279.
Amazônia
Pelas veias abertas
no solo raso da floresta
escoam sobre as caçambas
colossais corpos insepultos da Amazônia.
Nas águas de seus rios corre o mercúrio
do saque das riquezas sob o solo
do santuário ecológico.
Do verde de suas matas
surgem vastos descampados
que a ganância abriu
a fogo, trator e machado,
destinados a plantações de soja
e pasto aos rebanhos de gado,
riscando aldeias indígenas do mapa.
A invasão dos domínios
dos primeiros brasileiros
é a moeda de sangue
lavada pelas mãos sujas
de grileiros e fazendeiros,
garimpeiros e madeireiros,
acobertados por governantes
associados aos banqueiros
e a polícia mancomunada a pistoleiros,
ameaçando a existência
da exuberante flora e fauna
com que os povos da floresta
compartilham, em seus mitos, suas almas.
O mundo nos olha atônitos
enquanto nosso anômalo governo
incita a devastação pela queima
da maior floresta do planeta.
Vozes em todos os idiomas se levantam
contra a política de terra arrasada
que os vendilhões da pátria
descaradamente levam a cabo.
As lentes, que do espaço
orbitam nossa grande oca,
registram a acelerada e trágica troca
do verde vivo pela morte ocre,
numa catástrofe tal
que, ironicamente, é medida
em milhões de campos de futebol.
Eliseo Martinez
25.12.2019
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
278.
Pequena
Pena, minha pequena,
que em mais este dia
que não te conheço,
me foi negado o direito
de embalar teu berço,
te ter nos braços,
saber dos finos traços
que te definem a face,
atar o que foi apartado
pela trinca de um caráter.
Pena, minha pequena,
que nos negaram um ao outro,
como se de raízes mutiladas
nasçam flores mais perfumadas.
De qualquer jeito, pequena,
te desejo que não me bata à porta
só depois de me ter ido embora.
Eliseo Martinez
17.12.2019
Pequena
Pena, minha pequena,
que em mais este dia
que não te conheço,
me foi negado o direito
de embalar teu berço,
te ter nos braços,
saber dos finos traços
que te definem a face,
atar o que foi apartado
pela trinca de um caráter.
Pena, minha pequena,
que nos negaram um ao outro,
como se de raízes mutiladas
nasçam flores mais perfumadas.
De qualquer jeito, pequena,
te desejo que não me bata à porta
só depois de me ter ido embora.
Eliseo Martinez
17.12.2019
277.
A escolha
A profecia da vidente,
barganhada por prenda ou dinheiro
pago pela vizinha de uma parente,
já havia antecipado
os contornos da desgraça
e a sina do desgraçado.
A ele, seria concedida uma última escolha.
O caminho mais curto
o levaria à saída imediata, porém segura,
o mais longo, ao círculo de fogo
de medonhas criaturas.
Ali, nada o salvaria,
coroando de misérias uma vida sem valia.
Da trajetória de um voo noturno
ouviu-se o chirriar da coruja,
que no pulso de um segundo,
riscou arrepios na espinha do vagabundo
a cambalear na orla escura da mata
com a mão esquerda aferrada à garrafa
e a direita para o alto,
numa súplica de graça,
na pouca fé que, a estas horas, basta.
Sombras se agigantaram
na imaginação do pobre homem,
mil olhos espreitavam sobre seus ombros
e os sons da noite despertaram medos
já temidos pelo primeiros da raça
dando início a colheita das promessas
feitas às entidades divinizadas
para, à luz do dia, serem esquecidas,
assim como o rito das rezas prometidas.
Acordou numa vala
forrada de galhos partidos,
lama e folhas caídas,
em meio as imundices do corpo,
tristemente exposto pelas feridas.
Tentou erguer-se por três vezes,
por três vezes as forças lhe faltaram.
As névoas que lhe enchiam a cabeça,
turvavam-lhe os olhos
até que, dissipadas pelos raios
do sol das onze horas,
descortinaram mais do que podia
a claridade da clareira a sua volta.
Era, já, uma clarividência inteira
que, dele, se apossava.
Lembrou-se do que antecipou a vidente
à tal vizinha da parente.
Hesitou, pendendo para um lado e outro
da balança figurada em sua mente.
Seria apenas um pouco mais do mesmo
do que já lhe foi posto à frente,
agora, sob às lentes do medo,
seu mais fiel companheiro,
apontando o enganoso atalho
a lhe abreviar a estada?
Ou seria, esta, a escolha anunciada?
Num ato resoluto,
deixou-se, ali mesmo, caído de bruços,
junto a umidade esverdeada do musgo.
Com o onde e o como sentenciado,
restava o quando a ser executado.
Enfim, tudo se encaixava.
Do caos tão conhecido,
nascia uma ordem e um sentido.
A escolha pelo mais breve,
revelava-se a mais sensata.
Dias depois, foi encontrado
no bosque próximo à cidade,
o corpo de um homem já morto
que serviu aos bichos,
saciando-lhes a fome.
Dizem que, do rosto dilacerado
do pobre diabo,
os lábios foram preservados
e, neles, estampado
um sorriso engraçado,
dando ao cadáver
o ar de quem se acha grato,
talvez, até, recompensado.
Eliseo Marinez
17.12.2019
A escolha
A profecia da vidente,
barganhada por prenda ou dinheiro
pago pela vizinha de uma parente,
já havia antecipado
os contornos da desgraça
e a sina do desgraçado.
A ele, seria concedida uma última escolha.
O caminho mais curto
o levaria à saída imediata, porém segura,
o mais longo, ao círculo de fogo
de medonhas criaturas.
Ali, nada o salvaria,
coroando de misérias uma vida sem valia.
Da trajetória de um voo noturno
ouviu-se o chirriar da coruja,
que no pulso de um segundo,
riscou arrepios na espinha do vagabundo
a cambalear na orla escura da mata
com a mão esquerda aferrada à garrafa
e a direita para o alto,
numa súplica de graça,
na pouca fé que, a estas horas, basta.
Sombras se agigantaram
na imaginação do pobre homem,
mil olhos espreitavam sobre seus ombros
e os sons da noite despertaram medos
já temidos pelo primeiros da raça
dando início a colheita das promessas
feitas às entidades divinizadas
para, à luz do dia, serem esquecidas,
assim como o rito das rezas prometidas.
Acordou numa vala
forrada de galhos partidos,
lama e folhas caídas,
em meio as imundices do corpo,
tristemente exposto pelas feridas.
Tentou erguer-se por três vezes,
por três vezes as forças lhe faltaram.
As névoas que lhe enchiam a cabeça,
turvavam-lhe os olhos
até que, dissipadas pelos raios
do sol das onze horas,
descortinaram mais do que podia
a claridade da clareira a sua volta.
Era, já, uma clarividência inteira
que, dele, se apossava.
Lembrou-se do que antecipou a vidente
à tal vizinha da parente.
Hesitou, pendendo para um lado e outro
da balança figurada em sua mente.
Seria apenas um pouco mais do mesmo
do que já lhe foi posto à frente,
agora, sob às lentes do medo,
seu mais fiel companheiro,
apontando o enganoso atalho
a lhe abreviar a estada?
Ou seria, esta, a escolha anunciada?
Num ato resoluto,
deixou-se, ali mesmo, caído de bruços,
junto a umidade esverdeada do musgo.
Com o onde e o como sentenciado,
restava o quando a ser executado.
Enfim, tudo se encaixava.
Do caos tão conhecido,
nascia uma ordem e um sentido.
A escolha pelo mais breve,
revelava-se a mais sensata.
Dias depois, foi encontrado
no bosque próximo à cidade,
o corpo de um homem já morto
que serviu aos bichos,
saciando-lhes a fome.
Dizem que, do rosto dilacerado
do pobre diabo,
os lábios foram preservados
e, neles, estampado
um sorriso engraçado,
dando ao cadáver
o ar de quem se acha grato,
talvez, até, recompensado.
Eliseo Marinez
17.12.2019
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
276.
