Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
95.
Codinome : paradoxo
A tragédia e a comédia foram capturadas na síntese do teatro grego mas, por certo, já achavam-se inscritas no genoma dos homens, expondo o gênio incongruente, latente nos humanos. Antes dos helenos, os egípcios anteviram contatos nada imediatos. Deixaram mensagens, aqui mesmo, em nosso espaço terráqueo. Na Pedra de Roseta, reuniram recursos com dois dialetos egípcios e o grego antigo, nos legando códigos que os decifravam em um imaginado vasto mundo sem fundo, para além do tempo em que construíam pirâmides e esfinges, exaltando triunfos.
Boas ideias estão por ai para serem replicadas.
Ritualizamos a chagada do século XXI enviando ao espaço exterior registros da vida humana na Terra, na esperança que sejam descobertos por seres de mundos que rodopiam na luz de outras estrelas.
De fato, somos capazes de generosidade suficiente para lançar sementes bem além do presente. Quando e, se houver a esperada colheita, pelos que plantaram é que ela não será feita. Mas, a consciência, que é própria da espécie, também é pródiga em paradoxos, gentis codinomes de nossa demência.
Se por engenho inato sonhamos vencer o tempo, vislumbrando futuros diálogos extra terráqueos pelos confins do espaço, viramos as costas para o que nos distancia por classes, castas e raças ou, mesmo, nos esquivamos do cumprimento devido ao vizinho de porta.
Eliseo Martinez
26.12.2016
Codinome : paradoxo
A tragédia e a comédia foram capturadas na síntese do teatro grego mas, por certo, já achavam-se inscritas no genoma dos homens, expondo o gênio incongruente, latente nos humanos. Antes dos helenos, os egípcios anteviram contatos nada imediatos. Deixaram mensagens, aqui mesmo, em nosso espaço terráqueo. Na Pedra de Roseta, reuniram recursos com dois dialetos egípcios e o grego antigo, nos legando códigos que os decifravam em um imaginado vasto mundo sem fundo, para além do tempo em que construíam pirâmides e esfinges, exaltando triunfos.
Boas ideias estão por ai para serem replicadas.
Ritualizamos a chagada do século XXI enviando ao espaço exterior registros da vida humana na Terra, na esperança que sejam descobertos por seres de mundos que rodopiam na luz de outras estrelas.
De fato, somos capazes de generosidade suficiente para lançar sementes bem além do presente. Quando e, se houver a esperada colheita, pelos que plantaram é que ela não será feita. Mas, a consciência, que é própria da espécie, também é pródiga em paradoxos, gentis codinomes de nossa demência.
Se por engenho inato sonhamos vencer o tempo, vislumbrando futuros diálogos extra terráqueos pelos confins do espaço, viramos as costas para o que nos distancia por classes, castas e raças ou, mesmo, nos esquivamos do cumprimento devido ao vizinho de porta.
Eliseo Martinez
26.12.2016
domingo, 25 de dezembro de 2016
94.
Nestes tempos acelerados,
pedaços de versos inacabados
são deixados por todo o lado.
Convém que o que é bulido,
seja de pronto concluído,
pois "mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades",
como já foi profeticamente dito.
Se Camões sonhasse a exatidão
do presságio em seu verso,
não daria falta do olho
que lhe faltava, por certo.
Eliseo Martinez
25.12.2016
Nestes tempos acelerados,
pedaços de versos inacabados
são deixados por todo o lado.
Convém que o que é bulido,
seja de pronto concluído,
pois "mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades",
como já foi profeticamente dito.
Se Camões sonhasse a exatidão
do presságio em seu verso,
não daria falta do olho
que lhe faltava, por certo.
Eliseo Martinez
25.12.2016
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
93.
O duplo sentido deixado na Caixa
(Homenagem à Chape)
A dor que se abateu sobre as províncias do sul do mundo foi sentida por todo o canto do globo azul em luto. Meninos crescidos, na alegria antecipada do aplauso das jogadas, acabaram privados, até mesmo, das vaias da torcida adversária, impedidos a brincar de bola na prometida festa lendária, desimportante para tantos outros em sua luta diária.
No entanto, algo se moveu com a queda do pássaro feito de aço, computadores e plástico. Numa migalha de instante, cristalizada nestes gélidos tempos, onde o coração dos homens arde na ira, seiva fria e medo, falaram mais alto os corpos mudos, despedaçados, que engravidavam o pássaro desafortunado. Da terra calcinada, por tanto veneno nela semeado, vimos surgir, estupefatos, brotos verdes inesperados. Brasileiros, chilenos, africanos, chineses, europeus e, até estadunidenses, somos todos chapecoenses.
O voo despencado do pássaro que jaz quebrado, fez parar a vida por todo o lado. Foi mais que os 71 corpos, das almas, desligados. Lote maior que este, em um punhado de dias, é apartado da vida numa única cidade, que assassina mais que as feridas vivas das guerras zelosamente mantidas.
- O que causou tamanha comoção, não detida pelas fronteiras riscadas no solo ou pela cor da pele dos povos?
- O que, por um átimo, conteve o avanço do tédio e do banal, olhos postos nos destroços do colombiano matagal?
- O que fez com que a solidariedade e a compaixão se levantassem vigorosas, se já agonizam em suas covas?
Quando achamos que o texto está pronto, o vento dos tempos embaralha umas poucas letras e nos provoca a inventar novos sentidos para o escrito todo.
Pode-se afirmar a urgência de lembrar da humanidade esquecida, que deveria estar contida em todo gesto humano na vida. Mas, talvez, o que melhor explique esta hora, seja o que, por fim, restou na caixa de Pandora. O sentimento que abriga seu duplo invertido: a esperança.
A esperança, que nos faz passivamente esperar, agora, pode nos fazer ativamente parar. Parar para pensar, pensar para sentir, sentir para mudar, e mudar para ousarmos ser mais felizes, capazes de dar sentido próprio ao que está ai, impropriamente posto, tatuado em cada rosto.
Esperança nos homens de boa vontade. Esperada mais de ateus que de crentes, confortavelmente resignados à crença desumana em um ente divino, que teima em acabar, antes do tempo previsto, com o jogo dos nossos meninos, lhes cortando os fios da roca do destino.

Eliseo Martinez
04/12/2016
O duplo sentido deixado na Caixa
(Homenagem à Chape)
A dor que se abateu sobre as províncias do sul do mundo foi sentida por todo o canto do globo azul em luto. Meninos crescidos, na alegria antecipada do aplauso das jogadas, acabaram privados, até mesmo, das vaias da torcida adversária, impedidos a brincar de bola na prometida festa lendária, desimportante para tantos outros em sua luta diária.
No entanto, algo se moveu com a queda do pássaro feito de aço, computadores e plástico. Numa migalha de instante, cristalizada nestes gélidos tempos, onde o coração dos homens arde na ira, seiva fria e medo, falaram mais alto os corpos mudos, despedaçados, que engravidavam o pássaro desafortunado. Da terra calcinada, por tanto veneno nela semeado, vimos surgir, estupefatos, brotos verdes inesperados. Brasileiros, chilenos, africanos, chineses, europeus e, até estadunidenses, somos todos chapecoenses.
O voo despencado do pássaro que jaz quebrado, fez parar a vida por todo o lado. Foi mais que os 71 corpos, das almas, desligados. Lote maior que este, em um punhado de dias, é apartado da vida numa única cidade, que assassina mais que as feridas vivas das guerras zelosamente mantidas.
- O que causou tamanha comoção, não detida pelas fronteiras riscadas no solo ou pela cor da pele dos povos?
- O que, por um átimo, conteve o avanço do tédio e do banal, olhos postos nos destroços do colombiano matagal?
- O que fez com que a solidariedade e a compaixão se levantassem vigorosas, se já agonizam em suas covas?
Quando achamos que o texto está pronto, o vento dos tempos embaralha umas poucas letras e nos provoca a inventar novos sentidos para o escrito todo.
Pode-se afirmar a urgência de lembrar da humanidade esquecida, que deveria estar contida em todo gesto humano na vida. Mas, talvez, o que melhor explique esta hora, seja o que, por fim, restou na caixa de Pandora. O sentimento que abriga seu duplo invertido: a esperança.
A esperança, que nos faz passivamente esperar, agora, pode nos fazer ativamente parar. Parar para pensar, pensar para sentir, sentir para mudar, e mudar para ousarmos ser mais felizes, capazes de dar sentido próprio ao que está ai, impropriamente posto, tatuado em cada rosto.
Esperança nos homens de boa vontade. Esperada mais de ateus que de crentes, confortavelmente resignados à crença desumana em um ente divino, que teima em acabar, antes do tempo previsto, com o jogo dos nossos meninos, lhes cortando os fios da roca do destino.

Eliseo Martinez
04/12/2016
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
92.
O Indivíduo X A Tribo
O grupo surge para proteger o indivíduo que o integra, no mais das vezes, tornando-o mais forte do que seria só.
Mais tarde, ao articular interesses dos diferentes coletivos constituídos em seus círculos mais amplos, nasce a grande política, quando esse poder é ampliado.
Antes, o imperativo de convivência entre os partícipes leva a valorização de comportamentos de coesão interna. Se a igualdade é uma quimera, a identidade só emerge enquanto esforço de construção. Esta experiência conjunta sofre a clivagem de micro poderes ditados, tanto por ações de preservação coletiva, quanto por atitudes de sobrevivência individual dentro dela, na acomodação de contradições, por vezes mesmo, intoleráveis, no âmbito da pequena política.
O que se formou de modo mais aberto e receptivo, na fase de aglutinação, tende, agora, a se fechar gradativamente, em sua consolidação. Tem lugar o garrote que subjaz ao movimento da manada, mantendo-a unida; o malabarismo que se estabelece entre o eu e todos os demais, regulado por doses diversas de expressão da vontade livre e subserviência a formação de consensos, que costuma ser inversamente proporcional ao quinhão de poder auferido pelo indivíduo dentro do grupo.
Com o tempo, inevitavelmente, despontam conflitos, alguns deles de difícil solução. A crítica independente tende, cada vez mais, a ser recebida como desestabilizadora, uma agressão não apenas ao grupo, mas a seus integrantes individualmente, que passam a agir cegamente na defesa da perpetuação daquela comunidade, minando a superação de antagonismos fundamentados nas diferentes percepções internas em disputa, mesmo que, anteriormente, já tenham cumpriram papel importante no desenvolvimento e fortalecimento comunal. Galvaniza-se a figura do chefe, personificação da função protetora representada por aquela associação de pessoas. Abre-se espaço a comportamentos de atalho, de caráter individualistas, comumente ardilosos, tais como os de bajulação, intriga e todo o tipo de má-fé, podendo cacifar as fichas de partícipes enfraquecidos, postulantes a se firmarem ou ascender na estrutura de poder grupal. Além disso, a necessidade de coesão passa a servir-se mais sistematicamente dos instrumentos de coerção. Fortalece-se a supremacia e ditadura do consenso. Mapeiam-se atitudes desviantes, entendidas como potencialmente perigosas. Assim, passam a ser marcados os que se movimentam próximos as fronteiras, distantes do centro de gravidade das posições majoritárias do coletivo, ora em crescente alerta. Como na tensão superficial que mantém coesa a gota d'água, a tribo desenvolve a necessidade de constituir o inimigo para sua união, redefinindo os limites, as texturas e as cores do espaço social.
