das coisas como se fossem uma só coisa.
Como se houvesse um harmônico concerto entre
os falantes. O amor, o desejo, a vontade, a busca,
o medo, a saudade... a própria morte.
Uma única palavra pode portar inúmeras sortes,
além dos vários tamanhos que lhe cabem no porte.
Se basta à palavra ter uma só casca,
suas entranhas são feitas de múltiplos sensos.
Quase tantos quanto tanto tem de gente,
que lhe acolhem em sentidos tão diferentes.
Não é outra a causa de ser difícil a ciência e a arte
de uma vívida convivência que nos arrebate.
Às demais, banais, bastam as cascas.



Eliseo Martinez
28/10/2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

22.


-  Bom, acho que falta pouco. Já vai acabar ...
-  E o que podemos fazer ?
-  Podemos viver o que dá !
- Tá.

Eliseo Martinez
26/10/2015

terça-feira, 20 de outubro de 2015

21.

INCERTAS CERTEZAS


-  I  -

Apenas duas coisas podemos ter como certas: o fim comum que nos espera a todos e o imponderável de tudo o mais que nos cerca. No entanto, habituamo-nos a jogar âncora às águas rasas das “certezas”, para as quais nos arrastam as correntes gêmeas da esperança e do medo, numa recusa à trágica herança que nos acompanha desde o instante que nada mais somos que semente.
Uns poucos milênios bastaram para que com áureos fios de ilusão, tecêssemos o espeço manto de proteção. Tantas mãos de tinta foram caiadas que nos sumiu da vista a textura do verdadeiro casco forjado na dura luta. Criamos paraísos delirantes e infernos agonizantes para, logo a seguir, habitarmos a zona limítrofe de suas fronteiras. Apesar de raça nova, tornamo-nos senhores de todo o pulsar vital sob a curva celestial, onde, por acaso ou ato estudado, nos multiplicamos em frenética espiral. Criamos mitos, que do temor da fé foram nutridos, aplacando o ancestral terror de um mundo assustador. Há bem pouco tempo – 2.700 anos –, inventamos uma outra forma de organizar o pensar e com o vigor da razão ligamos ao todo cada grão.

Assim, mais leves, sem o formidável peso dos velhos deuses zangados, continuamos nossa caminhada, melhor equipados. Passamos a crer que pela vontade do homem, não só nosso pequeno planeta, mas todo o universo se move. Um novo panteão sagrado, passa a ser formado pelo sacrossanto progresso, a infalível Ciência, a dadivosa Cultura, a divina lógica, avançando  numa mesma História.
Íamos bem... Passamos a reconhecer o próprio gênio por trás das obras do passado, edificamos com labor o fugaz instante presente e projetamos um novo Ocidente. No breve transcurso do fenômeno humano, experimentávamos nas utopias sublimes o esplendor dos séculos de ouro da espécie onipotente.

Mas, de tanto sonhar, acabamos por ver nossos sonhos rachar e, por fim, sobre nossas cabeças, ruidosamente desabar.
Já não caminhamos sob o véu transparente da luz clara. Agora, o próximo passo, sempre mais rápido, nos conduz a um nevoeiro opaco. Uma a uma, vamos deitando ao chão as armas da razão. Perplexos, vimos ruir o que entendíamos por Realidade e Verdade,  assim como o sentido do Belo, do Bom e do Justo. De artesões que se habituavam a costurar totalidades, passamos a bordar retalhos em quantidade.

