170.
O paradeiro da paz
Que seriam dos dias
sem seus pequenos poros de alegria,
arquipélagos que acolhem náufragos
no mar revolto sob ventania?
Que a paz é coisa rara,
só os tolos não sabem.
A danada se faz difícil
de ser encontrada.
No entanto, caprichosa,
deixa pistas aos escolhidos,
que a têm pela vida perseguido.
Não falta quem relate
que a dita é vista sempre
a se espraiar pelos corpos
que, a pouco, se aninharam
selvagens, faceiros,
recompensados pelo entrevero.
Alguns, dando envergadura
as asas do pensamento,
em voos mais altos,
filosofam, sem constrangimento:
é neste breve cessar das inquietudes,
que bicho e gente,
grávidos de pura vida,
tocam a paz, a paz da morte,
sem futuro, sem passado,
só agora, de repente.
Eliseo Martinez
26.12.2017
Eliseo A. C. G. Martinez
Blog de Imagens e Rimas Quebradas - Eliseo A.C.G. Martinez
" Caminhante, não há caminho, o caminho se faz a andar."
Antônio Machado
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
domingo, 24 de dezembro de 2017
169.
Das raspas de afeto
espalhadas com os trancos do trajeto,
esquecidas pelos cantos,
o chamado foi respondido
como eco retorcido.
Desiste de mim.
Desiste de um nós,
se achar certo.
Mas não desiste de ti,
te mantêm perto.
Que o mundo se move,
até eu sei.
Só para ti, sou imovível,
meu bem.
Por mais que ande mundo afora,
estou sempre aqui,
difícil é não me encontrar,
sem hora ou lugar.
Quanto a mim, bem ou mal,
desisto de nada.
Muito menos da parte
que me foi mutilada.
Te desejo o melhor Natal
que puder ter, cria assustada.
E que melhor presente a se dar
que sair a busca da paz
represada nos poros dos dias,
que se há de encontrar?
Eliseo Martinez
24.12.2017
Das raspas de afeto
esquecidas pelos cantos,
o chamado foi respondido
como eco retorcido.
Desiste de mim.
Desiste de um nós,
se achar certo.
Mas não desiste de ti,
te mantêm perto.
Que o mundo se move,
até eu sei.
Só para ti, sou imovível,
meu bem.
Por mais que ande mundo afora,
estou sempre aqui,
difícil é não me encontrar,
sem hora ou lugar.
Quanto a mim, bem ou mal,
desisto de nada.
Muito menos da parte
que me foi mutilada.
Te desejo o melhor Natal
que puder ter, cria assustada.
E que melhor presente a se dar
que sair a busca da paz
represada nos poros dos dias,
que se há de encontrar?
Eliseo Martinez
24.12.2017
domingo, 10 de dezembro de 2017
168.
Carta de um pai ao filho
Escuta, filho! Presta a atenção!
Faz tempo que não falamos,
que não nos abancamos num balcão.
Somos ramos de um mesmo talo,
o que nos permitiram os tropeços
e atalhos que a vida nos reservou.
Com a distância criada entre nós,
é como se o fim tivesse de vir antes.
Como se o tempo que nos resta
não fosse sempre pouco.
Senta aqui perto.
Quero ver como tu está,
saber de ti, te ouvir falar.
Me faz entender porque é difícil um "olá".
Ao afirmar, não há que de pronto negar.
Jamais deveríamos nos perder,
sem mais, nos deixar passar.
Por certo, teu pai nada tem de perfeito,
mas já está crescido, filho,
pra saber que tampouco
tu é assim deste jeito.
Todos nos tornamos outro ao caminhar
e, lado a lado, se é mais forte ao andar.
Meus erros tanto te poderiam ajudar.
Talvez te faça falta mais tarde,
como a mim, quando faço de conta
que não estou ai pra saudade,
quando tento virar do avesso
a falta que tu me faz.
Se não é difícil esquecer que é
da raiz que, lá no alto, surge a flor,
tu é a parte que fica depois
que eu me for.
Eliseo Martinez
10.12.2017
Carta de um pai ao filho
Escuta, filho! Presta a atenção!
Faz tempo que não falamos,
que não nos abancamos num balcão.
Somos ramos de um mesmo talo,
o que nos permitiram os tropeços
e atalhos que a vida nos reservou.
Com a distância criada entre nós,
é como se o fim tivesse de vir antes.
Como se o tempo que nos resta
não fosse sempre pouco.
Senta aqui perto.
Quero ver como tu está,
saber de ti, te ouvir falar.
Me faz entender porque é difícil um "olá".
Ao afirmar, não há que de pronto negar.
Jamais deveríamos nos perder,
sem mais, nos deixar passar.
Por certo, teu pai nada tem de perfeito,
mas já está crescido, filho,
pra saber que tampouco
tu é assim deste jeito.
Todos nos tornamos outro ao caminhar
e, lado a lado, se é mais forte ao andar.
Meus erros tanto te poderiam ajudar.
Talvez te faça falta mais tarde,
como a mim, quando faço de conta
que não estou ai pra saudade,
quando tento virar do avesso
a falta que tu me faz.
Se não é difícil esquecer que é
da raiz que, lá no alto, surge a flor,
tu é a parte que fica depois
que eu me for.
Eliseo Martinez
10.12.2017
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
167.
Uns e outros
Existem os poetas e os críticos,
que se debruçam sobre seus versos.
Não se confundem ambos
nas lides que fazem,
nos fluídos que vertem.
Mente quem diz que os poetas
são magos da harmonia,
dotados de uma mágica sintonia.
Eles são artífices que saem
em busca das cordas certas,
às vezes as tocam, fazem o parto,
trazem à luz do dia.
Os outros traduzem,
explicam, devassam,
jamais se rasgam e, não raro,
são egos ressentidos que as matam.
Eliseo Martinez
05.12.2017
Uns e outros
Existem os poetas e os críticos,
que se debruçam sobre seus versos.
Não se confundem ambos
nas lides que fazem,
nos fluídos que vertem.
Mente quem diz que os poetas
são magos da harmonia,
dotados de uma mágica sintonia.
Eles são artífices que saem
em busca das cordas certas,
às vezes as tocam, fazem o parto,
trazem à luz do dia.
Os outros traduzem,
explicam, devassam,
jamais se rasgam e, não raro,
são egos ressentidos que as matam.
Eliseo Martinez
05.12.2017
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
165.
Ideias e pessoas
Novelo fiado da lã do carneiro dourado,
labirinto, rastro, Minotauro,
heróis, velas brancas, velas negras,
harpias, faunos, sereias...
Retrós de avós girando na máquina de costura,
costura sons no veludo da noite escura.
No pequeno cômodo, ao lado,
o sono nos puxando pras falésias do travesseiro.
Sob a luz fraca do candeeiro,
brotam trirremes, serpentes marinhas,
argonautas, hoplitas guerreiros...
Tão fácil amar ideias,
tão penoso amar pessoas!
Eliseo Martinez
23.11.2017
Ideias e pessoas
Novelo fiado da lã do carneiro dourado,
labirinto, rastro, Minotauro,
heróis, velas brancas, velas negras,
harpias, faunos, sereias...
Retrós de avós girando na máquina de costura,
costura sons no veludo da noite escura.
No pequeno cômodo, ao lado,
o sono nos puxando pras falésias do travesseiro.
Sob a luz fraca do candeeiro,
brotam trirremes, serpentes marinhas,
argonautas, hoplitas guerreiros...
Tão fácil amar ideias,
tão penoso amar pessoas!
Eliseo Martinez
23.11.2017
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
164.
O que nos leva pela mão
Na ponta mais aguda do presente,
o agora, sempre instável e reticente,
não parece que sejamos melhores
do que já fomos no longo rastro
dos tantos passos dados.