Dissolvido
Neste espaço reservado
a escritos do eu,
o privado é um vaso trincado
que me vaza pelo chão já molhado
dos que vieram antes de eu,
por aqui, ter passado.
Do corpo liquefeito,
imerso no hemisfério
das febres de dezembro,
persiste o cego instinto
e a voz já quase inaudível,
desapossada de si, somada
a torrente dos murmúrios
presos à pele do tempo.
Como gota de rios de gente,
consciente do pouco já feito,
resignado da parte sem jeito,
sem jamais permitir desistir,
me dissolvo no fluxo da corrente,
para apenas des-existir para sempre.
Eliseo Martinez
16.12.2019
Dissolvido
Neste espaço reservado
a escritos do eu,
o privado é um vaso trincado
que me vaza pelo chão já molhado
dos que vieram antes de eu,
por aqui, ter passado.
Do corpo liquefeito,
imerso no hemisfério
das febres de dezembro,
persiste o cego instinto
e a voz já quase inaudível,
desapossada de si, somada
a torrente dos murmúrios
presos à pele do tempo.
Como gota de rios de gente,
consciente do pouco já feito,
resignado da parte sem jeito,
sem jamais permitir desistir,
me dissolvo no fluxo da corrente,
para apenas des-existir para sempre.
Eliseo Martinez
16.12.2019
quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
275.
"Não complica"
- O entendimento exige um certo esforço:
da azeitona, é melhor que se tire o caroço;
da corda, que se livre o pescoço.
Para que algo seja verdadeiramente compreendido,
há de se dar trabalho à mente.
- Que trabalho é esse, profe?
- O trabalho da mente é o pensamento.
A mente trabalha quando nos impomos
a tarefa de pensar,
o que é menos natural
do que somos levados a acreditar.
Todo aquele que nos diz:
"não complica, tudo e muito simples";
das duas uma, ou o sujeito e mais burro que a gente
ou quer nos passar à frente -,
dizia o velho mestre escola
para sonolentos rapazolas
a pensar no lanche do recreio
ou na hora de ir-se embora.
- Fique tranquila, dona Maroca -,
que observava a cena do lado de fora da porta.
- Coisa quase certa é que aparências enganam.
De um lote destes, saíram einsteins e niemayers,
como também, escadinhas e marcolas!
Um florentino já bem morto
e mal lido entre nosotros,
usando palavras simples de sua terra
forjou ferramentas de razão
que ajudam a calibrar nossa visão periférica.
Falou, ele, da "virtú" e da "fortú".
Para outro, agora, um ilustre castelhano,
"somos o que somos, nós mesmos
mais o conjunto das circunstâncias em torno".
...
(a pausa vem no olhar da dona Maroca)
- Mas, trocando em miúdos,
tudo é um trabalho ... e uma puta duma sorte,
minha senhora!
- Já bateu, profe!
Hoje, tem cachorro-quente e mariola
na merenda da escola.
Eliseo Martinez
12.12.2019
"Não complica"
- O entendimento exige um certo esforço:
da azeitona, é melhor que se tire o caroço;
da corda, que se livre o pescoço.
Para que algo seja verdadeiramente compreendido,
há de se dar trabalho à mente.
- Que trabalho é esse, profe?
- O trabalho da mente é o pensamento.
A mente trabalha quando nos impomos
a tarefa de pensar,
o que é menos natural
do que somos levados a acreditar.
Todo aquele que nos diz:
"não complica, tudo e muito simples";
das duas uma, ou o sujeito e mais burro que a gente
ou quer nos passar à frente -,
dizia o velho mestre escola
para sonolentos rapazolas
a pensar no lanche do recreio
ou na hora de ir-se embora.
- Fique tranquila, dona Maroca -,
que observava a cena do lado de fora da porta.
- Coisa quase certa é que aparências enganam.
De um lote destes, saíram einsteins e niemayers,
como também, escadinhas e marcolas!
Um florentino já bem morto
e mal lido entre nosotros,
usando palavras simples de sua terra
forjou ferramentas de razão
que ajudam a calibrar nossa visão periférica.
Falou, ele, da "virtú" e da "fortú".
Para outro, agora, um ilustre castelhano,
"somos o que somos, nós mesmos
mais o conjunto das circunstâncias em torno".
...
(a pausa vem no olhar da dona Maroca)
- Mas, trocando em miúdos,
tudo é um trabalho ... e uma puta duma sorte,
minha senhora!
- Já bateu, profe!
Hoje, tem cachorro-quente e mariola
na merenda da escola.
Eliseo Martinez
12.12.2019
sexta-feira, 6 de dezembro de 2019
274.
Das culpas
Poderiam estar gravadas
na laje fria de uma lápide
as últimas palavras
jamais confiadas às páginas
do diário de um suicida,
na solitária recusa
de se ficar nos que ficam:
"Para todo aquele, como eu,
que não ligou na madrugada
para dizer do peso
demasiado da jornada;
que não chorou por não saber
que ser humano é, a cada dia,
se pôr a despertar sonhos,
ninar fantasias
e fazer dormir
insones desenganos".
Que mundo seria este,
se nos dispuséssemos
a rastrear essas dores,
mais longe de nós,
mais perto de todos,
tecendo redes de apoio.
Para cada suicida,
acumpliciam-se às escondidas
um sem-número de assassinos.
No momento em que
apenas um solta das mãos,
mais uma selfie de nossa
descendência homicida
é feita pelas lentes
sempre atentas do destino.
Eliseo Martinez
06.12.2019
Das culpas
Poderiam estar gravadas
na laje fria de uma lápide
as últimas palavras
jamais confiadas às páginas
do diário de um suicida,
na solitária recusa
de se ficar nos que ficam:
"Para todo aquele, como eu,
que não ligou na madrugada
para dizer do peso
demasiado da jornada;
que não chorou por não saber
que ser humano é, a cada dia,
se pôr a despertar sonhos,
ninar fantasias
e fazer dormir
insones desenganos".
Que mundo seria este,
se nos dispuséssemos
a rastrear essas dores,
mais longe de nós,
mais perto de todos,
tecendo redes de apoio.
Para cada suicida,
acumpliciam-se às escondidas
um sem-número de assassinos.
No momento em que
apenas um solta das mãos,
mais uma selfie de nossa
descendência homicida
é feita pelas lentes
sempre atentas do destino.
Eliseo Martinez
06.12.2019
quinta-feira, 5 de dezembro de 2019
273.
Dúvida
Apenas depois de se dispor
a construir e transpor
com empenho próprio
os degraus da dúvida,
feitos com as tábuas
encontradas, mesmo que
tomadas de caruncho,
é possível tocar, não no alto,
mas sob escombros da escada,
alguma certeza que ainda
se encontre por lá soterrada,
antes que ela se esgueire
e bata as asas.
Eliseo Martinez
05.12.2019
Dúvida
Apenas depois de se dispor
a construir e transpor
com empenho próprio
os degraus da dúvida,
feitos com as tábuas
encontradas, mesmo que
tomadas de caruncho,
é possível tocar, não no alto,
mas sob escombros da escada,
alguma certeza que ainda
se encontre por lá soterrada,
antes que ela se esgueire
e bata as asas.
Eliseo Martinez
05.12.2019
terça-feira, 3 de dezembro de 2019
272.
Lá se vai...
Mais para coisa outra
do que parte de coisa toda,
de mãos vazias
e bolsos com coisa alguma,
traz na manga um par de ases
para cobrir possível desventura.
Lá se vai o gajo
de hálito avinhado
e olhar aparvalhado,
no andor do passo gingado,
à busca sabe-se lá do quê.
Já que não é de deus,
será do diabo ou do saci-pererê?
Quem se importa?
Talvez nem mesmo ele.
Ou apenas procure,
por entre as pedras da calçada,
palavras afiadas,
que são serpentes
de línguas bifurcadas.
Eliseo Martinez
03.12.2019
Lá se vai...
Mais para coisa outra
do que parte de coisa toda,
de mãos vazias
e bolsos com coisa alguma,
traz na manga um par de ases
para cobrir possível desventura.