A bagagem, de seu peso aliviado, não dispensou a pulsão do saber, com a qual fomos talhados. A Ciência, mais que nunca, obstinada a chocar os ovos da Técnica, produz saberes, por ora, incertos.
Dominamos o mistério que data a morte do torrão esférico que pisamos e que, de nossa pequena estrela maior, é apenas mais uma rocha que em seu oco, arde feito uma tocha. A Terra, que zune a 18 mil km por segundo no espaço, está a meio caminho de esgotar a validade de seu prazo. Nos próximos 5 bilhões de anos, o sol de tanto embriagar-se do próprio hidrogênio, vai colapsar-se sobre si mesmo, já tendo atraído para um último tórrido beijo um a um dos astros que lhe seguem o rastro.
Sabemos que a preceder o toque fatal, o último resquício de vida já terá se extinguido aqui do quintal e, bem antes, teremos nosso final.
Foi-nos pressagiado pelo oráculo da Episteme que nos próximos 1.500 anos, mais uma vez, Gaya será vingada ao vestir-se com suas roupas de gelo, acabando com a maior parte da vida que abriga. Não devemos desaparecer totalmente. Na última era glacial, há 10 mil anos atrás, restaram alguns milhares de homo sapiens. Com o auxílio dos saberes, por ventura preservados, restarão, talvez, uns poucos milhões de nós.

Tanta glória, tanta façanha, tanta trapaça gravada na memória. De que matéria etérea, afinal, são feitos os sonhos que movem esta nossa pobre raça?



-  II  -

Hoje, num bairro central de Porto Alegre, esvaziando-me, escrevo sob a luz de velas, não por alguma romântica estética, mas pela tempestade que privou este canto da cidade da foça elétrica por dois intermináveis dias. Papel e caneta ressuscitados, já que o computador jaz morto, assim como sem vida estão a geladeira, o televisor, o som, o elevador, a torradeira...  o carro trancado na garagem e até mesmo o icônico celular, esse fio virtual que nos prende a teia global, agonizou e, desfalecido, com a alma descarregada, pifou. Passados um par de dias, sem a familiar energia, a polis tem abalada sua suposta ordem natural e, desnorteada, assiste atônita ao caos material e o drama de tanta gente real, que se espalha como bíblica epidemia indecente.

Ainda, hoje, depois da chuva intensa, foram encontrados os corpos dos homens desaparecidos.
Vidas de mãe e filha foram ceifadas ao desabar o teto de sua humilde morada. Milhares de desabrigados por toda a região, na parte mais rica da nação. Em muitas dessas residências inundadas pela torrente das águas, os náufragos permanecem sob a calamidade e o risco eminente de morte por temer o possível saque - pobres órfãos da sorte. Serviços que deixam de funcionar. Sistemas tornados inoperantes. Ruas que não dão passagem, transformadas em canais navegáveis...
Dias atrás, com o justo movimento dos funcionários, quando policiais cruzaram os braços, pessoas não saiam às ruas para abastecer-se no supermercado temendo a violência que se espalhou pela cidade. Escolas fechadas, a educação, já fraca, travada. Hospitais, quando o faziam, só nas emergências atendiam.

Chuva forte e míseras reivindicações de trabalhadores bastaram para abalar nossas mais arraigadas ilusões de segurança, do direito de ir e vir, do acesso à comunicação, do mais modesto conforto e das rotinas que temos, à priori, por certas. Como antídoto ao lampejo que denuncia a fragilidade de nossas vidas, viramos para o lado e, se já não sonhamos, banalizamos, à espera de boas novas. Ás vezes, parece que uma única coisa prospera: a sombra do imenso consenso das maiorias silenciosas...

OBS.: Só falta a velha safada má-fé transformar está reflexão inquieta em apoio ao golpe do impeachment .


Eliseo Martinez                                                                                                                                                          outubro de 2015
20.


MUDAM-SE OS TEMPOS ...



O REINO DOS DEUSES   Bem antes do alvorecer da Antiguidade, quando os pilares de nossa gente foram plantados e ainda nos deleitávamos com o tardio engenho do verbo articulado, representamos, e depois acreditamos, que o poder supremo pertencia a deuses medonhos. A invenção da fala gera o mito e com ele a ordem divina é fundada. Um oceano sobrenatural passa a inundar com as temíveis sombras do mal cada canto da frágil vida humana, presa à promessa de ser salva pela fantasmagórica nau da fé, de popa à proa apontada em linha reta para o lugar-nenhum de uma raça sobre-humana. Ao solo fértil da imaginação era jogado um fétido poder, fazendo germinar a resistente semente da religião, a mais desumana das humanas invenções.