Criamos paraísos fictícios,
fortalezas de papelão, artifícios,
na inútil tentativa de dar norte,
vencido medo e má-sorte,
aos rumos da caminhada,
que dê felicidade aos homens
de justa vontade.
Que mais é o belo, a verdade,
a justiça, o amor, a liberdade...
senão mitos partilhados?
Pontos de uma frágil rede de significados?
Objetivos inventados, só existentes
na imaginação de toda a gente,
surgidos da estranha crença
no que jamais existiu na natureza.
Paliçada de nevoeiro que emerge
das densas névoas da alma humana,
a demarcar insólita fronteira
entre o caos e a certeza insana.
Há algo mais além da ilusão
que, desde o início, nos puxa pela mão?
Da fugacidade de um beijo, tantos desejos,
às vontades que desfraldam bandeiras,
com todo o sangue e ódio que vertem delas?
Quando o fulgor da visão cede ao opaco desencanto,
já não nos serve o ardor das miragens
que embalaram nossos cantos mais sagrados.
Antes dos invernos que hibernam corações,
resistindo ao torpor, apurando ouvidos,
pode-se escutar, ao longe, o mantra do tempo
trazido nas asas ligeiras do vento:
"tudo flui, tudo foi ..."
Eliseo Martinez
22.11.2017
O que nos leva pela mão
Na ponta mais aguda do presente,
o agora, sempre instável e reticente,
não parece que sejamos melhores
do que já fomos no longo rastro
dos tantos passos dados.
Criamos paraísos fictícios,
fortalezas de papelão, artifícios,
na inútil tentativa de dar norte,
vencido medo e má-sorte,
aos rumos da caminhada,
que dê felicidade aos homens
de justa vontade.
Que mais é o belo, a verdade,
a justiça, o amor, a liberdade...
senão mitos partilhados?
Pontos de uma frágil rede de significados?
Objetivos inventados, só existentes
na imaginação de toda a gente,
surgidos da estranha crença
no que jamais existiu na natureza.
Paliçada de nevoeiro que emerge
das densas névoas da alma humana,
a demarcar insólita fronteira
entre o caos e a certeza insana.
Há algo mais além da ilusão
que, desde o início, nos puxa pela mão?
Da fugacidade de um beijo, tantos desejos,
às vontades que desfraldam bandeiras,
com todo o sangue e ódio que vertem delas?
Quando o fulgor da visão cede ao opaco desencanto,
já não nos serve o ardor das miragens
que embalaram nossos cantos mais sagrados.
Antes dos invernos que hibernam corações,
resistindo ao torpor, apurando ouvidos,
pode-se escutar, ao longe, o mantra do tempo
trazido nas asas ligeiras do vento:
"tudo flui, tudo foi ..."
Eliseo Martinez
22.11.2017
segunda-feira, 20 de novembro de 2017
163.
O Saber de Saber-se Menos
Orgulhosos, desvelamos realidades exteriores,
polimos elmos, escudos, foices.
Afiamos as longas adagas,
empunhamos lanças sob brados dos camaradas,
enquanto, sem dar-nos conta,
estendem-se véus sobre a pele das almas.
Céleres, desbravamos a natureza do mundo físico
e, passo a passo, sabemos menos de nós mesmos,
tateando pelo que nos vai no íntimo.
No início, com algum recompensado esforço,
deciframos os talos com os quais nos deparamos.
Sabemos das espessuras, dos cheiros, das texturas,
vendo-os ramificar, mais complexos se tornando.
Desconfiados das certezas que nos guiam,
seguimos um tanto confusos em rumo curvo
ao ver que se ramificam ainda, mais à frente.
E, assim, outras tantas, até que nos vemos
entre o emaranhado da floresta que nos cerca,
armados das poucas verdades que restam perto.
É neste preciso momento
que se inverte o curso da jornada
do imbecil ao entendimento.
É quando o Orgulho convoca o barman:
"Esta taça de cicuta vem ou não vem?"
Eliseo Martinez
20.11.2017
O Saber de Saber-se Menos
Orgulhosos, desvelamos realidades exteriores,
polimos elmos, escudos, foices.
Afiamos as longas adagas,
empunhamos lanças sob brados dos camaradas,
enquanto, sem dar-nos conta,
estendem-se véus sobre a pele das almas.
Céleres, desbravamos a natureza do mundo físico
e, passo a passo, sabemos menos de nós mesmos,
tateando pelo que nos vai no íntimo.
No início, com algum recompensado esforço,
deciframos os talos com os quais nos deparamos.
Sabemos das espessuras, dos cheiros, das texturas,
vendo-os ramificar, mais complexos se tornando.
Desconfiados das certezas que nos guiam,
seguimos um tanto confusos em rumo curvo
ao ver que se ramificam ainda, mais à frente.
E, assim, outras tantas, até que nos vemos
entre o emaranhado da floresta que nos cerca,
armados das poucas verdades que restam perto.
É neste preciso momento
que se inverte o curso da jornada
do imbecil ao entendimento.
É quando o Orgulho convoca o barman:
"Esta taça de cicuta vem ou não vem?"
Eliseo Martinez
20.11.2017
terça-feira, 17 de outubro de 2017
162.
As palavras não ditas
Ao contrário das parecenças, não era de muitas culpas
nem, tão pouco, de graves desavenças.
A bem da verdade,
pela oportuna distância mantida dos pares.
O que, de todo, não é antídoto infalível aos desafetos.
Ônus dos que insistem olhar com olhos próprios,
habituados ao que os dias têm de incertos.
Depara-se, na vida, com gente de todo o tipo,
farto sendo o cardápio de virtudes e vícios
dos que surgem pelo caminho, sem augúrios ou aviso.
No curso do percurso emergem inquietudes
ao pensar nos que, ao partirem,
deixaram-lhe no fio da existência
uns nós mal arrumados na consciência.
Àqueles a quem faltou dizer:
"apesar de tudo, grato pelo resto todo".
Por algum motivo, impedido de reconhecer,
via mutiladas certas causas
que fizeram dele, ele mesmo.
Sentia parte da raiz sendo-lhe arrancada,
deixando a copa, ao alto, ameaçada.
Tinha em mente os que, ao ensaiar despedidas,
pela soma dos anos, véus da mente ou enguiço do corpo,
estavam na fila, bem à frente,
prestes ao mergulho no escuro, sem retorno.
Sem, ao menos, um último cruzar de olhares,
que pudesse traduzir palavras difíceis de serem ditas.
E, mais adiante dos da frente, dois velhos quase parentes,
sem saber, prestes a desaparecer para sempre...
Eliseo Martinez
17.10.2017
As palavras não ditas
Ao contrário das parecenças, não era de muitas culpas
nem, tão pouco, de graves desavenças.
A bem da verdade,
pela oportuna distância mantida dos pares.
O que, de todo, não é antídoto infalível aos desafetos.
Ônus dos que insistem olhar com olhos próprios,
habituados ao que os dias têm de incertos.
Depara-se, na vida, com gente de todo o tipo,
farto sendo o cardápio de virtudes e vícios
dos que surgem pelo caminho, sem augúrios ou aviso.
No curso do percurso emergem inquietudes
ao pensar nos que, ao partirem,
deixaram-lhe no fio da existência
uns nós mal arrumados na consciência.
Àqueles a quem faltou dizer:
"apesar de tudo, grato pelo resto todo".
Por algum motivo, impedido de reconhecer,
via mutiladas certas causas
que fizeram dele, ele mesmo.
Sentia parte da raiz sendo-lhe arrancada,
deixando a copa, ao alto, ameaçada.
Tinha em mente os que, ao ensaiar despedidas,
pela soma dos anos, véus da mente ou enguiço do corpo,
estavam na fila, bem à frente,
prestes ao mergulho no escuro, sem retorno.
