Eliseo A. C. G. Martinez

Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez


" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

464.

Acordos tácitos

"Nasceram um para o outro",
é o que dizem os outros todos.
"Ela, moça boa, quase pura;
ele, quem sabe, porto seguro.
Não duvide, fará fortuna."
Tão diversos eram que
se assemelhavam estranhamente
na vontade de serem elos
de uma mesma corrente.
Ele jura que foi revolução;
ela fala em golpe, na contramão.
Ele torce pelos de vermelho;
ela, pelos de azul, é grêmio.
Mas, antes de tudo, queriam ser livres,
pensavam em um ninho, só deles,
libertos do aconchego
sufocante dos parentes.
Eram pássaros ensaiando o voo,
abrindo asas sobre o cume da montanha.
Não eram muito e já eram tudo,
eram a promessa de, juntos,
irem ao mundo.
Em algum momento,
tocados por uma cena de cinema
e alguns copos de cerveja,
dispostos a de dois meios
fazerem um inteiro,
sem olhos para o desfecho do enredo,
disseram "sim", e pronto!
Firmaram os votos do feliz encontro.
Ponto a cima, ponto a baixo,
num pesponto torto e raso,
costurados feito trapos
em pano de retalhos,
seguiram confiantes
pelo insólito anunciado.
De fato, a ideia nunca foi deles;
rebeldes, seguiram obedientes os modelos.
No início, tudo era perfeito.
Não faltava gesto de afeto,
afago, cuidado, beijo.
Arranjaram um espaço, cerquinha branca,
onde se entregaram ao próprio conto,
ocupados com mil planos.
Amealharam cama, panela, TV de plasma,
mas num breve tempo se fizeram
como tantos nascidos para semente,
a cada primavera vendo a florada
mal formada, dispersada pelo vento.
O tédio dos que muito jovens
chegaram cedo ao almejado,
pouco a pouco, roeu o arranjo feito
e fez-se o estrago.
Com os anos, houve outros entre ambos,
com seus risos seus suspiros,
logo aprendendo a curarem com novas,
velhas rotinas, segredando cada um
suas pequenas perfídias.
Via-se o que se queria.
São o que são possível,
entre abraços entrecortados
e sonhos despedaçados.
Talvez, por falta de futuro,
escassos de coragem,
até sejam para sempre.
Essas meia vidas juntas,
cheias de ilusões e pouco assunto
é a conta paga pelo que,
um a frente outro no rastro,
ainda há de ser andado.
Se algum dia se perguntarem
o que deu errado talvez concluam
que, desde o início, farta foi a fantasia,
rala foi a afinidade ou, simplesmente,
que disso sabem nada,
dando crédito aos tropeços do acaso.
E assim foi...
Esmaecidas as paixões,
já sem sobressaltos, inquietações,
negociam a solidão
a que estamos todos condenados.
Mais um par de solitários
até que a morte os separe,
mesmo que os demais olhem em volta
e vejam neles o exemplo que lhes falta.

Eliseo Martinez
04.12.2023

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

463.

Tantos somos


Tantos e tão contrários
cada um abriga no próprio peito
que, não raro, leva consigo legiões
de estranhos a se estranharem
na fluidez do tempo.
Longe do seixo mal percebido
pelo olho seco dos sentidos,
somos o feixe dos múltiplos
que, imprecisos, nos definem.
Há os que, sem muito,
sobressaem aos outros;
há os que rondam tímidos
pela escuridão dos cantos
e há aqueles que necessitam
que os acordem do sono profundo,
imprevisíveis neste seu espanto
de se verem nus no mundo.
Como seria coisa outra
se nada é mais diverso
que o plano e a linha reta
no relevo da complexa
polifonia do universo?
A síntese da unidade,
a incensar vontades de triunfo
sobre o caos de fundo
não é mais que a obsessão
da humanidade de reduzir
ao compreensível o que, por força,
ainda mereça ser chamado de verdade.
Virá o tempo que esses todos
se fundirão no mesmo?,
perguntará o desavisado tolo,
esperançoso num fim que se
assemelhe a um consolo.
E, em meio ao alarido incontido
das vozes sobrepostas,
lhe faltarão ouvidos para distinguir
a dissemelhança das respostas.