Lá se vai o gajo
de hálito avinhado
e olhar aparvalhado,
no andor do passo gingado,
à busca sabe-se lá do quê.
Já que não é de deus,
será do diabo ou do saci-pererê?
Quem se importa?
Talvez nem mesmo ele.
Ou apenas procure,
por entre as pedras da calçada,
palavras afiadas,
que são serpentes
de línguas bifurcadas.
Eliseo Martinez
03.12.2019
segunda-feira, 2 de dezembro de 2019
271.
Quando
Quando...
nos vemos do outro lado do espelho;
o que nossos olhos veem
ameaça crentes do rebanho inteiro;
o que falamos soa estrangeiro
dentro das fronteiras de nossa gente;
o que sentimos e nos é caro
destina-se ao ralo do pouco caso;
o que nos bate o coração,
não move irmãos caídos ao chão;
a intenção por trás do gesto
é facilmente turvada e o engodo
logo aceito como fato consumado;
as palavras já não servem para nada
e as ideias, de antemão, deturpadas;
a verdade nada mais é do a conveniência
dos dominantes sobre os dominados
e a liberdade uma marca do mercado
a ser negociada...
mais um ciclo da existência humana
ensaia seu ocaso, exaurido na folia fria
do sem sentido e do descaso.
Que mais do que a violência dos que despertam
e o ácido da ironia dos que sonham acordados
pode conter tal estado?
Para só com a pronta resposta dada
e a conquista do justo resultado
fazer a nau dos ultrajados
deitar armas ao lado,
apontando a proa ao porto,
deixando as águas revoltas
no rastro da popa.
Eliseo Martinez
02.12.2019
Quando
Quando...
nos vemos do outro lado do espelho;
o que nossos olhos veem
ameaça crentes do rebanho inteiro;
o que falamos soa estrangeiro
dentro das fronteiras de nossa gente;
o que sentimos e nos é caro
destina-se ao ralo do pouco caso;
o que nos bate o coração,
não move irmãos caídos ao chão;
a intenção por trás do gesto
é facilmente turvada e o engodo
logo aceito como fato consumado;
as palavras já não servem para nada
e as ideias, de antemão, deturpadas;
a verdade nada mais é do a conveniência
dos dominantes sobre os dominados
e a liberdade uma marca do mercado
a ser negociada...
mais um ciclo da existência humana
ensaia seu ocaso, exaurido na folia fria
do sem sentido e do descaso.
Que mais do que a violência dos que despertam
e o ácido da ironia dos que sonham acordados
pode conter tal estado?
Para só com a pronta resposta dada
e a conquista do justo resultado
fazer a nau dos ultrajados
deitar armas ao lado,
apontando a proa ao porto,
deixando as águas revoltas
no rastro da popa.
Eliseo Martinez
02.12.2019
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
270.
Orgia
No início há de vicejar
latências de vontade,
como só das nuvens turbulentas
vingam chuvas, tempestades.
O mistério vem nas brumas,
turvando os ares da alcova nua
em torno da cuna crua.
Prepara-se a alquimia
com raros elementos proibidos
à beira da forja aquecida
na oficina dos sentidos.
Primeiro, é no olho que o grão
do desejo é produzido,
trazendo à luz a preciosa
flor carmim a ser colhida.
Da natureza das entranhas do planeta,
corpos despertam desassossegos,
pulsam corações selvagens
onde quer que haja vida e ela aconteça.
O breve instante se debruça
sobre as bordas lisas do infinito,
seduzido pelo abismo
como lhe pertencesse esse insólito destino.
Aromas de incenso adensam
a atmosfera esfumada,
amantes se entreolham, transfigurados.
Desatinados, celebram querubins,
demônios, sátiros, serafins
no sabat que tem início
sem acordo para o fim,
e só por inesperado compromisso
o próprio Dionísio
não comparece ao orgiástico festim.
Rios de fogo circundam a santidade
da terreira da maldita tribo,
onde se entoam órficos hinos,
repicam sinos entre gemidos
e crucifixos invertidos
benzem torrentes de fluídos.
O ciclo inteiro de um céu estrelado
gira sobre as cabeças
desses filhos do pecado.
Até que, extenuados,
desabam os convocados
no chão de panos amarfalhados.
Aos poucos, dissipam-se as miragens
do transe conjurado.
Olhares crispados se desfazem,
nervos e músculos desentesam.
É nesta hora que ateus da aldeia toda
sinceramente rezam.
A mente se faz plana, vazia
como que varrida por ventos
tépidos do deserto
e, recompensada, faz-se leve.
A paz chega ao pequeno quarto
em alvas ondas aveludadas,
sob uma luz baça, perolada.
E no nó desatado dos abraços,
nada mais importa ao homem
e a mulher, ali, deitados.
Tudo cabe no agridoce cansaço
dos corpos que, ora, jazem
e no traço riscado de seus lábios.
Nada além do hiato de tempo
num vácuo do espaço.
Lá fora, a cidade acorda
e ensaia a odiosa fanfarra
com suas máquinas de lata,
e as imagens tomam rumo,
envenenadas da realidade
de outros braços...
Eliseo Martinez
20.11.2019
Orgia
No início há de vicejar
latências de vontade,
como só das nuvens turbulentas
vingam chuvas, tempestades.
O mistério vem nas brumas,
turvando os ares da alcova nua
em torno da cuna crua.
Prepara-se a alquimia
com raros elementos proibidos
à beira da forja aquecida
na oficina dos sentidos.
Primeiro, é no olho que o grão
do desejo é produzido,
trazendo à luz a preciosa
flor carmim a ser colhida.
Da natureza das entranhas do planeta,
corpos despertam desassossegos,
pulsam corações selvagens
onde quer que haja vida e ela aconteça.
O breve instante se debruça
sobre as bordas lisas do infinito,
seduzido pelo abismo
como lhe pertencesse esse insólito destino.
Aromas de incenso adensam
a atmosfera esfumada,
amantes se entreolham, transfigurados.
Desatinados, celebram querubins,
demônios, sátiros, serafins
no sabat que tem início
sem acordo para o fim,
e só por inesperado compromisso
o próprio Dionísio
não comparece ao orgiástico festim.
Rios de fogo circundam a santidade
da terreira da maldita tribo,
onde se entoam órficos hinos,
repicam sinos entre gemidos
e crucifixos invertidos
benzem torrentes de fluídos.
O ciclo inteiro de um céu estrelado
gira sobre as cabeças
desses filhos do pecado.
Até que, extenuados,
desabam os convocados
no chão de panos amarfalhados.
Aos poucos, dissipam-se as miragens
do transe conjurado.
Olhares crispados se desfazem,
nervos e músculos desentesam.
É nesta hora que ateus da aldeia toda
sinceramente rezam.
A mente se faz plana, vazia
como que varrida por ventos
tépidos do deserto
e, recompensada, faz-se leve.
A paz chega ao pequeno quarto
em alvas ondas aveludadas,
sob uma luz baça, perolada.
E no nó desatado dos abraços,
nada mais importa ao homem
e a mulher, ali, deitados.
Tudo cabe no agridoce cansaço
dos corpos que, ora, jazem
e no traço riscado de seus lábios.
Nada além do hiato de tempo
num vácuo do espaço.
Lá fora, a cidade acorda
e ensaia a odiosa fanfarra
com suas máquinas de lata,
e as imagens tomam rumo,
envenenadas da realidade
de outros braços...
Eliseo Martinez
20.11.2019
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
269.
In memoriam do nós
Nem das míticas imagens dos antigos,
nem da barriga grávida de um míssil
ou da ruína dos mercados em crise
veio o anunciado apocalipse.
No fim, reinventou-se as tribos,
mas já não fazia sentido.
O Armagedom deu-se quando o nós,
desidratado, não explicava mais nada.
Perdeu sua substância de espécie,
foi esmaecendo nas consciências
como um sintoma da peste,
para apontar um desmembro,
uma aparência, uma veste.