A ASCENSÃO DA RAZÃO   Ao cabo da larga noite, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, expresso no verso de um português caolho. Assim, na Modernidade, fizemos uma barganha sem igual: trocamos os velhos deuses, já de pouca função, pela divinização da libertadora razão. Partido os grilhões da religião com o velho humanismo dos gregos em ascensão, divisamos as mais belas utopias jamais sonhadas, animando projetos de vida e delírios de igualdade coletiva na esteira do credo do progresso certo, forjado na vontade do homem, restaurando a perdida totalidade. Instaura-se a ordem humana.

A CRISE DA RAZÃO   Com a Pós-modernidade, estilhaça-se o espelho e se multiplicam caleidoscópicos fenômenos. Um deles atualiza o tecido conjuntivo em que estamos mergulhados, dando suporte às relações: a nova natureza do consenso.
           O CONSENSO - Hoje, operamos novo negócio, bem mais modesto, apesar do brilho de neon à fachada iluminada bem servir aos fins da hora marcada: de um único todo, fizemos muitos pedaços. Operamos o prodigioso milagre da multiplicação do real e da verdade, antes, unidades. No lugar dos deuses cansados, e com os sonhos de uma razão despedaçada no mundo virtualizado da imagem segmentada, elegemos o consenso como o novo teocampeão da estação, sempre em sua última versão. As velhas massas livres de pudores, agora promovidas a manadas de consumidores, assumem ares de sélficas felicidades sob os refletores. No entanto, sem lugar para tantos que vão se acotovelando, nascidos por aqui ou vindos desenraizados de outros cantos, sós entre multidões, customizaram o medo arrivista da antiga exclusão para cumprir as metas sob nova direção. Sobe aos céus a sacrossanta ânsia de pertencimento, que para o sumo desejo foi eleito. Zelosos do risco do tédio geral e da solidão de cada um, no horizonte onde se levanta o sol negro da crescente falta de acentos, reinaugura-se a estação de caça às vozes conflitantes, aos olhares desviantes, aos ouvidos de outras afinações amantes. Olhados, assim, de longe, devemos parecer poças coaguladas de sangue.

Hoje, o signo do consenso assume um outro significado. Antes de expressar o concerto orquestrado do moderno passado, ele passa a ser o movimento da foice, na mutilação e poda do contraditório pensado. Se, às superfícies, a diversidade é mais comumente tolerada, tendo conquistado amplamente seu direito de ser no cruzar de transeuntes atomizados, as profundas diferenças de âmago, antagônicas, batem a cara no muro dos consensos que se levanta sempre que aquelas apontam na curva da estrada. Surgem as tribos, que coabitam, mas não se comunicam. No campo da política, já há algum tempo, faz-se notório o incômodo embaçamento das - antes nítidas - fronteiras, entre os de cá e os de lá, na morte anunciada da classe, esvaziando de sentido o que poderia definir o que pensar, o como agir, na existência real dos homens, transportando-os para um mesmo palco, que os cega pelo excesso de luz, onde cada um é senhor para escolher sua fala e que figurino vestir, num ofício etéreo de metafísico ator.
Para os tempos pós-modernos, onde a vontade e a razão totalizantes foram banidas, acaba-se por banir também a velha ideia humanista de justiça. O que passa a vigorar são os arranjos táticos e momentâneos, já que se esfumaram as estratégias de prazo longo, que deram vida e norte ao extinto mundo moderno.



Eliseo Martinez  
14/10/2015

terça-feira, 13 de outubro de 2015

19.