Eliseo Martinez
08.09.2023

quarta-feira, 26 de julho de 2023

462.


Ainda e sempre... tupy or nor tupy?

  Zé Celso Martinez se foi.
Se foi, mas não sem se deixar
um pouco por todo o lado
feito Baco redivivo desencarnado.
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Força manifesta da natureza,
libertino e libertário hedonista,
o mais lúcido dos loucos,
Zé Celso foi livre como poucos,
se é que, entre nós, já houve outros.
Este genial provocador anárquico,
curandeiro da apatia das plateias,
deu rumos novos ao mofo do teatro.
Artífice de conceitos, aríete
contra o muro dos preconceitos,
beijou maria, beijou joão,
amou e foi amado
por tantos e Drummond.
Sim, Zé Celso também deixou
desafetos pelos cravos cravados
na consciência dos mal amados.
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Guerrilheiro cultural, foi preso,
foi exilado e, ao seguir criando,
se foi aos palcos para dizer "não"
ao trivial domesticado.
Com a coragem dos que fazem
dos sonhos realidade,
encenou o amor difícil,
desses que se extraem a ferros
do medo e do constrangimento
de todo aquele que, por ele,
se viu despido.
Arauto de tropicalismos
e utopias multicoloridas,
abre-alas da cultura viva,
o arqueiro das flechas
envenenadas de sua arte
foi o saltimbanco insubmisso
desses dias tristes,
a armar tendas pelas praças,
ruas e andaimes do Oficina.
Incômodo e irreverente,
temido e reverenciado
pelo gume da palavra afiada,
soube tocar o nervo das coisas
para dessacralizar o que o raso
elegeu como sagrado.
Já empunhou velas para reis,
já esperou um tal Godot
que nunca vem...
Girou na Roda Viva,
festejou com as Bacantes,
despertou a Besta,
encarnou Demônios,
enfureceu igrejas com seus
Mistérios Gozosos; Fausto,
se foi pelos Sertões e nos deixou
em plena Queda do Céu,
em defesa dos povos da floresta.
Das artes que concebeu, Cacilda!,
como esquecer seu soneto
"Olho do Cu"?
Tanta andança, tanto caminho,
palcos, risos, pés descalços e espinhos.
Zé Celso se foi da vida
para luzir no céu da arte
como archote luminar, mas
que não se derramem lágrimas
neste seu último caminhar.
Foi-se com a folia das bacantes,
o êxtase de faunos delirantes,
na batida dos pandeiros
e ao som do sopro de berrantes,
deixando no ar o rastro
da palavra itinerante:
"Eu sou tudo.
Sou louco.
Sou palhaço.
Sou livre."

Evoé, Zé Celso!

Eliseo Martinez
26.07.2023

sexta-feira, 14 de julho de 2023

461.

O desafio das letras

O risco a que se sujeita
o leitor voraz
é o que não experimentar
gosto algum definido
da sopa de ideias que
cozinhou por toda a vida,
sorvida dos livros lidos.
São tantos ingredientes,
tantos os temperos
misturados às essências
em seus variados tempos
de cozimento que não é difícil
que se evaporem os aromas
e confunda-se os sabores
do que estava destinado
a alimentar uma mente
ávida de conhecimento.
Caso chegue-se a uma só certeza
a que se possa chamar verdade,
ainda assim, ela se faria
de nuances e movimento.
As ideias verdejam
quando justas e verdadeiras,
mas muitas delas duram menos
que os frutos da laranjeira,
movendo-se não apenas pelo
acidentado chão da História
como também pelo rastro
de nossas pequenas trajetórias.
O que foi pensado antes,
provavelmente, será diferente
do que será adiante.
Quanto do que repousa
entre as páginas de um livro
sobreviverá a folha de papel
em que algum dia foi escrito?
Como não se vive para sempre
e nosso tempo é quase nada,
há que se lançar à escolha
das âncoras, das amarras
e dos cabeços de ancoragem
para que ainda haja norte
depois de atracar em praia brava,
sobre o mar de ideias
que flui revolto em toda parte.
E, assim, conforme bússola,
sextante ou astrolábio que se leve,
cada um abranda, de algum modo,
sua parcela de incerteza,
elegendo um punhado de conceitos,
testados a seu jeito,
para ser mais que vela solta à força
e inconstância dos elementos.