O flagelo veio da aridez dos vastos
desertos abertos entre um e outro,
entre o grão e o todo,
varrendo os vestígios
do que os mantinham vivos,
no colapso das crenças partilhadas
que ligavam a raça,
davam identidade aos povos,
faziam das proles famílias, devotas
- com ou sem deuses à volta -,
reuniam amigos nas praças,
tornavam cúmplices
os que deitavam consigo de graça,
tudo o que fazia humano
esse animal chamado homem.
Eliseo Martinez
13.11.2019
In memoriam do nós
Nem das míticas imagens dos antigos,
nem da barriga grávida de um míssil
ou da ruína dos mercados em crise
veio o anunciado apocalipse.
No fim, reinventou-se as tribos,
mas já não fazia sentido.
O Armagedom deu-se quando o nós,
desidratado, não explicava mais nada.
Perdeu sua substância de espécie,
foi esmaecendo nas consciências
como um sintoma da peste,
para apontar um desmembro,
uma aparência, uma veste.
O flagelo veio da aridez dos vastos
desertos abertos entre um e outro,
entre o grão e o todo,
varrendo os vestígios
do que os mantinham vivos,
no colapso das crenças partilhadas
que ligavam a raça,
davam identidade aos povos,
faziam das proles famílias, devotas
- com ou sem deuses à volta -,
reuniam amigos nas praças,
tornavam cúmplices
os que deitavam consigo de graça,
tudo o que fazia humano
esse animal chamado homem.
Eliseo Martinez
13.11.2019
sábado, 9 de novembro de 2019
268.
A miragem das chegadas
Abandonado o estado
de mancebo desembestado,
se viu no mundo com cega fé de ateu,
que desconheciam ser dotado,
esse desgarrado filho seu,
sempre atento a seta do sentido
disparada pelo incontrolável arco do acaso.
Por sete flechas foi varado
antes de fazer-se hábil em ler sinais,
distinguir nuances entre hordas de iguais.
À força dos próprios braços
e calos de abraços
conduziu a vela do destino,
mesmo que feita em trapos.
Singrou rumos pelo emaranhado
das trilhas do absurdo
num mar encapelado de vontades,
eros, tânatos e vaidades.
E foi-se a busca de coisa alguma
ao descobrir que o nada
é o que nos aguarda nas chegadas.
Sem jamais duvidar
do ouro da jornada.
Eliseo Martinez
09.11.2019
A miragem das chegadas
Abandonado o estado
de mancebo desembestado,
se viu no mundo com cega fé de ateu,
que desconheciam ser dotado,
esse desgarrado filho seu,
sempre atento a seta do sentido
disparada pelo incontrolável arco do acaso.
Por sete flechas foi varado
antes de fazer-se hábil em ler sinais,
distinguir nuances entre hordas de iguais.
À força dos próprios braços
e calos de abraços
conduziu a vela do destino,
mesmo que feita em trapos.
Singrou rumos pelo emaranhado
das trilhas do absurdo
num mar encapelado de vontades,
eros, tânatos e vaidades.
E foi-se a busca de coisa alguma
ao descobrir que o nada
é o que nos aguarda nas chegadas.
Sem jamais duvidar
do ouro da jornada.
Eliseo Martinez
09.11.2019
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
267.
Mandato
Depois de cabalar voto
entre inocentes úteis das cidades,
toda a sorte de esquecidos
por deuses e autoridades,
a ralé dos mal formados
e a elite dos safados,
instalou-se no assento infame dos eleitos,
voraz pelo naco de poder abocanhado,
cercado de sicários mancomunados
às expensas do mandato.
Inocentemente acanalhado a cada ato,
dissimulado como o criminoso oculto
ao mudar o curso do pequeno olho d'água
sem sujar as mãos na gleba do vizinho,
deixando nela o leito seco do riozinho
e no solo antes fértil,
sua obra de ervas daninhas.
Eliseo Martinez
08.11.2019
Mandato
Depois de cabalar voto
entre inocentes úteis das cidades,
toda a sorte de esquecidos
por deuses e autoridades,
a ralé dos mal formados
e a elite dos safados,
instalou-se no assento infame dos eleitos,
voraz pelo naco de poder abocanhado,
cercado de sicários mancomunados
às expensas do mandato.
Inocentemente acanalhado a cada ato,
dissimulado como o criminoso oculto
ao mudar o curso do pequeno olho d'água
sem sujar as mãos na gleba do vizinho,
deixando nela o leito seco do riozinho
e no solo antes fértil,
sua obra de ervas daninhas.
Eliseo Martinez
08.11.2019
domingo, 27 de outubro de 2019
266.
Tudo é um
A intuição de que tudo é um
já era ensaiada pelos velhos gregos,
atando laços de sua filosofia e ciência,
tantas vezes em segredo.
Tudo está ligado,
do cosmos ao átomo,
nos alertaram os aqueus, deixado
em fragmentos de seus relatos.
Quem melhor exerce
a inteligência própria da espécie
do que aquele que vínculos estabelece
entre os fenômenos mais distantes,
quando a maior parte dos demais
mal percebe o que lhe cerca,
mesmo que a roçar-lhe a testa?
Se é verdadeiro que tudo é um,
o mais inteligente é o que sai a cata
do nexo invisível que une ao todo
cada um dos entes existentes.
Não é por outro motivo
que os mais sábios sempre
foram os perseguidos.
Poderosos os veem como o perigo,
e na dialética, as armas do inimigo.
A menor das partículas subatômicas
não é independente do globo mundo
em seu giro no universo,
entre tantos outros mais profundos,
só em aparência dispersos.
O todo se mostra fragmentado
em incontáveis unidades
sob a percepção dos homens
e seus sentidos desfocados.
O espaço-tempo abarca
dimensões indissociáveis.
A matéria nada mais é
do que energia congelada.
Uma única célula-tronco
contém a informação necessária
para formar o indivíduo todo.
Nós, sob peles de várias cores,
somos ramo de raça de mesmo nome.
E o que somos, hoje,
senão uma sopa de humanos,
onde neandertais cruzaram
com denisovanos
e, aqueles, com os sapiens,
por milhares de anos?
A quântica cumplicidade
que habita o núcleo
de um átomo de amor
ainda fundará a Ciência Nova
a reunir as consciência apartadas
na Totalidade que as abraça.
A borboleta que bate asas
no distante Oriente,
move algo no Ocidente...
Eliseo Martinez
27.10.2019
Tudo é um
A intuição de que tudo é um
já era ensaiada pelos velhos gregos,
atando laços de sua filosofia e ciência,
tantas vezes em segredo.
Tudo está ligado,
do cosmos ao átomo,
nos alertaram os aqueus, deixado
em fragmentos de seus relatos.
Quem melhor exerce
a inteligência própria da espécie
do que aquele que vínculos estabelece
entre os fenômenos mais distantes,
quando a maior parte dos demais
mal percebe o que lhe cerca,
mesmo que a roçar-lhe a testa?
Se é verdadeiro que tudo é um,
o mais inteligente é o que sai a cata
do nexo invisível que une ao todo
cada um dos entes existentes.
Não é por outro motivo
que os mais sábios sempre
foram os perseguidos.
Poderosos os veem como o perigo,
e na dialética, as armas do inimigo.
A menor das partículas subatômicas
não é independente do globo mundo
em seu giro no universo,
entre tantos outros mais profundos,
só em aparência dispersos.
O todo se mostra fragmentado
em incontáveis unidades
sob a percepção dos homens
e seus sentidos desfocados.
O espaço-tempo abarca
dimensões indissociáveis.
A matéria nada mais é
do que energia congelada.
Uma única célula-tronco
contém a informação necessária
para formar o indivíduo todo.
Nós, sob peles de várias cores,
somos ramo de raça de mesmo nome.
E o que somos, hoje,
senão uma sopa de humanos,
onde neandertais cruzaram
com denisovanos
e, aqueles, com os sapiens,
por milhares de anos?
A quântica cumplicidade
que habita o núcleo
de um átomo de amor
ainda fundará a Ciência Nova
a reunir as consciência apartadas
na Totalidade que as abraça.
A borboleta que bate asas
no distante Oriente,
move algo no Ocidente...