Se a crítica intra-grupo não se dispõe ao paciencioso trabalho de articulação na tentativa de consolidar o direito de tendência interna, cedo ou tarde, remeterá o crítico outsider a condição de isolamento e sua possível exclusão do grupo, restando-lhe duas alternativas, conscientemente ou não percebidas por ele. A primeira, é a sublimação crítica na busca da reaceitação, ditada pelas mais diversas motivações, destacando-se as necessidades impostas pelo sentimento de pertencimento; a segunda, é o aprofundamento da crítica dirigida ao coletivo e/ou as suas lideranças, acirrando antagonismos com a reorientação do próprio coletivo ou, no caso de insucesso da ação, frente ao recrudescimento do grupo, a exclusão definitiva do indivíduo rebelde, ai, já parcialmente imunizado contra os cruéis efeitos deletérios da morte social, principalmente quando o desviante se submeteu passivamente ao processo de "purificação".
Desta forma, para afirmação da dimensão existencial do sujeito excluído, faz-se necessária a superação do controle social na mente do crítico quando, para além da dissolução dos laços objetivos, desfazem-se os laços simbólicos que legitimavam as formas de interação previamente estabelecidas entre o sujeito e todos os demais. Contexto particularmente interessante no caso da continuidade do compartilhamento do espaço, o que inevitavelmente remete a condições propícias à desobediência civil, abrindo trincas na hegemonia do poder instituído.
A responsabilidade de tais escolhas, uma vez transitada toda a angústia daí decorrente, vai definir a qualidade da liberdade e a reconfiguração daquela identidade singular que se mobiliza. É quando a ideia de projeto de si pode recolocar a função estabilizadora do tempo futuro, transcendendo a instabilidade cambiante do tempo presente.
Na concepção de Nietzsche, é só na ousadia do ato maior de transvalorizar os valores estabelecidos que emerge a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos.
Eliseo Martinez
02/12/2016
O Indivíduo X A Tribo
O grupo surge para proteger o indivíduo que o integra, no mais das vezes, tornando-o mais forte do que seria só.
Mais tarde, ao articular interesses dos diferentes coletivos constituídos em seus círculos mais amplos, nasce a grande política, quando esse poder é ampliado.
Antes, o imperativo de convivência entre os partícipes leva a valorização de comportamentos de coesão interna. Se a igualdade é uma quimera, a identidade só emerge enquanto esforço de construção. Esta experiência conjunta sofre a clivagem de micro poderes ditados, tanto por ações de preservação coletiva, quanto por atitudes de sobrevivência individual dentro dela, na acomodação de contradições, por vezes mesmo, intoleráveis, no âmbito da pequena política.
O que se formou de modo mais aberto e receptivo, na fase de aglutinação, tende, agora, a se fechar gradativamente, em sua consolidação. Tem lugar o garrote que subjaz ao movimento da manada, mantendo-a unida; o malabarismo que se estabelece entre o eu e todos os demais, regulado por doses diversas de expressão da vontade livre e subserviência a formação de consensos, que costuma ser inversamente proporcional ao quinhão de poder auferido pelo indivíduo dentro do grupo.
Com o tempo, inevitavelmente, despontam conflitos, alguns deles de difícil solução. A crítica independente tende, cada vez mais, a ser recebida como desestabilizadora, uma agressão não apenas ao grupo, mas a seus integrantes individualmente, que passam a agir cegamente na defesa da perpetuação daquela comunidade, minando a superação de antagonismos fundamentados nas diferentes percepções internas em disputa, mesmo que, anteriormente, já tenham cumpriram papel importante no desenvolvimento e fortalecimento comunal. Galvaniza-se a figura do chefe, personificação da função protetora representada por aquela associação de pessoas. Abre-se espaço a comportamentos de atalho, de caráter individualistas, comumente ardilosos, tais como os de bajulação, intriga e todo o tipo de má-fé, podendo cacifar as fichas de partícipes enfraquecidos, postulantes a se firmarem ou ascender na estrutura de poder grupal. Além disso, a necessidade de coesão passa a servir-se mais sistematicamente dos instrumentos de coerção. Fortalece-se a supremacia e ditadura do consenso. Mapeiam-se atitudes desviantes, entendidas como potencialmente perigosas. Assim, passam a ser marcados os que se movimentam próximos as fronteiras, distantes do centro de gravidade das posições majoritárias do coletivo, ora em crescente alerta. Como na tensão superficial que mantém coesa a gota d'água, a tribo desenvolve a necessidade de constituir o inimigo para sua união, redefinindo os limites, as texturas e as cores do espaço social.
Se a crítica intra-grupo não se dispõe ao paciencioso trabalho de articulação na tentativa de consolidar o direito de tendência interna, cedo ou tarde, remeterá o crítico outsider a condição de isolamento e sua possível exclusão do grupo, restando-lhe duas alternativas, conscientemente ou não percebidas por ele. A primeira, é a sublimação crítica na busca da reaceitação, ditada pelas mais diversas motivações, destacando-se as necessidades impostas pelo sentimento de pertencimento; a segunda, é o aprofundamento da crítica dirigida ao coletivo e/ou as suas lideranças, acirrando antagonismos com a reorientação do próprio coletivo ou, no caso de insucesso da ação, frente ao recrudescimento do grupo, a exclusão definitiva do indivíduo rebelde, ai, já parcialmente imunizado contra os cruéis efeitos deletérios da morte social, principalmente quando o desviante se submeteu passivamente ao processo de "purificação".
Desta forma, para afirmação da dimensão existencial do sujeito excluído, faz-se necessária a superação do controle social na mente do crítico quando, para além da dissolução dos laços objetivos, desfazem-se os laços simbólicos que legitimavam as formas de interação previamente estabelecidas entre o sujeito e todos os demais. Contexto particularmente interessante no caso da continuidade do compartilhamento do espaço, o que inevitavelmente remete a condições propícias à desobediência civil, abrindo trincas na hegemonia do poder instituído.
A responsabilidade de tais escolhas, uma vez transitada toda a angústia daí decorrente, vai definir a qualidade da liberdade e a reconfiguração daquela identidade singular que se mobiliza. É quando a ideia de projeto de si pode recolocar a função estabilizadora do tempo futuro, transcendendo a instabilidade cambiante do tempo presente.
Na concepção de Nietzsche, é só na ousadia do ato maior de transvalorizar os valores estabelecidos que emerge a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos.
Eliseo Martinez
02/12/2016
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
91.
Ofício de Professor
No Ocidente, instruir ao provocar mentes, já nasceu como labor de uma cética gente. Os sofistas foram os primeiros dentre todos que se fizeram sendeiros luminosos. Vindos das bordas do mundo grego, dirigiam-se à Atenas, ensinando por onde passavam. Viviam da nova educação dada aos filhos de outros, pois só no saber dos mitos havia sido instruído aquele povo. Seu maior rival, Sócrates, provocador genial, não hesitava em chamá-los às falas por terem desprezado a Verdade e dado preço a suas aulas, negócio nunca antes visto entre os nossos. A maior parte, de rendimento ralo, já penava em seu magistério árduo, mas houve os que se alçaram a pop stars helenos, fascinando com a oratória ricos jovens gregos, para logo após punir com a gramática, estes futuros cidadãos da polis democrática.
Hoje, o professor é refém dos interesses de poucos, que temem mover consciências com a boa educação dos muitos outros, pagando aos que vivem dela, não mais que míseros trocos. Se todo jovem for preparado, com formação e cuidado, conduzido ao limite do que pode, os que se apossaram do poder, a quem servem políticos de todo o tipo, seriam para sempre varridos, ao invés de condenar o professor a perversa condição de trabalho, transformando a escola pública em depósito dos filhos do pobre. A Educação é a prostituta de quem o Estado se vale para reduzir gasto público, tendo, a qualquer pretexto, seus já minguados recursos drenados para outro lado. Pela paga indecente, fica ao mestre proibido a cultura e o estudo, mantido longe do diferente. Mas que não lhe falte ao transporte e a um prato de comida para que não se extinga a dura vida.
Eliseo Martinez
25/11/2016
Ofício de Professor
No Ocidente, instruir ao provocar mentes, já nasceu como labor de uma cética gente. Os sofistas foram os primeiros dentre todos que se fizeram sendeiros luminosos. Vindos das bordas do mundo grego, dirigiam-se à Atenas, ensinando por onde passavam. Viviam da nova educação dada aos filhos de outros, pois só no saber dos mitos havia sido instruído aquele povo. Seu maior rival, Sócrates, provocador genial, não hesitava em chamá-los às falas por terem desprezado a Verdade e dado preço a suas aulas, negócio nunca antes visto entre os nossos. A maior parte, de rendimento ralo, já penava em seu magistério árduo, mas houve os que se alçaram a pop stars helenos, fascinando com a oratória ricos jovens gregos, para logo após punir com a gramática, estes futuros cidadãos da polis democrática.
Hoje, o professor é refém dos interesses de poucos, que temem mover consciências com a boa educação dos muitos outros, pagando aos que vivem dela, não mais que míseros trocos. Se todo jovem for preparado, com formação e cuidado, conduzido ao limite do que pode, os que se apossaram do poder, a quem servem políticos de todo o tipo, seriam para sempre varridos, ao invés de condenar o professor a perversa condição de trabalho, transformando a escola pública em depósito dos filhos do pobre. A Educação é a prostituta de quem o Estado se vale para reduzir gasto público, tendo, a qualquer pretexto, seus já minguados recursos drenados para outro lado. Pela paga indecente, fica ao mestre proibido a cultura e o estudo, mantido longe do diferente. Mas que não lhe falte ao transporte e a um prato de comida para que não se extinga a dura vida.
Eliseo Martinez
25/11/2016
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
90.
A Banda
Toco numa banda. Ela ensaia afinações, mas engana, passando-se por sinfônica entre latas batidas, apitos, reco-recos, chocalhos, sanfonas. Basta apurar o ouvido, aproximar a poltrona, para perceber a patranha toda. Há muito, os músicos cansaram-se dos instrumentos, das partituras, do soldo pouco e do pequeno público. Toco pífaro e, com certeza, desafino. Tocando de ouvido, a tal banda tem acordes combinados, que não harmonizam com o do pífaro desafinado. Ao maestro faltam, além de ritmo, braços, segurando a batuta com o pé direito, que passa por esquerdo por manter os pés cruzados. Os fiéis batedores de bumbo, sempre voltados para o triste regente, são indiferentes ao som dos diferentes instrumentos. Pouco lhes importa a pouca maestria que, confusa, agita a esmo a varinha maluca. Nutrem sonhos secretos de, algum dia, comandar a banda que engana, alçando-se à fama. Ao redor do coreto da praça, a qualquer pretexto, levanta-se a tenda de eventos. Oba! Ki-suco com melado, pé-de-moleque, refresco.
Agita-se ruidosa, a pracinha, na fanfarra da banda desatinada, a ovacionar-se, ela própria, em meio ao silencioso caos orquestrado da cidade, que com ela não se importa.