Eliseo Martinez
14.07.2023

domingo, 2 de julho de 2023

460.

Tarde na Redenção

Aqui, encontro-me eu,
sob um céu límpido de inverno,
abancado no mais amplo
dos jardins da minha terra,
descascando a última bergamota
- coisa que o gaúcho gosta -,
a desfrutar do ócio que me cabe.
Passam em minha cabeça leve
filmes jamais filmados,
misturando cenários do presente
a cenas do passado, enquanto
meu olhar, que tudo vê,
se espraia pela paisagem.
Liberados da guia,
cães se esbaldam pelos gramados,
voam pássaros alvoroçados
e gente apressada cruza o espaço
por certo, ainda cativa do trabalho,
sob uma brisa suave que agita
os ramos das árvores.
E, assim, sigo eu ensimesmado,
ao passo do pensamento lento,
sem horário que desmembre
meus momentos, desobrigado
de qualquer ato, na liberdade
possível em que me acho.
Mas, mas... que merda é essa?
Alguém, vindo não sei de onde,
acaba de sentar no banco de praça
em que me encontro,
arrancando-me dos devaneios
coalhados de incertezas,
a minar o sossego em que me vejo.
Tanto lugar desocupado
e o mala escolhe justo o MEU banco,
se esparramando ao MEU lado,
causando MEU espanto!
Na fenda aberta numa paz
de faz de conta, altera-se o entorno,
reduzindo minhas fronteiras
ao perímetro do meu corpo.
Mas nada dura mais que o necessário.
De pronto, tomo prumo, recomponho.
Levanto e vou embora
ou finco pé na posse do reduzido lote
em que estou agora?
A contragosto, arrisco um olhar
na direção do intruso inconveniente.
Já de alguma idade,
a despeito do ar brejeiro,
camisa clara de tecido transparente,
aberta ao peito; calça de linho branco;
sandálias franciscanas;
cabelos desgrenhados, alvos como leite
e obstinada dignidade exibida à face.
Do bolso do casaco pende um livro
que, de tanto que foi lido,
tem a capa de couro cru gasta pelo uso.
Em sua incômoda presença,
o tal sujeito parece ausente.
Traz nos lábios finos o risco
congelado de um sorriso,
de onde, vez por outra, escapa
o som quase imperceptível
de palavras indecifráveis.
Mas, não há loucura em seu olhar,
claro e transparente,
fixo em algum ponto mais à frente.
No que há de pensar o pobre diabo?
Estará triste ou contente?
De súbito, o grilo que abrigo
em mim desde guri na tenra idade
crica pelo o que há de indefinido
no estranho personagem.
Será que faz uma prece
ou refaz algum diálogo
para que não se esqueça?
Parece que pensa urgências que
eu mesmo desconheço no momento,
já que estou a gastar meu tempo
com o quê um não sei quem
tagarela em sua mente.
Pode ter sofrido perda grande,
talvez seja caso de um amor distante.
Pode ser testemunha, vítima
ou executor de um gesto horripilante.
Pode ser apenas um bem-aventurado
em seu êxtase suplicante...
Cultivar o hábito de vadiar o pensamento
nos leva a essas pequenas inconsequências
e, não raro, a algum constrangimento.
E contra tudo que me diz respeito,
sem refletir no que ainda será feito,
volto-me para ele e pergunto,
com natural falta de jeito:
- O senhor está bem?
Arrancado de seu transe, 
com vagar e ainda distante,
o homem se volta e olha-me nos olhos.
Com sorriso estudado
e voz teatral empostada, responde:
- Não há o que nos decifre
ou decifre qualquer outro.
  Nunca houve chão firme
em que se pise.
  Nada mais somos do que o traço
mal riscado no desenho todo,
nômades das circunstâncias,
sujeitos aos dentes afiados
do acaso no pescoço.
E prosseguiu em sua obscura lucidez:
- Espero por alguém que não virá,
enquanto isso, fico à cata de palavras
que carecem ser encontradas
por estarem prenhas de sentidos.
- Desculpe, mas... espera por alguém
que não virá e... está à cata de palavras?
Sem ter o que dizer, pergunto eu.
- Sim! Vê esses todos que passam
a nossa frente, exercitando
pernas, braços, torços?
  Faço o mesmo com a liberdade
que me cabe, exercito-a com escolhas.
  As mais difíceis e necessárias delas
faço com que se expandam,
esgotando-se no absurdo.
  Assim, torno-me ainda mais livre
nesta liberdade de esperar
pelo que jamais virá.
- Visto dessa forma, há lógica no que fala.
Mas, e quanto a cata das palavras?
- As palavras que saio à caça
são dessas que não nos vêm de graça.
Agora mesmo, encontrei algumas
que darão forma a sentimentos.
Sem elas, nem ao menos seriam
compreensíveis meus pensamentos.
- Mais que elas, encontrei um nome.
- Um nome?
- Sim. Para o livro que tenho escrito
por toda a vida, mas que estava à espera
das palavras o que o nomeasse.
- E quais são elas?
- Isso não posso revelar,
pois se o fizesse ele estaria, como
outros por mim escritos,
completamente concluído e, por fim,
decidi aceitar o inevitável.
- Que seria...
- O óbvio. Que tudo tem uma gênese,
mas quem disse que tem de ter um termo?
Não haveria música sem o som
e a pausa do silêncio, não é mesmo?
Sem mais palavras, o estranho
levanta-se do banco
e diz com um sorriso e gesto amplo:
- Evoé!, e sai andando.
De fato, "não há o que nos decifre
ou decifre qualquer outro".
Sigo o homem com os olhos
até sumir de vista e, só então,
percebo que havia deixado sobre o banco
o livro que trazia no seu bolso.
Faço menção de sair ao seu encalço,
mas já não há meios de encontrá-lo.
Evaporou no ar feito fumaça.
Pego o livro sem título, mas com o nome
do ator impresso num dourado gasto,
Zé (não sei o quê) Martinez,
e o abro com cuidado.
O livro começa assim:
"E, aqui, encontro-me eu,
sob um céu límpido de inverno,
abancado no mais amplo jardim
da minha cidade..."
Por estranho que pareça,
é como se já tenha lido
o que ali está escrito!