Sem, ao menos, um último cruzar de olhares,
que pudesse traduzir palavras difíceis de serem ditas.
E, mais adiante dos da frente, dois velhos quase parentes,
sem saber, prestes a desaparecer para sempre...
Eliseo Martinez
17.10.2017
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
161.
Da Natureza Humana
De todas as tolices já ditas
em defesa de uma suposta natureza humana,
pouco se mostrou convincente
àqueles que a pensam entre a gente.
Mas, nada é possível afirmar
do que seria a essência dos sapiens?
Confirmado a cada instante de sua existência,
o pensar e agir dos homens,
a um só tempo, é fruto e semente,
denunciando o contraditório neles,
da nascente a vertente.
Na busca incessante para superar o que,
desde sempre, veio inscrito em seus genes,
fez-se a história da raça, o cômico e o drama
das vidas todas que a tramam.
Condenados ao conflito, quer dentro,
quer no que vivem mundo afora,
muitas são as vontades que neles afloram.
Como locomotivas que rodam
os mesmos trilhos nos dois sentidos.
Nada mais sensato que refletir nas escolhas
a que cada homem se viu obrigado,
antes de, a brados de "J'accuse", o ter sentenciado.
Os caminhos por onde embretam, as lutas que lutam,
são frutos que colhem do mesmo
e, tão divergente, mundo, onde um é muitos.
Ante a aposta do vago plano civilizatório
à busca do convergente entre as gentes,
instalou-se o mal-estar difuso no âmago dos homens,
domesticados, obrigados a negar
que o mesmo objeto que lhes é posto à frente
é, para cada qual, diferente.
A verdade é mais que o incontestável dado.
É olhar dissidente.
É a representação do vivenciado,
num tempo e num espaço determinado.
Eliseo Martinez
12.10.2017
Da Natureza Humana
De todas as tolices já ditas
em defesa de uma suposta natureza humana,
pouco se mostrou convincente
àqueles que a pensam entre a gente.
Mas, nada é possível afirmar
do que seria a essência dos sapiens?
Confirmado a cada instante de sua existência,
o pensar e agir dos homens,
a um só tempo, é fruto e semente,
denunciando o contraditório neles,
da nascente a vertente.
Na busca incessante para superar o que,
desde sempre, veio inscrito em seus genes,
fez-se a história da raça, o cômico e o drama
das vidas todas que a tramam.
Condenados ao conflito, quer dentro,
quer no que vivem mundo afora,
muitas são as vontades que neles afloram.
Como locomotivas que rodam
os mesmos trilhos nos dois sentidos.
Nada mais sensato que refletir nas escolhas
a que cada homem se viu obrigado,
antes de, a brados de "J'accuse", o ter sentenciado.
Os caminhos por onde embretam, as lutas que lutam,
são frutos que colhem do mesmo
e, tão divergente, mundo, onde um é muitos.
Ante a aposta do vago plano civilizatório
à busca do convergente entre as gentes,
instalou-se o mal-estar difuso no âmago dos homens,
domesticados, obrigados a negar
que o mesmo objeto que lhes é posto à frente
é, para cada qual, diferente.
A verdade é mais que o incontestável dado.
É olhar dissidente.
É a representação do vivenciado,
num tempo e num espaço determinado.
Eliseo Martinez
12.10.2017
sábado, 7 de outubro de 2017
160.
Grão do Humano
Arde no coração dos homens
o germe de contradições insolúveis,
que os consomem.
Pobres dos que acham que viver é fácil.
Pelo intrínseco dos conflitos
que lhes brotam desde o início,
se movem os indivíduos,
à busca da paz banida
do mais fundo de seu íntimo.
A coexistência entre luz e trevas,
comédia e tragédia,
insaciáveis desejos e medo da perda,
foi o motor que nos conduziu
ao topo da cadeia,
alimentados de mitos e crenças,
sem resguardo de fronteiras.
Entre a promessa de vida
e o irredutível da morte,
negociamos ilusórios caminhos,
aplacando medos à busca de norte,
levados por miragens de felicidade
marcadas no mapa dos descaminhos.
A nostalgia, nos explica bem.
Esta saudade de algo impreciso,
nunca, até então, vivido,
que insiste em deixar na boca
o gosto do vinho não bebido.
Talvez nosso resumo mais conciso
não seja outro, senão o encontrado
no controverso grão do homem.
Talvez a isso se deva dar o nome
de natureza humana.
Eliseo Martinez
07.10.2017
Grão do Humano
Arde no coração dos homens
o germe de contradições insolúveis,
que os consomem.
Pobres dos que acham que viver é fácil.
Pelo intrínseco dos conflitos
que lhes brotam desde o início,
se movem os indivíduos,
à busca da paz banida
do mais fundo de seu íntimo.
A coexistência entre luz e trevas,
comédia e tragédia,
insaciáveis desejos e medo da perda,
foi o motor que nos conduziu
ao topo da cadeia,
alimentados de mitos e crenças,
sem resguardo de fronteiras.
Entre a promessa de vida
e o irredutível da morte,
negociamos ilusórios caminhos,
aplacando medos à busca de norte,
levados por miragens de felicidade
marcadas no mapa dos descaminhos.
A nostalgia, nos explica bem.
Esta saudade de algo impreciso,
nunca, até então, vivido,
que insiste em deixar na boca
o gosto do vinho não bebido.
Talvez nosso resumo mais conciso
não seja outro, senão o encontrado
no controverso grão do homem.
Talvez a isso se deva dar o nome
de natureza humana.
Eliseo Martinez
07.10.2017
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
159.
Pequena Dialética do Reconhecimento
Nestes tempos movediços, de câmbio dos paradigmas,
virtualiza-se o real e o cotidiano arranca os véus da dialética,
taciturna viúva que, de perto, tão clara e jovem se insinua.
Veja-se os sentimentos, no caso, o RECONHECIMENTO.
Sob auspícios da literatura e do cinema,
a arte faz-se sítio arqueológico, restaurando fósseis extintos,
que já foram caros, aos de baixo e aos de cima.
ao escavar tesouros de lealdade, apreço, honra e coragem.
Depois de agonizar no solo infértil dos desencontros,
eis que, justo o que restabelece o já conhecido, jaz morto.
Era o que, no passado, repunha, lado à lado,
paralelas que se perdiam por ai, dissociadas.
Mais abrangente que a pontual banalidade do mal,
é o mal da banalização geral,
útil em dias velozes ao abandono do que nos pesa nos ombros,
tido, na pressa, como sem valia ou murcho de lucro.
Típico sobrevivente contra à corrente,
o RECONHECIMENTO foi sentenciado à morte
pelo esquecimento e, talvez, por nossa falta de sorte.
Extinto do catálogo do sentir humano, por puro desuso,
retorna o fantasma de dentro dos livros, no plano das telas,
nas falas das trupes que se vão pelos palcos do mundo,
destinados, agora, a preencher a lacuna.
Restaurado pela arte - virtualizado, é verdade -, o que foi banido,
enternece corações sem aviso,
relembrados da perda, nas palavras e imagens
a denunciar sua ausência.
Sentir falta, é o que basta para que volte a pauta,
retornando, algum dia, ao real dos mortais
- não antes de virar cult, feeling intelectual -,
revivido por gente que se olha no rosto,
pega na mão, dá beijo na boca,
sentindo que tem de expressar o que sente,
com a esquecida gratidão reverente.
Completada a nova volta em espiral,
segue o dialético movimento,
sem solução final.
Eliseo Martinez
05.10.2017
Pequena Dialética do Reconhecimento
Nestes tempos movediços, de câmbio dos paradigmas,
virtualiza-se o real e o cotidiano arranca os véus da dialética,
taciturna viúva que, de perto, tão clara e jovem se insinua.