Eliseo Martinez
23/11/2016
A Banda
Toco numa banda. Ela ensaia afinações, mas engana, passando-se por sinfônica entre latas batidas, apitos, reco-recos, chocalhos, sanfonas. Basta apurar o ouvido, aproximar a poltrona, para perceber a patranha toda. Há muito, os músicos cansaram-se dos instrumentos, das partituras, do soldo pouco e do pequeno público. Toco pífaro e, com certeza, desafino. Tocando de ouvido, a tal banda tem acordes combinados, que não harmonizam com o do pífaro desafinado. Ao maestro faltam, além de ritmo, braços, segurando a batuta com o pé direito, que passa por esquerdo por manter os pés cruzados. Os fiéis batedores de bumbo, sempre voltados para o triste regente, são indiferentes ao som dos diferentes instrumentos. Pouco lhes importa a pouca maestria que, confusa, agita a esmo a varinha maluca. Nutrem sonhos secretos de, algum dia, comandar a banda que engana, alçando-se à fama. Ao redor do coreto da praça, a qualquer pretexto, levanta-se a tenda de eventos. Oba! Ki-suco com melado, pé-de-moleque, refresco.
Agita-se ruidosa, a pracinha, na fanfarra da banda desatinada, a ovacionar-se, ela própria, em meio ao silencioso caos orquestrado da cidade, que com ela não se importa.
Eliseo Martinez
23/11/2016
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
89.
Areté
Uma vez provocados, despertam gênios,
medonhos e empoderados,
libertando potências sublimadas
que habitam os subterrâneos
de gente derramada por todo o lado.
Os daquele velho mestre escola,
avesso a dar as costas a tantos talos novos,
vomitam nos rasos consensos medianos,
alheios ao justo e ao sensato nos humanos,
abominam os pactos atávicos,
no fogo dos medos forjados.
No limite, irascíveis,
negam o que esvazia a alma e anestesia o espírito,
este naco que nos coube do divino.
Batem-se, os tais seres, por fazer do insubmisso
e tosco dono do corpo, senhor da justa vontade,
em que pese os açoites testemunhados
no lombo esquálido da verdade.
Pugnam, as bestas, por algum juízo soberano
na exígua existência carente de justiça, voz e arte,
enfim, vida digna, para que algo valha sua sina.
Que razão melhor que esta,
aos demônios humanos resta,
na busca do sentido do que é vivido,
antes do átimo que, por certo,
antecede o vazio que transborda nada ?
Eliseo Martinez
21/11/2016
Areté
Uma vez provocados, despertam gênios,
medonhos e empoderados,
libertando potências sublimadas
que habitam os subterrâneos
de gente derramada por todo o lado.
Os daquele velho mestre escola,
avesso a dar as costas a tantos talos novos,
vomitam nos rasos consensos medianos,
alheios ao justo e ao sensato nos humanos,
abominam os pactos atávicos,
no fogo dos medos forjados.
No limite, irascíveis,
negam o que esvazia a alma e anestesia o espírito,
este naco que nos coube do divino.
Batem-se, os tais seres, por fazer do insubmisso
e tosco dono do corpo, senhor da justa vontade,
em que pese os açoites testemunhados
no lombo esquálido da verdade.
Pugnam, as bestas, por algum juízo soberano
na exígua existência carente de justiça, voz e arte,
enfim, vida digna, para que algo valha sua sina.
Que razão melhor que esta,
aos demônios humanos resta,
na busca do sentido do que é vivido,
antes do átimo que, por certo,
antecede o vazio que transborda nada ?
Eliseo Martinez
21/11/2016
terça-feira, 15 de novembro de 2016
88.
A Dança
Uma trupe bufa, apossada de cargos e carente de história que se cite, conspirou contra a Justiça, sem vitória, valendo-se de ardis e trapaças no uso do Direito e da falta de talento de duas tristes figurantes e um pobre bufão das atas. A mim, valeu-me ter ao lado a virtude de um amigo, a sabedoria de uma aguerrida octogenária, calejada de batalhas, e a mente lúcida de jovens corajosos, frente as patentes e as togas, capazes de ler o mundo com os próprios olhos. A valiosa recompensa não foi vencer a mesquinhez do fraco triunvirato mas, dos fortes de caráter, merecer a lealdade. Como prenda da contenda ficou o mel da luta justa que se luta junto. E, por uma dessas fendas do momento, todos presenciaram atentos, quando ocupando o espaço, a majestosa Justiça puxou o servil Direito para o centro do tablado e, por toda a noite, dançaram aos abraços, fazendo o regozijo dos ofendidos, por ora esquecidos que os alegres rodopios findam ao fim da memorável folia para, no alvorecer pardo de um novo-velho dia, a vida voltar a ser mais uma vez corrompida. E, assim, sob a força dos que se valem do mal, gira a roda cega da fortuna, só contida a cada dia, pela virtude dos homens em sua recusa de se curvarem a grande ou miúda tirania, levados a lutar suas lutas.
Eliseo Martinez
14/11/16
A Dança
Uma trupe bufa, apossada de cargos e carente de história que se cite, conspirou contra a Justiça, sem vitória, valendo-se de ardis e trapaças no uso do Direito e da falta de talento de duas tristes figurantes e um pobre bufão das atas. A mim, valeu-me ter ao lado a virtude de um amigo, a sabedoria de uma aguerrida octogenária, calejada de batalhas, e a mente lúcida de jovens corajosos, frente as patentes e as togas, capazes de ler o mundo com os próprios olhos. A valiosa recompensa não foi vencer a mesquinhez do fraco triunvirato mas, dos fortes de caráter, merecer a lealdade. Como prenda da contenda ficou o mel da luta justa que se luta junto. E, por uma dessas fendas do momento, todos presenciaram atentos, quando ocupando o espaço, a majestosa Justiça puxou o servil Direito para o centro do tablado e, por toda a noite, dançaram aos abraços, fazendo o regozijo dos ofendidos, por ora esquecidos que os alegres rodopios findam ao fim da memorável folia para, no alvorecer pardo de um novo-velho dia, a vida voltar a ser mais uma vez corrompida. E, assim, sob a força dos que se valem do mal, gira a roda cega da fortuna, só contida a cada dia, pela virtude dos homens em sua recusa de se curvarem a grande ou miúda tirania, levados a lutar suas lutas.
Eliseo Martinez
14/11/16
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
87.
Plasticidade
A plasticidade cambiante destes tempos inconstantes liquefaz caminhos que nos garantiam segurança, enquanto encobre dilemas que desde sempre atormentam a alma dos homens. Assim é com a culpa, que na falta da medida é banida. A perda drástica da longevidade de nossas teses, reduzida a instantes em metástase, dilui as antes, claras referências do dever ser, fazendo murchar a dimensão moral de nossa existência banal. Num mundo esquecido de mocinhos e bandidos, sou um legítimo apache fake em fim de semana, acampado no estacionamento do parque. Tudo passa a não ser sem, no entanto, deixar de o ser. Conflitos se pulverizam no rastro da dissolução de laços ancestrais. Solidariedade, amizade, compaixão, alteridade, hospitalidade, eram juntos, capazes de dar suporte ao senso do justo, composto no conjunto todo. Afirmar-me não me exigia negar o outro. Concomitantemente ao avanço individualista, que mina o encontro entre o espírito que nas carnes habita, o EU expande-se como uma supernova no limiar do nada que sobra. Sob a alvissareira máscara da pluralidade contemporânea, esconde-se o rosto de ferro da intolerância granulada dos dias mornos da semana. As grandes contendas entre as classes, por certo não se dissiparam feito gases. Resistem mais fortes que nunca, encobertas por camadas mais densas de neon e ideologia, capazes de mais bem ocultar as verdadeiras raízes da economia que definem os interesses dos grandes grupamentos humanos. Como estratégia de sobrevida frente aos crescentes dissabores da vida coletiva, oferta-se elixires, aliviando indivíduos isolados dos intoleráveis grãos de NÃO espalhados. Balcões de reclamação se multiplicam pela cidade. Proliferam ouvidorias de empresas, órgãos públicos, escolas, serviços vários, 0800s, a justiça se recicla e passa a ser restaurativa. Frustrado o resultado dos engodos do mercado, a judicialização do mais minúsculo caso passa a encobrir o esvaziamento do cidadão, preenchido pelo que nos define como meros consumidores, devotos dos "direitos" próprios e esquecidos dos deveres no quadro pragmático da dissolução de valores, falaciosamente justificado pelo paradigma quebrado, dando conta do movimento tornando a consequência causa do momento. Se transgredimos uma norma de trânsito, contamos com os balcões para fazer transitar, da forma mais "cidadã", nossas mais ilegítimas e injustas refutações. Se já decretaram o fim da história, o que voga é a superação da ética, agora. Opera-se a troca da verdade por um arsenal de sofismas e um punhado de meias mentiras. Tempos de liberdade, estes, que me livram do atrito do chão em que piso, me deixando pairar sem asas sobre o abismo. No entanto, como não pensar nos limites do movimento que avança? No horizonte, o tecido feito de homens é dramaticamente descomposto.
Nestes tempos de indiferença, recluso, aqui comigo, penso nos que, em claro delito, se movem para mover um filho, um aluno ou um amigo das sombras do fundo da caverna que os abriga. Pelo chão da história, finda ou não, ficam como evidências, os restos de pele morta da espécie, entre seu gênio e sua demência.
Eliseo Martinez
03/11/2016
Plasticidade
A plasticidade cambiante destes tempos inconstantes liquefaz caminhos que nos garantiam segurança, enquanto encobre dilemas que desde sempre atormentam a alma dos homens. Assim é com a culpa, que na falta da medida é banida. A perda drástica da longevidade de nossas teses, reduzida a instantes em metástase, dilui as antes, claras referências do dever ser, fazendo murchar a dimensão moral de nossa existência banal. Num mundo esquecido de mocinhos e bandidos, sou um legítimo apache fake em fim de semana, acampado no estacionamento do parque. Tudo passa a não ser sem, no entanto, deixar de o ser. Conflitos se pulverizam no rastro da dissolução de laços ancestrais. Solidariedade, amizade, compaixão, alteridade, hospitalidade, eram juntos, capazes de dar suporte ao senso do justo, composto no conjunto todo. Afirmar-me não me exigia negar o outro. Concomitantemente ao avanço individualista, que mina o encontro entre o espírito que nas carnes habita, o EU expande-se como uma supernova no limiar do nada que sobra. Sob a alvissareira máscara da pluralidade contemporânea, esconde-se o rosto de ferro da intolerância granulada dos dias mornos da semana. As grandes contendas entre as classes, por certo não se dissiparam feito gases. Resistem mais fortes que nunca, encobertas por camadas mais densas de neon e ideologia, capazes de mais bem ocultar as verdadeiras raízes da economia que definem os interesses dos grandes grupamentos humanos. Como estratégia de sobrevida frente aos crescentes dissabores da vida coletiva, oferta-se elixires, aliviando indivíduos isolados dos intoleráveis grãos de NÃO espalhados. Balcões de reclamação se multiplicam pela cidade. Proliferam ouvidorias de empresas, órgãos públicos, escolas, serviços vários, 0800s, a justiça se recicla e passa a ser restaurativa. Frustrado o resultado dos engodos do mercado, a judicialização do mais minúsculo caso passa a encobrir o esvaziamento do cidadão, preenchido pelo que nos define como meros consumidores, devotos dos "direitos" próprios e esquecidos dos deveres no quadro pragmático da dissolução de valores, falaciosamente justificado pelo paradigma quebrado, dando conta do movimento tornando a consequência causa do momento. Se transgredimos uma norma de trânsito, contamos com os balcões para fazer transitar, da forma mais "cidadã", nossas mais ilegítimas e injustas refutações. Se já decretaram o fim da história, o que voga é a superação da ética, agora. Opera-se a troca da verdade por um arsenal de sofismas e um punhado de meias mentiras. Tempos de liberdade, estes, que me livram do atrito do chão em que piso, me deixando pairar sem asas sobre o abismo. No entanto, como não pensar nos limites do movimento que avança? No horizonte, o tecido feito de homens é dramaticamente descomposto.