Eliseo Martinez
02.07.2023

terça-feira, 27 de junho de 2023

459.

O fim

Pelos abismos do fim do mundo
correm águas ácidas
de um rio profundo,
rasgando por toda a terra 
caminhos de priscas eras.
No vasto oco subterrâneo
do que foi uma tranquila
e bela esfera anilada
deste quadrante da galáxia,
junto dos pilares da, então,
chamada Terra, ainda ferve
o magma metalizado sob a cor
púrpura de suas névoas.
Seres de toda espécie,
inocentes habitantes
do extinto céu, agora,
eternizado inferno,
nem ao menos se deram conta
do estrago, da superfície ao núcleo,
levado a cabo por um ser
de nome homem.
Se algum dia, viajantes estelares
tangenciarem a esfera morta,
dirão aos seus que aqui verdejaram,
exuberantes, as florestas
e floriram os mais raros
jardins do universo,
chamando nossa casa azulada,
já sem azul, sem bicho,
sem humano, sem nada,
de terra arrasada.
Os pequenos desses povos
serão instruídos de como
o bem maior de uma
razão jovem e insipiente
não foi capaz de vencer
a velha ambição de sua gente.
E, em algum tempo, quiçá distante,
inumanos povoarão os arredores
devastados deste desmundo,
inaugurando um mundo novo,
tendo a chance de serem
mais sábios do que fomos.