Veja-se os sentimentos, no caso, o RECONHECIMENTO.
Sob auspícios da literatura e do cinema,
a arte faz-se sítio arqueológico, restaurando fósseis extintos,
que já foram caros, aos de baixo e aos de cima.
ao escavar tesouros de lealdade, apreço, honra e coragem.
Depois de agonizar no solo infértil dos desencontros,
eis que, justo o que restabelece o já conhecido, jaz morto.
Era o que, no passado, repunha, lado à lado,
paralelas que se perdiam por ai, dissociadas.
Mais abrangente que a pontual banalidade do mal,
é o mal da banalização geral,
útil em dias velozes ao abandono do que nos pesa nos ombros,
tido, na pressa, como sem valia ou murcho de lucro.
Típico sobrevivente contra à corrente,
o RECONHECIMENTO foi sentenciado à morte
pelo esquecimento e, talvez, por nossa falta de sorte.
Extinto do catálogo do sentir humano, por puro desuso,
retorna o fantasma de dentro dos livros, no plano das telas,
nas falas das trupes que se vão pelos palcos do mundo,
destinados, agora, a preencher a lacuna.
Restaurado pela arte - virtualizado, é verdade -, o que foi banido,
enternece corações sem aviso,
relembrados da perda, nas palavras e imagens
a denunciar sua ausência.
Sentir falta, é o que basta para que volte a pauta,
retornando, algum dia, ao real dos mortais
- não antes de virar cult, feeling intelectual -,
revivido por gente que se olha no rosto,
pega na mão, dá beijo na boca,
sentindo que tem de expressar o que sente,
com a esquecida gratidão reverente.
Completada a nova volta em espiral,
segue o dialético movimento,
sem solução final.
Eliseo Martinez
05.10.2017
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
158.
Tenda Brasil
De súbito, foi resgatado do lado de dentro,
metido, que estava, numa fenda do pensamento.
Entre os outros, já do lado de fora, a náusea!
Enfim, ao jogo, sempre se volta.
Os arautos, estes sócios que ajudam a tocar o negócio,
no pregão das velhas novas da última hora.
Ao picadeiro central, em habituais sobressaltos,
segue o espetáculo, que nunca para,
alheio ao silenciar dos aplausos.
Ilusionistas, trapezistas, contorcionistas, equilibristas...
Bichos e artistas de todo o tipo.
Piruetas, caretas e o terror oculto
no sorriso pintado no rosto de cada vulto.
Desafinam os músicos. Gritam os micos.
Sob a lona estendida, o respeitável público.
Caras aflitas, o mijo contido.
Pouco resta do que os chamou para a festa.
O mal-estar paira no ar viciado que resta.
Aos poucos, sem darem conta, a indiferença
abandona a seleta audiência.
Afiam-se vaias; os bravos, pelo chão,
pisoteados entre as pipocas e migalhas.
Como que suspensa num parênteses,
a maior parte da gente, ainda espera algo:
bufo ou trágico? Ninguém sabe.
Observam, entendendo pouco mais que nada
dos gestos, das marcas, das falas,
que flutuam, como tudo,
no mais obscuro absurdo.
Não há busca. Só o instinto pulsa.
No fogo, fervilham feijões na panela de pressão.
À distância segura,
o cenário todo é supervisionado
pelo supremo colegiado, os mais escolados
de toda a trupe de bufões paramentados.
Fora da cena, os donos da tenda
sonham ver o circo pegar fogo,
mas nada os fará pôr a perder a empresa,
que lhes estufa os bolsos e paga as despesas.
Vaca para ser ordenhada até a última gota
do leite que já esguicha adulterado.
Sentado ao lado, Nóis, o palhaço,
tem a boca e os olhos em visível descompasso.
Sem motivo sabido ou aviso emitido,
põe-se de pé, de chofre como um pontapé.
Um nariz vermelho é arremessado, primeiro.
E a multidão, sem muito pensar, altera o roteiro,
pondo ordem no pardieiro.
Eliseo Martinez
04.10.2017
Tenda Brasil
De súbito, foi resgatado do lado de dentro,
metido, que estava, numa fenda do pensamento.
Entre os outros, já do lado de fora, a náusea!
Enfim, ao jogo, sempre se volta.
Os arautos, estes sócios que ajudam a tocar o negócio,
no pregão das velhas novas da última hora.
Ao picadeiro central, em habituais sobressaltos,
segue o espetáculo, que nunca para,
alheio ao silenciar dos aplausos.
Ilusionistas, trapezistas, contorcionistas, equilibristas...
Bichos e artistas de todo o tipo.
Piruetas, caretas e o terror oculto
no sorriso pintado no rosto de cada vulto.
Desafinam os músicos. Gritam os micos.
Sob a lona estendida, o respeitável público.
Caras aflitas, o mijo contido.
Pouco resta do que os chamou para a festa.
O mal-estar paira no ar viciado que resta.
Aos poucos, sem darem conta, a indiferença
abandona a seleta audiência.
Afiam-se vaias; os bravos, pelo chão,
pisoteados entre as pipocas e migalhas.
Como que suspensa num parênteses,
a maior parte da gente, ainda espera algo:
bufo ou trágico? Ninguém sabe.
Observam, entendendo pouco mais que nada
dos gestos, das marcas, das falas,
que flutuam, como tudo,
no mais obscuro absurdo.
Não há busca. Só o instinto pulsa.
No fogo, fervilham feijões na panela de pressão.
À distância segura,
o cenário todo é supervisionado
pelo supremo colegiado, os mais escolados
de toda a trupe de bufões paramentados.
Fora da cena, os donos da tenda
sonham ver o circo pegar fogo,
mas nada os fará pôr a perder a empresa,
que lhes estufa os bolsos e paga as despesas.
Vaca para ser ordenhada até a última gota
do leite que já esguicha adulterado.
Sentado ao lado, Nóis, o palhaço,
tem a boca e os olhos em visível descompasso.
Sem motivo sabido ou aviso emitido,
põe-se de pé, de chofre como um pontapé.
Um nariz vermelho é arremessado, primeiro.
E a multidão, sem muito pensar, altera o roteiro,
pondo ordem no pardieiro.
Eliseo Martinez
04.10.2017
terça-feira, 3 de outubro de 2017
157.
Minuto de Fama
Ia pelo canto da calçada.
E já ia atrasado.
Acho que pensava...
Quem era, mesmo, o cara
que lambia o prato?
Dizem que, pelas manhãs,
saudava todo o santo dia
com o rito bizarro de um sonoro flato.
Putz!!! Sem mais, sou enquadrado
nas lentes da Globo.
Logo na Rua da Praia,
no meio do povo.
Que tralha! Era o que faltava!
Querem que fale algo que valha
do tal vivente que,
por uma dessas coincidências,
estava a lembrar e do qual ainda
se encontra gente que comente.
Prova da falta de assunto
que toma conta deste cu de mundo!
- Realmente, "conheci" o fulano
(é claro, omito o detalhe,
já que quando se fala,
aspas não servem pra nada).
- O que tenho a dizer sobre ele?
Bom! Digo que foi um hedonista,
além de ateu e pseudo-anarquista,
um pai distante,
o pior dos funcionários
já pagos pelo erário.
Quer saber? Digo mais:
Um promíscuo ordinário.
Foi, sim senhor.
Anota, aí.
E, se não bastasse,
um irreverente!
- Corta! Corta! Já basta!
É suficiente.
- Em que horário vai passá?
É no telejornal que vai dá?
Eliseo Martinez
02.10.2017
Minuto de Fama
Ia pelo canto da calçada.
E já ia atrasado.
Acho que pensava...