Nestes tempos de indiferença, recluso, aqui comigo, penso nos que, em claro delito, se movem para mover um filho, um aluno ou um amigo das sombras do fundo da caverna que os abriga. Pelo chão da história, finda ou não, ficam como evidências, os restos de pele morta da espécie, entre seu gênio e sua demência.
Eliseo Martinez
03/11/2016
domingo, 23 de outubro de 2016
86.
Negociação
O globo mundo se materializa como um só e gigantesco mercado de novos e usados. Rastreia-se, ávido, vantajosos negócios nesta imensa tenda de andrajos. Tudo tem pressa e preço onde a morte do norte nega o ócio. Agora, não negociamos mais o velho projeto, mas novíssimos episódios.
Com razão cética, passamos a idolatria da mítica mercadoria: objetos, pessoas, imagens, sentidos, valores, amores, quem somos...; remarcada na contramão do que já foi natural e espontâneo entre a belicosa raça dos humanos. Ao que suporta a vida, conectamos inúmeras outras dependências, como se elas, de fato, contivessem essências. O real derrete e escorre virtualizado para o ocaso no tempo presente, já reciclado como entulho do tempo passado. Tudo é vertigem na rede descontínua do rizoma sem semente. A técnica traceja o processo todo sob o signo da eficácia, por difusas que sejam, nos meios, as táticas e vazias, nos termos, as resultantes falácias.
Avança o monopólio sob o ar respirado, no interior de instantâneos e frágeis consensos merceados. Calculamos o passo, atos, tempos e espaços, sentir e estares, sonhos escassos.
Negocia-se o "olá, que tal!" com indiferença casual, com o garçom mal-humorado, o estudante malformado, o sistema corrompido, o descaso da autoridade, com quem se deita ao lado, o último voto útil, a coação do inútil flanelinha, o TPM da vizinha, a balança e a pouca esperança, mas o consumo redime a tudo e quase nos encanta.
Assim avança a civilização, por graça da hostil resiliência dos homens em interação, movidos pelo horror de se ver e pela pulsão de pertencer, fazendo acontecer.
A mim, cada vez mais, parece uma sentença que nega a visão única de cada olhar, impedindo que o que é visto faça mudar, arrastando em cativeiro a formiga que afastou-se do carreiro.
Eliseo Martinez
22/10/2016
Negociação
O globo mundo se materializa como um só e gigantesco mercado de novos e usados. Rastreia-se, ávido, vantajosos negócios nesta imensa tenda de andrajos. Tudo tem pressa e preço onde a morte do norte nega o ócio. Agora, não negociamos mais o velho projeto, mas novíssimos episódios.
Com razão cética, passamos a idolatria da mítica mercadoria: objetos, pessoas, imagens, sentidos, valores, amores, quem somos...; remarcada na contramão do que já foi natural e espontâneo entre a belicosa raça dos humanos. Ao que suporta a vida, conectamos inúmeras outras dependências, como se elas, de fato, contivessem essências. O real derrete e escorre virtualizado para o ocaso no tempo presente, já reciclado como entulho do tempo passado. Tudo é vertigem na rede descontínua do rizoma sem semente. A técnica traceja o processo todo sob o signo da eficácia, por difusas que sejam, nos meios, as táticas e vazias, nos termos, as resultantes falácias.
Avança o monopólio sob o ar respirado, no interior de instantâneos e frágeis consensos merceados. Calculamos o passo, atos, tempos e espaços, sentir e estares, sonhos escassos.
Negocia-se o "olá, que tal!" com indiferença casual, com o garçom mal-humorado, o estudante malformado, o sistema corrompido, o descaso da autoridade, com quem se deita ao lado, o último voto útil, a coação do inútil flanelinha, o TPM da vizinha, a balança e a pouca esperança, mas o consumo redime a tudo e quase nos encanta.
Assim avança a civilização, por graça da hostil resiliência dos homens em interação, movidos pelo horror de se ver e pela pulsão de pertencer, fazendo acontecer.
A mim, cada vez mais, parece uma sentença que nega a visão única de cada olhar, impedindo que o que é visto faça mudar, arrastando em cativeiro a formiga que afastou-se do carreiro.
Eliseo Martinez
22/10/2016
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
85.
Ontem
Ontem, cruzei com o afeto maiorde minha juventude.
O tempo não lhe conservou o lume.
Entristeceu-me o olhar desamparado,
o risco apertado dos lábios,
o traçado incerto do passo,
como que tomado por demasiados cansaços.
Nada lembrava o viço que me encantara,
a mente alerta, a alma clara, o espírito ávido.
Pensei em descer do carro, amparar, dizer olá!
Nada fiz.
Desertei uma última vez do que já foi um nós
e deixei passar sem dizer, afundando a voz.
Nestas pequenas escaramuças, o mesmo tempo
que, cruel, obra lá, fustiga cá,
alargando o espaço que perdeu a conta
das falas, das andanças e dos abraços,
como os demais registros sequestrados.
Da trama dos sentidos vividos restou embaraço
e um caroço no oco do pescoço enrijecido.
Hoje, o afeto maior de minha juventude visitou-me,
vindo do fundo de um túnel retorcido,
como o mais verde dos talos verdes que, comigo,
concebeu as formas, estas gotas de infinito,
que não ficam, mas nos levam a vazar do círculo.
Depois dos olhos que, com vagar, se olharam,
as bocas se encontraram.
Despertei entre os acenos doces do passado
e a parede de um presente inutilmente mutilado.
Eliseo Martinez
22.09.2016
O tempo não lhe conservou o lume.
Entristeceu-me o olhar desamparado,
o risco apertado dos lábios,
o traçado incerto do passo,
como que tomado por demasiados cansaços.
Nada lembrava o viço que me encantara,
a mente alerta, a alma clara, o espírito ávido.
Pensei em descer do carro, amparar, dizer olá!
Nada fiz.
Desertei uma última vez do que já foi um nós
e deixei passar sem dizer, afundando a voz.
Nestas pequenas escaramuças, o mesmo tempo
que, cruel, obra lá, fustiga cá,
alargando o espaço que perdeu a conta
das falas, das andanças e dos abraços,
como os demais registros sequestrados.
Da trama dos sentidos vividos restou embaraço
e um caroço no oco do pescoço enrijecido.
Hoje, o afeto maior de minha juventude visitou-me,
vindo do fundo de um túnel retorcido,
como o mais verde dos talos verdes que, comigo,
concebeu as formas, estas gotas de infinito,
que não ficam, mas nos levam a vazar do círculo.
Depois dos olhos que, com vagar, se olharam,
as bocas se encontraram.
Despertei entre os acenos doces do passado
e a parede de um presente inutilmente mutilado.
Eliseo Martinez
22.09.2016
terça-feira, 6 de setembro de 2016
84.
Apontamentos Alienistas
A loucura é mais que um estado manco da consciência.
É um lugar real imaginado, um borrão escuro avermelhado,
povoado de solidão à beira da encruzilhada dos desencontrados,
cheio do movimento parado de sentidos dilacerados.
Nota 2:
Difícil pensar solidão mais só que a loucura,
ante a fenda que lhe parte chão e pontes, uma a uma.
Primeiro, o aflito da mente, depois, os sentidos do corpo e,
então, os outros ... Há! Os outros,
que não me perdoaram pelo abandono em que me encontro.
Sem guias de razão e sentidos em confusão,
depois de mim, eles também se foram.
Eu a ver tudo. Eu mesmo e todos os outros a acenarem,
já longe, antes de desaparecerem entre as brumas da noite.
Nota 3:
Para éticos peripatéticos*, que fazem da racionalidade
essência única da humanidade,
resta-nos nada ao evaporar-se lógica e identidade.
O gênio aristotélico, aqui, saciou-se de impropérios,
cego ao radical contraveneno do unidimensional enredo.
No entanto, alheia a doidos e essencialistas metafísicos,
que são tantos, gira a esfera seu giro sem espanto.
Toda a vida é efêmera e preciosa.
No fundo de cada alma, arde a centelha do primeiro lume,
pago caro por Prometeu ao tomar dos deuses e dar aos homens.
Abraços irrompam entre loucos que, em parte,
somos todos, se não o fazem outros,
esquecidos que sem o estranho toque de loucura
não existiria paixão ou arte, tampouco encanto na literatura.
Que seria da imaginação se só se empanturrasse de razão?
Quem sabe, até mesmo, a almejada felicidade
não seja mais que o sonho insano da humanidade?
Eliseo Martinez
06.09.2016
Apontamentos Alienistas
A loucura é mais que um estado manco da consciência.
É um lugar real imaginado, um borrão escuro avermelhado,
povoado de solidão à beira da encruzilhada dos desencontrados,
cheio do movimento parado de sentidos dilacerados.
Nota 2:
Difícil pensar solidão mais só que a loucura,
ante a fenda que lhe parte chão e pontes, uma a uma.
Primeiro, o aflito da mente, depois, os sentidos do corpo e,
então, os outros ... Há! Os outros,
que não me perdoaram pelo abandono em que me encontro.
Sem guias de razão e sentidos em confusão,
depois de mim, eles também se foram.
Eu a ver tudo. Eu mesmo e todos os outros a acenarem,
já longe, antes de desaparecerem entre as brumas da noite.
Nota 3:
Para éticos peripatéticos*, que fazem da racionalidade
essência única da humanidade,
resta-nos nada ao evaporar-se lógica e identidade.
O gênio aristotélico, aqui, saciou-se de impropérios,
cego ao radical contraveneno do unidimensional enredo.
No entanto, alheia a doidos e essencialistas metafísicos,
que são tantos, gira a esfera seu giro sem espanto.
Toda a vida é efêmera e preciosa.
No fundo de cada alma, arde a centelha do primeiro lume,
pago caro por Prometeu ao tomar dos deuses e dar aos homens.
Abraços irrompam entre loucos que, em parte,
somos todos, se não o fazem outros,
esquecidos que sem o estranho toque de loucura
não existiria paixão ou arte, tampouco encanto na literatura.
Que seria da imaginação se só se empanturrasse de razão?
Quem sabe, até mesmo, a almejada felicidade
não seja mais que o sonho insano da humanidade?
Eliseo Martinez
06.09.2016
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
83.
PERDAS III / MORTE IV
Sob efeito do esquecimento que granula
a imagem proto-sólida da memória,
faz-se idêntico movimento a pulverizar,
do improvável acaso que sou, a trajetória,
levando-me a deslizar lentamente
para os limites da existência.
Onde, cruzada a ponte,
já não pertenço ao tempo.
O que restar se perderá nas lembranças
dos que, desidratados de esperanças,
a sua hora, partirão depois de mim.
Evidências espalhadas pelo espaço,
ainda, denunciarão meus rastros.
Resumido ao rosto, em fotos que desbotam;
ao nome, em papéis que, a seu turno, mofam.
Por fim, já deixado de ser eu,
passo a deixar de ser ele, de outros,
para não-ser simplesmente,
que já fui antes de mim.
Sequer parte do primordial vazio,
diluído no nada essencial
do grego Kaos, Jano de romanos,
uno e infindo e ... oportuno.