Eliseo Martinez
27.06.2023

sábado, 24 de junho de 2023

458.

As distâncias

Às vezes, me enredo com a
grandeza das distâncias.
Me ocupo das maiores, as mais
dramáticas e irredutíveis,
as que em metros podem ser nada,
mas jamais serão vencidas.
Tão apartados estamos do
mais próximo corpo do espaço
quanto de qualquer um,
aqui mesmo, ao nosso lado.
Tantas e tão variadas
são as lonjuras que se criam
no percurso de uma vida:
- a distância entre os que ficaram
e os fantasmas dos que se foram,
sem retorno;
- as que nos apartam do eu menino,
que mirava seguro o vasto mundo,
alheio ao imensurável infinito;
- a dos que não compreendem
o que repousa inerte a sua frente;
- a dos que não se entregam ao amor
receosos da inevitável dor;
- a dos que paralisam de medo
ante o objeto do desejo;
- a dos que perderam a si mesmos,
sem jeito de reconhecer-se
no estranho emparedado no espelho;
- a imensa distância entre o sonhador
e os sonhos que sonhou;
- a distância minha e tua ao cruzarmos
nossas mágoas pelas ruas...
 como melhor sermos medidos
do que pela distância das ilusões
que na primavera plantamos
e os desencantos colhidos no outono?
Não! Acho que não!
Parte do que fomos
sempre será presente.
Melhor acreditar que transitar
pelas distâncias impossíveis
ainda faça das nossas misérias
algo que nos sirva e dê sentido.

Eliseo Martinez
24.06.2023

domingo, 18 de junho de 2023

457.

Provocações: viajar

É espantoso como coisas
que tendem a passar desapercebias,
podem alterar os rumos
que se dá a própria vida.
Um fim de tarde, tinto de escarlate,
pode rachar as cracas do espírito
e dar alternativas ao destino.
Basta dispor-se a afrouxar as amarras,
metendo olhos pelos buracos da alma
e, talvez, o já vivenciado
e alguma imaginação, é claro,
se encarreguem de dar curso ao inesperado.
E, provocando a nós mesmos,
jogam-se os dados à espera dos resultados...
Caso os caminhos se abram,
o primeiro passo foi dado
e, quem sabe, por esses outros nos vamos;
caso se desfaçam, por deitarmos raízes
fundo demais no lugar em que estamos,
abraçamos o mais do mesmo do cotidiano.
Ficar ou partir?
Ir ao mercado, andar pela orla do rio
ou cruzar o oceano?
Talvez, voltar a nos perder pela Espanha
ou, mesmo, redescobrir o Oriente
que, há muito, nos chama?
Por vezes, nos seduz reclinar na poltrona,
levados pelas trilhas de linhas e letras,
entregues ao ócio conquistado,
depois de uma vida de trabalho,
e o mundo gira lento no pensamento.
Outras vezes, nos vale mais ir a ele
e saímos à caça do acaso,
sem bilhete de volta ou prazo de chegada,
arrebatados pelo bulício do movimento.
Será que, sem darmos por isso,
é chagado o tempo de descuidar dos sentidos,
enrijecidos sob os mesmos estímulos?
Ou melhor seria que, mesmo a falta de viço,
os deixássemos livres, ávidos de paisagens,
cheiros, sons, sabores, olhares...?
Estar ou não estar, eis o cerne da indecisão,
por hora, objeto da fugaz provocação.
Talvez mais do que um indefinido "é preciso",
viajar seja um truque para nos manter vivos.