Eliseo Martinez
27.10.2019
segunda-feira, 21 de outubro de 2019
265.
Desiderato
Entre palavras
de alcova murmuradas,
reais ou só pensadas,
amantes solitários
ou com par ao lado,
às margens do obsceno
e por trás das sóbrias
paredes das moradas,
a um só tempo
fecundantes fecundados,
infectados de amor
tomados de ardores,
riscam o silêncio
da madrugada,
definitivamente
apossados do presente
feito raio incandescente.
Desiderato...
Eliseo Martinez
21.10.2019
Desiderato
Entre palavras
de alcova murmuradas,
reais ou só pensadas,
amantes solitários
ou com par ao lado,
às margens do obsceno
e por trás das sóbrias
paredes das moradas,
a um só tempo
fecundantes fecundados,
infectados de amor
tomados de ardores,
riscam o silêncio
da madrugada,
definitivamente
apossados do presente
feito raio incandescente.
Desiderato...
Eliseo Martinez
21.10.2019
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
264.
Heróis
Abrindo o mais vasto dos espaços
à imaginação dos mortais,
o imortal Flash Gordon tornou-se
herói da infância de meu pai,
que já aos quatro anos ouvia
relatos embasbacados da passagem
de uma gigantesca nave
pelos céus da cidade
(1934), o Graf Zeppelin.
Servir à Força Aérea, provavelmente,
foi a decorrência desse chamado
da nova fronteira aberta aos ares
na mente dos jovens de sua geração.
Anos depois, já adulto, seu ídolo era outro,
saído não mais das páginas dos gibis,
mas da imagem projetada na tela
dos cinemas de Porto Alegre:
Steve McQuinn que, dentre tantas façanhas,
consta ter tentado escapar dos infernos,
onde era prisioneiro, por sobre a cerca
de arame farpado montado numa Harley.
As aventuras vividas nas sagas dos heróis,
por fim, encontram sua desventura
entre as dobras do tempo que os corrói.
E não apenas eles ficaram confinados
no passado.
O próprio conceito que os fez ganhar vida
na fantasia dos que a tinham pela frente
parece que foi esvaziado de sentido.
O vento das realidades em movimento
acabou por soprar sobre terra e mares
de um mundo desencantado,
apressado para chegar ao lugar nenhum
em que nos movemos parados.
Que paladino sobreviveria, hoje em dia,
aos extensos desertos pontilhados
pelos circunscritos oásis da
imaginação instrumental?
Como o ídolo do passado
resistiria ao mercado volátil
dos valores negociáveis?
Com que pés se sustentaria o destemido
no piso movediço da pós-verdade,
onde o certo e o errado
se envolveram num escandaloso caso,
vistos a passear de braços dados
por todo o lado?
Hoje, talvez, o que mais se aproxime
da figura improvável do herói
possa ser compartilhado por três
personagens de osso e carne
que ousaram bem mais do que os demais,
dispostos a tudo perder
em nome de um ideal.
Homens que desafiaram o desmesurado
poder do inimigo comum que,
das sombras, controla o comum dos homens.
Julian Assange, do Wiki Leaks;
Edward Snowden, ex-agente da CIA e do NSA
e Glenn Greenwald, do Intercept Brasil
bem que poderiam ser esse Ulísses atualizado
em um mundo virtualizado,
operando midiáticos arsenais
no combate às novas-velhas castas,
que fizeram de sua versão o único relato válido.
Cada um deles, semideuses pagãos,
fez tremer a mão de ferro dos de cima,
useira em se abater sobre
os mantidos crédulos de baixo.
Não foram outros senão eles
a fazer recuar dois passos
os sempre dispostos a impedir
que o remédio da verdade seja aplicado
e o esclarecimento mude o resultado.
O que mais pode frente ao mal do que a verdade?
E o que mais é ocultado do que ela?
Eliseo Martinez
16.10.2019
Heróis
Abrindo o mais vasto dos espaços
à imaginação dos mortais,
o imortal Flash Gordon tornou-se
herói da infância de meu pai,
que já aos quatro anos ouvia
relatos embasbacados da passagem
de uma gigantesca nave
pelos céus da cidade
(1934), o Graf Zeppelin.
Servir à Força Aérea, provavelmente,
foi a decorrência desse chamado
da nova fronteira aberta aos ares
na mente dos jovens de sua geração.
Anos depois, já adulto, seu ídolo era outro,
saído não mais das páginas dos gibis,
mas da imagem projetada na tela
dos cinemas de Porto Alegre:
Steve McQuinn que, dentre tantas façanhas,
consta ter tentado escapar dos infernos,
onde era prisioneiro, por sobre a cerca
de arame farpado montado numa Harley.
As aventuras vividas nas sagas dos heróis,
por fim, encontram sua desventura
entre as dobras do tempo que os corrói.
E não apenas eles ficaram confinados
no passado.
O próprio conceito que os fez ganhar vida
na fantasia dos que a tinham pela frente
parece que foi esvaziado de sentido.
O vento das realidades em movimento
acabou por soprar sobre terra e mares
de um mundo desencantado,
apressado para chegar ao lugar nenhum
em que nos movemos parados.
Que paladino sobreviveria, hoje em dia,
aos extensos desertos pontilhados
pelos circunscritos oásis da
imaginação instrumental?
Como o ídolo do passado
resistiria ao mercado volátil
dos valores negociáveis?
Com que pés se sustentaria o destemido
no piso movediço da pós-verdade,
onde o certo e o errado
se envolveram num escandaloso caso,
vistos a passear de braços dados
por todo o lado?
Hoje, talvez, o que mais se aproxime
da figura improvável do herói
possa ser compartilhado por três
personagens de osso e carne
que ousaram bem mais do que os demais,
dispostos a tudo perder
em nome de um ideal.
Homens que desafiaram o desmesurado
poder do inimigo comum que,
das sombras, controla o comum dos homens.
Julian Assange, do Wiki Leaks;
Edward Snowden, ex-agente da CIA e do NSA
e Glenn Greenwald, do Intercept Brasil
bem que poderiam ser esse Ulísses atualizado
em um mundo virtualizado,
operando midiáticos arsenais
no combate às novas-velhas castas,
que fizeram de sua versão o único relato válido.
Cada um deles, semideuses pagãos,
fez tremer a mão de ferro dos de cima,
useira em se abater sobre
os mantidos crédulos de baixo.
Não foram outros senão eles
a fazer recuar dois passos
os sempre dispostos a impedir
que o remédio da verdade seja aplicado
e o esclarecimento mude o resultado.
O que mais pode frente ao mal do que a verdade?
E o que mais é ocultado do que ela?
Eliseo Martinez
16.10.2019
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
263.
Imprudente, eu? Não creio!Não me preocupei com os ritos
subscritos em apólices de seguros.
Desprezei cada pacto
que conteria meus passos
a fim de não passar o resto
de meus dias cumprindo os termos
de insatisfatórios contratos,
tal qual fazem os pares de mãos dadas
a olhar cada qual pro seu lado.
Vi nas letras miúdas, nas entrelinhas,
tantas patranhas, tantos garrotes,
que os riscos vividos já me valeram a pena,
seja lá com que sorte se fizeram à sena.
Decidi-me pela maior porção de liberdade
que me fosse possível cercar a cada viagem,
acreditando jogar âncoras à realidade.
De nada me arrependo!
É claro, poderia ter enveredado
por outros terrenos,
afinal sempre se pode mudar uma vírgula
ou um ponto e, por vezes, até mesmo
o texto todo, quando o desengano é tamanho.
Mas qual seria a graça de remediar
cada sentimento sentido ou ato praticado,
acomodar no futuro os erros do passado,
esterilizar o que eu acho, se tudo o que foi feito,
mesmo quando pouco pensado,
foi feito a peito aberto, tentando acertar,
evitando ferir, malgrado dar errado?
Prefiro pôr a ênfase das coisas da vida
nas lutas vencidas somadas às dádivas recebidas
e não no que deixou de suceder do jeito esperado.