Eliseo Martinez
29.08.2016
PERDAS III / MORTE IV
Sob efeito do esquecimento que granula
a imagem proto-sólida da memória,
faz-se idêntico movimento a pulverizar,
do improvável acaso que sou, a trajetória,
levando-me a deslizar lentamente
para os limites da existência.
Onde, cruzada a ponte,
já não pertenço ao tempo.
O que restar se perderá nas lembranças
dos que, desidratados de esperanças,
a sua hora, partirão depois de mim.
Evidências espalhadas pelo espaço,
ainda, denunciarão meus rastros.
Resumido ao rosto, em fotos que desbotam;
ao nome, em papéis que, a seu turno, mofam.
Por fim, já deixado de ser eu,
passo a deixar de ser ele, de outros,
para não-ser simplesmente,
que já fui antes de mim.
Sequer parte do primordial vazio,
diluído no nada essencial
do grego Kaos, Jano de romanos,
uno e infindo e ... oportuno.
Eliseo Martinez
29.08.2016
sábado, 27 de agosto de 2016
81.
Saudade
Consta que saudade é palavra
que só consta das nossas falas.
Coisa que duvido
e me soa a uma espécie de bairrismo.
Por certo, deste sentir tem para todos,
asiáticos, europeus, africanos,
marcianos, se houvessem, e outros,
até para americanos.
Mas, parece que por lá,
saudade vem trocada por "sentir falta".
Tenho saudades de muitas coisas,
pessoas e lugares, estados de alma.
Não lhes sinto a falta,
tampouco quero que voltem.
Deixo-as quietas a minha volta.
Só habitam uma região de mim que,
as vezes, gosto de passar por lá,
revisitar, dar um olá!,
sem serventia para ninguém mais
que soubesse de tal lugar.
São como as tintas claras
na aquarela das lembranças,
um pouco aguadas de esquecimento
na palheta da memória.
Recanto de leveza a descontar
os escuros tons da estranheza.
É o que o presente resgatou com doçura do passado
e, com todos os naufrágios, foi preservado.
Tenho saudades de alguns sorrisos e olhares;
do Capitão Blood, dos filmes de pirata
da Sessão da Tarde;
do jogo de botão e do pega ladrão
dos garotos do bairro, depois da escola;
do taco que bate na bola, num alegre espaço
que, por casmurrice dos adultos,
é chamado de *Tristeza;
das borboletas negras-amarelas e
dos bosques brancos de véus-de-noivas;
de mãos dadas, unindo corações em disparada;
das viagens sem bagagem
e das caminhadas intermináveis
por vielas de tantas cidades;
dos livros que me escreveram,
fazendo-me torto como sou
ao riscar mais para lá as fronteiras;
de pôr-de-sóis que nos olhos me morreram
para renascerem girassóis que comigo se moveram;
dos mistérios de criança,
já aos sete anos a brincar de homem...
A saudade do sentir intenso, vou sentir amanhã
lembrando do que sinto agora.
Revoada de vaga-lumes na memória.
Acho, mesmo, que depois-de-amanhã
vou me repetir e sentir o mesmo desta hora.
E sigo nesta teimosia,
em que os males da vida pouco podem,
pois na soma das saudades,
reside o remédio que os dissolvem.
Eliseo Martinez
27.08.2016
Saudade
Consta que saudade é palavra
que só consta das nossas falas.
Coisa que duvido
e me soa a uma espécie de bairrismo.
Por certo, deste sentir tem para todos,
asiáticos, europeus, africanos,
marcianos, se houvessem, e outros,
até para americanos.
Mas, parece que por lá,
saudade vem trocada por "sentir falta".
Tenho saudades de muitas coisas,
pessoas e lugares, estados de alma.
Não lhes sinto a falta,
tampouco quero que voltem.
Deixo-as quietas a minha volta.
Só habitam uma região de mim que,
as vezes, gosto de passar por lá,
revisitar, dar um olá!,
sem serventia para ninguém mais
que soubesse de tal lugar.
São como as tintas claras
na aquarela das lembranças,
um pouco aguadas de esquecimento
na palheta da memória.
Recanto de leveza a descontar
os escuros tons da estranheza.
É o que o presente resgatou com doçura do passado
e, com todos os naufrágios, foi preservado.
Tenho saudades de alguns sorrisos e olhares;
do Capitão Blood, dos filmes de pirata
da Sessão da Tarde;
do jogo de botão e do pega ladrão
dos garotos do bairro, depois da escola;
do taco que bate na bola, num alegre espaço
que, por casmurrice dos adultos,
é chamado de *Tristeza;
das borboletas negras-amarelas e
dos bosques brancos de véus-de-noivas;
de mãos dadas, unindo corações em disparada;
das viagens sem bagagem
e das caminhadas intermináveis
por vielas de tantas cidades;
dos livros que me escreveram,
fazendo-me torto como sou
ao riscar mais para lá as fronteiras;
de pôr-de-sóis que nos olhos me morreram
para renascerem girassóis que comigo se moveram;
dos mistérios de criança,
já aos sete anos a brincar de homem...
A saudade do sentir intenso, vou sentir amanhã
lembrando do que sinto agora.
Revoada de vaga-lumes na memória.
Acho, mesmo, que depois-de-amanhã
vou me repetir e sentir o mesmo desta hora.
E sigo nesta teimosia,
em que os males da vida pouco podem,
pois na soma das saudades,
reside o remédio que os dissolvem.
Eliseo Martinez
27.08.2016
domingo, 21 de agosto de 2016
80.
Era de Fobos
Já nos primeiros momentos, é com ele que entramos no mundo, para em seus braços sermos acolhidos em nossos últimos segundos.
Dele, tem para todos, não se esgota, é espaçoso. Por justiça, pode-se até chamá-lo de fiel e generoso. Companheiro tão indispensável, quanto incômodo pela vida toda. Pode nos segurar, quando só o que nos resta é pular. Escudo que ninguém, de livre escolha, desejou empunhar, com que a natureza nos dotou, e ao longo da evolução se aprimorou. Fornece-nos as lentes com as quais passamos a ver este mundo de dementes.
Para o bem ou para o mal, dentre tantos, é o que se mostra mais presente, sempre foi e será sempre.
Hábil em disfarces, esgueira-se clandestino por entre o que pensamos e sentimos, comandando bom lote de nossos atos, revelando-se sob as mais diversas faces.
Se precisássemos de provas para medir seu extenso território, bastaria olhar, de cada um, o fundo dos olhos. Também lá, o encontraríamos.
Quando criança, ele é o lobo, o medonho gigante ou a bruxa malvada; quando grande, é o fantasma do desemprego, das violências todas, dos males do amor, do fim que nos espera, das privações e da dor, quando não vem como castigo de um deus frio, impiedoso e assustador.
Já foi dito que cada homem recapitula a espécie toda.
O mesmo medo que se recolhia conosco nas cavernas, em torno do fogo, sai da tela do último modelo do I-fone.
Reinou absoluto em sua forma mais apavorante como terror e pânico paralisante, até que a 60 mil anos, a invenção da fala articulada o abrandou como o temor mítico dos humanos. Nascem os seres imaginários, que muitos ainda temem, por eles matam, juram que amam e tremem sob a ameaça de seus atos. Mais tarde, contou com poderoso patrocínio, "bom cristão é o temente a Deus, meu filho".
A passos lentos, os homens se humanizaram e com sonhos, ciência, razão e arte, cortaram-lhes alguns de seus tentáculos.
As renascidas ideias humanistas destronaram deuses para entronar homens, há muito colocados pelos gregos, no lugar deles. Passamos a duvidar, com mais certeza.
Hoje, no entanto, para qualquer lado que se olhe, com espanto, vemos ruir muito do que foi construído com logos e muito pranto.
Por descaminhos imprevistos, a mão invisível dos sinistros interesses dos mercados, amparados pelas empresas religiosas a eles associados, corromperam o projeto humano, reservando a nosso velho companheiro uma nova era de ouro. A despeito de ter estado sempre por perto, agregaram-lhe valor em tempos de grandes avanços e imensos desencantos.
Se presenciamos o pregão do direito à diferença, de fato, torna-se cada vez mais difícil defender a divergência própria fora do restrito grupo que nos conforta. Tribos de vários matizes que coabitam, mas não se comunicam, surgem como estratégia de sobrevivência oferecendo serviços de proteção a indivíduos cada vez mais isolados do todo e, em si mesmos, fragmentados.
Quando trabalhadores cruzam braços respondendo aquartelados por seu cansaço, bancos cerram portas, escolas trancam salas, o transporte para, pessoas afastam-se das ruas, grades de ferro nos confinam em nossas casas, câmeras por toda a parte, porções da cidade são sítios proibidos à luz do dia, já não andamos livres à noite pelas ruas, vivemos sob o toque de recolher sem que ele tenha sido oficialmente decretado. O comércio limita seus horários e covardes arrastões são frequentes no centro da cidade, somos ameaçados diariamente por hackers que espreitam contas e senhas por celulares, rastreando nossos lares, enquanto as mídias enchem as burras injetando esteroides no temor das ruas, fazendo dele a mercadoria que, majorada, lhes garante a odiosa supremacia.
Mas, o avanço do medo em nossos dias, está longe de se restringir ao âmbito da segurança pública ou privada, que é só uma parte de nosso fado abrasileirado.
O universo existencial do homem contemporâneo é permeado pela insegurança. Os medos sólidos dos modernos, eram gerados por fatores de mais nítidos contornos. O mal tinha um nome. Tratava-se de temer isto ou aquilo. Pairava a crença numa solução implícita. Em nossos tempos o medo é líquido, se esgueira por cada trincha e inunda nossas vidas. O medo, do qual conhecíamos as causas, hoje é difuso e escorre por toda a parte, desbotando as cores vivas da cidade, fazendo de cada homem o ralo em que se some.
Ares e Afrodite, orgulhosos de seu filho pródigo, veem prosperar a era do temido Fobos.
Eliseo Martinez
21.08.2016
Era de Fobos
Já nos primeiros momentos, é com ele que entramos no mundo, para em seus braços sermos acolhidos em nossos últimos segundos.
Dele, tem para todos, não se esgota, é espaçoso. Por justiça, pode-se até chamá-lo de fiel e generoso. Companheiro tão indispensável, quanto incômodo pela vida toda. Pode nos segurar, quando só o que nos resta é pular. Escudo que ninguém, de livre escolha, desejou empunhar, com que a natureza nos dotou, e ao longo da evolução se aprimorou. Fornece-nos as lentes com as quais passamos a ver este mundo de dementes.
Para o bem ou para o mal, dentre tantos, é o que se mostra mais presente, sempre foi e será sempre.
Hábil em disfarces, esgueira-se clandestino por entre o que pensamos e sentimos, comandando bom lote de nossos atos, revelando-se sob as mais diversas faces.
Se precisássemos de provas para medir seu extenso território, bastaria olhar, de cada um, o fundo dos olhos. Também lá, o encontraríamos.
Quando criança, ele é o lobo, o medonho gigante ou a bruxa malvada; quando grande, é o fantasma do desemprego, das violências todas, dos males do amor, do fim que nos espera, das privações e da dor, quando não vem como castigo de um deus frio, impiedoso e assustador.
Já foi dito que cada homem recapitula a espécie toda.
O mesmo medo que se recolhia conosco nas cavernas, em torno do fogo, sai da tela do último modelo do I-fone.