Não desgosto dos dias chuvosos,
mas é nas tempestades,
quando racham o céu os raios
e troa o surdo estrondo dos trovões,
que minha alma gira desinquietada,
neste canto perdido do universo,
solta no nada,
no preciso instante
em que o tempo faz-se par
e tira o espaço para dançar
e, com ele,
lasciva e furiosamente,
flerta.


Eliseo Martinez
13.10.2015


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

18.


FÉ CEGA NA RAZÃO AFIADA


Do arco do demiurgo surdo e mudo parte a seta reta do tempo curvo,
flechando de morte torso humano de um gado alheio à própria sorte.
Sísifo, de sábio ignorar, levanta-se teimoso, empunha lança, corajoso.
Mente clara, punhos cerrados, forte brado, torna o calmo leito, turvo.
Assim fomos nós ao mundo, escudo da fé na mão e as armas da razão.
De seu fuso, as moiras já não recitam uma a uma suas falas decoradas,
mesmo que dos fins ninguém duvide, pois estão por certo apontados.
Frágil homem, faz-se alado, vence vencendo o tempo que lhe foi dado.
Ao mover consciências,  doma o caos do acaso das ímpares vontades,
retraça o caminho já traçado, reescrevendo toda a trágica caminhada.
E nesta luta, dá sentido e essência ao non sense da precária existência.
Todos juntos, somos a seiva que alimenta o devir lento do movimento,
De presos ao caule do tempo que zuni ao vento, agora, enfim, sendo...

Eliseo Martinez                                                                                                                                                    07.10.2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

17.

 O PÉ DA ATRIZ


Eu vi a uva, que era; hoje, com a dura graça, passar quase-passa.
Kronus assinou o roteiro do tempo no rosto ainda bem feito.
Dos rios dos lusos vincos natos, partiam-lhes afluentes traços.
O sorriso talhado a dar-lhe ares de bondosa matrona contente.
Com pisar de passo largo e o nariz ao alto do cenário apontado.
Na trajetória estudada, marcas cénicas entre o povo em luta na praça. Se me viu? Presumo que sim, pois tangenciou a um braço e sumiu. Como de hábito, improvisou como diva escolada, de salões ensaiada. Só não escapou ao atento espectador, na primeira fila instalado, o que diziam os olhos da atriz a ver-se com o pé além do tablado. Ao se observar, o observador surpreendeu-se à distância da cena da peça ao palco Matriz levada e, pela claque, de turnê aguardada.
Coisa estranha a mente da gente, ao dar de cara com a obra de arte.


Eliseo Martinez                                                                                                                                  18/09/2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

16.



Juízo Final



Se invocasse o tempo escorrido, ele atenderia pela alcunha de bodas de granito.
Como saído de um corte, pelo ralo escorre o sumo agridoce do desejado sentir forte.
Visitei mundos caleidoscópicos, de bizarras gentes e ligeiros prazeres hipnóticos.
Andei sem rumo, à sorte. Flertei com o medo que gruda, insana ira, maldade pura,
traição, mentira, horizonte perto e amenas distrações que me pouparam do tédio certo.
Inodoras flores, desmaiadas na cor, que um teimoso querer quis dar vida e frescor.
Não menti ao simular ardores, contrabandeados pela fronteira da boca, a mando da mente. O peito, a muito mudo, a observar tudo. Peito não pensa, sente.
Por força da condição de par, confesso, não sem esforço, que o sentir foi pouco.
No giro da vida, entre um nada e o ralo troco, faço-me ímpar alheio a porto de chegada.
Pelo possuído um dia, sorrio sob o véu da ironia e, covarde, ouso ser justo só neste dia.
Em segredo, trago a ferros guardadas à pele do selvagem coração, duas tatuagens gravadas.
Uma, nos verdes anos, tons pasteis vestia, o rosto de carijó pintado, cúmplice, me via.
De mãos dadas, desenhamos o amor redondo. Gerou um ovo ausente, e um segundo despresente.
Outra, nascida longe, para além do mar profundo. Como inquietos companheiros, fomos ao mundo, regando com licores e vinho loucos gozos juntos. Diques a me represarem, confiante, fez ruir muitos. Era de um azul cintilante e, se o cometa passou, deixou no vácuo o brilho anil do gelo de seu rastro.
Seres de partilhas anchas, com quem dividi inteiro meus tantos erros e alguns luzeiros.
Se flutuam no passado, visito-as nos espaços vastos da memória. Únicos grandes amores de minha trajetória.
Nas dores e prazeres, por intensas luas cheias, lúcidas, amigas, amantes, companheiras.
Hoje, no revés da fúria dos versos, da pele fez-se casco, enfunam velas aos desafetos.
A tranca torno e ao peito passo. Acusado ou, pior, absolvido, neste caso de duplo desencontro vivido, volto a cobrir com sangue, pele, ossos o que na vida mais importa e mal não fez à alma torta.
Com inabalável ânimo manco, no ar pesado, desencanto, firmo o passo e, mais livre que querendo, sigo andando.
Mas, por vezes, quando no além-dia-a-dia, virtú e fortú se roçam de passagem na mesma encruzilhada e grãos de luz alçam revoada, desavisado me pego com um outro sorriso esboçado pelo que trago em segredo bem guardado.