Eliseo Martinez
18.06.2023

quarta-feira, 7 de junho de 2023

456.

O som do silêncio

Saído das brumas sencientes,
transitou no escuro
até aclarar-lhe as ideias,
em noite de pouco sono
e sonhos turvos.
Refeito o pensamento,
percebeu-se imerso
na quietude do cômodo
para, logo, provar inquietudes
que, à luz do dia, se escondem.
É quando o silêncio,
enamorado da escuridão,
revela algo do muito
que sublima um coração.
De toda a tralha a equipar
a mente de um homem,
a razão é apenas uma
quando os sentidos inflamam.
Por breve momento,
a noite se fecha
na mansidão do silêncio...
Mas o silêncio, quando escutado,
nunca é aquele vácuo de som
evadido, sem rastro.
Antes, é um coaxar à beira do lago,
um chirriar de grilos,
um estrido de cigarras
vibrando na massa ruidosa
vindo de fora do tempo, que para.
Na solidão do recato, indiferente
a corpo aninhado ao lado,
ao encontro consigo mesmo,
agora, impedido de ser adiado,
somam-se as vozes dos que somos
e o espaço estala em sons adentro
e afora das paredes do quarto.
E o mundo em seu giro paciente
se manifesta no rumoroso silêncio.
O carro que passa na rua deserta,
o latido de um cão perdido,
o grito ecoando na madrugada,
para além das persianas baixadas.
Depois, lhe bateram aos ouvidos
os ruídos da casa.
O esforço de Sísifo da geladeira,
o tardio crepitar da lareira,
os fantasmas que fazem
ranger a escada...
Também desses habituado,
de tantas vezes que espiou
entre a cama e o rés do assoalho.
Quando as vozes se calam,
as máquinas silenciam
e os cães se recolhem,
o universo tende a reconciliar-se
até que a quietude perseguida
é rompida pelo entorno,
que se arma em armadilhas.
É quando o terrível som,
sempre presente,
pode ser, finalmente, escutado.
O alarido das cigarras do mundo
espessa o ruído de fundo.
Há que se cuidar do som do silêncio,
ele pode bem nos levar mais longe
que a paz que se pretende,
onde loucos se perdem facilmente
no abismo de suas mentes.
Nestas noites insones,
o ruminar das sereias desnorteia
velhos e novos argonautas
que, à deriva,
singram por entre os males da alma.
Assim foi desde o início, em dias
de caça ou de guerrear inimigos,
depois de celebras os ritos da tribo
entorno do fogo à boca das cavernas,
amedrontados sob o fedor e o peso
das peles de feras.
Enfim percebeu, que esse zumbido,
esse pandemônio de insetos
é o recurso final que lhe resta
para confrontar os seus medos
e, só então, pode escutar
o que gemia em seu peito.
Não há momento em que se fique
mais nu do que este,
obrigando o espírito a sobrepor-se
ao chilrear das cigarras,
libertando vozes em algazarra,
que habitam porões do inconsciente
de cada ente da raça.
E o silêncio explodiu
no frenesi infernal de sátiros,
ninfas, grifos e faunos,
que nos acompanham, invocando
perícia e coragem ao timoneiro,
na esperança de o levar
à enseada segura e, assim, o salvar
da inevitável loucura.

Eliseo Martinez
07.06.2023

terça-feira, 23 de maio de 2023

454.