Reinou absoluto em sua forma mais apavorante como terror e pânico paralisante, até que a 60 mil anos, a invenção da fala articulada o abrandou como o temor mítico dos humanos. Nascem os seres imaginários, que muitos ainda temem, por eles matam, juram que amam e tremem sob a ameaça de seus atos. Mais tarde, contou com poderoso patrocínio, "bom cristão é o temente a Deus, meu filho".
A passos lentos, os homens se humanizaram e com sonhos, ciência, razão e arte, cortaram-lhes alguns de seus tentáculos.
As renascidas ideias humanistas destronaram deuses para entronar homens, há muito colocados pelos gregos, no lugar deles. Passamos a duvidar, com mais certeza.
Hoje, no entanto, para qualquer lado que se olhe, com espanto, vemos ruir muito do que foi construído com logos e muito pranto.
Por descaminhos imprevistos, a mão invisível dos sinistros interesses dos mercados, amparados pelas empresas religiosas a eles associados, corromperam o projeto humano, reservando a nosso velho companheiro uma nova era de ouro. A despeito de ter estado sempre por perto, agregaram-lhe valor em tempos de grandes avanços e imensos desencantos.
Se presenciamos o pregão do direito à diferença, de fato, torna-se cada vez mais difícil defender a divergência própria fora do restrito grupo que nos conforta. Tribos de vários matizes que coabitam, mas não se comunicam, surgem como estratégia de sobrevivência oferecendo serviços de proteção a indivíduos cada vez mais isolados do todo e, em si mesmos, fragmentados.
Quando trabalhadores cruzam braços respondendo aquartelados por seu cansaço, bancos cerram portas, escolas trancam salas, o transporte para, pessoas afastam-se das ruas, grades de ferro nos confinam em nossas casas, câmeras por toda a parte, porções da cidade são sítios proibidos à luz do dia, já não andamos livres à noite pelas ruas, vivemos sob o toque de recolher sem que ele tenha sido oficialmente decretado. O comércio limita seus horários e covardes arrastões são frequentes no centro da cidade, somos ameaçados diariamente por hackers que espreitam contas e senhas por celulares, rastreando nossos lares, enquanto as mídias enchem as burras injetando esteroides no temor das ruas, fazendo dele a mercadoria que, majorada, lhes garante a odiosa supremacia.
Mas, o avanço do medo em nossos dias, está longe de se restringir ao âmbito da segurança pública ou privada, que é só uma parte de nosso fado abrasileirado.
O universo existencial do homem contemporâneo é permeado pela insegurança. Os medos sólidos dos modernos, eram gerados por fatores de mais nítidos contornos. O mal tinha um nome. Tratava-se de temer isto ou aquilo. Pairava a crença numa solução implícita. Em nossos tempos o medo é líquido, se esgueira por cada trincha e inunda nossas vidas. O medo, do qual conhecíamos as causas, hoje é difuso e escorre por toda a parte, desbotando as cores vivas da cidade, fazendo de cada homem o ralo em que se some.
Ares e Afrodite, orgulhosos de seu filho pródigo, veem prosperar a era do temido Fobos.
Eliseo Martinez
21.08.2016
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
79.
Ócio e Devaneio
Hoje é um destes dias em que dou de ombros,
parto a casca do ovo e, livre, alço voo de novo.
Aqui fora, me confino sem angústias ou desatinos,
provo do mel e da ambrosia necessários
para o inevitável retorno às paisagens ordinárias.
Neste desterro voluntário, cada vez mais esperado,
longe do alvoroço da estranheza diária,
que não me venham os outros
que a eles não me vou tampouco.
Quem sabe, hoje, o acaso me abrace
e situe-me no ponto de vista do enxadrista,
em que o tabuleiro todo é visto e, nele,
rei, rainha, cada peão, cavalo, torre ou bispo.
Não sou dado a melancolia, que me fica
mais longínqua, ainda, quando tomo rumo,
e, recluso, num impulso, atravesso o muro,
adentro páginas pintadas de tinta,
corpos aflitos cingidos, copos de vinho tinto,
sons que me levitam por tantas vidas,
uma pitada de reminiscências acinzentadas
e um pote cheio das verdes e alaranjadas
que me fazem sorrir ao serem lembradas.
Em revoada, o pensar despassarado,
se esgueira por este ócio sem cuidado.
Alheio a fatos, jogo os dados e azaro atos,
longe do tablado iluminado dos teatros,
arbitro o que sou ou julgo estar a ser, o que,
no desatino de meu exílio, se equivalem.
Então, talha e formão na mão, sou Rodam;
na trama da palavra, me ensaio Saramago;
em gozo das de outros, leitor grato;
da garfada perfeita, devoto epicurista;
nas madrugadas insones, jardineiro nudista;
mestre cuca de um pastel ou amante infiel;
quixote e anarquista despido dos papeis
que, por vezes, me enfadam viver.
O pensamento são pombas de toda a cor,
soltas aos quatro cantos pela mente do pensador.
Assim, defino o brincar de um homem
confrontado pelos dias que o consomem.
Quando jovem, fascinado pela verdade
- como hoje, raridade -, já me via a cismar
desconcertado, com a frase pirateada
do templo heleno, tornada a mais bela
das centelhas, ainda na infância do tempo grego:
"conhece-te a ti mesmo".
Será que algum dia seremos capazes de método
que jogue poesia abundante e luz suficiente
no que funda a demência no chão da mente?
O pouco que penso saber leva-me a crer,
que é mais fácil tropeças em cacos de nós mesmos,
achados no calvário da caminhada do que topar
com a gema inteira que somos no éden da chegada.
Certezas, serão sempre cravos cravados
nas paredes cor de rosas dos manicômios,
onde pendulam retratos desbotados de anônimos,
ou encontradas entre rodas de beatas assossegadas
pelo promíscuo divino matrimônio.
Eliseo Martinez
17.08.2016
Ócio e Devaneio
Hoje é um destes dias em que dou de ombros,
parto a casca do ovo e, livre, alço voo de novo.
Aqui fora, me confino sem angústias ou desatinos,
provo do mel e da ambrosia necessários
para o inevitável retorno às paisagens ordinárias.
Neste desterro voluntário, cada vez mais esperado,
longe do alvoroço da estranheza diária,
que não me venham os outros
que a eles não me vou tampouco.
Quem sabe, hoje, o acaso me abrace
e situe-me no ponto de vista do enxadrista,
em que o tabuleiro todo é visto e, nele,
rei, rainha, cada peão, cavalo, torre ou bispo.
Não sou dado a melancolia, que me fica
mais longínqua, ainda, quando tomo rumo,
e, recluso, num impulso, atravesso o muro,
adentro páginas pintadas de tinta,
corpos aflitos cingidos, copos de vinho tinto,
sons que me levitam por tantas vidas,
uma pitada de reminiscências acinzentadas
e um pote cheio das verdes e alaranjadas
que me fazem sorrir ao serem lembradas.
Em revoada, o pensar despassarado,
se esgueira por este ócio sem cuidado.
Alheio a fatos, jogo os dados e azaro atos,
longe do tablado iluminado dos teatros,
arbitro o que sou ou julgo estar a ser, o que,
no desatino de meu exílio, se equivalem.
Então, talha e formão na mão, sou Rodam;
na trama da palavra, me ensaio Saramago;
em gozo das de outros, leitor grato;
da garfada perfeita, devoto epicurista;
nas madrugadas insones, jardineiro nudista;
mestre cuca de um pastel ou amante infiel;
quixote e anarquista despido dos papeis
que, por vezes, me enfadam viver.
O pensamento são pombas de toda a cor,
soltas aos quatro cantos pela mente do pensador.
Assim, defino o brincar de um homem
confrontado pelos dias que o consomem.
Quando jovem, fascinado pela verdade
- como hoje, raridade -, já me via a cismar
desconcertado, com a frase pirateada
do templo heleno, tornada a mais bela
das centelhas, ainda na infância do tempo grego:
"conhece-te a ti mesmo".
Será que algum dia seremos capazes de método
que jogue poesia abundante e luz suficiente
no que funda a demência no chão da mente?
O pouco que penso saber leva-me a crer,
que é mais fácil tropeças em cacos de nós mesmos,
achados no calvário da caminhada do que topar
com a gema inteira que somos no éden da chegada.
Certezas, serão sempre cravos cravados
nas paredes cor de rosas dos manicômios,
onde pendulam retratos desbotados de anônimos,
ou encontradas entre rodas de beatas assossegadas
pelo promíscuo divino matrimônio.
Eliseo Martinez
17.08.2016
domingo, 14 de agosto de 2016
78.
Prole III
Neste mentido dia dos pais,
que não me faz pensar-te a mais,
data astuta dos comerciantes,
como coube a mães, amigos, cães,
esquecidos das amantes,
legítimas sacerdotisas do instante,
te flecho com estas palavras que partem retas
como setas de amor do curvo arco de meu afeto.
Tu, nascida da mais genuína ficção de amor concebida,
fruto segundo dos verdes ramos da dor sofrida,
partiu rastreando-te mundo afora, peregrina solitária,
deitando âncoras em terras de Castela, prenhes de história.
Palaus, Gaudí, Miró, Barça, Serrat, árabes e cruzados,
golondrinas, amplas ramblas, Mercat Boqueria, gato ...
A vigorosa Catalunha, de povos vindos de todo lado,
policromo, polifonia, em luta por autonomia.
Sabes bem que, enovelada entre os ventos de coragem
a conduzir-te na viagem, rodopiam brisas temerosas,
que ondulam véus de miragens insólitas.
Na relutância de ser, tua escolha foi adiar-te,
adiando o que, por certo, virá mais tarde.
Desconstrói, é o que te digo neste dia, filha minha.
Se há vida, é porque foi construída,
do contrário seria apenas arte.
Também cruzamos chegadas
por atalhos que encompridam as jornadas.
Enche teus olhos e estufa tua alma.
Só não te prolonga na demora,
pois o trem da ilusão que parte a toda a hora
depende de estações abertas que o acolhem,
trilhos que o guiam, passageiros que se desviam...
Na Raval, também eu, afinal,
segurei o bronze das bolas do negro gato,
assegurando retorno à cidade que sou grato,
encravada na Espanha, a permanecer Barcelona,
bem depois de sermos, tu e eu, o pó que nutriu a oliveira
e curou o gosto amargo da azeitona.

Eliseo Martinez
14.08.201
Prole III
Neste mentido dia dos pais,
que não me faz pensar-te a mais,
data astuta dos comerciantes,
como coube a mães, amigos, cães,
esquecidos das amantes,
legítimas sacerdotisas do instante,
te flecho com estas palavras que partem retas
como setas de amor do curvo arco de meu afeto.
Tu, nascida da mais genuína ficção de amor concebida,
fruto segundo dos verdes ramos da dor sofrida,
partiu rastreando-te mundo afora, peregrina solitária,
deitando âncoras em terras de Castela, prenhes de história.
Palaus, Gaudí, Miró, Barça, Serrat, árabes e cruzados,
golondrinas, amplas ramblas, Mercat Boqueria, gato ...
A vigorosa Catalunha, de povos vindos de todo lado,
policromo, polifonia, em luta por autonomia.
Sabes bem que, enovelada entre os ventos de coragem
a conduzir-te na viagem, rodopiam brisas temerosas,
que ondulam véus de miragens insólitas.
Na relutância de ser, tua escolha foi adiar-te,
adiando o que, por certo, virá mais tarde.
Desconstrói, é o que te digo neste dia, filha minha.
Se há vida, é porque foi construída,
do contrário seria apenas arte.