Eliseo Martinez                                                                                                                   18.09.2015                                                                                                                                                                                                                                                

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

15.


Bastou ver o mar e linda fez-se a tarde que arde

 
Um sentimento de nostalgia denuncia algo extraviado no tempo passado. De uma só vez, buli com o bem e o mal arrumado.
Tenho escutado o fado. Não para reviver o tempo escorrido, amassado. No entanto, ao escutá-lo, penso, e nesse pensar, repenso-me...
Bem no passado, o som do fado já me soava fora do tempo, a sobreviver em lugar indevido, tomando emprestado uma existência que já não lhe pertencia, aparentado de entes como os tamancos de uma dona Emília e áureos dentes. Esse era o significado que, então, preenchia o signo da criança que eu era.
Mais tarde, já adulto, voltei a escutá-lo, mas agora, como presente do acaso, associado a um longo encontro amoroso, antes de se tornar um tanto..., como dizer?, desastroso. Já que era o mesmo fado que escutava, o ouvido com o qual passei a ouvi-lo é que deve ter mudado e, sob as lentes do afeto, eu com ele andado.
A beleza do fado vem da força crua com que o fadista, ao expor-se, expõe a própria dor. E com isso, rompe as comportas que separam o cantor, toda a gente e seu amor. Na coragem de cantá-la, faz relicário, à revelia da imagem bem arrumada, devidamente esterilizada, cultuada no tempo presente.
O fado fala do sentir de um povo de um pequenino país-tampão - que separa uma de outra poderosa nação - e sua visão de mundo encharcada da moira grega, por nós, chamada destino.  Todo um universo forjado na força dos acontecimentos e na impotência dos acontecidos. Pessimista, por certo. Mas, talvez, fale das coisas com mais razão no que elas de fato são, se nos propusermos a agarrar-lhes o coração. Fala da dívida que nossas alegrias sempre acabam por ter com o que nos fere e faz doer.
Enquanto expressão alfacinha – nome sofrido pelos nascidos em Lisboa – gerada nas vielas tortas de Alfama, fez-se, no vigor do canto forte, arte.
O fado faz contraponto à virtual realidade mal percebida, levando-nos a suspeitar de um rosto por trás da máscara que à cara levamos vestida. Na afronta de falar do que essencialmente somos, denuncia nossa natureza ambígua, moldada na imagem desencaixada de existências que, em essência, ardem por trás da maquiagem.
Hoje, tendo a rever vivências, que foram vividas num tempo que corria em velocidade própria, menos acelerada. Tento revisitar com mais cuidado o que passou sem ter sido, por mim, devidamente considerado e que passa, assim, a ser inventariado.
No percurso do verde ao gris dos anos, arrumamos um inquilino que da casa quer ser dono. Passamos a tingir os dias com a cor ocre das perdas. Sob o instinto de autopreservação, passo a acreditar que um dos capítulos para compor a obra de uma ecologia de nós mesmos deva versar sobre o princípio do não desperdício, expondo uma miríade de esbanjamentos que forçosamente praticamos no transcurso todo de uma vida em movimento.
Hoje, procuro vasculhar, recuperar, ressignificar, revalorizar o que jaz esquecido, mas não perdido, em algum canto empoeirado da memória, protegido por um tecido tecido de afeto, que resiste sob a fuligem, para onde foi empurrado pelo vigor da juventude, pela ilusão de infinitude ou, dito de outra forma, pela falta de se perguntar da própria morte. Pouco importa se o que nos mova seja a culpa  – eterno fardo dos velhos –, o amolecimento amoroso frente ao fim próximo, o medo de desaparecer ante o pouco que nos resta do muito que imaginamos ter vivido, ou, ainda, o débito contraído pela realidade com os sonhos sonhados. No final, podendo alcançar algo de algum valor. Algo que diz respeito ao improvável passo que se possa ainda dar para conhecermos um pouco melhor quem somos, já que disso costumamos ser mais ignorantes do que supomos.
O incerto neste movimento, rebelde ao que banaliza, é o quanto de clara luz pode-se encontrar sob o pó, por nós mesmos puído, e o quanto de sombras vão lhe sobrepor.