As palavras

Palavras são miçangas
enfiadas em fios de frases,
joias tramadas
com letras desenhadas
e, pelas falas, musicadas.
Palavras são armadilhas
que, quando bem armadas,
fazem de presa os que se calam.
Podem ser setas envenenadas,
podem ser o unguento 
em nossas chagas.
Palavras são falsas, verdadeiras,
são tristes, alvissareiras,
ou se movem indomáveis,
desaparecendo como rastros na areia.
Aos loucos pertencem essas,
livres de sentido que as congelem.
Palavras podem ser sutis e perigosas
quando se revestem de ácida ironia
ou, carregadas de farpas,
ao se fazerem jocosas.
Concedem o perdão
ou nos condenam à prisão,
dizem sim ou dizem não.
Palavras podem ser tudo
o que nos resta, o sussurro
de quem deita ao nosso lado
ou, simplesmente, vazias,
quando estão cheias de nada.
Palavras são doces, cativantes,
nas juras dos amantes
mas, também, podem ser duras
na despedida dos que se amavam,
sem medo, antes.

Eliseo Martinez
23.05.2023

sábado, 20 de maio de 2023

453.

Tempos de louvor


Talvez como nunca antes,
neste nosso mundo claudicante,
tudo se deva louvar
para seguir adiante.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Agora, afirmam os pastores,
onipresentes pelos televisores,
um pix garante conforto e favores
do que, por nós, morreu na cruz.
Em nome do Todo Poderoso,
barganham-se indultos medievais,
isentando do pecado o pecador.
O bem e o mal são negociados
a preços de mercado, mas pela cara
do cliente podem ter preço majorado.
O Senhor é exaltado,
acima de tudo, acima de todos,
por fiéis com olhos injetados
de ódios desenfreados aos que,
sobre si, tem o dedo apontado.
Se nos sentimos sós
ou o mal acerca-se de nós;
o caso é melancolia, empresa falida,
discórdia no seio da família
ou vírus a que se negue vacina,
o remédio é um só:
Padre Nosso e Ave Maria,
galo preto na esquina,
karatalas Hare Krishina
e uma modesta contribuição
que agilize o serviço.
De desejo perverso à pedra no sapato,
tudo é objeto de súplica pela graça
do amor na ira insana do Criador.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
Crenças ungidas em celas centenárias
e salões de seitas recém criadas
calibram a fúria das manadas.
Padres, mulás, pais de santo, pastores,
rabinos, gurus de túnicas multicolores,
cada um com sua única versão do divino,
são os que tocam o sino.
Lançar-se ao esforço de decifrar o mundo,
não é receita prescrita nas escrituras;
cânticos, rezas, oferendas, incensos
dão mais certo que penar às escuras.
Credos de todo o tipo estufam os bolsos
dos ventríloquos de Cristo, Alá, Lama
ou Orixás das terreiras sem tanta fama.
Caso necessário, arranjos são operados.
Promove-se o sócio de Deus, o Diabo,
ao comando dos negócios sagrados,
em novo estágio remunerado.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.
É a covardia ante a vida,
mas também, boa dose de preguiça
de ir à busca do que a decifre.
Segue, assim, o rentável ofício
de fazer dos homens as crianças
que já não creem em lobisomem
mas, em passiva servidão,
louvam criaturas criadas
nos conluios da religião.
Se não basta razão para explicar tudo,
abrir mão do que define o humano
não é a resposta que precisamos.
O homem inventou Deus.
Ignorância, medo e preguiça
fizeram dele mentira jamais vista.
Pé no gramado, sinal da cruz;
bola nas redes, mãos erguidas a Jesus.

Eliseo Martinez
20.05.2023

sexta-feira, 19 de maio de 2023

452.

Aquele lá

Aquele que lá vai,
margeando pela calçada
com ar meio sem graça,
conheço de longa data.
É feito peixe enredado
em redes caiçaras.
Enlaçou-se tantas vezes
que vai com o passo preso,
carregado de seus cacos,
sob o peso das memórias.
Tantos nós mal desatados,
tantos restos de amarras,
tanta história...

Eliseo Martinez
19.05.2023

quinta-feira, 18 de maio de 2023

451.

Não há que se andar triste
nesta nossa caminhada,
como todos sabem,
o caminho é longo
e o tempo, nada.
Por almejar algo mais
que o grão do pão,
por vezes, esquecemos
que tudo não é mais que ilusão.
Ah! Se déssemos ouvidos
a tudo que se sabe, o tagarelar
das vozes não irromperiam
na quietude das madrugadas,
na escuridão do nosso quarto.