Também cruzamos chegadas
por atalhos que encompridam as jornadas.
Enche teus olhos e estufa tua alma.
Só não te prolonga na demora,
pois o trem da ilusão que parte a toda a hora
depende de estações abertas que o acolhem,
trilhos que o guiam, passageiros que se desviam...
Na Raval, também eu, afinal,
segurei o bronze das bolas do negro gato,
assegurando retorno à cidade que sou grato,
encravada na Espanha, a permanecer Barcelona,
bem depois de sermos, tu e eu, o pó que nutriu a oliveira
e curou o gosto amargo da azeitona.

Eliseo Martinez
14.08.201
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
77.
Ócio e Repetição
Nas manhãs amenas de domingo,
feitas de ar fresco e céu límpido,
corpos estirados pelos parques à sombra das árvores,
desarmam espíritos, aquietam olhares.
Famílias reunidas, pais, filhos, pipas, latidos.
Passeiam os pares, exercitam-se os ímpares.
Risos de crianças, ainda sem aviso do que lhes reserva a vida,
fricotes de mimados cães de apartamento,
revoadas do passaredo, bola, pega-pega, cata-vento,
pregão do algodão doce, pipoca, maçã caramelada
compõem o ruidoso alvoroço sugado
pela amplidão sem paredes dos espaços largos.
O som surdo, a luz clara, o verde dos gramados
bebidos por uma sede louca de esquecer-se,
cicatrizam o que resta dos desejos derramados
pelas frestas abertas em sonhos rasgados.
A esperança aguada é um fino fio que se esvai
com a tarde que abre as asas, alça voo e, pesada, cai.
Almas mastigadas pela roda dentada da semana de trabalho. Desempregados a procura de salário,
funcionários de parcos rendimentos parcelados,
profissionais liberais desencantados
a soldo de vorazes empresários,
pequenos comerciantes reféns de impostos sem retorno,
operários mal pagos, resignados ao mal crônico,
lembram a massa sovada do pão, a fermentar uniforme,
até que esteja pronta para a próxima fornada.
As horas encolhem e puxam com gancho de metal
a próxima prestação do juízo final.
Sinto o hálito rançoso da segunda atrás da nuca.
Já não sou o que passeia, tampouco o que ama ou o que odeia,
nem mesmo, amigo, pai ou mãe de um filho esquisito.
Já não me chamo Zico, Maria, Mana ou João.
Agora, sou Sísifo, um dente careado da roda dentada
da produção, a que fui condenado sem sursis.
Em algum canto esquecido da memória,
entre velharias e outras tralhas da história,
com a persistência do rabo de uma lagartixa, cortado,
tremula o velho letreiro empoeirado,
onde, na cor fria de seu neon azulado,
cintila a maldita inscrição "revolução e anarquia".
Eliseo Martinez
02.08.2016
Ócio e Repetição
Nas manhãs amenas de domingo,
feitas de ar fresco e céu límpido,
corpos estirados pelos parques à sombra das árvores,
desarmam espíritos, aquietam olhares.
Famílias reunidas, pais, filhos, pipas, latidos.
Passeiam os pares, exercitam-se os ímpares.
Risos de crianças, ainda sem aviso do que lhes reserva a vida,
fricotes de mimados cães de apartamento,
revoadas do passaredo, bola, pega-pega, cata-vento,
pregão do algodão doce, pipoca, maçã caramelada
compõem o ruidoso alvoroço sugado
pela amplidão sem paredes dos espaços largos.
O som surdo, a luz clara, o verde dos gramados
bebidos por uma sede louca de esquecer-se,
cicatrizam o que resta dos desejos derramados
pelas frestas abertas em sonhos rasgados.
A esperança aguada é um fino fio que se esvai
com a tarde que abre as asas, alça voo e, pesada, cai.
Almas mastigadas pela roda dentada da semana de trabalho. Desempregados a procura de salário,
funcionários de parcos rendimentos parcelados,
profissionais liberais desencantados
a soldo de vorazes empresários,
pequenos comerciantes reféns de impostos sem retorno,
operários mal pagos, resignados ao mal crônico,
lembram a massa sovada do pão, a fermentar uniforme,
até que esteja pronta para a próxima fornada.
As horas encolhem e puxam com gancho de metal
a próxima prestação do juízo final.
Sinto o hálito rançoso da segunda atrás da nuca.
Já não sou o que passeia, tampouco o que ama ou o que odeia,
nem mesmo, amigo, pai ou mãe de um filho esquisito.
Já não me chamo Zico, Maria, Mana ou João.
Agora, sou Sísifo, um dente careado da roda dentada
da produção, a que fui condenado sem sursis.
Em algum canto esquecido da memória,
entre velharias e outras tralhas da história,
com a persistência do rabo de uma lagartixa, cortado,
tremula o velho letreiro empoeirado,
onde, na cor fria de seu neon azulado,
cintila a maldita inscrição "revolução e anarquia".
Eliseo Martinez
02.08.2016
terça-feira, 26 de julho de 2016
76.
O Erro de Aristóteles
Para o mais ilustre filho de Estagira,
a virtude está no equilíbrio do justo ponto
médio, entre extremos que o cercam.
Além de ser com razão e ócio
que se cria o mundo nosso.
Não há ente humano, sábio ou tolo,
que não deva algo a esse gigante macedônio.
No entanto, tendo a discordar
do mestre de Alexandre Grande
quando a tela do computador
- que, a folha de papel aposentou,
como a placa de argila, o papiro e o pergaminho
foram abandonados pelo caminho -,
insiste em permanecer vazia
na quietude de um dia ameno de domingo,
como se o vazio que enche o que me vai por dentro
vazasse e se espalhasse pelo espaço
em que, pela força do hábito,
tento achar-me, mesmo com a alma,por hora, calma.
Meus rastros se apagam
quando as inquietudes se calam
e conexões se desfazem.
Pontes desmoronam e me vejo
entre denso nevoeiro, sem luneta,
a observar da margem esquerda à direita.
O que se cria, mais do que obra do amor,
é cria ardida da dor.
Visto de um outro canto,
poder-se-ia dizer que, tal qual narciso,
a obra provém do lodo,
para concluir-se que a criação
surge como maldição nos homens.
Eliseo Martinez
26.07.2016
O Erro de Aristóteles
Para o mais ilustre filho de Estagira,
a virtude está no equilíbrio do justo ponto
médio, entre extremos que o cercam.
Além de ser com razão e ócio
que se cria o mundo nosso.
Não há ente humano, sábio ou tolo,
que não deva algo a esse gigante macedônio.
No entanto, tendo a discordar
do mestre de Alexandre Grande
quando a tela do computador
- que, a folha de papel aposentou,
como a placa de argila, o papiro e o pergaminho
foram abandonados pelo caminho -,
insiste em permanecer vazia
na quietude de um dia ameno de domingo,
como se o vazio que enche o que me vai por dentro
vazasse e se espalhasse pelo espaço
em que, pela força do hábito,
tento achar-me, mesmo com a alma,por hora, calma.
Meus rastros se apagam
quando as inquietudes se calam
e conexões se desfazem.
Pontes desmoronam e me vejo
entre denso nevoeiro, sem luneta,
a observar da margem esquerda à direita.
O que se cria, mais do que obra do amor,
é cria ardida da dor.
Visto de um outro canto,
poder-se-ia dizer que, tal qual narciso,
a obra provém do lodo,
para concluir-se que a criação
surge como maldição nos homens.
Eliseo Martinez
26.07.2016
domingo, 24 de julho de 2016
75.
Condenados à Liberdade
A liberdade bem que poderia ser um salto de bungee jumping sem a corda elástica, mas se fosse, seria suicídio e não um salto de bungee jamping. A liberdade está mais para uma imensa estação central onde se emaranharam os trilhos, dentre os quais devemos escolher os que nos levarão a nosso destino.
Eventualmente, nós mesmos podemos assentar dormentes, cravar cravos, deitar o aço. Nestes raros episódios a linha da virtú emparelha com a da fortú e a liberdade faz-se paralela à felicidade, dando novos sentidos a vida e a verdade.
Ser ser humano, por definição, é pertencer ao reino animal, do qual se nasce súdito banal. No entanto, somos distintos de todos os demais, dotados do que a ciência poética dos antigos chamavam de ânima (alma) e, hoje, é melhor entendido como o complexo conjunto de atributos da subjetividade humana.
A condição humana é produto da cultura e, antes ainda, emerge da exclusiva função do pensamento. Em apenas duas centenas de milhares de anos, a atividade racional nos guindou à posição de espécie dominante no planeta, para o bem e para o mal, mesmo que uma das mais recentes nele surgidas.
A fonte de nosso poder relativo frente aos demais seres é, também, a gênese da fraqueza que é só nossa. Se, por um lado, o homem surge como parte da natureza, por outro, se opõe a ela pela mente. A pequena horta de nossa consciência se alimenta do vasto e fértil terreno inconsciente, a agitar-se entrópico nos subterrâneos de cada um, mas também da espécie como um todo. Ali residem as raízes mais profundas das motivações e dos medos, não facilmente acessáveis pelo entendimento.
Dito de outra forma: o inconsciente é um espaço interior sem fim, incomensuravelmente mais amplo de sombras que de luzes, que nos permanecerá inacessível em sua maior parte, apesar da permanente influência que exerce no que circula na superfície da consciência. Neste campo, se os demais animais superiores desenvolveram a primazia do instinto, recessivo em nós, a evolução dotou-nos de intuição, também uma forma pré-racional de percepção.
Paradoxalmente, a atividade da mente, que nos tornou hegemônicos, determina a estranheza de nós mesmos produzida pelo inconsciente, destituído dos contornos mais nítidos delineados pela consciência.
O valor da liberdade, tão caro a nós, humanos, para ser realizado depende, em muito, do quanto podemos restringir este estranhamento no que se refere ao conjunto de valores e sentidos colocados à disposição pela cultura, num dado tempo e espaço, e os eleitos por nós mesmos como os mais importantes, com relativa autonomia. A apropriação consciente dos juízos que definem o bom, o belo e o justo de cada um, vai definir nossas escolhas enquanto seres singulares e menos dependentes das determinações definidas pelo coletivo dos demais homens. Determinações, estas, mais fortes na sociedade de massas em que vivemos, pautada pelo consumo dirigido de bens, serviços e ideias aleatórios tornados desejáveis, quando não imprescindíveis, vindos da exterioridade de interesses que regulam os mercados e se alojam na interioridade de regiões pré-conscientes da mente do indivíduo.
É pela consciência que nos deparamos com o mundo das contradições antagônicas, dos paradoxos e dos impasses diários.
A totalidade do real se fragmenta em parcialidades virtuais cada vez menores, num movimento incessante rumo ao indivíduo atomizado e, igualmente, fragmentado. Dai resulta que a busca da liberdade, também nos conduz à angústia. Se a natureza é destituída de razões, a vontade e alguma necessidade de lógica, ao contrário, vêm impressas na pequena, mas importante distinção do que se poderia entender por natureza humana. As engrenagens tipicamente humanas que tendem a elevar a autodeterminação de nossa existência, também geram a dor da angústia nos homens, uma vez que, a seu turno, nos conduzem a escolhas.
Ou seja, a consciência gera liberdade na medida em que, primeiramente produz e, depois, impõe a escolha que nos causa a angústia. Sartre foi um dos primeiros a concluir que os homens estão condenados a liberdade e, desta condenação, depende o que hoje entendemos por humanidade.