Eliseo Martinez
Setembro de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

14.




Entre o lote do que posso e o lote do que devo
ermita o enclave de meu doido desejo.
Por vezes, neste querer, ímpar me vejo
ao surfar solos pelas dobras do tempo.
Em outras, mão na mão, olhos tortos, 
a andar par ao desabrigo da fúria do vento.

Das razões deitadas ao chão, sendo mais afeito
do que as que revoam em seguro bando lento.
Em luta de todos juntos ou no grão da mente,
na cega fé que só a força das ideias das gentes
pode desvendar o sentido oculto no leito fundo
sob as turvas águas da anarquia do movimento.



Eliseo Martinez
agosto / 2015

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

13.



Sabe-se lá que sonhos sonha o sonhador,
o quanto lateja no peito sua dor.
Que encantos cativam seu olhar,
ou os fios de vida que lhe movem o andar.
Sabe-se lá que sedes tem esse furor,
que mares não lhe podem saciar.


Eliseo Martinez
06/08/2015

sábado, 1 de agosto de 2015

12.


                               PEQUEÑAS COSAS URUGUAYAS




- I -
As pedras das ruas de plátanos da ciudad vieja, brilham com as águas da chuva. O abrigo sob a marquise e uma inesperada trança de palavras com as do mendigo, educado e sofrido, acima de tudo, rico dono de uma tranquila dignidade, pode valer o dia e secar dos ossos e da alma a umidade.



- II -
Se de purgatório da orgia dos sabores podemos chamar o Mercado del Puerto; o nome de um pequeno, mas exuberante paraíso, pode ser Libreria Más Puro Verso. Quanto ao inferno que, também aqui mantém sucursal, por certo, tem endereço não sabido e incerto.



- III -
É preciso pisar as ruas e trocar palavras sem pressa com o povo dessa América de hispânicos diversa para sentir como, entre nós, foi mesquinha a passagem dos lusitanos, ávidos em guardar para si a herança que deveras assam com as sardinhas a mil anos.  Rico legado que só à força do afeto, desvendamos.



 - IV -
Andando pelas calles, beijando copos pelos cafés, tavernas, bares, o vinho e o Drambuie que flotam meus pensamentos,
são processados em minhas entranhas neste exato momento, fazendo exalar o odor único destilado no que deixo de meu na velha cidade. E, no giro do mundo, eu aqui a pensar sentado,
das coisas a finalidade.



- V -
                                                 (Eterno Retorno)
Aos 17, ainda muito jovem, cruzava à noite por ruas desertas como bomba-relógio. O que parecia desativado, hoje, tic-tac,
tic-tac, tic-tac ...