Eliseo Martinez
18.05.2023

domingo, 14 de maio de 2023

450.

O aviso de Hannah

Quanto a nós, não faltou ponto ou linha
sincronizando nossas geografias,
tampouco nos faltaram afinidades
ou similitudes no propósito de vida.
Gim tônica, literatura,
revolução e estrada...
O ímpeto dos sentidos, a inquietude,
o desejo, a caminhada...
Mas, por mais que não faltasse o que nos unia,
quando o mal, que sempre espreita,
esgueirou-se pelas frinchas das nossas vidas,
a fuligem, a força do viço e os apelos do mundo
nos fizeram mergulhar no brilho
opaco das possibilidades.
E olha que Hannah já nos havia avisado...
Depois de seguir confiantes,
mão na mão pelos caminhos,
parece que cansamos do aconchego do ninho
e, descuidando dos rumos já traçados,
nos deixamos seduzir pelo irresistível
acenos do presente e seus ícones dourados.
Talvez não tenha sido a barganha mais sensata,
mas nossas mãos estavam repletas de ases
e acabamos por fazer uma aposta desastrada.
Pagamos para ver, sem perceber
que banalizávamos essa coisa rara
chamada cumplicidade.
Foi o que bastou,
levando cada um de nós dois para outros lados.
E olha que Hannah já nos havia avisado...

Eliseo Martinez
14.05.2023

sábado, 13 de maio de 2023

449.

Sou uma fraude

Uma fraude é o que sou.
Escrevo coisas que não sinto,
sinto coisas que não entendo,
entendo coisas pelo avesso e,
entre o início e o fim de cada uma,
já não sei bem o que vai ao meio.
Como muitos antes, vindos
ao mundo num treze de junho,
estou longe de ser o melhor
intérprete de mim mesmo.
Mais que escrita,
sou rascunho do que estou, inerte
sobre a mesa em que me escrevo.
Talvez por isso nos chamam gêmeos.
Quando um fica para trás,
o outro apressa o passo,
se fazendo de ligeiro.
Quem nos salva é aquele outro
que por vezes é Alberto ou Ricardo
ou o tal Álvaro de Campos
e até outros, que ao fugir à regra,
vai redimindo a malta toda.

Eliseo Martinez
13.05.2023

sexta-feira, 12 de maio de 2023

448.

Os fios de todos nós

Que hoje somos mais fragmentados
que em gerações passadas
é hipótese das mais plausíveis,
e nem mesmo constitui
novidade um tal deslize.
No entanto, não é razoável
que, para seguir em frente,
se passe a negar o fio
que nos conduziu até o presente.
Sempre me pareceu ato desesperado
mobilizar esforços
para pôr-se em fuga do passado,
como faz o rato que tenta
roer a própria cauda ou o coelho
que vive a fugir do lobo, assustado.
Todos temos direito a nossa história,
com seus desertos, planícies
e planaltos acidentados.
De fato, a pureza é uma construção
dos teólogos, dos românticos incuráveis
e dos agentes sanitários.
Nada resiste ao tempo, imaculado,
a essência de tudo é já nos vir
com o diverso, misturado.
Talvez nos seja mais útil aprender
a trançar com o véu do esquecimento
o lume das lembranças de cada raro
e precioso momento,
sem nos deixar levar pelo impulso
de arrasar campos inteiros
das tantas vidas que vivemos,
a seu tempo, por inteiro.
Resgatar para ressignificar
nossas memórias,
antes de um excesso de nostalgia
encravado no agora,
é afirmar e ter apreço por nós mesmos,
podendo olhar nos olhos ante o espelho,
com os acertos e erros cometidos
no curso do trajeto em que nos vemos.

Eliseo Martinez
12.05.2023