Do que mais trata a existência humana
senão do drama que a todos tempera
com um tanto de comédia
e dois tantos de tragédia?
Que não me falte a memória
para lembrar do que importa,
seja de boa ou má sorte,
de antes, feito par, ou hoje, feito ímpar.
Mas, também, que não seja negada
a pequena cota de esquecimento que me cabe,
desde o homem e da mulher que deitaram
até o fim do que dali foi iniciado.
Eliseo Martinez
18.09.2019
subscritos em apólices de seguros.
Desprezei cada pacto
que conteria meus passos
a fim de não passar o resto
de meus dias cumprindo os termos
de insatisfatórios contratos,
tal qual fazem os pares de mãos dadas
a olhar cada qual pro seu lado.
Vi nas letras miúdas, nas entrelinhas,
tantas patranhas, tantos garrotes,
que os riscos vividos já me valeram a pena,
seja lá com que sorte se fizeram à sena.
Decidi-me pela maior porção de liberdade
que me fosse possível cercar a cada viagem,
acreditando jogar âncoras à realidade.
De nada me arrependo!
É claro, poderia ter enveredado
por outros terrenos,
afinal sempre se pode mudar uma vírgula
ou um ponto e, por vezes, até mesmo
o texto todo, quando o desengano é tamanho.
Mas qual seria a graça de remediar
cada sentimento sentido ou ato praticado,
acomodar no futuro os erros do passado,
esterilizar o que eu acho, se tudo o que foi feito,
mesmo quando pouco pensado,
foi feito a peito aberto, tentando acertar,
evitando ferir, malgrado dar errado?
Prefiro pôr a ênfase das coisas da vida
nas lutas vencidas somadas às dádivas recebidas
e não no que deixou de suceder do jeito esperado.
Do que mais trata a existência humana
senão do drama que a todos tempera
com um tanto de comédia
e dois tantos de tragédia?
Que não me falte a memória
para lembrar do que importa,
seja de boa ou má sorte,
de antes, feito par, ou hoje, feito ímpar.
Mas, também, que não seja negada
a pequena cota de esquecimento que me cabe,
desde o homem e da mulher que deitaram
até o fim do que dali foi iniciado.
Eliseo Martinez
18.09.2019
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
262.
O mar e Hannah a passar
É! Foi dádiva inesperada, sabemos bem.
Distraídos, olhos perdidos na vastidão do mar, sentimos soprar
uma fêmina brisa passageira, que mais tarde demos o nome de Hannah Ligeira.
Em tempos gélidos, de úmidas borrascas, passou por estas
insulares costas uma brisa híbrida de silvestres cheiros, aromas
brejeiros, fazendo girar mansas as birutas cansadas, enfunando velas brancas de velhas barcaças.
Passou, não importa que num átimo.
Poderia não ter passado e nós, morrido sem testemunhar o evento instigante.
Sabemos que se foi para ser mágico vento azul mais adiante, num tempo um pouco mais distante.
Quem sabe, ventania de letras cortantes, varrendo a obra inglória de homens errantes.
Chegou riscando arco-íris, colorindo o dia pardo, de chumbo pintado.
Veio oceano a fora, alvissareira, como novelo de ar, tímida e trêmula, curiosa do povo destas ilhas esquecidas, movida pelo ímpeto de se reconhecer forte, tomando corpo, apropriando-se do próprio porte, insinuando-se no despertar da graça, jogando dados à sorte.
Não que fosse para ficar, querer na teia da tarrafa enredar.
Não se possui o rodopio dos novos ares.
Mas, sim, com ela, tecer trança com o mais verde de dentro da gente.
E da trama ao gesto, trazer mais para perto essa nossa parte meio perdida, quase extinguida, a léguas do continente.
Nos fazer ficar menos longe de nós mesmos, muitos que cada um somos, re-unidos em volta do crepitar das fogueiras pela areia alva das praias, mareando a noite escura no rodar do giro das saias.
Na rede balançada, sob estrelas poucas, pendulou com mente lúcida e adormeceu enovelada, naturalmente despudorada, livre e nua.
Armada de lábios carnudos, pele macia, carne dura, despertando reminiscências da vida bela e louca, sob o olhar sereno dos que, ao beber da última gota, esvaziaram-se de seu desassossego inquieto e chegaram a um nada, apaziguados, recompensados, libertos.
Foi coisa de aragem condensada na forma de um recém bicho-gente, que rompe o cerco e torna a vida especialmente quente.
Grávido momento, em que a beleza mostra a cara, despojada, desembaraçada e clara, e nos vemos a agradecer, mesmo sem ter a quem o fazer.
Talvez nisto resida a religiosidade dos descrentes de nossa aldeia.
Nós, desajeitados como somos, que manuseamos flores com mãos ásperas de pescadores, tocamos o tenro ramo como arbusto pronto.
Enfim, fomos o que honestamente somos: aldeões embrutecidos pelas lides de uma vida dura, que ainda trazem em algum canto da alma retorcida o frescor do orvalho, que vimos cobrir a relva no amanhecer dos tempos de pirralhos.
Quase havíamos esquecidos de nós e deles, os talos verdes!
Assim como veio, num xisto partiu.
E partiu num motor de pano, levando consigo um barquinho à deriva e sem dono, no meio do silêncio de outra noite de pouco sono.
Parece que na quilha, a pequenina nau levava o nome DESEN (não-sei-o-que) TO.
Faz mal não, foi oferenda dos céus, escassos de deus, a homens rudes que seguem ateus.
Eliseo Martinez
maio de 2016
O mar e Hannah a passar
É! Foi dádiva inesperada, sabemos bem.
Distraídos, olhos perdidos na vastidão do mar, sentimos soprar
uma fêmina brisa passageira, que mais tarde demos o nome de Hannah Ligeira.
Em tempos gélidos, de úmidas borrascas, passou por estas
insulares costas uma brisa híbrida de silvestres cheiros, aromas
brejeiros, fazendo girar mansas as birutas cansadas, enfunando velas brancas de velhas barcaças.
Passou, não importa que num átimo.
Poderia não ter passado e nós, morrido sem testemunhar o evento instigante.
Sabemos que se foi para ser mágico vento azul mais adiante, num tempo um pouco mais distante.
Quem sabe, ventania de letras cortantes, varrendo a obra inglória de homens errantes.
Chegou riscando arco-íris, colorindo o dia pardo, de chumbo pintado.
Veio oceano a fora, alvissareira, como novelo de ar, tímida e trêmula, curiosa do povo destas ilhas esquecidas, movida pelo ímpeto de se reconhecer forte, tomando corpo, apropriando-se do próprio porte, insinuando-se no despertar da graça, jogando dados à sorte.
Não que fosse para ficar, querer na teia da tarrafa enredar.
Não se possui o rodopio dos novos ares.
Mas, sim, com ela, tecer trança com o mais verde de dentro da gente.
E da trama ao gesto, trazer mais para perto essa nossa parte meio perdida, quase extinguida, a léguas do continente.
Nos fazer ficar menos longe de nós mesmos, muitos que cada um somos, re-unidos em volta do crepitar das fogueiras pela areia alva das praias, mareando a noite escura no rodar do giro das saias.
Na rede balançada, sob estrelas poucas, pendulou com mente lúcida e adormeceu enovelada, naturalmente despudorada, livre e nua.
Armada de lábios carnudos, pele macia, carne dura, despertando reminiscências da vida bela e louca, sob o olhar sereno dos que, ao beber da última gota, esvaziaram-se de seu desassossego inquieto e chegaram a um nada, apaziguados, recompensados, libertos.
Foi coisa de aragem condensada na forma de um recém bicho-gente, que rompe o cerco e torna a vida especialmente quente.
Grávido momento, em que a beleza mostra a cara, despojada, desembaraçada e clara, e nos vemos a agradecer, mesmo sem ter a quem o fazer.
Talvez nisto resida a religiosidade dos descrentes de nossa aldeia.
Nós, desajeitados como somos, que manuseamos flores com mãos ásperas de pescadores, tocamos o tenro ramo como arbusto pronto.