  
- VI -

O peso das evidências submete-se a força das circunstâncias. Desde sempre os homens olham a linha curva do horizonte como se linha reta fosse, e não suspeitaram até que lhes dissessem. A mim, disse-me a vastidão de um rio de prata.
Sem amar, me consumi em provas de amor. Precisei cruzar fronteiras para lá deixar a basura de mi corazón. Ao fundo,
no assobio do vento, soam as notas de “Like a Rolling Stone”...


Eliseo Martinez
julho / 2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

11.


VELOCIDADE E VIDA INSANA


E, quando eu quis parar, só encontrei gente como eu. Gente que só sabia ser feliz, sinceramente, no instante presente. Que, como eu, confessa que viveu, que do tempo intenso, inúmeras frações sorveu, mas que de enraizar esqueceu, que não se prendeu a nada que valeu, que pautou a vida pela ideia da liberdade improvável de um semideus.  Vidas alucinadas, à deriva,  em sentido, esvaziadas. Ao final, nada restando, se ficou sem nada.

No mundo em contínuo câmbio, um sólido sem-sentido da lugar a um sem-sentido líquido, mais atual. 
Surgiram os que padeciam do mesmo mal, agora, usuários turbinados, seduzidos por outras drogas: as mídias velozes e sua promessa de abrir vidas fechadas, inundar no que estavam esvaziadas. Na técnica fria, a ardente salvação tão esperada! Nas palavras proféticas de Hannah Arendt, abre-se o tempo em que "a autonomia dos homens transforma-se na ditadura das possibilidades”. E, é na memorável frase de Marx, que encontro a força descritiva do estado das coisas no que se convencionou chamar de pós-modernidade, "tudo o que é sólido se desmancha no ar".

Operam-se outros câmbios. O velho mal-estar moderno, gerado pela troca de um pouco de liberdade por um pouco de segurança, agora vira um novo mal-estar: o do excesso de liberdade
individual a custas de toda e qualquer segurança.

Como passamos a ter de ser felizes a qualquer custo, inchamos a dimensão íntima, onde tudo podemos, e acabamos por asfixiar a possibilidade de um privado partilhado. Na esfera pública, restou-nos o império da imagem e do simulacro. A procura de uma identidade, que sempre nos escapa atrás da próxima esquina, agora somos internautas, passadas ninfas sexistas, artistas, atletas, budistas ...

Em cada rolante sentimento, a incongruências das sequências, a fraca convicção, a mutante identidade, a pálida espiritualidade transcendente da última  onda new age repaginada, a possibilidade do saber da superfície de tudo, a roleta rápida do sexo, os amores líquidos e a vida partida acelerada em gigabites.  Tudo passa pelo filtro de um mundo virtual, pela telinha de um I-Ped, um I-Fone, um I-Desire..., onde simula-se o triunfo sobre a única permanência que realmente se enraíza, a solidão de eus partidos, incomunicáveis, perdidos entre multidões, deslizando na paisagem que já não se vê por que já se foi. Assim, tudo flui e tudo escorre...

Com novo layout, o velho desespero aponta no horizonte, como tudo, em rápida aproximação. No divã, pagamos o ingresso do próprio ato encenado. Enfim, algo permanente para compartilhar a exuberância árida deste jardim esterilizado.


Eliseo Martinez                                                                                                                                                         30.06.2015
                                                                                                                                                      

quarta-feira, 27 de maio de 2015

10.




Traz-se vasta longa ira
das falésias dessas ilhas,
vento e tempo varrem sempre
ocas furnas dessa gente.

O barquinho em confusão
costa brava, turbilhão
dá na praia improvável,
quebra vela, fácil, fácil.

Ao timão, capitão Medo
leva a nau para o rochedo
sem rumo, sem direção,
enfuna delirante salvação.


Eliseo Martinez               12.05.2015