Quem era, mesmo, o cara
que lambia o prato?
Dizem que, pelas manhãs,
saudava todo o santo dia
com o rito bizarro de um sonoro flato.
Putz!!! Sem mais, sou enquadrado
nas lentes da Globo.
Logo na Rua da Praia,
no meio do povo.
Que tralha! Era o que faltava!
Querem que fale algo que valha
do tal vivente que,
por uma dessas coincidências,
estava a lembrar e do qual ainda
se encontra gente que comente.
Prova da falta de assunto
que toma conta deste cu de mundo!
- Realmente, "conheci" o fulano
(é claro, omito o detalhe,
já que quando se fala,
aspas não servem pra nada).
- O que tenho a dizer sobre ele?
Bom! Digo que foi um hedonista,
além de ateu e pseudo-anarquista,
um pai distante,
o pior dos funcionários
já pagos pelo erário.
Quer saber? Digo mais:
Um promíscuo ordinário.
Foi, sim senhor.
Anota, aí.
E, se não bastasse,
um irreverente!
- Corta! Corta! Já basta!
É suficiente.
- Em que horário vai passá?
É no telejornal que vai dá?
Eliseo Martinez
02.10.2017
domingo, 1 de outubro de 2017
156.
Prefiro as Somas
Dizer adeus é um aprendizado
que não me dou a aprender.
Sem que o saibam,
me fico pelas coisas, pessoas, lugares,
que passam sem passar.
Se há o que se escolha,
também há o que
se enrosca no que somos.
Até que as somos.
E, assim, nos vamos.
É como entendo que se deva ir.
Feito jubartes cruzando os mares,
se reconhecendo nas verrugas que trazem.
Eliseo Martinez
01.10.2017
Prefiro as Somas
Dizer adeus é um aprendizado
que não me dou a aprender.
Sem que o saibam,
me fico pelas coisas, pessoas, lugares,
que passam sem passar.
Se há o que se escolha,
também há o que
se enrosca no que somos.
Até que as somos.
E, assim, nos vamos.
É como entendo que se deva ir.
Feito jubartes cruzando os mares,
se reconhecendo nas verrugas que trazem.
Eliseo Martinez
01.10.2017
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
155.
E o Real, o que é?
Tudo se resume no frágil lume de uma vela
oscilando ao ar da noite fria,
que vaza entre as frestas da janela.
Da tênue luz que emana do mais obscuro
dos seres à profunda escuridão
que ronda o mais puro dos corações,
que já pulsou em peito humano.
O que nos é difícil conceber,
deuses que nos tornamos,
em pleno exílio de egos
em caravana pelos desertos,
é que, ao fim, tudo se iguala,
e o que move a mente,
inquieta, que seja, ou silente,
não é mais que a ilusão,
de que é feita a alma de toda a gente.
O que é real é mais que a carne,
o pau ou o metal.
É outra coisa além do que a tribo toda
ouve, vê ou entoa,
reunida em torno do fogo,
à beira da lagoa.
São seus sonhos,
somados ao delírio que,
na solidão de cada um de seus entes,
furtivamente ecoa.
Eliseo Martinez
22.09.2017
E o Real, o que é?
Tudo se resume no frágil lume de uma vela
oscilando ao ar da noite fria,
que vaza entre as frestas da janela.
Da tênue luz que emana do mais obscuro
dos seres à profunda escuridão
que ronda o mais puro dos corações,
que já pulsou em peito humano.
O que nos é difícil conceber,
deuses que nos tornamos,
em pleno exílio de egos
em caravana pelos desertos,
é que, ao fim, tudo se iguala,
e o que move a mente,
inquieta, que seja, ou silente,
não é mais que a ilusão,
de que é feita a alma de toda a gente.
O que é real é mais que a carne,
o pau ou o metal.
É outra coisa além do que a tribo toda
ouve, vê ou entoa,
reunida em torno do fogo,
à beira da lagoa.
São seus sonhos,
somados ao delírio que,
na solidão de cada um de seus entes,
furtivamente ecoa.
Eliseo Martinez
22.09.2017
domingo, 17 de setembro de 2017
154.
Grão dos Dias
Por uma única guia de vida,
se enfiam díspares grãos de dia.
Dias que se vive
e aqueles que sobrevivemos,
menos livres.
Prefiro os claros,
de um azul profundo,
que purificam mente e sentimentos.
Mas como relegar os nublados
e os cinzentos,
quando se mergulha para dentro?
Os que pertencem a nós mesmos
e, outros, em que alguém mais chega
e duplica a existência que temos.
Se uns são importantes,
pois neles, quem sabe, nos vemos,
os outros podem nos tornar relevantes
perante olhos estrangeiros,
a testemunhar que ainda estamos.
E, esse estar, desobrigado
de obeso contentamento,
já que cegos, não somos,
ao que se passa entorno.
Sendo este ou aquele,
o desafio é que o grão do dia
nos surpreenda inteiros
e, no descuido dos males,
assim sigamos mais fora
que dentro do carreiro,
nestes tempos que se fazem tão graves.
Eliseo Martinez
17.09.2017
Grão dos Dias
Por uma única guia de vida,
se enfiam díspares grãos de dia.
Dias que se vive
e aqueles que sobrevivemos,
menos livres.
Prefiro os claros,
de um azul profundo,
que purificam mente e sentimentos.
Mas como relegar os nublados
e os cinzentos,
quando se mergulha para dentro?
Os que pertencem a nós mesmos
e, outros, em que alguém mais chega
e duplica a existência que temos.
Se uns são importantes,
pois neles, quem sabe, nos vemos,
os outros podem nos tornar relevantes
perante olhos estrangeiros,
a testemunhar que ainda estamos.
E, esse estar, desobrigado
de obeso contentamento,
já que cegos, não somos,
ao que se passa entorno.
Sendo este ou aquele,
o desafio é que o grão do dia
nos surpreenda inteiros
e, no descuido dos males,
assim sigamos mais fora
que dentro do carreiro,
nestes tempos que se fazem tão graves.
Eliseo Martinez
17.09.2017
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
153.
Divino Toque
O que seria do que nos mata a fome
além de encher pratos de pastos sem sabores,
subtraído o que lhe dá gosto e aroma,
despertando gastronômicos ardores?
Depois de morta sede e gula,
o que se bebe ou come alimenta a alma,
mais do que ao estômago faz falta.
No reino dos prazeres, entende o súdito obediente,
que temperos dos mais variados têm lugar assegurado,
aguçando desejos frente ao posto sobre às mesas.
Muito do que nos levou ao mundo devemos a eles,
os condimentos, com toda a certeza.
Novos hábitos foram herdados de povos milenares,
quando europeus saíram-lhes à busca,
rumo às Índias, ainda hoje, misteriosas.
Se comparássemos os alimentos a uma morada,
partiríamos de uma casa feita de pedra,
do piso ao teto.
O que nutre, preparado ao descuido do afeto.
Mas, ao compormos o espaço, outra seria sua graça.
Sal, pimenta preta e alho-poró,
na casa, seriam as portas, as janelas e as cortinas sobre elas.
Manjericão, orégano e coentro,
os canos d'água, a luz dos cômodos e o banho quente.
Alecrim, cebolinha e cheiro verde,
as camas, as roupas nos armários e os quadros das paredes.
Erva doce, ervas finas, noz-moscada,
o ar e o aroma da tal casa,
já quase pronta para ser habitada.
Cebola, alho e pimenta vermelha,
a alma que faltava para lar, ser chamada.
À beira da lareira, estendidos sobre os tapetes,
dois corpos aquecidos,
cruzam taças de vinho tinto,
envelhecido nas mais finas especiarias,
completam o que, agora,
é mais que abrigo, é ninho.