Eliseo Martinez
24.07.2016
Condenados à Liberdade
A liberdade bem que poderia ser um salto de bungee jumping sem a corda elástica, mas se fosse, seria suicídio e não um salto de bungee jamping. A liberdade está mais para uma imensa estação central onde se emaranharam os trilhos, dentre os quais devemos escolher os que nos levarão a nosso destino.
Eventualmente, nós mesmos podemos assentar dormentes, cravar cravos, deitar o aço. Nestes raros episódios a linha da virtú emparelha com a da fortú e a liberdade faz-se paralela à felicidade, dando novos sentidos a vida e a verdade.
Ser ser humano, por definição, é pertencer ao reino animal, do qual se nasce súdito banal. No entanto, somos distintos de todos os demais, dotados do que a ciência poética dos antigos chamavam de ânima (alma) e, hoje, é melhor entendido como o complexo conjunto de atributos da subjetividade humana.
A condição humana é produto da cultura e, antes ainda, emerge da exclusiva função do pensamento. Em apenas duas centenas de milhares de anos, a atividade racional nos guindou à posição de espécie dominante no planeta, para o bem e para o mal, mesmo que uma das mais recentes nele surgidas.
A fonte de nosso poder relativo frente aos demais seres é, também, a gênese da fraqueza que é só nossa. Se, por um lado, o homem surge como parte da natureza, por outro, se opõe a ela pela mente. A pequena horta de nossa consciência se alimenta do vasto e fértil terreno inconsciente, a agitar-se entrópico nos subterrâneos de cada um, mas também da espécie como um todo. Ali residem as raízes mais profundas das motivações e dos medos, não facilmente acessáveis pelo entendimento.
Dito de outra forma: o inconsciente é um espaço interior sem fim, incomensuravelmente mais amplo de sombras que de luzes, que nos permanecerá inacessível em sua maior parte, apesar da permanente influência que exerce no que circula na superfície da consciência. Neste campo, se os demais animais superiores desenvolveram a primazia do instinto, recessivo em nós, a evolução dotou-nos de intuição, também uma forma pré-racional de percepção.
Paradoxalmente, a atividade da mente, que nos tornou hegemônicos, determina a estranheza de nós mesmos produzida pelo inconsciente, destituído dos contornos mais nítidos delineados pela consciência.
O valor da liberdade, tão caro a nós, humanos, para ser realizado depende, em muito, do quanto podemos restringir este estranhamento no que se refere ao conjunto de valores e sentidos colocados à disposição pela cultura, num dado tempo e espaço, e os eleitos por nós mesmos como os mais importantes, com relativa autonomia. A apropriação consciente dos juízos que definem o bom, o belo e o justo de cada um, vai definir nossas escolhas enquanto seres singulares e menos dependentes das determinações definidas pelo coletivo dos demais homens. Determinações, estas, mais fortes na sociedade de massas em que vivemos, pautada pelo consumo dirigido de bens, serviços e ideias aleatórios tornados desejáveis, quando não imprescindíveis, vindos da exterioridade de interesses que regulam os mercados e se alojam na interioridade de regiões pré-conscientes da mente do indivíduo.
É pela consciência que nos deparamos com o mundo das contradições antagônicas, dos paradoxos e dos impasses diários.
A totalidade do real se fragmenta em parcialidades virtuais cada vez menores, num movimento incessante rumo ao indivíduo atomizado e, igualmente, fragmentado. Dai resulta que a busca da liberdade, também nos conduz à angústia. Se a natureza é destituída de razões, a vontade e alguma necessidade de lógica, ao contrário, vêm impressas na pequena, mas importante distinção do que se poderia entender por natureza humana. As engrenagens tipicamente humanas que tendem a elevar a autodeterminação de nossa existência, também geram a dor da angústia nos homens, uma vez que, a seu turno, nos conduzem a escolhas.
Ou seja, a consciência gera liberdade na medida em que, primeiramente produz e, depois, impõe a escolha que nos causa a angústia. Sartre foi um dos primeiros a concluir que os homens estão condenados a liberdade e, desta condenação, depende o que hoje entendemos por humanidade.
Eliseo Martinez
24.07.2016
quinta-feira, 21 de julho de 2016
74.
Prole II
Tu saiu pelo mundo
atrás de algo que te cala fundo.
Tu e eu sabemos o que é,
isto é, sabemos em parte.
Talvez nem seja a maior metade,
mas a que inquieta e não se reparte.
A que fingimos ser feita do que é feita a arte
e ambos levamos na alma,
que por vezes se enche e arde.
O resto todo, que não sei,
e também não sabes tu, me assusta.
O olhar atento no fundo do espelho
é sempre um convite indecente ao desespero.
Tuas pegadas pisam as minhas
te levando para o outro lado
das largas fronteiras d'água
e, agora, são teus passos que ecoam
nas velhas ruas tortas de Lisboa,
onde também tenho pisado desgarrado.
Alfama, Bairro Alto, Madragoa...
Tu e eu sabemos que se leva mais que roupas
surradas e livros usados na bagagem.
Entre os vazios de viagem,
levam-se mapas em branco
à busca do próprio encontro,
sem lugar ou data marcada
para os que, mesmo juntos,
andam ímpares por cidades
que nos acolhem com cheiros e sabores,
sem nos verem de verdade.
Eliseo Martinez
21.07.2016
Prole II
Tu saiu pelo mundo
atrás de algo que te cala fundo.
Tu e eu sabemos o que é,
isto é, sabemos em parte.
Talvez nem seja a maior metade,
mas a que inquieta e não se reparte.
A que fingimos ser feita do que é feita a arte
e ambos levamos na alma,
que por vezes se enche e arde.
O resto todo, que não sei,
e também não sabes tu, me assusta.
O olhar atento no fundo do espelho
é sempre um convite indecente ao desespero.
Tuas pegadas pisam as minhas
te levando para o outro lado
das largas fronteiras d'água
e, agora, são teus passos que ecoam
nas velhas ruas tortas de Lisboa,
onde também tenho pisado desgarrado.
Alfama, Bairro Alto, Madragoa...
Tu e eu sabemos que se leva mais que roupas
surradas e livros usados na bagagem.
Entre os vazios de viagem,
levam-se mapas em branco
à busca do próprio encontro,
sem lugar ou data marcada
para os que, mesmo juntos,
andam ímpares por cidades
que nos acolhem com cheiros e sabores,
sem nos verem de verdade.
Eliseo Martinez
21.07.2016
quarta-feira, 20 de julho de 2016
73.
Prole I
Disse um caminhante a sua prole viajante:
vai, mas não vá te perder de mim, filha,
agora que finalmente te reencontrei.
Se te demorar, te aguardarei.
Se não retornar, já sei o que faço.
Passo a mão nos trapos,
levando a mala cheia de abraços.
E, se mesmo assim insistir em ficares,
te pego e te trago pelo braço.
Nem só de flores vivem verdadeiros amores.
Eliseo Martinez
20.07.2016
Prole I
Disse um caminhante a sua prole viajante:
vai, mas não vá te perder de mim, filha,agora que finalmente te reencontrei.
Se te demorar, te aguardarei.
Se não retornar, já sei o que faço.
Passo a mão nos trapos,
levando a mala cheia de abraços.
E, se mesmo assim insistir em ficares,
te pego e te trago pelo braço.
Nem só de flores vivem verdadeiros amores.
Eliseo Martinez
20.07.2016
quinta-feira, 14 de julho de 2016
72.
Gotas de Mal III
Cuspam! Cuspam em mim!
Cuspam como têm cuspido, assim.
As engrenagens que me movem
necessitam da umidade que os consomem
para alcançar seus tristes fins.
Por caminhos vicinais caminho mais
que pelas avenidas da vida,
o que por vezes, não me livra
do asco de dividir o espaço
ao esbarrar com um nauseante rebanho
ávido por pasto fácil.
Desisti de apurar os ouvidos
à procura da harmonia das esferas
no seio destas pobres bestas-feras,
a consolar-me com quase nada,
transigindo por migalhas.
Seguindo o instinto, ando a fazer solos
mais harmônicos, desobrigado de esboçar afetos
entre projetos mal concebidos de homens,
sequiosos de abrigo do mais débil poder constituído,
indiferentes ao justo ato de pesar
na balança seus reais compromissos.
Eliseo Martinez
14.07.2016
Gotas de Mal III
Cuspam! Cuspam em mim!
Cuspam como têm cuspido, assim.
As engrenagens que me movem
necessitam da umidade que os consomem
para alcançar seus tristes fins.
Por caminhos vicinais caminho mais
que pelas avenidas da vida,
o que por vezes, não me livra
do asco de dividir o espaço
ao esbarrar com um nauseante rebanho
ávido por pasto fácil.
Desisti de apurar os ouvidos
à procura da harmonia das esferas
no seio destas pobres bestas-feras,
a consolar-me com quase nada,
transigindo por migalhas.
Seguindo o instinto, ando a fazer solos
mais harmônicos, desobrigado de esboçar afetos
entre projetos mal concebidos de homens,
sequiosos de abrigo do mais débil poder constituído,
indiferentes ao justo ato de pesar
na balança seus reais compromissos.
Eliseo Martinez
14.07.2016
terça-feira, 12 de julho de 2016
71.
Tempo I
Mesmo o irrevogável de um qualquer dia,
a agonizar no fim de uma tarde fria,
pode girar na alegre ciranda de uma noite
em que se aninham aquecidos os amantes
no perene gozo de um mágico instante.
Pares e ímpares medem o mesmo tempo
com ampulheta e astrolábio diferentes.
Tempo II
O tempo é coisa das mais estranhas.
Veja lá. O dia de ontem trás em si toda
a variada alvenaria dos demais dias já edificados,
pois de cada um sabe-se bem com que tijolos
as realidades foram levantadas.
O dia de amanhã é igual a todos que projetamos,
pois dele espera-se a idêntica porção do muito
que necessitamos e do pouco que sonhamos,
invertendo razões que valeriam a pena o que somos.
O agora é um retrato que esmaece sem demora
e nos escapa como uma enguia fria
pelos dedos finos do presente dia,
levando as horas em sua companhia.
O presente já foi futuro do passado; o agora,
exatamente o mesmo e completamente diferente
na menor fração do acaso,
acaba de mudar de estado.
Eliseo Martinez
12.07.16
Tempo I
Mesmo o irrevogável de um qualquer dia,
a agonizar no fim de uma tarde fria,
pode girar na alegre ciranda de uma noite
em que se aninham aquecidos os amantes
no perene gozo de um mágico instante.
Pares e ímpares medem o mesmo tempo
com ampulheta e astrolábio diferentes.
Tempo II
O tempo é coisa das mais estranhas.
Veja lá. O dia de ontem trás em si toda
a variada alvenaria dos demais dias já edificados,
pois de cada um sabe-se bem com que tijolos
as realidades foram levantadas.
O dia de amanhã é igual a todos que projetamos,
pois dele espera-se a idêntica porção do muito
que necessitamos e do pouco que sonhamos,
invertendo razões que valeriam a pena o que somos.
O agora é um retrato que esmaece sem demora
e nos escapa como uma enguia fria
pelos dedos finos do presente dia,
levando as horas em sua companhia.
O presente já foi futuro do passado; o agora,
exatamente o mesmo e completamente diferente
na menor fração do acaso,
acaba de mudar de estado.
Eliseo Martinez
12.07.16
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