Enfim, fomos o que honestamente somos: aldeões embrutecidos pelas lides de uma vida dura, que ainda trazem em algum canto da alma retorcida o frescor do orvalho, que vimos cobrir a relva no amanhecer dos tempos de pirralhos.
Quase havíamos esquecidos de nós e deles, os talos verdes!
Assim como veio, num xisto partiu.
E partiu num motor de pano, levando consigo um barquinho à deriva e sem dono, no meio do silêncio de outra noite de pouco sono.
Parece que na quilha, a pequenina nau levava o nome DESEN (não-sei-o-que) TO.
Faz mal não, foi oferenda dos céus, escassos de deus, a homens rudes que seguem ateus.
Eliseo Martinez
maio de 2016
sábado, 31 de agosto de 2019
261.
Acho que vou ter de me reinventar!
Próximo à fronteira d'água que demarca
as terras de barrigas-verdes e gaúchos,
me instalei como, num tronco úmido,
se prende um caramujo.
Prá lá do Mampituba, Passo de Torres;
pelas bandas deste lado, simplesmente, Torres.
Além do serpentear do vasto rio,
os rochedos que avançam mar a dentro
formam um dos mais belos cenários
do litoral brasileiro.
Por aqui, arranha-céus compartilham espaços
com graciosas casas com traços do passado.
A pobreza, que se vê por toda parte,
por estas paragens, é mais atenuada,
e integrada, de forma mais humanizada
à comunidade.
Não! Também não é o fim da luta de classes,
estes são tempos avessos a milagres.
Excluídos os meses de veraneio,
que vão de dezembro à fevereiro,
fantasmas que habitam as moradas,
só reabertas nos verões de cada ano,
passam desapercebidos aos locais,
ocupados nas lides sem pressa
de seu próprio cotidiano.
A poucas quadras do coreto da cidade,
tem-se aquela sensação emprestada
dos velhos filmes de ficção,
onde, depois do apocalipse da vez,
estamos sós, e a raça humana evaporou,
escafedendo-se de vez.
Fantasia que beira o obsceno,
saída de um mal estar que nos habituamos
ao viver nos grandes centros urbanos,
povoando o imaginário de indivíduos
imersos em meio hostil,
entre hordas de desconhecidos.
Acostumado ao caos organizado
de uma Porto Alegre mal cuidada,
me vejo no sossego desta cidade costeira,
de ruas bem traçadas e gente hospitaleira,
onde não falta quem passe pela calçada,
cumprimente, puxe conversa e se apresente.
O ruído de fundo já não é o dos automóveis
que passam, mas das ondas que rebentam
na beira da praia na maré alta.
E, o melhor de tudo, deste lugar,
é o pulso da vida que bate mais lento.
A imensidão do mar a frente
se estende sem terra à vista
até as verdes costas da África.
A norte e sul, as praias de areias brancas
se perdem para muito além dos sentidos,
dando uma dimensão diferente ao olhar
encaixotado do que foi acostumado
a ter o horizonte roubado,
saturado de imagens recortadas.
Desacelerar é o desafio do forasteiro,
fazer as pazes com o tempo,
deixar fluir devagar,
valorizar a simplicidade do momento.
E, sem receio da redundância,
dar tempo ao tempo pra vida correr,
ou melhor, caminhar do seu jeito.
Eliseo Martinez
30.08.2019
Acho que vou ter de me reinventar!
Próximo à fronteira d'água que demarca
as terras de barrigas-verdes e gaúchos,
me instalei como, num tronco úmido,
se prende um caramujo.
Prá lá do Mampituba, Passo de Torres;
pelas bandas deste lado, simplesmente, Torres.
Além do serpentear do vasto rio,
os rochedos que avançam mar a dentro
formam um dos mais belos cenários
do litoral brasileiro.
Por aqui, arranha-céus compartilham espaços
com graciosas casas com traços do passado.
A pobreza, que se vê por toda parte,
por estas paragens, é mais atenuada,
e integrada, de forma mais humanizada
à comunidade.
Não! Também não é o fim da luta de classes,
estes são tempos avessos a milagres.
Excluídos os meses de veraneio,
que vão de dezembro à fevereiro,
fantasmas que habitam as moradas,
só reabertas nos verões de cada ano,
passam desapercebidos aos locais,
ocupados nas lides sem pressa
de seu próprio cotidiano.
A poucas quadras do coreto da cidade,
tem-se aquela sensação emprestada
dos velhos filmes de ficção,
onde, depois do apocalipse da vez,
estamos sós, e a raça humana evaporou,
escafedendo-se de vez.
Fantasia que beira o obsceno,
saída de um mal estar que nos habituamos
ao viver nos grandes centros urbanos,
povoando o imaginário de indivíduos
imersos em meio hostil,
entre hordas de desconhecidos.
Acostumado ao caos organizado
de uma Porto Alegre mal cuidada,
me vejo no sossego desta cidade costeira,
de ruas bem traçadas e gente hospitaleira,
onde não falta quem passe pela calçada,
cumprimente, puxe conversa e se apresente.
O ruído de fundo já não é o dos automóveis
que passam, mas das ondas que rebentam
na beira da praia na maré alta.
E, o melhor de tudo, deste lugar,
é o pulso da vida que bate mais lento.
A imensidão do mar a frente
se estende sem terra à vista
até as verdes costas da África.
A norte e sul, as praias de areias brancas
se perdem para muito além dos sentidos,
dando uma dimensão diferente ao olhar
encaixotado do que foi acostumado
a ter o horizonte roubado,
saturado de imagens recortadas.
Desacelerar é o desafio do forasteiro,
fazer as pazes com o tempo,
deixar fluir devagar,
valorizar a simplicidade do momento.
E, sem receio da redundância,
dar tempo ao tempo pra vida correr,
ou melhor, caminhar do seu jeito.
Eliseo Martinez
30.08.2019
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
260.
Vou me embora lá prás Torres
Hoje, acordei foi com as galinhas.
Metida a tralha na mala,
me fui por trilhas de asfalto a terras mais ao alto
à procura de abrigo
pros invernos que me faltam.
Nestas idas peregrinas,
apeei pelas bordas catarinas.
Tinha de ter rio
e com o rio me veio o mar.
Tinha de ter gente,
mas não gente demais.
Tinha de ter pedra;
duna, furna e falésia
é que tem por lá.
Tem canto de passarinho,
tem golfinho e ondas
que rebentam de mansinho
nas areias desse lugar.
Não, não é Pasárgada,
pode apostar!
Mas lá vou catar conchinha
e andar na praia até cansar;
ler livros que fui colhendo
pela vida, devagar;
escutar as músicas
que andavam mudas,
esquecidas de cantar.
Tem igrejinha
do tempo do imperador
prá sentar e matutar
sobre o peso do andor.
É onde meu olhar vai ser livre,
desimpedido de automóvel,
prédio, moto-boy
ou desconhecido inimigo,
feliz como cão de apartamento,
solto e sem coleira,
abanando rabo ao vento.
É o lugar que escreverei
as besteirinhas que me calharem
por acaso de pensar,
até que nada mais que preste
me escorra da cabeça à mão,
com que já não consiga desenhar.
Se der na telha,
viro Quixote de caniço,
empunho escudo de samburá
e até minhoca vou banhar.
Quem sabe não é por lá
que minha Dulcinéa andará?
Não, não é a casa no campo
da Elis ou do Zé Rodrix
ou de outros tantos por ai.
É lugar que se pode pisar,
tem casquinha de siri,
caipirinha e brisa do mar,
um sol que de lá levanta
e um puta dum luar.
Se der enrosco
e a polícia me procurar,
braços n'água, vazo a nado,
que na Ilha dos Lobos
pé de boi algum vai me pegar.
E, como disse Mandela,
cheio de afeto, mais uma vez:
"não me liguem, eu ligo pra vocês!".
Eliseo Martinez
24.08.2019
Vou me embora lá prás Torres
Hoje, acordei foi com as galinhas.
Metida a tralha na mala,
me fui por trilhas de asfalto a terras mais ao alto
à procura de abrigo
pros invernos que me faltam.