Eliseo Martinez
08.09.2017
Divino Toque
O que seria do que nos mata a fome
além de encher pratos de pastos sem sabores,
subtraído o que lhe dá gosto e aroma,
despertando gastronômicos ardores?
Depois de morta sede e gula,
o que se bebe ou come alimenta a alma,
mais do que ao estômago faz falta.
No reino dos prazeres, entende o súdito obediente,
que temperos dos mais variados têm lugar assegurado,
aguçando desejos frente ao posto sobre às mesas.
Muito do que nos levou ao mundo devemos a eles,
os condimentos, com toda a certeza.
Novos hábitos foram herdados de povos milenares,
quando europeus saíram-lhes à busca,
rumo às Índias, ainda hoje, misteriosas.
Se comparássemos os alimentos a uma morada,
partiríamos de uma casa feita de pedra,
do piso ao teto.
O que nutre, preparado ao descuido do afeto.
Mas, ao compormos o espaço, outra seria sua graça.
Sal, pimenta preta e alho-poró,
na casa, seriam as portas, as janelas e as cortinas sobre elas.
Manjericão, orégano e coentro,
os canos d'água, a luz dos cômodos e o banho quente.
Alecrim, cebolinha e cheiro verde,
as camas, as roupas nos armários e os quadros das paredes.
Erva doce, ervas finas, noz-moscada,
o ar e o aroma da tal casa,
já quase pronta para ser habitada.
Cebola, alho e pimenta vermelha,
a alma que faltava para lar, ser chamada.
À beira da lareira, estendidos sobre os tapetes,
dois corpos aquecidos,
cruzam taças de vinho tinto,
envelhecido nas mais finas especiarias,
completam o que, agora,
é mais que abrigo, é ninho.
Eliseo Martinez
08.09.2017
domingo, 3 de setembro de 2017
152.
Com todas as mortes
que nos matam a cada dia,
desde as primeiras horas,
ao tirar a cabeça do travesseiro
até voltar a deita-la novamente,
à noite, sobre ele,
existe um mar de vida
que lambe e cicatriza
nossas feridas.
Vida bem mais que suficiente
para fazer valer à pena.
Ao que muito ajuda
reservar algum tempo
para pensar a morte,
entender que há termo,
fazendo-nos de fortes.
Até lá, tentar ser mais inteiros.
Ajudando a sorte
com a virtude que tivermos.
Se é que temos.
Eliseo Martinez
03.09.2017
Com todas as mortes
que nos matam a cada dia,
desde as primeiras horas,
ao tirar a cabeça do travesseiro
até voltar a deita-la novamente,
à noite, sobre ele,
existe um mar de vida
que lambe e cicatriza
nossas feridas.
Vida bem mais que suficiente
para fazer valer à pena.
Ao que muito ajuda
reservar algum tempo
para pensar a morte,
entender que há termo,
fazendo-nos de fortes.
Até lá, tentar ser mais inteiros.
Ajudando a sorte
com a virtude que tivermos.
Se é que temos.
Eliseo Martinez
03.09.2017
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
151.
Fim do Amor
Quando, enfim,
consumada a líquida primazia do presente,
sepulta-se o que já foi chamado "projeto"
e fabulosos obstáculos se levantam
entre os homens e seus afetos.
Pelo encolhimento do tempo,
reduzido a cada vez mais ínfimos
e velozes momentos,
carente de cuidados, paciência
e calado menos raso,
que o possa compor,
calhou-nos, por azar,
testemunhar o fim do amor.
Eliseo Martinez
31.08.2017
Fim do Amor
Quando, enfim,
consumada a líquida primazia do presente,
sepulta-se o que já foi chamado "projeto"
e fabulosos obstáculos se levantam
entre os homens e seus afetos.
Pelo encolhimento do tempo,
reduzido a cada vez mais ínfimos
e velozes momentos,
carente de cuidados, paciência
e calado menos raso,
que o possa compor,
calhou-nos, por azar,
testemunhar o fim do amor.
Eliseo Martinez
31.08.2017
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
150.
Magia do Tempo
A magia do tempo faz com que cada um
o perceba a seu jeito e, mesmo para esse,
se revele outro a cada momento.
A cosmologia dos físicos indaga
quando ele teria iniciado
e, antes do que move o cronômetro,
inaugurado o passado.
A cosmogonia dos mitos,
a milhares de anos, com pouco esforço,
obteve a resposta: Kronos,
o primeiro dos kronidas,
filho de Gaya e Urano,
que com o olhar curvo fundou a política,
foi seu patrono.
Há palavras pronunciadas,
que são como o cabo
que acomoda a mão à faca.
Mas o que importa é o gume afiado
da lâmina que corta.
Assim... penso sobre o tempo
e no acaso improvável da existência
em que me vejo suspenso.
Se o destino é o que define
tudo o que não conduzimos,
por qual jogo seriamos mais bem seduzidos
do que o dos dias que ainda nos cabem,
sem tédio, serem vividos?
Ser cronista do mal não me demite
do otimismo que partilho,
sempre perplexo ante ao fortuito bem de existir,
poder pensar e falar e sentir,
além de, às vezes, é claro, mentir.
Gozar do privilégio de ser num tempo e num espaço;
dar de cara com o vento ou cansar o cansaço.
Contudo, não compartilho da graça
de conceber qualquer próxima estada,
convicto do termo de nosso próprio tempo,
mesmo que, em outra escala,
a humanidade nos leve a todos
no rastro dos passos de sua breve jornada.
Eliseo Martinez
30.08.2017
Magia do Tempo
A magia do tempo faz com que cada um
o perceba a seu jeito e, mesmo para esse,
se revele outro a cada momento.
A cosmologia dos físicos indaga
quando ele teria iniciado
e, antes do que move o cronômetro,
inaugurado o passado.
A cosmogonia dos mitos,
a milhares de anos, com pouco esforço,
obteve a resposta: Kronos,
o primeiro dos kronidas,
filho de Gaya e Urano,
que com o olhar curvo fundou a política,
foi seu patrono.
Há palavras pronunciadas,
que são como o cabo
que acomoda a mão à faca.
Mas o que importa é o gume afiado
da lâmina que corta.
Assim... penso sobre o tempo
e no acaso improvável da existência
em que me vejo suspenso.
Se o destino é o que define
tudo o que não conduzimos,
por qual jogo seriamos mais bem seduzidos
do que o dos dias que ainda nos cabem,
sem tédio, serem vividos?
Ser cronista do mal não me demite
do otimismo que partilho,
sempre perplexo ante ao fortuito bem de existir,
poder pensar e falar e sentir,
além de, às vezes, é claro, mentir.
Gozar do privilégio de ser num tempo e num espaço;
dar de cara com o vento ou cansar o cansaço.
Contudo, não compartilho da graça
de conceber qualquer próxima estada,
convicto do termo de nosso próprio tempo,
mesmo que, em outra escala,
a humanidade nos leve a todos
no rastro dos passos de sua breve jornada.
Eliseo Martinez
30.08.2017
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
149.
Parque de Diversões
Fico aqui sentado,
olhando o jeito estranho
com que o mundo se move parado.
Os fios de vida enfiados de contas,
contas que contam o tempo,
medem o tanto de lumes, sorrisos;
o quanto de sombras, mochichos.
Chegam, passam, partem
para, já não sendo,
quem sabe restar, a prazo pouco,
nos que ficarem.
Anda a fila dos que se vão,
abrindo espaço para os que estão.
Sem entrar na conta os que ainda virão.
Tantas histórias, sonhos contidos,
tristezas por algum mal cometido,
alegrias, ilusórios conflitos...
Os tímidos pelos cantos, aos cochichos.
Vozes, gritos, alarido.
E, do que é feito este ruído
que me entra pelos ouvidos?