Nestas idas peregrinas,
apeei pelas bordas catarinas.
Tinha de ter rio
e com o rio me veio o mar.
Tinha de ter gente,
mas não gente demais.
Tinha de ter pedra;
duna, furna e falésia
é que tem por lá.
Tem canto de passarinho,
tem golfinho e ondas
que rebentam de mansinho
nas areias desse lugar.
Não, não é Pasárgada,
pode apostar!
Mas lá vou catar conchinha
e andar na praia até cansar;
ler livros que fui colhendo
pela vida, devagar;
escutar as músicas
que andavam mudas,
esquecidas de cantar.
Tem igrejinha
do tempo do imperador
prá sentar e matutar
sobre o peso do andor.
É onde meu olhar vai ser livre,
desimpedido de automóvel,
prédio, moto-boy
ou desconhecido inimigo,
feliz como cão de apartamento,
solto e sem coleira,
abanando rabo ao vento.
É o lugar que escreverei
as besteirinhas que me calharem
por acaso de pensar,
até que nada mais que preste
me escorra da cabeça à mão,
com que já não consiga desenhar.
Se der na telha,
viro Quixote de caniço,
empunho escudo de samburá
e até minhoca vou banhar.
Quem sabe não é por lá
que minha Dulcinéa andará?
Não, não é a casa no campo
da Elis ou do Zé Rodrix
ou de outros tantos por ai.
É lugar que se pode pisar,
tem casquinha de siri,
caipirinha e brisa do mar,
um sol que de lá levanta
e um puta dum luar.
Se der enrosco
e a polícia me procurar,
braços n'água, vazo a nado,
que na Ilha dos Lobos
pé de boi algum vai me pegar.
E, como disse Mandela,
cheio de afeto, mais uma vez:
"não me liguem, eu ligo pra vocês!".
Eliseo Martinez
24.08.2019
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
domingo, 11 de agosto de 2019
258.
Desistência
Tudo começou quando, ainda jovem,
ao ser seduzido, enamorou-se da melancolia.
Dava-lhe um certo alento, pois,
pelo avesso, se reconhecia.
Algo como uma identidade,
um jeito de ser só dele
pareceu-lhe que dali nascia.
Recompensado por essa quase dor,
passou a sentir uma nostalgia de si,
fazendo-se objeto oculto do próprio amor.
Deste modo, as insipientes vagas
da tristeza foram romantizadas,
como o aconchego que se encontra
sob as cobertas no rigor de uma tarde gelada.
Sem cuidados, a engrenagem se pôs a girar
sobre o pequeno dente quebrado...
Mais tarde, já feito adulto,
por via torta, acabou por superar as dúvidas
de si mesmo e as dúvidas do mundo,
soterrando tudo junto
na cova que conseguiu cavar mais fundo.
Em um único gesto, diluiu a linha divisória
entre a sanidade e a loucura,
seco de afetos, ressecado de ternuras.
Encaixotou o passado e,
ao desistir do presente, suicidou futuros.
Da última vez que o vi,
trazia o fogo dos olhos morto.
Estava mais para um corpo oco,
nada dentro além do reto e do estômago.
De que lhe valeria, agora,
o par de ases escondido na cartola
ou a vaga crença de que algum dia
ainda tocaria o ouro, o incenso e a mirra,
trazidos de um oriente que jamais veria?
Como tantos outros,
sucumbiu ao mal de seu tempo,
que varre a vontade dos homens
como as areias são varridas pelo vento.
E pensar que delirou passarolas
coletando vontades mundo a fora,
entre Baltazares, Sete Sóis
e Blimundas, Sete Luas.
Pelo que consta, consumiu
as forças que ainda tinha
negando qualquer ação ou movimento
naquele seu último dia de tormento.
Quedado e imóvel, foi encontrado.
Assim me foi contado.
Como alguém que, sem bússola,
água ou qualquer útil objeto,
se vai a passos largos, rumo reto,
pelo mais tórrido dos desertos.
Simplesmente, desistiu!
Ainda há de se deixar de lado
a intrincada luneta das teorias
que, à distância, ensaia
foco no fenômeno humano
para, com uma simples lupa
focar no trágico de cada homem,
com número de previdência, rosto,
nome e sobrenome
e, quem sabe, assim, sanar os danos
que resultam do jogo das escolhas
que já vêm marcadas
como cartas de um baralho viciado.
Eliseo Martinez
11.08.2019
Desistência
Tudo começou quando, ainda jovem,
ao ser seduzido, enamorou-se da melancolia.
Dava-lhe um certo alento, pois,
pelo avesso, se reconhecia.
Algo como uma identidade,
um jeito de ser só dele
pareceu-lhe que dali nascia.
Recompensado por essa quase dor,
passou a sentir uma nostalgia de si,
fazendo-se objeto oculto do próprio amor.
Deste modo, as insipientes vagas
da tristeza foram romantizadas,
como o aconchego que se encontra
sob as cobertas no rigor de uma tarde gelada.
Sem cuidados, a engrenagem se pôs a girar
sobre o pequeno dente quebrado...
Mais tarde, já feito adulto,
por via torta, acabou por superar as dúvidas
de si mesmo e as dúvidas do mundo,
soterrando tudo junto
na cova que conseguiu cavar mais fundo.
Em um único gesto, diluiu a linha divisória
entre a sanidade e a loucura,
seco de afetos, ressecado de ternuras.
Encaixotou o passado e,
ao desistir do presente, suicidou futuros.
Da última vez que o vi,
trazia o fogo dos olhos morto.
Estava mais para um corpo oco,
nada dentro além do reto e do estômago.
De que lhe valeria, agora,
o par de ases escondido na cartola
ou a vaga crença de que algum dia
ainda tocaria o ouro, o incenso e a mirra,
trazidos de um oriente que jamais veria?
Como tantos outros,
sucumbiu ao mal de seu tempo,
que varre a vontade dos homens
como as areias são varridas pelo vento.
E pensar que delirou passarolas
coletando vontades mundo a fora,
entre Baltazares, Sete Sóis
e Blimundas, Sete Luas.
Pelo que consta, consumiu
as forças que ainda tinha
negando qualquer ação ou movimento
naquele seu último dia de tormento.
Quedado e imóvel, foi encontrado.
Assim me foi contado.
Como alguém que, sem bússola,
água ou qualquer útil objeto,
se vai a passos largos, rumo reto,
pelo mais tórrido dos desertos.
Simplesmente, desistiu!
Ainda há de se deixar de lado
a intrincada luneta das teorias
que, à distância, ensaia
foco no fenômeno humano
para, com uma simples lupa
focar no trágico de cada homem,
com número de previdência, rosto,
nome e sobrenome
e, quem sabe, assim, sanar os danos
que resultam do jogo das escolhas
que já vêm marcadas
como cartas de um baralho viciado.
Eliseo Martinez
11.08.2019
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
257.
Em tempos que a humanidade
se vê a dar passos atrás,
o que há de mais dramático
do que se pôr ao encalço
da excomungada coerência?
Pensar claro, é claro que faz doer.
Mas, enquanto pensar,
até um asno pode fazer,
raciocinar é coisa bem diferente,
é um trabalho que damos à mente,
é o que realiza com força suficiente
a potência de um ser humano
que, antes, apenas encontrava-se ali,
menor do que ele mesmo,
empenhado em perpetuar
a banalidade do mal,
sem ao menos dar-se por tal.
Eliseo Martinez
07.08.2019
Em tempos que a humanidade
se vê a dar passos atrás,
o que há de mais dramático
do que se pôr ao encalço
da excomungada coerência?
Pensar claro, é claro que faz doer.
Mas, enquanto pensar,
até um asno pode fazer,
raciocinar é coisa bem diferente,
é um trabalho que damos à mente,
é o que realiza com força suficiente
a potência de um ser humano
que, antes, apenas encontrava-se ali,
menor do que ele mesmo,
empenhado em perpetuar
a banalidade do mal,
sem ao menos dar-se por tal.
Eliseo Martinez
07.08.2019
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