Palavras que falam de amor,
palavras que falam de morte
e, entre elas, perdão e ódio,
além da velha incrédula fé na sorte.
Coisas que falam de coisa alguma,
sem faltar o silêncio que se ouve,
o mais ensurdecedor dos barulhos.
Lembram o giro da roda do parque,
acompanhado pelos olhos atentos do palhaço
que, sob camadas de maquiagem,
oculta o que sabe
da verdadeira face
dos que encenam o ato;
do que de fato trata o espetáculo.
Eliseo Martinez
25.08.2017
Parque de Diversões
Fico aqui sentado,
olhando o jeito estranho
com que o mundo se move parado.
Os fios de vida enfiados de contas,
contas que contam o tempo,
medem o tanto de lumes, sorrisos;
o quanto de sombras, mochichos.
Chegam, passam, partem
para, já não sendo,
quem sabe restar, a prazo pouco,
nos que ficarem.
Anda a fila dos que se vão,
abrindo espaço para os que estão.
Sem entrar na conta os que ainda virão.
Tantas histórias, sonhos contidos,
tristezas por algum mal cometido,
alegrias, ilusórios conflitos...
Os tímidos pelos cantos, aos cochichos.
Vozes, gritos, alarido.
E, do que é feito este ruído
que me entra pelos ouvidos?
Palavras que falam de amor,
palavras que falam de morte
e, entre elas, perdão e ódio,
além da velha incrédula fé na sorte.
Coisas que falam de coisa alguma,
sem faltar o silêncio que se ouve,
o mais ensurdecedor dos barulhos.
Lembram o giro da roda do parque,
acompanhado pelos olhos atentos do palhaço
que, sob camadas de maquiagem,
da verdadeira face
dos que encenam o ato;
do que de fato trata o espetáculo.
Eliseo Martinez
25.08.2017
sábado, 19 de agosto de 2017
148.
Tempos Reversos
Nuvens de incerteza pairam espessas sobre os jardins calcinados destas urbes arruinadas.
Condenados se movem parados como pequenos algozes ferozes, desesperançados.
Confusos ante a falência dos laços, de há muito já frágeis, pequenos perdedores e outros pseudo senhores se fazem maiores entre hordas de detratores, desidratados de amores.
Tipos famintos, contando com não mais que o instinto, a espreitar pelos cantos destes palcos de horrores.
Por maldição, foi-lhes cancelada a humanidade, resumidos que foram, estes restos de homens, a zumbis sem direito aos nomes. Decaídos consumidores.
Ser alguém de seu tempo, nestes tempos reversos, não é mais que garantir o espaço incerto entre a fúria e o medo da malta, a engendrar espertezas miúdas que lhe salve, no prazo curto, a maldita existência.
Já não é evocada a melancolia que bole extintos desejos ocultos de serem felizes, livres e justos. O vírus os libertou de tudo.
Estranhos ao que desaba entorno, basta a dose do rubro anestésico que os mantenha nestes jogos vorazes, a qualquer custo.
Walking deads, a oscilar entre a tediosa apatia e o frenesi da arritmia do próximo surto.
Das prósperas cracolândias, ainda se edificarão os novos campos santos; de grunhidos, se farão o som de seus cantos.
Poucas são as rezes desgarradas a pôr os chifres para fora da manada, vendo o carreiro arrastar-se pela vazante das estradas.
Privados de futuro à frente, seguem pisoteando o presente que infinitamente se estende.
Enfim, a normalidade resident evil triunfa e funda a entrópica semivida dos mais novos semimortos.
Cultos de ódio são celebrados entre a turba em todo o lado, descortinando a nova era pós-sociedade, ante o ocaso do Estado, a muito contaminado.
A vida aprisionada no cubículo de um agora torna forte quem comanda o insano bando de fora.
Ao alto da colina, com órbitas vazias de olhos, o grande bisão negro observa impávido. Dizem que a besta já foi chamada Sagrado Mercado.
Para ele, não é segredo o destino das criaturas que vagueiam sem rumo, seminuas, entre a imundice das ruas.
Seu fado foi gravado na crosta dura pela unha curva do diabo, que habita desde o início dos tempos a alma de toda a gente, desapercebido, que foi, pelas mentes indiferentes.
Eliseo Martinez
18.08.2017
Tempos Reversos
Nuvens de incerteza pairam espessas sobre os jardins calcinados destas urbes arruinadas.
Condenados se movem parados como pequenos algozes ferozes, desesperançados.
Confusos ante a falência dos laços, de há muito já frágeis, pequenos perdedores e outros pseudo senhores se fazem maiores entre hordas de detratores, desidratados de amores.
Tipos famintos, contando com não mais que o instinto, a espreitar pelos cantos destes palcos de horrores.
Por maldição, foi-lhes cancelada a humanidade, resumidos que foram, estes restos de homens, a zumbis sem direito aos nomes. Decaídos consumidores.
Ser alguém de seu tempo, nestes tempos reversos, não é mais que garantir o espaço incerto entre a fúria e o medo da malta, a engendrar espertezas miúdas que lhe salve, no prazo curto, a maldita existência.
Já não é evocada a melancolia que bole extintos desejos ocultos de serem felizes, livres e justos. O vírus os libertou de tudo.
Estranhos ao que desaba entorno, basta a dose do rubro anestésico que os mantenha nestes jogos vorazes, a qualquer custo.
Walking deads, a oscilar entre a tediosa apatia e o frenesi da arritmia do próximo surto.
Das prósperas cracolândias, ainda se edificarão os novos campos santos; de grunhidos, se farão o som de seus cantos.
Poucas são as rezes desgarradas a pôr os chifres para fora da manada, vendo o carreiro arrastar-se pela vazante das estradas.
Privados de futuro à frente, seguem pisoteando o presente que infinitamente se estende.
Enfim, a normalidade resident evil triunfa e funda a entrópica semivida dos mais novos semimortos.
Cultos de ódio são celebrados entre a turba em todo o lado, descortinando a nova era pós-sociedade, ante o ocaso do Estado, a muito contaminado.
A vida aprisionada no cubículo de um agora torna forte quem comanda o insano bando de fora.
Ao alto da colina, com órbitas vazias de olhos, o grande bisão negro observa impávido. Dizem que a besta já foi chamada Sagrado Mercado.
Para ele, não é segredo o destino das criaturas que vagueiam sem rumo, seminuas, entre a imundice das ruas.
Seu fado foi gravado na crosta dura pela unha curva do diabo, que habita desde o início dos tempos a alma de toda a gente, desapercebido, que foi, pelas mentes indiferentes.
Eliseo Martinez
18.08.2017
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
147.
Destino
À busca de respostas,
somos pródigos em imaginar porquês
que jamais nos farão saber o que,
ainda que nos movam;
por eles se mate, por eles se morra.
Foi assim que a primeira das causas
nos foi dada de graça, já falsa.
As três velhas Parcas romanas,
que bem antes eram chamadas Moiras
por gregos e troianos,
generosas, não pouparam esforços,
distribuindo aos que chegavam
sonhos e desencantos,
escassas alegrias e farto pranto.
Mais poupados, rudes aldeões
resumiram o trio a um só fado,
depositando todo o esperado sentido
na conta do implacável destino.
Como as marés, passamos a crer
que as sortes de toda a gente
se alongam, mar afora;
se recolhem, mar adentro.
De todo o engenho humano,
mitos são, de longe, os mais estranhos.
Acomodam os homens ao mundo que temem,
enquanto lhes tiram das mãos o comando do leme.
Eliseo Martinez
08.08.2017
Destino
À busca de respostas,
somos pródigos em imaginar porquês
que jamais nos farão saber o que,
ainda que nos movam;
por eles se mate, por eles se morra.
Foi assim que a primeira das causas
nos foi dada de graça, já falsa.
As três velhas Parcas romanas,
que bem antes eram chamadas Moiras
por gregos e troianos,
generosas, não pouparam esforços,
distribuindo aos que chegavam
sonhos e desencantos,
escassas alegrias e farto pranto.
Mais poupados, rudes aldeões
resumiram o trio a um só fado,
depositando todo o esperado sentido
na conta do implacável destino.
Como as marés, passamos a crer
que as sortes de toda a gente
se alongam, mar afora;
se recolhem, mar adentro.
De todo o engenho humano,
mitos são, de longe, os mais estranhos.
Acomodam os homens ao mundo que temem,
enquanto lhes tiram das mãos o comando do leme.
Eliseo Martinez
08.08.2017
domingo, 30 de julho de 2017
146.
Movimento
Algum dia, talvez,
por golpe de sorte ou descuido da morte,
quando for filmado pela inquietude dos olhares
que se fizerem sagazes,
possamos reconhecer,
ainda que por breve momento,
que a verdade é fugidia
por ser propriedade intrínseca ao movimento.
Coisa que sempre nos segredou o rumor do rio,
nos gritou o silvo do vento mais frio,
está desenhado na paisagem das estações,
traçado nas órbitas dos planetas
e nas mutações das espécies em evolução.
No tráfego das chegadas e partidas
dos amores todos que nos visitam pela vida.
Eternos retornos, são o que são...
A eternidade é a morada do tempo,
nascido do movimento,
que, desde sempre, já existia.
É a dialética entre o caos e a harmonia,
da mais ínfima partícula às fronteiras do universo
com o infinito resto do multiverso.
O que é o tempo, senão a fusão perfeita
da sólida alma com o insólito corpo do vento?
A materialidade da substância imaterial
no câmbio do que se fez imortal.
Depois de tanta busca metafísica,
assassina ou suicida,
enfim, Deus nos será apresentado,
ou denunciado, na linguagem da física.
Eliseo Martinez
30.07.2017
Movimento
Algum dia, talvez,
por golpe de sorte ou descuido da morte,
quando for filmado pela inquietude dos olhares
que se fizerem sagazes,
possamos reconhecer,
ainda que por breve momento,
que a verdade é fugidia
por ser propriedade intrínseca ao movimento.
Coisa que sempre nos segredou o rumor do rio,
nos gritou o silvo do vento mais frio,
está desenhado na paisagem das estações,
traçado nas órbitas dos planetas
e nas mutações das espécies em evolução.
No tráfego das chegadas e partidas
dos amores todos que nos visitam pela vida.
Eternos retornos, são o que são...
A eternidade é a morada do tempo,
nascido do movimento,
que, desde sempre, já existia.
É a dialética entre o caos e a harmonia,
da mais ínfima partícula às fronteiras do universo
com o infinito resto do multiverso.
O que é o tempo, senão a fusão perfeita
da sólida alma com o insólito corpo do vento?
A materialidade da substância imaterial
no câmbio do que se fez imortal.
Depois de tanta busca metafísica,
assassina ou suicida,
enfim, Deus nos será apresentado,
ou denunciado, na linguagem da física.
Eliseo Martinez
30.07.2017
sexta-feira, 21 de julho de 2017
144.
As Musas
Velhas musas inspiram antigas e novas artes,
igualando os homens que as fazem
a deuses que as contemplam invejosos,
debruçados sobre os ares.
Entre tanto mal gestado no seio da raça sanguinária,
fomos compensados pelo estranho juízo das divindades
com o unguento da estética,
como dádiva de uns poucos a todos os outros,
elevando humanos a fazedores de cultura,
a garantir-nos prosseguir
muito depois de cumprida a sina dura.
Seus lampejos se esgueiram pelas frinchas do real,
trama de penúria em meio ao reino da necessidade,
para exacerbar sentidos, vazar estados de alma,
aliviando o peso da existência com miragens de liberdade.
O mundo, capturado por olhos alheios,
passa a ser refeito pelo que cada qual
traz em rebuliço dentro.
Se a cultura é a forma ou a moldura,
a arte, enfim, põe nas mãos do mais miserável dentre nós,
o formão do escultor ou o pincel do pintor,
fazendo dele, também, da obra, autor.
Confrontando casca e miolo, pele e tutano,
empoderados de si, ao longo dos milênios,
mais humanizados nos tornamos.
Pelo ao menos, esse era o plano.
Dentre os dons misturados ao barro do primeiro,
os perversos deuses meteram a felicidade nos humanos,
condenados a persegui-la mundo a fora,
nas intempéries do espaço mundano.
Se ser feliz é aceitar ser o que se pode,
as musas nos ofertam fazer-nos mais que somos,
algo situado entre os deuses e os demônios.
Eliseo Martinez
20.07.2017
As Musas
Velhas musas inspiram antigas e novas artes,
igualando os homens que as fazem
a deuses que as contemplam invejosos,
debruçados sobre os ares.
Entre tanto mal gestado no seio da raça sanguinária,
fomos compensados pelo estranho juízo das divindades
com o unguento da estética,
como dádiva de uns poucos a todos os outros,
elevando humanos a fazedores de cultura,
a garantir-nos prosseguir
muito depois de cumprida a sina dura.
Seus lampejos se esgueiram pelas frinchas do real,
trama de penúria em meio ao reino da necessidade,
para exacerbar sentidos, vazar estados de alma,
aliviando o peso da existência com miragens de liberdade.
O mundo, capturado por olhos alheios,
passa a ser refeito pelo que cada qual
traz em rebuliço dentro.
Se a cultura é a forma ou a moldura,
a arte, enfim, põe nas mãos do mais miserável dentre nós,
o formão do escultor ou o pincel do pintor,
fazendo dele, também, da obra, autor.
Confrontando casca e miolo, pele e tutano,
empoderados de si, ao longo dos milênios,
mais humanizados nos tornamos.
Pelo ao menos, esse era o plano.
Dentre os dons misturados ao barro do primeiro,
os perversos deuses meteram a felicidade nos humanos,
condenados a persegui-la mundo a fora,
nas intempéries do espaço mundano.
Se ser feliz é aceitar ser o que se pode,
as musas nos ofertam fazer-nos mais que somos,
algo situado entre os deuses e os demônios.
Eliseo Martinez
20.07.2017
domingo, 16 de julho de 2017
143.
Forasteiros
Por vezes, nossos passos nos conduzem
à encruzilhada das escolhas,
movidos por credos que dão sentido
ao tempo que nos cabe.
Umas confirmam papeis que encenamos,
irreconhecíveis a cada manhã,
por trás do espelho, quando acordamos.
Outras nos levam a ser outro,
mais do que habituamos a ver
colado ao estranho rosto,
nos fazendo partir de nós para
nos reencontrar mais além do esboço.
E, assim, movendo quem estamos,
vamos nos tornando quem somos.
Sempre incompletos,
entre o que há e o todo.
Sempre forasteiros,
a espiar do fundo do espelho.
Eliseo Martinez
16.07.2017
Forasteiros
Por vezes, nossos passos nos conduzem
à encruzilhada das escolhas,
movidos por credos que dão sentido
ao tempo que nos cabe.
Umas confirmam papeis que encenamos,
irreconhecíveis a cada manhã,
por trás do espelho, quando acordamos.
Outras nos levam a ser outro,
mais do que habituamos a ver
colado ao estranho rosto,
nos fazendo partir de nós para
nos reencontrar mais além do esboço.
E, assim, movendo quem estamos,
vamos nos tornando quem somos.
Sempre incompletos,
entre o que há e o todo.
Sempre forasteiros,
a espiar do fundo do espelho.
Eliseo Martinez
16.07.2017
sexta-feira, 14 de julho de 2017
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